quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Diversão - questão de enquantos?


       Diversão originalmente significa desvio, desvirtuamento, mudança de rumo. Isso quer dizer que diversão, no sentido que temos hoje de contentamento, alegria esteve desde sempre relacionada à ideia de uma curva no caminho reto, algo diferente, uma saída da rotina, evento fora de hábito.
   
    A gente tem mesmo essa mania de creditar um brilho todo especial ao novo, ao diferente, ao exótico. “Quem segue todas as regras, nunca se diverte. Quem faz tudo certinho é chato. Sair da rotina é sempre bom.” Ou seja, o encanto de algo novo só vale enquanto ele ainda é... novo. Diferente. Diversão. Enquanto não é aquele normal do qual queremos ser divertidos.
   
    Esse pensamento, se extremificado - como na nossa frenética modernidade francamente parece estar -, pode ser perigoso. Pois, acontece que a gente se acostuma muito facilmente a tudo. A gente se acostuma ao hobby que descobrimos, ao presente que ganhamos, às pessoas que amamos, ao enredor em que vivemos. A gente se acostuma ao passatempo novo, ao brinquedo novo, amor novo, ao lugar novo. E à medida que nos acostumamos... tendemos a pensar que tudo perde a graça. A graça é uma questão de enquanto.
   
    O perigo do enquanto está em desistirmos de vivências, oportunidades e pessoas antes de darmos a ela a devida chance - ou, dada essa chance, depois de ela ter-se provado certa e deliciosa, mas o sabor vívido, colorido, intenso do novo ter-se desvanecido. Se quando os sons e os silêncios de um instrumento já são dominados; as delícias e os problemas de um emprego já são familiares; o conselho do amigo já é previsível; os cantos e recantos, as pessoas, os espaços e os vazios de uma rotina já são detalhadamente conhecidos, nós queremos algo completamente novo... que será de nós?

    Pularemos então de galho em galho sem jamais fazer um ninho. Teremos um bocado bom de vivências sem nenhum significado, como um teatro sem cenário, desenho sem papel, pintura sem pano de fundo, moldura ou perspectiva. Relíquia sem coleção ou dono.
   
    Não existe forte laço, vínculo sem conhecimento. Não existe amor sem vínculo; nem segurança sem conhecimento. Não é possível grande conquista sem longa e larga trajetória. Nem longa trajetória sem seus dias mais pálidos, repetidos, monótonos e amuados.
   
    Em suma, não estou dizendo que todos devamos cumprir à risca, sempre, o planejado, o esperado, seguir o conhecido, rejeitando o novo, o desvio de rota, a experimentação da novidade. Porém, se nosso “para sempre” só for de verdade enquanto o beijo ainda arte, o desejo de publicação do livro enquanto escrevemos o róseo e sem hiatos primeiro capítulo, a ambição do doutorado enquanto os desafios da graduação são só imaginados com entusiasmo... A diversão constante não permitirá a sedimentação do sonho, que deslizará por terra antes mesmo de ousar seu primeiro salto.
   
    Como exemplos, meus amigos, do encanto possível e real no costume, temos a natureza, o universo invacilante. Todos os dias, o sol clareia e a noite escurece. A cada quarto de volta pela ciranda do sol, a terra se inclina, como uma súdita, e os ares mudam. O calor metamorfoseia, as cores da vida, as plantas florescem ou deitam de cansaço. As estações e as luzes se alteram no grande espetáculo que é a vida, cumprindo um ritual belíssimo - que, todavia, a cada vez que realiza-se é um novo evento... E como elas se divertem com isso!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A hora e a vez da primeira pessoa

                                                                     
          
    Eu adoro a primeira pessoa. Adoro escrever em primeira pessoa, como vocês já devem ter percebido; também adoro ler em primeira pessoa, ouvir outros “eus” pronunciando-se. E aqui me refiro a textos não-ficcionais como esta cronicazinha aqui. Quanto à ficção - contos, romances, novelas -... ah, aí já é outra história.
   
    Pode parecer contraditório, mas eu gosto do texto não-ficcional que se mostra e declara pessoal. Todo texto é pessoal, mas nem todos se reconhecem e admitem assim, daí a minha preferência. Como a ficção nem escapatória tem, pois não existe uma história que se conte por si mesma, sem ter-se gestado na imaginação de alguém e vindo à luz por seu lápis, creio que a primeira pessoa nela tem menos essa incumbência de sinceridade do sujeito que fala. Na ficção, o sujeito escrevente, quer seja narrador ou não, já está se desnudando e declarando, sem disfarces.

    Pode parecer maluco, também, esse pensamento, já que qualquer manual de redação dissertativa-argumentativa, textos jornalísticos ou acadêmicos, nos diz que convém deixarmos a primeira pessoa para outras prosas, aquelas livres e inventadas, e usá-la com acentuada cautela e parcimônia nestas - se formos usá-la, jamais.
       
    Por que dizem isso? Porque mais respeitável e distinto é criar uma inexistente distância entre o que se diz e quem o diz, para o bem da racionalidade e do argumento límpido, pretensamente frio, isento, equânime e apartidário. Porque a primeira pessoa sai de seu esconderijo autoral e se mostra na página. Porque, dizem, esse salto à luz da assinatura desmonta a sua credibilidade, enfraquece seu poder persuasivo, abranda indesejavelmente a autoridade do que se está falando! Ah, como essa espécie de brado me aborrece!

    Aborrece-me sim, asperamente. A falsidade e a arrogância embutidas nele fazem meus nervos eriçarem-se cá dentro. Isso porque, meu leitor, todo texto é sim pessoal, toda opinião é parcial e pontual, e qualquer tentativa de negá-lo é uma falta de respeito à mente pensante do leitor/ouvinte, que pensa com sua própria cabeça e compreende isso.
   
    Todo ponto de vista expresso - seja em telejornal, num ensaio, numa crônica ou conversa de bar - não é nada mais nem menos que isso: um ponto de vista. Uma perspectiva das coisas, tomada de um certo lugar, por um certo par de olhos, que enxerga através do filtro de suas opiniões e vivências. Uma perspectiva, dentre as tantas que existem, as montes de outras possíveis e impossíveis no mundo. E, caso transmitida de forma bem articulada, coerente, sensata e cabida, ela convencerá por esses predicados. Por si mesma, sem por isso fazer força ou demonstrar fraqueza.

    Em resumo, caros amigos, reverenciemos a primeira pessoa. Se menos altiva e menos sisuda, ela é mais autêntica. Sincera, verdadeira, aberta e desafetada. Ela não tem a fingida pretensão de dizer A Verdade, nem a audácia de tentar convencer. Ela não desinfeta o discurso de suas autorais marcas, mas ousa carregá-las orgulhosa consigo. A primeira pessoa é moderação, humanidade, bom senso e coragem. É um respeito e uma cortesia que se preza ao interlocutor.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quanto tempo?

                                                              

    Quanto tempo o tempo tem?
    Quanto tempo o tempo nos dá?
    Quanto tempo a gente toma mesmo deste tempo?
    Quanto deixa escapar?

    Quanto tempo a gente vive?
    Quanto tempo a gente morre?
    Quanto tempo não vive nem morre?
    Quanto morre ao não viver?
    Quanto tempo a gente espera?

    Quanto tempo a gente quer?
    Quanto passa só querendo?
    Quanto deixa de querer?
    Quanto tempo a gente sonha?
    Quanto dorme sem sonhar?
    Quanto caminha desacordado
    de olhos frustrados
    sonhos vendados?
   
    Quanto tempo a gente toma?
    Quanto tempo a gente bebe?
    Quanto tempo a gente come?
    Quanto tempo a gente prova
    sabores ingratos
    sabores sorrisos?
    Sabores mornos. Requentados.
    Ou silêncios gostosos, apaixonados?
   
    Quanto tempo a gente suspira?
    Quanto passa sem suspirar?
    Quanto amamos à distância
    no sussurro do silêncio,
    cantado baixinho?

    Quanto tempo a gente odeia
    ao não amar inconsequente?
    Quanto tempo diz que ama
    ao elevar batida à percussão inteira?

    Quanto tempo a gente imagina
    flertando o céu, a fim da estrela?
    Ao fim das estrelas
    Quanto tempo a gente procura
    a luz infinda, do sol dormindo?

    Quanto tempo a gente deita?
    Quanto tempo senta e pensa?
    Quanto tempo a gente levanta
    espreguiça e abraça
    a linda e finda delícia da vida?

    Quanto tempo a gente corre?
    Quanto tempo a gente cai?
    Quanto tropeça e tenta de novo
    o mesmo ladrilho
    da rua das luzes?

    Quanto tempo a gente só ri?
    Só ri?
    Sorri?
    Solda no rosto um sorriso de sol?

    Quanto tempo a gente chora
    a pequenez?
    Quanto tempo a gente morde,
    mastiga e engole
    a frustração?
    Quanto tempo a gente grita?
    Quanto tempo só murmura?
    Quanto tempo a gente cala
    o que realmente queria falar?
   
    Quanto tempo a gente brinca?
    Quanto tempo a gente roda?
    Quanto tempo o mestre manda
    E a gente ri e obedece?

    Quanto tempo a gente pula?
    Quanto tempo quer chegar?
    Quanto olha só para frente
    Sem anseio de voltar?
   
    Quanto tempo a gente lamenta?
    Quanto perde ao não chorar?
    Quanto tempo a gente chora
    Inutilmente
    Lágrimas que não precisam cair
    Choro que não precisa chorar
    Dores que conjuramos na mente?
    Inconfidência!   

    Quanto tempo o tempo tem?
    Quanto tempo tem o relógio?
    Quanto tempo a gente leva
    Pra aceitar todos esses mil ponteiros?

    Quanto tempo temos todos?
    Quantos pulsos de relógio?
    Quanto tempo ele nos rouba
    Sem sequer dar um recibo?
   
    Quanto tempo a gente tem?
    Quanto a gente tem de tempo?
    Quanto o tempo tem da gente?
    Quantas gentes tem num tempo?
    Quanto tempo a gente tem?

                

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Eu gostaria...



    Eu gostaria de um mundo mais simples
    Onde houvesse pessoas mais simples
    Desejos mais simples
    Sonhos mais simples
    Alegrias mais simples
    Até tristezas mais simples
   
    Eu gostaria de um mundo mais igual
    Onde não houvesse doutores e não doutores
    alunos e mestres
    Experientes e iniciantes
    Alunos e fregueses
    Acima e abaixo
    Gostaria de um mundo onde só houvesse gente
    E onde liberdade não fosse só um ideal

    Gostaria de um mundo onde não houvesse divisão
    só soma
    Onde todos fossem ajudantes e todos também os ajudados
    onde só houvesse mãos dadas, unidamente
    e não apertos falsos, seladouros de nada
    Cumprimentos vindos de uns a outrem
    em diferenças de altura, diferenças de pronome, aposto
    e de reconhecença
   
    Eu gostaria de um mundo real
    onde não houvesse virtual, edição limitada
    falsificada, entristecida, indireta
    Gostaria de um mundo onde não houvesse o falso
    onde não houvesse máscaras
    ou maquiagem, ou véus, ou teatros
    - ou de um mundo onde as pessoas preferissem não usá-los

    Eu gostaria de um mundo generoso
    Um mundo sem cobranças
    um mundo sem diferenças
    um mundo onde todos dessem tudo e qualquer coisa que podem oferecer
    E todos recebessem de bom grado e sorriso o que o outro pode lhe dar
    E que isso bastasse

    Gostaria de um mundo sem títulos
    Sem rótulos
    Sem rankings
    Sem números
    Ou sem números referindo-se às pessoas,
    Conjuntos complexos
    Irracionais
    Naturais
    Que não podem ser conjugadas em listas
    Listas “ordenadas”, cardinalmente
    Tão cruelmente, insanamente

    Gostaria de um mundo daltônico
    onde existissem cores, sim, onde tudo e todos fossem coloridos
    Mas onde ninguém as enxergasse senão como belezas, como riquezas
    Jamais como fatores
    Como clivagens
    como fossos
    como mata-burros

    Gostaria de um mundo livre
    Onde o trabalho não aprisionasse
    a exigência não encarcerasse
    a aspiração não condicionasse
    a apreciação fosse toda a ordem, todo o pedido, toda a satisfação
    Um mundo onde a terra fosse de verdade a casa de todos
    o céu, o teto
    as estrelas, a luz
    sem apagões, sem contas de energia
    sem hidrelétricas

    Gostaria de um mundo humilde
    onde o suficiente fosse todo o bastante
    onde o bastante não fosse muito
    e o necessário não fosse demais
    ou tanto quanto é
    um mundo onde fôssemos genuinamente felizes com pouco
    - pouco trabalho, poucas coisas, poucas faltas   
    muitos sorrisos

    Eu gostaria de um mundo brincalhão
    que soubesse sorrir sem motivo
    só rir, sem razão
    Um mundo onde “ralar” não fosse sinônimo de trabalhar
    e só se referisse ao saudável machucadinho
    que de quando em quando acontece
    no mor das vezes ao joelho
    de uma criança que brinca

    Gostaria de um mundo pagão
    Que não precisasse de batismo
    Um lugar onde todos soubessem rezar
    - por si, sem precisar aprendê-lo
    sem ninguém ter que ensiná-lo
    Um lugar onde fé não fosse coisa que se ensina
    ditado que se faz
    oposição que se constrói
    bombas que se explodem
    culpas que se jogam
    e não se expiam
    Um mundo onde professar uma crença não fosse
    antecedente de pregá-la
   
    Gostaria de um mundo grato
    onde todos percebessem mais as presenças
    e lamentassem menos as ausências
    onde o que não há não fosse o foco
    e o que há fosse mais celebrado
    Inspirado demoradamente com o ar
    Inspirador de suspiro feliz
    Sentido com todos os sentidos
    Com o bom abraço de plenitude
    o desafio que é
    a delicadeza de uma pétala
   
    Gostaria de um mundo sensível
    mais musical, mais dançarino
    mais cantante, cheio de júbilo
    Um mundo onde todos fossem artistas
    (como são)
    E não tivessem vergonha de sua arte
   
    Gostaria de um mundo sincero e franco
    e sem pudor
    onde o instinto não fosse negado, anulado
    onde ninguém tentasse nos colocar arreios
    se colocar arreios
    Freios ou vendas
    Cabresto
   
    Gostaria de um mundo mais calmo
    Onde todos gritassem menos
    Assobiassem mais
    Onde todos batessem menos
    Batuqueassem mais
    Onde todos falassem menos
    Se deixassem ouvir mais
    o canto menino do passarinho,
    que é lindo, e não cessa,
    nem quer ficar mais tão abafado

    Gostaria de um mundo sábio
    onde as vozes mais simples fossem ouvidas
    e realmente escutadas
    onde nenhuma linha ou nenhum verso,
    nenhum conselho ou nenhum aviso
    nenhuma história
    nenhum causo e nenhum romance
    fosse subestimado
    pelo currículo de quem o fala
    Psicologia

    Gostaria de um mundo que soubesse latir mansinho
    e abanar o rabo
    Ter serenos hábitos sem torná-los rotina
    ver aventura na extensa grama de um jardim
    Lembrar de seu querido sem jamais julgá-lo
    Um mundo que soubesse ser cachorro
    sem ser cão

    Eu gostaria... De um mundo outro

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O valor da experiência


        É engraçado como certas palavras e certos valores vão mudando de significado e importância ao longo do tempo, e nas diferentes situações. Antigamente, pessoa de sessenta anos era deferentemente respeitada. Sua palavra era ouvida como se fosse mesmo o dizer de uma divindade e, sua opinião, seguida e tomada na mor parte da vezes como sendo de fato o melhor dos parâmetros, a mais sólida referência na qual pautar-se.

    Hoje, a maioria das entrevistas de emprego ainda valorizam sobremaneira a senhora experiência. Parecem imaginar os recrutadores, e os trabalhadores de uma forma geral, que quem tem experiência é melhor preparado para exercer aquela atividade e encontrar seus desafios do que outro alguém que não a tem. Parece ser a concepção geral que quem já esteve naquela certa função por bastante tempo, já encarou nela toda sorte de situações, já aperfeiçoou suas habilidades, dominou muitas de suas limitações e está provavelmente mais apto a fazer competente e confiável trabalho, desenvolvendo plenamente suas capacidades, sem sucumbir às dificuldades e dúvidas com as quais inevitavelmente topará.

    Em contrapartida, quanto à vida e à vivência num sentido mais amplo, os tempos modernos e suas pessoas não acompanham tanto assim a perspectiva trabalhista da coisa. Esquecendo que o dia após dia nos dá segurança e serenidade para caminhar, conhecimento do caminho, com suas pedras e nuances várias, a maioria de nós não dá mais tanta importância à experiência no árduo ofício de viver.

    Porque o mundo dos nossos dias (parece ser) é exorbitantemente distinto do que era há quarenta anos, nós - jovens soberbos - achamos que os conselhos e as visões de quem viveu essa “outra era” estão ultrapassados, desgastados, e de nada podem nos valer. Nós - ou, sejamos justos, uma expressa maioria de nós - achamos que sozinhos podemos viver e existir. Sem guia, sem auxílio ou conselhos. Achamos que temos conosco, em nós mesmos, todos os conhecimentos e as capacidades (além dos necessários instrumentos) para fazermos o agora e o futuro, exatamente como os queremos, completamente independentes de nossos mais velhos e do mundo deles, que pensamos ser quase alienígena.

    Eu, de minha parte, acho esse proceder temeroso, triste e criticável. Creio que muito sábio seria ouvir o que nossos mais velhos têm a dizer, que não é pouco. Pois, como num jogo de videogame (para ilustrar de forma simples) quem já está num nível a frente do seu, já passou por várias fases que lhe são ainda desconhecidas, pode assim lhe dar valiosas dicas, aqueles com contagem de anos maior que a nossa podem sim muito nos ajudar. Eles já estiveram, quem sabe várias vezes, em situações que ainda não são novas, com as quais não sabemos muito bem lidar. Não raro, sabem com firme certeza quando estamos prestes a quebrar a cara, ou quando estamos deixando passar aquela oportunidade que seria a melhor coisa que nos aconteceria. Eles sabem nos dizer quando desviar de ciladas, pegar atalhos, refazer a caminhada, acalmar os ânimos e deixar esse milagroso unguento que é o tempo fazer efeito sobre nossas feridas, dores e angústias.
   
    Como uma artesão, que aperfeiçoa sua técnica com a constante prática, maneja melhor suas ferramentas a cada dia que se torna mais íntimo delas, aprende com seus erros e, às vezes, observando os erros e acertos dos outros, também as pessoas vão se tornando mais hábeis na arte de viver à medida que vão... vivendo. Praticando. Viver é um ofício, não diferente de todos os outros, e como tal tem suas lindezas e suas tristezas, suas durezas e suas cores, e implica aprendizado difícil, gradual, lento. Em etapas. Com o aprendiz aprendendo com o mestre, tomando seu exemplo, absorvendo sua sabedoria, tudo o que ele tem a transmitir, em lições tanto teóricas quanto práticas - estas, principalmente, nas quais precisa haver certo acompanhamento.

    Em suma, bem como não é de se esperar que um iniciante violonista performe um chorinho com perfeição, ou participe de um concerto com brilhantez, os jovens aprendizes da vida também não podem esperar saber perfeitamente como viver já tão cedo, completamente sozinhos. Nada mal então seria, além de divertirmo-nos com suas histórias e dar-lhes a atenção que merecem, nós (jovens) ouvirmos o que os mais experientes têm a nos ensinar.

    Eles podem até, poder exemplo, talvez não ter passado pela universidade e se acharem pouco aptos a nos ajudar em nossos trabalhos acadêmicos. No entanto, o aprendizado sistemático e institucionalizado não é, não pode ser, o único que conta. E eu aposto que, na trilha da vida, nos fundamentais aspectos de como bem viver e conviver, lidar com o outro e consigo, com suas conquistas e frustrações, talentos e limites, emoções e pensamentos, fases da vida, não pode haver professores e exemplos melhores para nós que nossos mais velhos. Mais... experientes.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Raízes (e galhos) do Brasil

                                                                   
  
   Recentemente, estive lendo um grande clássico da historiografia e sociologia brasileira cuja leitura me incomodou e inquietou sobremaneira. Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, explora vários aspectos da formação e do passado do país fundamentais para entender o Brasil, o brasileiro, a cultura brasileira como eles são nos nossos dias.

    Sem entrar na discussão mais acadêmica das ideias dele, que já são muito contestadas, tenho alguns singelos e inocentes comentários a fazer: dentre os temas abordados e elaborados na obra, um dos que mais me chamou a atenção foi aquele relativo ao comportamento lusitano quanto ao Brasil em seu começo, que não é lá muito diferente do comportamento (e da mentalidade) do brasileiro de hoje em relação ao seu próprio país.

    No capítulo IV, “O semeador e o ladrilhador”, Sérgio Buarque traça algumas das principais diferenças entre a colonização da América portuguesa e aquela da América espanhola, esmiuçando gradualmente o porquê desse nomes. Para ele, enquanto o espanhol é ladrilhador, determinado em edificar, construir, projetar e levar a cabo uma organização sólida em seu território no Novo Mundo, fazendo-o como uma extensão de sua própria casa (contando inclusive com universidades e cidades planejadas), o português é, por outro lado, um semeador.

    O português − muito mais um mercador, tencionando estar de passagem, que um colonizador, engajado em um empreendimento de povoar e construir − veio para cá querendo explorar o que havia de riqueza fácil e acessível e, logo depois, ir embora. Qualquer iniciativa que fosse dar despesas, exigir investimento e planejamento e esforços era prontamente refutada, sem ganhar a menor consideração. O português que veio ao Brasil lá nos seus primórdios não queria aproveitar a terra para aprimorá-la, engrandecê-la, fazer dela a sua casa. Queria se aproveitar da terra, extrair dela tudo o que pudesse para si, e voltar a Portugal o quanto antes.

    Ora, se não é esta justamente a posição de muitos brasileiros hoje em relação ao próprio Brasil? Cada um pensa em si e no seu próprio ganho, o mais imediato possível, sem considerar o custo que isso pode ter numa mais ampla escala ou o quanto poderia ser multiplicado se feito em colaboração, com mais planejamento e cuidado. Quase ninguém hesita em furar uma fila − qualquer que seja ela − quando tal oportunidade lhe é apresentada, sem pensar que seria melhor para todos que ela fosse respeitada e tudo funcionasse nos seus devidos conformes.

    Incomodamente intrigada, percebendo que a situação mudou pouquíssimo desde o início do nosso país até aqui, eu fiquei me perguntando... Quando é que nós vamos começar a pensar na nossa terra como um país, uma nação? De todos, por todos, para todos?

    Quanto vamos deixar de enxergar um monte de “eus" e começar a ver um grande “nós”?
   
    Quando vamos nos dar conta de que, quando a gente faz e cresce e desenvolve junto, a gente faz e cresce e desenvolve melhor? E que um investimento a longo prazo quase sempre demanda mais paciência mas também traz melhor resultado?
   
    Quando? Quando deixaremos de reclamar que “o brasileiro é deseducado”, e nós, brasileiros, nos portaremos de forma diferente e faremos uma país educado? Quando deixaremos de dizer que “o povo é pequeno, por isso o país não cresce” e nós, o povo brasileiro, faremos um país grande?

    Quando será que, incapazes de mudar essas raízes do nosso Brasil, promoveremos uma entusiástica metamorfose de seu tronco e galhos, transformando-o em algo de que podemos nos orgulhar?

    Mais do que uma questão para se pensar, essa é uma questão na qual se agir.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Questão de medida

                                                            

    Antes de começar, convém que eu diga que este texto pode aborrecer algumas pessoas. Pode ser contraindicado a amantes das ciências exatas ou, para ser mais justa, para qualquer um insensível ignorante de certos básicos princípios das (não acadêmicas) ciências humanas...

    A questão é a seguinte: tem me incomodado indizivelmente essa mania que muitas gentes têm de medir sua vida toda, especialmente nos parâmetros mais exatos. Medir o quão proveitoso foi o ano pela produtividade do seu trabalho, o número sólido e fechado de suas conquistas nele, quantos degraus conseguiu-se subir. Medir quão popular se está, como andam suas relações com outras pessoas pela quantidade de amigos que se tem e fez, a variação delas ao longo do tempo - se esta quantia aumentou-se, diminuiu-se, estabilizou-se.

    Medir a eficiência de sua dieta pelo tanto de quilos que se perdeu; a validade de sua leitura pelas quantas páginas se percorreu, em razão de quanto tempo.
       
    Ah, minha gente... Se há algo no mundo com o qual eu absolutamente não me dou e não me posso dar é essa numeralização das coisas, das coisas mais humanas! Essa racionalização do irracionalizável, as emoções, os momentos, as vivências... que parecem ser visualizadas como números, etapas de um processo, partes de um mensurável todo, um objetivo, uma meta... Ao invés de serem enxergadas simples e puramente por si mesmas, sua intensidade e provocada sensação, seu passageiro e pequenino infinito, sua recordação...

    E se a gente, que talvez goste muito mesmo de arrumar jeitos de classificar as coisas, tentasse apenas medir de outros jeitos, arrumar outros parâmetros, outros critérios? E se a gente, por exemplo, fosse estimar quão proveitoso foi o ano pelo seu interior equilíbrio, ou desequilíbrio? Pelo quanto se esteve realmente bem, ou não tão bem, pela prevalência de risos ou prantos, suspiros tranquilos ou intranquilos?
   
    E se a gente fosse avaliar os amigos por seu valor e não por sua quantidade? Por quão confiáveis e companheiros, próximos e pacientes, presentes eles são, ao invés de por quantos eles são? E se, no lugar de pelo clique de um botão, fosse medir o selar de uma amizade pelo empréstimo de um livro, uma preocupação silenciosa, um gesto não pedido ou esperado de carinho?

    E se a gente fosse medir a eficiência de uma dieta pelo bem-estar que ela nos provoca? Dizer quão querida e respeitada é uma pessoa pelo tanto sorrisos sinceros que lhe sorriem, o tanto de abraços queridos e apertados que lhe abraçam, de preces que por ela rezam e pensamentos que por ela surgem?

    Reparem, o adjetivo é fundamental: não é o tanto de sorrisos, mas de sorrisos sinceros. Nem é o tanto de abraços, mas de abraços queridos e apertados. O modo como tudo acontece, mais do que sua frequência, faz toda a diferença.

    Reparem, não estou sendo radical. Não peço aqui uma lei áurea das medições e contabilidades, a abolição do raciocínio para saber o quanto cabe em algo qualquer, a tentativa de fazer balanços. Por mais incrível que isso às vezes me pareça, foi o próprio ser humano que criou a matemática, por uma necessidade sua de contar, numericamente pensar.

   Então, aqui eu peço - sugiro - somente uma reforma. Uma emancipação das réguas exatas, míopes, disformes que nos acorrentam, às quais nós voluntariamente nos acorrentamos. A feitura de um outro tipo de régua, mais livre, mais doce, mais humana. A gestação de outras maneiras de pensar, de uma avaliação conduzir. Um novo modo de... medir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O dia e a noite

                                                          
     
    “Trocar o dia pela noite, dizia Luís Soares, é restaurar o império da natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol está dizendo aos homens que vão descansar e dormir, ao passo que a frescura da noite é a verdadeira estação em que se deve viver. Livre em todas as minhas ações, não quero sujeitar-me à lei absurda que a sociedade me impõe: velarei de noite, dormirei de dia.”

    Lendo Contos fluminenses, do mestre Machado, dia desses topei com este parágrafo que é a abertura de um conto que carrega o nome de seu protagonista. Li as tais linhas, e não pude espreitar-me a um sorriso: pimba!
   
    Tenho ouvido semelhante muitas vezes. Conheço muitas pessoas que dizem o mesmo, tantas que, na somatória, devem ser mais estas do que aquelas em pronúncia contrária. A noite está na moda.

    Eu, de minha parte, estou mais uma vez em descompasso. Na contramão. Existo e vivo de dia, acordo com os passarinhos, gosto especialmente da hora da manhã cedinha, raiando suas luzes de estreia. Devo ter uma espécie de ouvido atípico, pois quando o sol nenêzinho nasce, dá seus primeiros chorinhos de vida, no azul também bebê do céu, eu o escuto. É como se ele estivesse luminosamente sussurrando pra mim, como numa cantiga velha... “Acorda, Maria Bonita! Acorda, vai fazer o café...” Eu atendo seu chamado, rindo. Não posso, nem quero, ignorá-lo.

    Não é que eu não goste da noite... Não, não. Adoro-a! Mas fato é que prefiro-a em sua diminuta luz natural que em claridade fabricada. Prefiro passá-la adormecida que acordada. Sempre pensei que a sombra refrescante da noite vem fazer descansar nossos olhos, e com eles, todo o resto. Sempre pensei (em oposição a Luís Soares) que desatar-se da obra da sociedade é apagar a luz do interruptor e acender-se com a natural, dormindo a noite, vivendo o dia.

    Dizem que há mais liberdade na noite. Que nela, sente-se que tudo é possível, que o mundo é seu, que há mais viveza nas pessoas e mais força nos sentires... Não sei. Creio que deve haver em mim um não-sei-quê de árcade, de poetisa da roça, que me prende irresistivelmente ao doce cativeiro da vida simples... À alteza do dia.
   
    De dia, as luzes são mais brilhantes e, ao mesmo tempo, mais brandas. O céu está lavado, o sol está sorrindo, as energias são novas, suavemente vistosas. A vida está toda pintada em palheta serena de cores leves e claras, em pinceladas calmas. Os passarinhos assoviam, as galinhas cacarejam, as vacas mugem. Os sons são mais bonitos, e os silêncios também. O toque tem outro sabor: mais cálido, mais amigo, mais sincero. Mais doce.

    O dia, afinal, é diversão da infância. A noite, da brincadeira adulta.

    O dia é tempo da inocência; a noite, de falsidades.

    O dia é o tempo em que os céus nos jorram calor e luz. A noite, quando nos regam com suas lágrimas de orvalho.

    Que nos resta, então? Resta que os apreciadores do dia continuem apreciando-o. Que os amantes da noite continuem amando-a. Que os dois, juntos, contemplem e aproveitem os sublimes momentos em que claro e escuro coexistem. Aqueles instantes em que dia e noite encontram-se, olham-se, resvalam-se, tocam-se, fundem-se, desgarram-se e se despedem.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O sábio ato de podar



                                                  
     Na jardinagem, a poda é concebida como uma prática necessária. É um corte grandemente positivo, uma ação que recorta da planta suas partes mais velhas ou fracas ou em excesso e, assim, viabiliza renovado crescimento.

    Nós, seres humanos, temos o incrível talento de complicar o simples, deixando de enxergar o claro e óbvio. Se nos lembrássemos de descomplicar, perceberíamos que temos muito a aprender com as outras vidas que dizemos ter “domesticado”, como os animais e as plantas. Com estas, por exemplo, podemos ver o viçoso efeito que uma poda bem feita pode causar.
  
      Pois, é mesmo importante aparar - não só espinhos, mas também as flores cujo botão já abriu-se em esplendor e decaiu-se em desgaste. Sem isso, a planta não vai para frente, a gente não vai para frente. É preciso cortar os excessos, os acúmulos que nos amarram, que nos empacam, para que possamos progredir. É essencial convidar o inesperado que traga suas belezas e surpresas ao desamarrar-se um pouco do planejado, permitir que a nova temporada de flores venha ao abdicar da velha.

      Às vezes, a gente tem dificuldade de desapegar. Desapegar, desapontar, dizer “não”, dizer “basta”, dizer “adeus”. Porém, passado o parto inicial de fazê-lo, a dor ardida e pontada que parece nos atingir no momento, quase sempre nos damos conta de que esta era mesmo a melhor coisa que podíamos fazer. Que nós nos libertamos, não só do que necessariamente nos fazia mal, mas também o que nenhum bem fazia ao somente ocupar espaço e assim nos impedir o movimento, a abertura mais larga de horizontes, a dilatação de fronteiras, o encontro com o novo que estava ali, apenas na esquina, nos esperando.
  
     Em suma, meus amigos, podemos. Podemos dores que vem se arrastando metálica, fria e barulhentamente como correntes. Podemos amores que não correspondem, que não valem a pena, que mais fazem sofrer do que sorrir. Podemos amigos que não mais nos amigam, ou que querem nos amigar a caminhos que não queremos seguir.

     Podemos tralhas que atravanquem o guarda-roupa, livros que não leremos mais, roupas cujo vestir incomoda. Podemos tudo o que está embrenhando a nossa vida. Deixemos que o chão limpo, a terra fecunda, os galhos renovados e fortes nos tragam floradas mais brilhantes, façam o sol entrar sem limites e sem ressalvas.

domingo, 27 de dezembro de 2015

1 ano de blog



       26 de dezembro! Aniversário de quem? Do blog.

      É isso mesmo. Faz já um ano que o "Pensar, que perigo!" está no ar. E pra comemorar, eu vou fazer diferente. Nada de reflexões, nem de desabafos, nem de palavras bem trabalhadas. Hoje é dia de agradecer.

      Afinal, que seria dessa página sem as pessoas que a lessem, que pensassem com ela, a partir dela, se entusiasmassem por ela? Ela simplesmente não seria.

       Esse ano de blog coincidiu com um ano agitadíssimo pra mim, de modo geral. Cheio de mudanças, um sacolejo atrás do outro, novidades das mais intensas. E os melhores desses acontecimentos foram justamente as pessoas que estiveram neles. 

       Então, a um certo moço feito de sonho que encontrei no ônibus e à sua irmã; ao meu irmão mente-gêmea, à estrela tímida que brilha com a voz, à rebelde que lê mapas astrais. À sua majestade do Brasil, e toda a família real que tive o prazer e o privilégio de conhecer (nem a d. Lóri ficando de fora), à vó artista que ganhei de presente. Ao Tucídides nacional e toda sua turma da cozinha. À uma paulista extremamente carismática e ao grupo que conheci com ela. À uma jornalista-aprendiz que me foi guia e inspiração, a uma futura dentista cuja doçura pode causar muitas cáries. Aos trilheiros todos, em cuja rede eu caí feliz da vida, que têm sido uma alegria supimpa. Muito obrigada!     
 
       Aos amigos velhos, como diz a música, "eu desejo sorte". E agradeço Muito também. Destaco aqui um anjo disfarçado de amiga que tem cabelo mais cacheado que o meu e olhos verdinhos, com seu apoio lonjo, singelo mas forte; e um bacharel pós-moderno, com suas palavras estrondosas e comentários críticos.

      A uma brasiliense naturalizada, aos tios fofinhos. Aos professores Fan-tás-ti-cos que tive este ano, que me ensinaram muito e, principalmente, me incentivaram a não parar de pensar.

      E, por último, mas em primeiro, aos maiores professores que tenho e jamais poderei ter: meus pais. E, é claro, ao espetáculo de luz do ano, à princesa herdeira, diva 2.0.

      A todos, meu agradecimento. Esta página, que ontem soprou velinhas, existe por vocês e para vocês.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Tempo de aprender com o tempo

                                                                   

      Engraçado... Esses dias fui perguntada se não faria uma postagem especial, atípica, acompanhando o tempo... o tempo... É natal, afinal, não é? Ou quase. E logo depois dele, encostamos no parapeito de um novo tempo, o ano próximo... É, talvez valha mesmo uma reflexão diferente.

       Assisti a um filme dia desses que talvez aqui se encaixe. "About time" conta a história de um moço, Tim, que pode viajar no tempo, assim como todos os homens de sua família. Não pode ir ao futuro, é claro, nem mudar o mundo todo no passado ou fazer revoluções... Mas, pode sim mudar sua própria vida, ao viver alguns certos seus momentos novamente, fazer diferente.

       A mensagem final do filme é a seguinte: não precisamos voltar no tempo. Não precisamos de segundas chances. Precisamos viver bem a primeira. Reparar as pequeninas belezas do nosso dia que às vezes, no corre-corre, deixamos passar batido. Não dizer aquela palavra rude que podemos trocar por uma mais leve, evitar o horroroso e velho "cair no automático". Rir todos os risos, chorar todas as lágrimas, abraçar todos os braços e todos os abraços. Tomar tempo para si mesmo, para quem você ama, deixar o trabalho para lá um pouquinho, a preocupação, a exigência... Deixar a opinião dos outros, a exigência, a vergonha... No final, nada disso vai importar. Só vão restar mesmo as lembranças, as lembranças sorridentes dos sorrisos calorosos, dos momentos luminosos, perfumados, saborosos...

      Se eu tivesse que definir, diria que este tempo do ano é, mais que todos os outros, tempo de lembrar. Voltamos todos para casa, então, para nossas raízes, nossas origens, a família - que tem em si, quase sempre, nossos primeiros amigos, primeiros amores, primeiros horrores... Voltamos e vamos embora, com a lembrança talvez reavivada, desta que é uma beleza preciosa da vida da qual às vezes nos deixamos esquecer, mas não devemos.

    Vamos viver, meus amigos, o tempo de lembrar. Lembrar de que, em termos de laços, a idade é sim documento. Ela os torna mais fortes, difíceis de desatar. Lembrar de que família não é só para a hora do aperto, nem do casamento do primo distante. Lembrar que a gente só vive uma vez, sem replay, nem teste, e por isso, tem que tentar fazer... bem feito. Tão bem feito quanto pudermos.

      Lembrar que o mundo lá fora pode esperar que nós meditemos e relaxemos. Que nada pode ser mais urgente do que a nossa paz. Lembrar de não se furtar de pequenos prazeres de grandeza imensurável - que seja a leitura de um livro, o ouvir uma música, um beijo bem dado, a lambida do vento ou de seu canino melhor amigo. Lembrar de sempre trocar uma carranca por um sorriso, um silêncio sério por um silêncio alegre, um olhar vazio por um... cheio.

      Não esquecer que as melhores delícias são aquelas saboreadas aos pouquinhos, e que viver é uma delas. Não esquecer que grandes pessoas se mostram através de pequenos gestos, grandes amores se demonstram por pequenos atos, grandes mudanças se realizam nas pequenas ações. Não esquecer que... bem, nós esquecemos de perceber todas essas pequenas coisas porque passamos muito tempo preocupados com as grandes. Ou as que parecem, só parecem, maiores.

      Então, vamos lembrar. Anotar mesmo na mente, no peito, na alma. Por mais confusa que ande nossa memória por conta das tantas coisas de que precisa dar conta, existem algumas certas lembranças que não podemos deixar empalidecer, temos que ter sempre frescas, sempre vivas com a gente.

      Acima de todas, a lembrança de que o tempo de viver é agora. E que sempre também é tempo de aprender com o tempo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A difícil jornada de crescer

                                                                      

      Todo mundo conhece a história do Peter Pan, o menino que não queria crescer. (Quase) todo mundo que conhece a história do Peter Pan em algum momento da vida já foi criança e, como tal, desentendeu sua maluquice. “Como assim ele não quer crescer?!” pensamos, quando pequenos. “Eu quero crescer sim! Estou doido para ser grande! Não vejo a hora de poder brincar do que quiser a hora que quiser, sem ter ninguém me dizendo o que fazer, sem ter de pedir permissão pra tudo, e podendo comer sobremesa antes do almoço sem ter que fazer isso escondido pra não receber xingo.”

    Creio que é geral a comoção que nos arrouba quando enfim começamos a “ser gente grande” e sentirmos o completo reverso. “Por que mesmo eu queria crescer? Ah, não! Agora que cresci, quero voltar...”

    É. Crescer não é tarefa fácil. De minha parte, acho que justamente esse processo de crescer é árduo. Mais do que o momento de ser pequeno e o momento de ser grande, a ponte entre eles dois.

    Toda transição é difícil. Toda mudança sacode a gente. E essa não está nem perto de figurar entre as exceções que comprovam a regra. É agridoce, delicado e espinhoso esse período em que coexistem resquícios das delícias da infância, que ameaça afinal terminar de escapulir, e as durezas da adulteza, que entretanto ainda não é completa. Encaramos toda sorte de desafios, saboreamos inúmeras e confusas sensações novas - com as quais desastradamente tentamos lidar - no tempo em que já somos velhos demais para sermos cuidados totalmente por nossos pais, e ainda jovens demais para cuidarmos sozinhos de nós mesmos. O tempo em que ainda podemos gritar socorro aos pais num caso de urgência, chororô ou aquela gripe, mas já não podemos pedir a eles que venham, todas as noites, contar histórias seguidas de um beijo na hora de dormir, nem que nos dêem todas as respostas prontas. Nós temos que começar a encontrar as nossas próprias. Tomar nossas decisões quanto à nossa própria vida - e isso nesse difícil momento em que tudo é descoberta, novidade, instabilidade.
   
    Como as crianças, que estão descendo do ninar seguro dos pais para o chão e assim têm que aprender a andar, cair e levantar nele - que por vezes é duro, frio, escorregadio - nós, viventes dessa senhora jornada de crescer, estamos descendo do colo da infância para sermos jogados no assoalho da vida, onde também temos que descobrir o mistério de andar, cair e tornar a levantar. Nós também temos mãos que nos ajudam a cambalear os primeiros passos, e nos acompanham até que nosso andar seja firme. Porém, estamos, desta vez, nos preparando para sermos independentes dessas mãos e, mais do que nunca, realmente andarmos com nossas próprias pernas.

    Como as crianças, que estão descobrindo o maravilhoso (e cheio de farpas) mundo da convivência, aprendendo a aceitar o fato de que não são as únicas no mundo, não podem ser o sol em torno do qual a atenção de todos revolve-se, nós também estamos lentamente engolindo a dura verdade de que, uma vez fora de casa, não temos a proteção dela. Não encontraremos facilmente a segurança e o aconchego que tínhamos nela, nem somos tão especiais e queridos e únicos fora dela como outrora nela fomos.

    Ninguém nos disse que seria fácil. E realmente não é. Mas, em contrapartida, poxa vida, ninguém nos disse que seria tão difícil...

    Pensando em metáforas, podemos dizer que esse período da vida é uma espécie de “Cabo das Tormentas”. Antes dele, estamos na terra-mãe, seguros e confortáveis, queridos e amados. Passando por ele, sofremos alguns belos perrengues e sacolejos, experimentamos paisagens e sons e gostos e sensações lindas e, por outro lado, choques e descobertas e surpresas que nem sempre nos agradam. Em certos pontos, vivemos uma turbulência tal que nos desestabiliza por inteiro. Depois dele, todavia, descobrimos inéditas cousas de beleza estonteante. Temos enfim a chance e a permissão de viver grande parte daquilo que sempre almejamos, os benefícios e deleites e prazeres que - quando pequenos - sempre imaginamos próprios a tão lonja de nós, e tão legal, idade adulta.

    Em suma, não existe remédio, nem magia que possa interferir nesse processo por nós. E isso é bom; significa que teremos uma existência completa. Quem é pequeno, cresce. Quem já cresceu, amadurece, ou envelhece. Quem já envelheceu... um dia deixará de existir. A vida é assim. Sábio de nossa parte, portanto, já que não somos Peter Pans, é aceitar isso. Aceitar, entender, abraçar, tentar lidar com isso da forma mais tranquila e saudável possível.

    Sábio de nossa parte é enxergar que, como absolutamente tudo na vida, cada uma de suas fases tem seus lados bons e seus lados não tão bons. Suas cores e seus cinzas, seus desbotados e seus brilhos, suas festas e suas lágrimas. E o melhor que temos a fazer é aproveitar cada minutinho, cada pequeno instante, viver plenamente cada um dos momentos e cada um dos períodos, sempre procurando fazer com que, no final balanço, os encantos prevaleçam, os sorrisos predominem, as memórias sejam em maioria saborosas, de tempero leve, gostinho doce.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O lado bom da inveja

                                                                   
        
      Ai, que inveja! Ô, invejinha...

    Quem nunca disse isso? Quem nunca sentiu aquela pontadinha de inveja, aquele “poxa, se pudesse ser eu” bater ao encontrar alguém em alguma situação que gostaria muito de estar?

    Invejar é desejar aquilo que o outro tem. Pode ser uma casa, uma espécie de posse, uma situação, um talento ou dom. A inveja é aquela sensação que todos conhecemos mas, curiosamente, nunca falamos sobre. É aquilo que ninguém debate, ninguém gosta de admitir, confessar ou compartilhar. Parece desavença de família mineira (que adora evitar um confronto direto), pois todo mundo sabe que está acontecendo, todo mundo sabe que todo mundo sabe que está acontecendo, mas, se perguntados sobre, todo mundo nega, ninguém sabe de nada. É um segredo aberto - amplamente sabido, mas nunca discutido.

    Isso acontece, eu acredito, porque nós temos vergonha. Temos vergonha de admitir que temos inveja porque fazer isso é revelar aquela parte de nós que mais queremos esconder - a parte egoísta, mesquinha, que não se regozija no sucesso do outro mas olha para ele e pensa “poderia ser meu”. Todos parecemos assumir que a inveja é algo ruim, feio, imoral, um “pecado”, e tentamos ocultar ao máximo, inclusive de nós mesmos, que somos tão íntimos conhecidos dessa sensação.

    Eu discordo dessa geral concepção. Discordo bastante. A inveja não é necessariamente ruim; pelo contrário, a inveja é também muito boa. Aliás, a bem da verdade, a inveja é neutra, e pode ser tornar positiva ou negativa de acordo com o modo como lidamos com ela.

    Pois, nós podemos ver a bela vida e o sucesso de alguém e sentirmos pura, puríssima inveja, e a partir dela começarmos a depreciar a bela vida e o sucesso que já temos. Podemos, assim, virar ao pessimismo e à descrença como nossos sentimentos carros-chefe perante a nossa vida; junto com ódio, límpido e cristalino ódio, por esse alguém, por ele ter alcançado tudo o que sempre desejamos mas nunca conseguimos. Viver a inveja assim, a meu ver, é burrice, um mal que causamos a nós mesmos, e que em nada diminuirá o mérito ou as conquistas das pessoas que invejamos.

    Podemos reagir à inveja, também, neutramente, com um simples balanço de ombros, tocando a vida para frente. Eu reajo assim, por exemplo, quando vejo imagens de guarda-roupas perfeitamente arrumados em revistas de decoração. Sabe aquele armário ordenadinho, setorizado por tipo de roupa para cada tipo de ocasião ou estação, o espaço bem aproveitado e os pertences impecáveis, cada um em seu lugar? Pois é, nunca consegui fazer o meu ficar desse jeito. Eu não funciono assim, não consigo. Quando eu abro meu guarda-roupas, tenho a sensação vívida que ele carrega sequelas de algum furacão misterioso que passou por ali e mais nenhum outro lugar do mundo. E isso é algo que já desisti de tentar mudar. Aceitei o meu desastre e a minha falha. Eu nunca terei um guarda-roupas arrumado (o que não me impede de continuar suspirando quando vejo um) e vivo bem com isso. Essa inveja, eu creio, é inofensiva. É natural do ser humano desejar coisas, buscar, e bom que se acostume a simplesmente não conseguir ter tudo o que deseja e busca.

    Por último, podemos fazer da inveja um trampolim, um motor, uma força que impulsiona, e a partir dela canalizar esforços para conseguirmos o que queremos, inspirados no sucesso de um outro. Pois, se olhamos para qualquer profissional bem-sucedido e feliz, e sentimos que o invejamos, então esse pode ser um ponto de partida para construirmos o nosso caminho, seguirmos seus passos, fazermos por onde para, um dia, chegarmos a onde ele está. (E não é que queremos destroná-lo, ou roubar dele tudo o que já conquistou; só que desejamos ocupar um espaço semelhante ao dele). Reagir à inveja assim é saudável, porque ela se torna uma inspiração parte de uma ambição, e ajuda-nos a reconhecer onde estamos, onde queremos estar, e o que precisamos fazer para atravessar a ponte entre esses dois pontos.

    Em suma, tadinha da inveja. Tanta gente condena - e está pronto para apontar no outro, enquanto resoluto de que jamais praticou - o tal “pecado” da inveja. Mas, cabe aqui uma reflexão quanto aos valores que atribuímos a ela, se eles são intrínsecos e indissociáveis a ela ou se são - como a maioria dos valores - apenas construções que fazemos, que podem e devem ser questionadas e modificadas.
   
    Como qualquer outro sentimento, se intenso, a inveja pode ser doentia, corrosiva, pode consumir-nos por inteiro. Pode, também, não ter sobre nós efeito algum, se nós não lhe permitirmos isso. Ou pode ser extremamente positiva, nos mover para frente, dar novo ânimo ao nosso objetivo, um norte mais claro para as nossas metas.

    A inveja pode ser muito má ou muito boa. Tudo depende de como reagimos a ela, do como agimos a partir da picada dela. De como nos comportamos quando espetados por esse que é um sentimento tipicamente humano e está longe de encontrar seu fim entre nós.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A beleza da dúvida

                                                                    


    O professor é o artista que nos ensina a perguntar.

    Eu tive um sublime professor que, face a qualquer problema, dilema ou encruzilhada que enfrentávamos dizia “Acalmem-se, vocês estão no caminho certo. A gente sempre chega mais fácil na resposta através da dúvida do que da certeza.”

    Pouca gente entendia a serenidade com que ele manejava as nossas dúvidas. “Como assim, professor” silenciosamente queriam muitos protestar “esse turbilhão de inquietações pode ser bom? Como pode esse amontoado de indagações fervilhando na gente, ardendo na gente, tirando o foco e o sossego e o sono da gente, ser o caminho certo - justamente para sair disso?”

    Ele estava certo. Como quase sempre, ele estava docemente certo. 

     Equivocadamente, muitos de nós queremos respostas fáceis. Sem reflexão, sem dor, sem inquietude alguma. Sem interrogações. Queremos cair na trilha da resposta sem passar pelo túnel das perguntas. Dele, fugimos desembestadamente. E não é à toa. O solo dele é pedregulhoso. Ele é mal iluminado, misterioso, causa ruídos desconhecidos, nos leva a sensações de medo, insegurança e consternação. Estar dentro dele não é confortável; ele incomoda a gente. Entretanto, como bem dizia o professor, ele é mesmo - por tudo isso - o melhor caminho.

    Pois, quando estamos em busca de respostas, de afirmativas que terminam em um ponto (definitivo), nada melhor do que o estado da angústia, do desnorteio, do alerta ansioso da perguntação; nada melhor do que a convicção do não saber. É quase sempre preciso ensopar-se num mar de perguntas primeiro para depois velejar na calmaria da resposta. E, mesmo nela, vejam só, volta e meia bate uma ondinha de interrogações para nos fazer balançar. E, ao contrário do que parece, esse balanço é muito bom.

    A certeza absoluta faz a gente estagnar. A dúvida meneante faz a gente se mexer.

    A certeza faz a gente se acomodar. A dúvida, em contrário, faz a gente se incomodar. A dúvida é uma espécie de caminhão de mudança.

    A certeza faz a gente se fechar. Botar uns óculos estreitos e enxergar só através deles. Ela nos encaminha os olhos, encabresta o olhar, fá-los parados numa direção só. A dúvida, por seu turno, nos abre os olhos, escancara o peito, sacode o âmago. É o tampão retirado. Faz a gente vislumbrar as possibilidades, não só, mas também fitá-las com carinho - talvez flertar com elas. Faz a gente se assustar primeiro com a luz, a largueza e a amplitude da vista, para depois se admirar com a plenitude tão bela dela.

    A certeza faz a gente ver um destino, ou inventá-lo. A dúvida faz a gente ver escolhas, e escolher direito.

    A certeza parece decidir por nós, ser inquestionável. A dúvida nos lembra da nossa responsabilidade.

    A certeza nos faz pingar pontos finais em sentenças muitas vezes inacabadas. A dúvida deixa sempre abertas um punhado de reticências... Elas que são continuadores milagrosos do discurso, deixando sempre o perfeito espaço do completamento, seja ele no sentido de arremate e final acabamento ou de guinada em mudança.
   
    A dúvida, enfim, me parece um lugar muito melhor para o ser humano do que a certeza, ou a sensação da certeza, esta que rói sorrateira as possibilidades de permuta, melhora ou metamorfose. A dúvida é o provoque perfeito a este bicho-homem, tão incompleto e tão imperfeito, para que ele saia do lugar e admita-se uma obra em progresso sempre. Para sempre.

    Como também bem dizia um certo meu sábio professor.
                                                                                                

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Muda de roupas

                     


    Um sábio amigo um dia me disse “a gente só veio aqui para buscar uma muda de roupas. A gente nasce pelado e morre vestido.”

    Eu confesso que achei esse um dito muito curioso, e por isso também muito belo. É um frasear diferente da certeza que nós todos temos (e ainda assim de quando em vez esquecemos) de que estamos aqui só de passagem. É breve a nossa estadia neste mundo - breve, curta, frágil, fugaz, muito mais do que poderíamos desejar. E, mesmo assim, ela existe, ela é, ela vale. Ela não é menor por ser fugaz, pelo contrário - a maioria das coisas mais belas e mais sublimes também o são.

    Por isso mesmo, por ser tão bela e tão fugaz, a nossa vida é preciosíssima. E é tolo de nossa parte desperdiçá-la com aquilo que não importa de verdade, apenas parece importar; é tolo - tolo, frívolo, inútil - elevarmos a nossas prioridades apostos que não traduzem, fazem justiça a ou significam a essência das pessoas. Das pessoas, da vida, de tudo.

    O que estou tentando dizer, meus amigos, é o seguinte: se a aurora da vida e o limiar da morte nos nivelam, nos fazem iguais, ilustram o quanto estamos todos de fato na mesmíssima condição, por que, no precioso caminho entre esses dois pontos, nós nos fazemos desiguais? Por que erguemos divisórias, criamos hierarquias, inventamos distinções, que de nada servem realmente senão para nos fazer a todos isolados e infelizes? Por que insistimos em valorizar o que não tem valor nenhum, o que é tão significativo quanto gotas de fumaça?

    Creio que estamos muito precisados da filosofia da muda de roupas por isto: precisamos nos lembrar do quanto é frágil a ponte entre a hora da vida e a hora da morte, o quão importante é cada momento, cada vivência, cada presença que nos acompanha nessa travessia. Lembrar de que o valor das pessoas não está no seu mundano preço, na sua cotação, e sim em si mesma, no que ela tem de bom em si e no quanto faz aqueles em seu redor felizes.

    Precisamos enxergarmo-nos a nós mesmos e uns aos outros in natura, considerar pessoas ao invés de seus títulos. Porque esses títulos são apenas predicados pós-vírgula que podem ser retirados, acréscimos que podem ser diminuídos, explicações... que não valem, que nada dizem, pouquíssimo significam. Porque esses títulos, como as mais supérfluas coisas, muito facilmente se esvaem...

    Todos nascemos iguais e morremos iguais, virando pó e lembrança... E, como tal, por um acaso a marca ou qualidade da roupa que for deitar-se conosco na terra para o último sono importa? Ou mesmo a madeira da derradeira envoltória cama, e os enfeites nela? Ou mais importante será então o bem que fizemos, os sorrisos que promovemos, o riso que compartilhamos, a intensidade com que vivemos, os momentos que com nossos amados passamos, a boa memória que deixamos?

    Alguém de nós duvida, meu leitor, da inutilidade do acessório? Da pequenez do detalhe, se comparada à virtude da essência? Do quão frivolamente mundanas e sem sentido são as linhas escritas num crachá, a quantidade de algarismos numa tela de banco? De como eles nada significarão, uma vez que estivermos... idos?

    Nós todos temos, caros amigos, pouquíssimas certezas na vida. E uma delas é a de que estamos aqui só de passagem, em viagem curtinha, com o propósito final de buscarmos uma única muda de roupas. Que façamos bom uso da (cons)ciência dessa certeza, aproveitemos essa viagem e não a desperdicemos. Que tomemos bom tempo em cada estação, observemos o encanto de cada parada, aspiremos cada perfume e cada melodia. Que abracemos cada viajante em nosso redor e, sobretudo, façamos valer cada passagem por cada cantinho.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O poder das palavras

                                                              

                                                          
     Eu gosto de palavras. Gosto das palavras.

    Gosto de como elas não nos pedem permissão para ser. E gosto de como não somos nada sem elas. Como nós lhes pedimos permissão para ser.

    Gosto de como elas nos são companhia, companheiras cantantes quando só há solidão em volta. Gosto de como elas nos alegram, têm o poder de nos fazer sentir bem. Gosto de como fazemos amigos por elas. Através delas, com elas, por elas.

    Gosto de como elas são canaletas de nossa vida, via pela qual vivemos, caminhos pelos quais nos enveredamos - e expomos e abrimos, nos expressamos. Ou nos escondemos.

    Gosto de como elas são extensões de nós mesmos.

    Gosto de como são plurais. E foguetórias. E várias. E cativantemente bêbadas. E maleáveis.

    A maleabilidade das palavras é um encanto, seu encanto. Encanto permanente, sólido. Graciosamente perpétuo.

    A maleabilidade é o estado físico natural da palavra pura. Em quaisquer graus. Condições milhares de temperatura e pressão.

    Com as palavras, podemos brincar, podemos dançar... Com as palavras, podemos sonhar.

    Gosto de brincar com as palavras, de dançar com as palavras, na pista das palavras, sob a luz das palavras, a música das palavras. Sentindo o gosto das palavras, o cheiro das palavras, o aperto das palavras, o pulso bailante das palavras.

    Gosto de como podemos contar as palavras. Novelizar as palavras, cronicar as palavras, romancear as palavras. Rimar as palavras, cantar as palavras, versar as palavras. Poetizar as palavras, poemar as palavras. Namorar as palavras, casar as palavras, separar as palavras, divorciar as palavras. Rejuntar as palavras.

    A palavra é um universo inteiro.

    Uni-verso.

    Palavra.

    Gosto de como podemos cozinhar as palavras, temperar as palavras, beber as palavras. Fritar as palavras, untar as palavras, besuntar as palavras, saborear as palavras, sublimar as palavras. Evaporar as palavras. Misturar as palavras. Reservar as palavras, congelar as palavras, descongelar as palavras. Aquecer as palavras, aquecer com palavras. Servir as palavras. Dividir as palavras. Alegrar com as palavras, satisfazer com as palavras, fazer sorrir com as palavras. Fazer sorrir, ou engasgar. Ou tossir.

    Gosto de como podemos morder as palavras, mastigar as palavras, engolir as palavras, digerir as palavras. Excretar as palavras.

    A palavra é alimento. Dê-me pão, dê-me água, mas dê-me palavras também.

    Palavras doces, por favor. Amargas, não. Palavras cremosas e leves. Não duras, nem ásperas, nem secas, nem pesadas.

    A palavra é a nutrição da alma. Alma que encontra seu par nas palavras, sua voz nas palavras, seu silêncio nas palavras. Alma que se encontra nas palavras, o palco maior de sua colorida existência. Um espetáculo.

    As palavras encantam. Cantam, ninam, embalam, adormecem. As palavras dão colo. As palavras afagam. As palavras acalmam. As palavras são bálsamos, carícias, beijos e abraços. Carinhos que confortam.

    As palavras revoltam. Incomodam, perturbam, inquietam. Entristecem, melancolizam. Questionam, respondem - ou não respondem. As palavras desnorteiam. Fazem coçar, fazem chorar, sacodem. As palavras fazem amor, e a revolução. Viva à revolução!

    As palavras são minas. Minas de ouro, minas de prata, minas de amor. Minas de ódio. Minas de inveja. Minas de ternura, de carinho, de amizade. Minas de beleza. De beleza são, para sempre, uma fonte incontrolável.

    Palavra - palavrar, palavrei, palavramos. Palavraremos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Exceção

                                                                    

    Todos querem preto, eu quero branco
    Todos querem confuso listrado
    Eu quero sem estampa
    Eu escrevo sem maquiagem,
    como vivo

    Metade é do azul, metade é do vermelho
    Ferrenhamente, como tigres em duelo
    Entre os dois, estou eu, quase só
    A levantar a bandeira verde, a bandeira branca
    Sem entender
    Porque não parece haver mais gente
    que gosta dessas cores
    ou de lilás

    Todos querem telas, eu quero páginas
    Quero lápis, grafite
    Quero cheiro, textura, novidade ou velhice,
    branca ou amarelada
    pálida ou coradinha
    em papiro ou em pedaços
    Eu quero beijos e abraços, quero olhos,
    quero riso, quero toque e conversas
    Eu quero dançar a vida no seu palco principal
    Não consigo me conformar ao ver que tanta gente
    prefere o palco suplente
    Acessório, indireto
    O dublê

    Todos querem ^, cê, vc.
    Eu quero você.
    Vosmecê, vossa mercê, você. V-O-C-Ê
    Quero você por inteiro
    Nítido e claro, risonho e límpido
    Soletrado, e deliciosamente demorado.
    Num beijo heróico, dado retumbante
    O tempo que for necessário
    para ser completo
    Eu sou meio do contra
    Não gosto de abreviações

    Todos querem cobertas demais.
    Cobertas, almofadas, xales, lenços,
    travesseiros empilhados, ar condicionado
    Eu quero sobre mim somente o manto do céu
    Não entendo porque mais gente
    Não entende a liberdade nisso
    Não quer a liberdade disso

    Todos querem demais ornamentos
    Todos querem ornamentos demais
    Eu não quero ornamento
    Fruru, decorado, enfeite, gracinha,
    penduricalho, balangandã
    Eu não quero ornamento nenhum
    E uso inclusive um pleonasmo para sublinhá-lo

    O único ornamento que eu quero
    É o que todos querem fazer despir
    Simplificar, empobrecer, empodrecer,
    sintetizar, mediocrizar
    enxugar
    Eu quero o ornamento
    Da língua
    Da saliva quente
    Da voz ardente
    Do silêncio insolente
    Da palavra atrevida
    Ah, palavra!

    Quero ornamento da língua
    Da língua múltipla,
    Da linguagem diversa
    Da cantoria
    poetizada, poemimada
    Do idioma dançado
    Carnavalizado
    Metamorfoseado
    Batucado ou soprado
    Em novo arranjo
    Guitarra não elétrica
    Humana

    Eu pareço querer tudo ao contrário.
    O mundo está doido,
    Colônia
    Eu não.
    Eu sou perfeitamente sã
    Barbacena!

    É difícil, é custoso
    É doído, é uma peleja
    Mas tenho que me acostumar a ser
    O que sempre fui
    Exceção
   

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O amor não é cego

                                                               
                                                             
  Dizem por aí que o amor é cego, e é curiosamente lindo por isso mesmo. Como um vírus, poderosíssimo e arrebatador que, quando tem sua carga viral muito alta no corpo do doente, tem o poder de anuviar e confundir sua visão quanto a tudo relacionado ao seu amado. É nesse sentido, creio, que dizem que o amor é cego. Ele cega.

    Francamente, eu preciso discordar disso. Nunca ouvi abobrinha tão enganada, embora seja bem possível que também não tenha ouvido uma tão bonitinha.

    O amor não é cego. Não tem nada de cego, nem poder de cegar. Na verdade, o amor enxerga tudo, e muito bem.

    Isso a que nós nos referimos quanto dizemos “o amor é cego” é, na realidade, paixão. É ela a potência cegadora, a força que nos faz enxergar uma certa pessoa sob uma única lente, que é a da perfeição. É ela que nos faz achar − ou, aliás, firmemente acreditar − que a criatura despertadora dos nossos suspiros nem é criatura, de tão perfeita; é de fato um anjo que caiu extraviado na terra, e foi colocado em nossa vida para enchê-la de luz. O anjo pelo qual estamos apaixonados é (ou torna-se, porque assim nós o fazemos) lindo, inteligente, doce, a mais luminosa presença que já pôs os pés na terra, a reunião de todas as qualidades num único ser. Ele simplesmente não tem defeitos, e ai de quem ousar insinuar algo nesse respeito!

    É... A paixão é mesmo cega. Mas até que essa é uma cegueira bastante gostosa de experimentar, uma cegueira boa. Acredito que, inclusive, chegamos a ficar levemente tristes quando ela passa...

    Quando ela passa, costuma dar lugar a algo mais robusto, mais completo, e também infinitamente mais complicado, que é o amor. A paixão, meus amigos, pode não ser nada além disso, ela mesma, uma emoção excitante, linda e passageira, ou pode ser a primeira fase dessa jornada longa, difícil e cheia de desafios no jogo da vida que é o amor. Esse que, em verdade, não tem nada de cego.

    Quando digo que o amor não é cego, digo sem titubeios e sem medo de errar. O amor não é cego, nem parcialmente, nem completamente, nem minimamente. O amor tem olhos em perfeito funcionamento − olhos bons, olhos sábios, olhos pacientes, olhos cheios de sorriso e cheios de perdão. Olhos que aceitam, que entendem, que às vezes se reviram em divertimento, às vezes querem saltar das órbitas em indignação e raiva, ou fecharem-se desanimadamente em tristeza.

    O amor enxerga, sim senhor! Enxerga tudo, em visão clara e límpida. E ele não é amor porque ama apesar de, dos defeitos, das feiuras que vê, das contradições que é forçado a mirar, dos desapontamentos com que topa e que, sabe, não vai esquecer tão cedo.

    O amor é amor porque ama com tudo isso, incluindo tudo isso, porque aceita o amado por inteiro, no todo, o conjunto de partes, sem deixar nenhuma de fora, nem mesmo aquelas de que menos gosta e que, no fundo, preferiria que não existissem.

    As íris do amor são coloridas num raro tom de sabedoria que é o que permite sua existência e o que faz sua beleza. Pois, o amor olha apenas de soslaio, de relance, ou fazendo descarada vista grossa ao que sabe que o magoará porque sabe que só assim ele pode existir e perdurar. Todo ser humano é falho, estupendamente falho, e o amor sabe que o quanto antes aceitar isso − em si mesmo e no outro − e souber lidar com isso, melhor.

    O amor é belo justamente porque nem sempre perfeito, porque se reconstrói, porque renasce e continua, porque admite erros e permite metamorfoses. Porque se permite metamorfoses. O amor nunca perde de vista o fato de que é inconstante, mutável, dinâmico, em constante movimento e transformação, e que não pode ser de nenhuma outra maneira. A gente muda. O outro muda. A nossa relação com o outro muda. Assim, é impossível que os sentimentos e as percepções envolvidas nela não mudem, também.
   
    As estações da vida não se repetem, como num ciclo. Elas só progridem. Não é possível voltar à infância, à juventude, avançar à adulteza ou à maturidade ao só esperar o passar dos meses. Tampouco, passada esta fase, é possível voltar com a mesma pessoa que se conhece há dez anos à paixão dos primeiros dias. Não é possível, e o amor sabe disso.

    Ele continua, no trilho da vida que só anda para frente, e para tal, precisa se adaptar. Essa adaptação (ele sabe, embora nós nem sempre saibamos) não precisa significar negativamente um empalidecimento, um desgaste, uma "perda de toda graça", como o gosto do chiclete já muito mascado. Pode ser somente uma reinvenção, uma nova fase, um período diferente − com suas belezas e suas feiuras, como todos os anteriores períodos também tiveram.

    O amor, meus amigos, não é cego. O amor vê muito bem, sem precisar de óculos, ou lentes, ou cirurgias, ou correções. Ele vê todo o espinho e toda a flor da paisagem, assim como toda sua cor e todo seu cinza. Ele vê as partes do terreno inférteis e aqueloutras mais férteis, vê todos os meses de seca e todos os meses de chuva. Vê todas as nuvens nervosas e emburradas no céu e todos os sóis, risonhos e claros. Vê o cobertor celeste do teto do mundo nublado, e fechado e soltando raios, e sabe que ele passará. Assim como o vê sereno e límpido, claro e azulzinho, e sabe que também passará. Que nada permanece o mesmo para sempre.

    O amor vê tudo, todos os vagões de seu trem comprido, que pode caminhar por muito se for bem conduzido. Se aqueles que estiverem a bordo souberem olhar, apenas, com os olhos do coração, que não é cego, nem surdo. É vibrante, é vivo, é forte, é lindo. E tem um jeito todo especial, fascinante e necessário de olhar...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Redes sociais e (in)autenticidade

                                                                      

  Rede social é um assunto do qual não se foge mais. Nos nossos tempos, mesmo quem não tem (persistente raridade hoje, mas que ainda existe) já ouviu falar de e sabe bem o que é; quem tem quase sempre alega não poder mais viver sem. Faz parte da vida do indivíduo do século XXI, e tal fato sublinha e grifa quão relevantes são questionamentos e análises a respeito.

    Através das redes (que são várias) conquista-se maravilhas. Aproxima-se os distantes, afasta-se os próximos. Num arroubo de sinceridade, diz-se a verdade a estranhos que não estão minimamente interessados e dão-lhe a ilusão de uma solidariedade comovente quando, em verdade, não raro estão rindo e debochando de seu desabafo. Cria-se um circuito de belíssimas mentiras árduo de manter - mas que insiste-se em sustentar à toda custa, sem por um momento considerar capitular e transparecer-se real, e sem nem dar-se conta do que está fazendo. Abafa-se pequenas faces da normal existência que são pouco glamourosas e muito cotidianas para merecem tempo e atenção, sem enxergar que talvez contagiantemente saudável seria o exercício de discuti-las, botá-las em pauta.

    Deixando um pouco de ironias, não podemos negar que o advento dessas plataformas trouxe positivas mudanças. Nelas, nós discutimos mais, conversamos mais, sobre os mais variados assuntos, e muito mais abertamente do que nossos pais ou avós jamais fizeram. Através delas, nós temos possibilidades de contatos também inéditos, antes inimagináveis: barreiras foram transpostas, dissolvidas, execradas na rede. E isso, de fato, é maravilhoso.

    Podemos conversar com mais pessoas a um só tempo, com pessoas queridas que estão longe, em várias partes do mundo; ou pessoas que talvez pessoalmente não conhecemos nem nunca conheceremos. A internet e seus poderosos tentáculos que chamamos de redes sociais fizeram o nosso “mundo mundo, vasto mundo”, parecer menor. Pequeno. Uma criança que carregamos no bolso. Na bolsa. Nas mãos.

    Nossos círculos são mais amplos; nossas possibilidades, esplêndidas. Nunca tantas pessoas sentiram-se tão próximas de todas as outras, nunca tantas de uma só vez sentiram ter tanta voz. A acessibilidade da voluntária exposição dá holofotes (gratuitos?) aos que muito os desejam; a opção do anonimato dá microfone a quem pouco de bom tem a dizer, permitindo maldosos comentários que antes calavam-se, ou em menor escala escancaravam-se e afetavam o seu alvo. A interação abarca ativamente o espectador, o ouvinte, o público, que antes participava quase exclusivamente na ponta receptiva de um espetáculo, de um programa, nas mais variadas mídias.

    Ao pesar todas essas facilidades e belezas com seus contrapontos negativos, eu particularmente ainda não me convenço. Tenho cá minhas ressalvas, sinto-me ressabiada. Pergunto-me se não cabe, dentre outras tantas interrogações, questionar se muitas das conversas que estamos tendo são genuínas, autênticas; se todas essas possibilidades ao alcance das mãos e ao deslize de um dedo estão sendo bem aproveitadas, e nos fazendo bem.

    Pois, será que nós postamos o que realmente pensamos e queremos dizer, e não o que pensamos que os outros querem que nós postemos? Será que postamos a vida que realmente temos, ao invés de a vida que queremos que os outros pensem que temos?

     Até que ponto a interação que existe por meio dessas redes sociais não é uma muito pouco autêntica, na medida em que nós criamos uma fictícia outra “versão” de nós mesmos para exibir - uma normalmente embelezada, mais constantemente sorridente, badalada, cheia de amigos, popular e querida do que somos na realidade? Até que ponto, uma vez que quase todas as pessoas assim agem, é possível realmente conhecer alguém por via digital, se só o que vive ali é uma imagem, artificial, fabricada, exagerada, criada para viver a intensa competição de aparências que existe nesse recinto, em que todos vaziamente invejam e querem ser invejados por impressões quase sempre ilusórias que deixam acerca da própria vida?

    (Convenhamos, gente, ninguém confessa aos múltiplos olhos da tela que está tendo um dia absolutamente banal, uma crise existencial, um momento em que se encontra sozinho, triste, perdido na vida, sem saber o que fazer com ela ou consigo mesmo. E, até onde eu sei, todos temos desses dias, desses períodos... Por que, então, eles não aparecem?)
      
     Até que ponto é saudável a corrosiva, ácida, sorrateira ansiedade que é gerada por essa competição de aparências e o constante estado de patrulha para "não ficar para trás e ter/mostrar uma vida tão linda e badalada quanto a que todos em volta parecem ter"?
 
    Até que ponto, ao invés de encontrarmos novas pessoas, não estamos nos perdendo no processo de tentar manter a outra face de nós mesmos, a persona que erigimos para ali nos representar? Até que ponto não estamos perdendo contato com nossa verdade, nossa profundeza, e perdendo um tempo em que poderíamos estar vivendo de fato, enquanto gerindo nossa paralela social existência na rede, atrofiados em nossa peculiar personalidade pelo desejo de agradar, de atender o que - achamos - todos esperam de nós, para nos fazermos visivelmente queridos e bem cotados?

    Eu me pergunto... não vale avaliar se alguma grande parte da beleza que nós vemos nessas plataformas não são grandemente ilusórias? Como um espelho d’água em que, ludibriados, entorpecidos pelo encantamento e o vício da coisa, deixamos de enxergar os malefícios sólidos e palpáveis, o escorre improdutivo de tempo, a falsidade, a tristeza, a inveja, a "realidade" complicada que emerge dali, existe ali, e nos faz afogar em espiral poderoso? Ou se, mesmo enxergando, conscientes de tudo isso, nos deixamos levar na enxurrada, talvez imprudentemente, somente para evitar o esforço de nadar contra?

    É algo no que pensar...