quarta-feira, 27 de julho de 2016

A arte de criar problemas

                                                              
   
      Nós seres humanos deste tempo tresloucado parecemos nascer doutos na arte de criar problemas para nós mesmos e ficarmos insanamente dependentes das soluções para eles. Isso mesmo. Não, eu não estou enlouquecendo. Talvez, para os parâmetros da época em que vivemos, só um pouco. Já disse que ela é que é tresloucada. Mas, que fique avisado, este texto é contra indicado no caso de suspeita de normalidade, ausência inteira de loucura. Pois, se a loucura é o desvio completo do normal, acho que ela é o estado mais saudável para se viver neste mundo maluco.

    Do que estou dizendo quando digo que nós criamos problemas para nós mesmos? Estou dizendo que criamos padrões. O cabelo liso, por exemplo, colocado como apogeu e ideal de cabelo torna o cabelo destoante, enrolado, um problema. Cria um problema (que em verdade não existe, já que a mesma natureza planejou que fôssemos variados uns dos outros até para nos tornamos mais fortes) e ficamos dependentes da delirante “solução”: alisar o cabelo. Até que essa solução se torna um problema, já que bem nenhum pode fazer um acúmulo enorme de estranhos materiais combinados e agressivos aplicados continuamente em nosso lindo corpo. E aí, vamos aos hospitais a fim de tratar do câncer que provocamos em nós mesmos.

    Isso mesmo. Não, repito, e com ênfase. Não estou delirando. Você que está, se não o percebeu ainda. Quer outro exemplo? Protetor solar. Quem disse que temos que usá-lo? Uma indústria que se interessa por vendê-lo. Certo? Certo. Mas, você pode dizer, é uma indústria que prima por cuidar de nós. E em resposta, eu posso dizer, você que não cuide de você mesmo, corpo e mente, e vai passar a acreditar nas amassadas e aparentemente apetitosas abobrinhas que te oferecem generosamente e sofrerá as consequências de aceitá-las e digeri-las.

    Mas e o câncer de pele? Ele também é um problema criado? É. O sol também faz parte do plano harmônico e bem dirigido da natureza para a vida da gente. Você tente escapar dele, estando sob efeito das abobrinhas estragadas que te deram sob a atraente roupagem da propaganda, e terá falta de vitamina D. E vai procurar um médico, o mesmo que te receitou o protetor solar - que contribui para você desenvolver câncer de pele, ao invés de evitá-lo -, para receber dele um suplemento artificial de vitamina D. Caríssimo, com certeza, o tal medicamento será. E você pagará com seu tempo para resolver um problema que criou para si mesmo. Que poderia nem existir se você tivesse tomado uma boa dose dessa embriagante maravilha que é o sol sem borrocar-se de protetor solar antes.

    Está vendo? Eu estou fazendo sentido. Não estou inventando problema, enxergando-o onde ele não existe. Os psicólogos é que estão. Isso mesmo. Você já parou pra pensar que até pouco tempo as pessoas passavam a vida inteira sem cogitar ir em um psicólogo, psicoterapeuta, psicanalista e as demais varianças? E que mais antigamente ainda as pessoas nem cogitavam a ideia de que precisavam de tais profissionais e suas ajudas? Parando pra pensar a respeito, eu concluí que nós passamos a pensar que precisávamos disso no momento em que isso foi inventado.
   
    Não é que a vida moderna seja mais complicada que a antiga. Nem que nos evoluímos e nos tornamos mais complexos e agora precisamos de tratamento. Na verdade, o que acontece é que um dia nos disseram que esses profissionais existem e devem ser parte fundamental de nossa vida é nós passamos a acreditar, e a criar necessidades para serem atendidas por eles. Só isso.

    As pessoas sempre tiveram questões com as quais precisaram lidar que às vezes (muitas vezes) lhes traziam angústias e dificuldades. E elas lidavam com isso. Em diários, em conversas, trabalhando e dirigindo energias e pensamentos ao seu trabalho, interagindo com aqueles à sua volta, com seu deus e a natureza. E nós de modo algum podemos dizer que hoje lidamos com nossos problemas melhor do que as pessoas de antes o faziam. Só podemos dizer que agora carecemos (ou pensamos carecer) de ajuda profissional pra isso. Terceirizando a nossa conversa com nosso íntimo.

    (Que fique claro: não estou dizendo que não existem pessoas que precisem de ajuda profissional, e que esses profissionais não tenham um papel importante a fazer. Porém, acredito que a maioria das pessoas que realmente precisa de ajuda, não a recebe, não pode tê-la, não tem acesso a ela. E a maioria das pessoas que recebe essa ajuda não precisa dela. Pensa que precisa.)

    De cabelo à protetor solar aos médicos da mente, à comida de todo dia. Tantos são os problemas que inventamos para nós mesmos - problemas que não raro provém de elementos absolutamente naturais de nossa vida que transformamos artificialmente em problemas e defeitos, aos quais procuramos soluções que acabam trazendo novos problemas... Talvez seja bom parar pra pensar na relação que mantemos com as pequeninas coisas à nossa volta, e no poder que nós mesmos temos de torná-las problemas e dores de cabeça... Ou, pelo contrário, belezas e delícias (ou dificuldades) que fazem parte da nossa vida, e as quais podemos desfrutar e experimentar em sua plenitude.

    É, minha gente... Pensar é mesmo um perigo. Mas, mais perigoso, eu acho, é não pensar. É deixar que os outros pensem por nós e nos deem de presente alguns probleminhas que não existem para resolvermos.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os vários afluentes da bacia do amor


     O amor, podemos dizer, é como um rio. Um rio que, por tão longo alcance, tão imensa profundidade, tão fértil poder, é necessária água para sobrevivermos e bem vivermos na estepe da vida. É necessária inundação para o pantanal da existência.

    O amor, como um rio, pode ser considerado de modos diferentes por suas características. Pode ser perene, de tão firme volume e fluxo, constante mesmo na seca e na escassez, na aridez da paisagem, no desespero do frio escaldante e do calor capaz de evaporar. Ao contrário do que ocorre com os rios, porém, creio, a maioria dos amores do mundo não pode ser presenteada com o qualitativo de perene. Até porque, aqueles que de fato mais perene são têm o dom de passarem discretamente presentes e impercebidos. Quase nunca entram nas estatísticas.

    Mais percebíveis são, na verdade, os amores intermitentes. Aqueles que desaparecem na estiagem e reaparecem na estação chuvosa. Aqueles que precisam da irrigação da conveniência, ou do desespero, para voltarem à vida. Aqueles que precisam sofrer a ameaça de extinção ou a festa da abundância para aflorarem à superfície. Ou aqueles que, apenas tímidos, embora muitíssimo genuínos, existem somente no subterrâneo e não mostram-se e demonstram-se à luz senão esparsamente. Pode haver um tipo de perenidade nos amores intermitentes. Como pode haver também um fundo e caudaloso egoísmo.
   
    Os mais comuns de todos, porém, são os amores efêmeros. Aqueles que, incapazes de penetrar a terra e o reino do coração, ficam na passarela da superfície e da pele. A maioria de nós, contudo, não é impermeável a ele. Bebemos de sua água com frequência. Ele acontece a nós quase que inevitavelmente. E é praticamente impossível resistir à sua cascata, deixar de nutrir-se de seus doces filetes, quando aparecem. A passagem dessas águas efêmeras do amor pode ser refrescante delícia - contanto que, é claro, não se torne demasiado áspero, seco, árido, dolorido e sofrido seu natural escoamento a outras terras, ou sua simples evaporação.

    Há também, como rios, amores efluentes e influentes. Os primeiros são os mais belos e os mais difíceis de viver, ao passo que os segundos, os mais arrebatadores e por isso mesmo, fáceis de morrer.

    Amores efluentes são amores práticos, amores que viram corrente volumosa e robusta no curso de todo dia. Amores, portanto, difíceis mas importantíssimos de se manter. São os amores que, saídos do esconderijo do subterrâneo e do devaneio para existirem na exterior realidade, sujeita a intempéries e predadores, permanecem. Amores que avolumam-se e engrandecem-se em seu curso ao saírem do subsolo. Amores que continuam.
   
    Amores influentes, por seu turno, são aqueles, como já adiantado, menos difíceis de se viver e mais frequentes e fáceis de ver morrer. São os amores platônicos, amores que existem nas cordilheiras do desejo e da distância. São os amores que, ao desfilarem do fino lençol do devaneio para subirem o despenhadeiro da vida concreta e real... terminam. Perdem volume ao invés de ganharem. Diminuem sua vazão, morrendo antes de chegar ao mar.

    Por questão de sobrevivência, sua existência deve mesmo confinar-se às cavernas do pensamento, do sonho, da imaginação. Por questão igual de sobrevivência, entretanto, sua existência em alargada dose pode ser um perigo, e deve ser balanceada com a presença de alguns amores efluentes.
   
    A moral da história - ou, aliás, da geografia do amor? Ela confunde-se a uma das lições mais primárias da biologia, se não me engana a traiçoeira memória. Do que são feitos os rios, afinal, bem como os lagos e as lagoas, os mares e oceanos? De água. E a água é um elemento essencial da vida. Uma condição indelével de existência. Sem ela, nada se cria e nada se transforma. Tudo se despedaça.

    Assim também é o amor, esteja ele em qualquer de suas formas de expressão, quaisquer de suas configurações. 70% do nosso corpo, pelo menos, deve ser feito de amor, e de amor continuamente abastecido. No mínimo, de 2 litros de amor devemos nutrir o nosso organismo todos os dias. E o planeta terra - água - é azul... Tem 3/4 de sua superfície cobertos de amor. O amor é azul, já nos disseram Djavan e Clara Nunes

    A ecologia do amor, portanto, é uma das quais devemos muito nos empenhar em proteger e preservar. Sem ela... não há vida que seja possível.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Lições do renascimento

                                                             
                                                              
    Ah, minhas leituras acadêmicas! Elas furtam-me das minhas leituras literárias e dos escritos literários... Aliás, dos escritos todos − ou nem todos já que este está aqui. Mas elas fazem-me pensar. Cobram tributo do meu tempo, mas dão recibo em pensamento. Acho que está valendo.

    Dia desses, li cousa muito bonita, que me levou a pensar muito além da nuvem acadêmica. Um autor que gigantescamente me agrada, Peter Burke, ao perguntar sobre os possíveis porquês de a Itália ter sido o berço do renascimento, diz que um destes está no desprendimento italiano ao gótico. Ou seja, a arte na terra da bota desenvolveu-se magnífica, intensa e vastamente para frente porque tinha-se ligado menos aferrada e intimamente ao que houvera antes.

    Se não é isto uma escultura em palavras de uma verdade dispersa e opaca na realidade, nos corações e nas mentes da gente!

    Sempre pensando nesse respeito, não tinha até essa leitura tido sobre ele um estalo de compreensão tão claro, tão preciso. Só abre-se para receber (ou dar) abraço apertado e caloroso do futuro quem despediu-se bem resolvido e leve do passado. E só se põe nesse movimento também quem está inteiramente inteiro, em um único e concentrado pedaço, presente no presente.

    Cada vez mais acredito que esse é um dos mais importantes e decisivos − e talvez por isso mesmo um dos mais difíceis − desafios da nossa existência: aprender a lidar com essa belezinha mágica, linda, temperamental, esquiva e pirracenta que é o tempo. O tempo em suas várias esferas, seus vários planos, seus vários volumes e suas várias arestas.

    O tempo do relógio das obrigações; o tempo do calendário, das metas e dos balanços; o tempo do agora e das livres borboletas; o tempo dos corações, dos ferimentos e das cicatrizes; o tempo da realidade social da qual somos pequenina e vital partícula; o tempo da vida da gente, da história de cada um de nós. O tempo de lembrar, o tempo de esquecer, o tempo de somente - sem pensar - sentir e viver. O tempo: passado, presente e - quem sabe? - futuro.

    Mais especificamente falando do casamento entre o tempo do qual temos flutuante sensação de certeza (passado) e aquele que nos instiga perpétua certeza de dúvida (futuro), creio que, como em todas as relações, deve-se procurar aí um equilíbrio. Como nos chama a pensar Peter Burke, é preciso desvencilhar-se das sedutoras e confortáveis chamadas do passado para jogar-se nos braços do futuro, e vivê-lo magnificamente. É preciso, caso necessário, deixar morrer a morte do medíocre para viver o renascimento do sublime.

    Do contrário, corre-se o risco de prender-se ao passado numa amarra cega e fazê-lo durar mais tempo do que deveria. Corre-se o risco de - ao estar voluntária e conscientemente amarrado e vendado - não ver passar um futuro e um presente que... ó! passaram. Num instantinho terão passado. Serão passado, sem que nada de lindo se tenha feito deles, sem que nenhuma intensa vida se tenha vivido. Serão um passado que se acumulará pesado nas costas, como um fardo, fardo que grande tem volume, sem nenhum valor.

    Por outro lado, é também preciso deixar na ponta dos dedos, ao alcance dos olhos, alguns nós bem atados do passado, para jamais nos permitimos esquecê-lo por completo. Pois, quem se liberta muito rebelde e radicalmente do passado, torna-se justamente refém dele. Comete sempre os mesmos erros, cai sempre nas mesmas armadilhas, vagueia sempre pelos mesmos caminhos. Quem extremisticamente se desgarra, realisticamente se agarra. Empaca.

    Em suma, é preciso andar pra frente, ser para frente, fazer para frente. A fênix é parte de nós, o renascimento chama, é preciso renascer. E para tal, é mister esquecer e deixar o passado passar, ir descansar bem calminho nas profundezas de sua lápide. Contudo, não se pode querer demolir essa lápide para substituí-la por qualquer comum e virgem pedra. É para o fundamental ato de lembrar que servem as necessárias inscrições esculpidas na lápide.

    Todavia, acima de qualquer coisa, antes de tudo e de mais nada, não podemos deixar que passado e futuro em seu cabo de guerra, sua sedução altamente persuasiva pelos sussurros da lembrança e do projeto, vençam o apelo do presente e façam-no mumificado pelas cordas do devaneio.

    É preciso fazer do frustrantemente fugaz momento presente uma atração inelutável e perpétua. Um vício, sanado e alimentado contínua e constantemente, sem fim. É preciso sim, como nos dizem os sábios conselheiros num já muito sabido conselho, viver intensamente o agora. Viver intensa, descarada, exaltada, atrevida, curiosa, sedenta e regaladamente o presente. Ser insaciável por ele e fartar-se dele na mais indiscreta gula, na mais declarada paixão.

    Como não me deixam esquecer minhas volumosas leituras acadêmicas...
   

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Os diferentes tipos de relógio

                                                                

  Dia desses, disse algo aqui que muito me aborreceu. Não me arrependo de tê-lo dito, mas incomodou-me pensar que não sei se acredito tanto naquilo.  A meu ver, acreditar no que se diz é o coração da sabedoria, a força que faz tanta diferença na realização do pensamento, plano ou sonho. Dizer aquilo no que se acredita, por seu turno, é o princípio básico da honestidade. E, se qualquer coisa, gosto de me pensar uma pessoa honesta.

    Eu disse “O tempo é. O tempo existe. O tempo está aí. O relógio anda igualmente para todos.” É esta última parte que tem me incomodado. O relógio não pode andar igualmente para todos porque não existe. O relógio não existe. Existem vários tipos de relógio. E os diferentes tipos de relógio não funcionam sobre o mesmo princípio, nem andam no mesmo ritmo, batem no mesmo passo.

    Ou não é verdade? Não podemos imaginar que o relógio de sol andava e batia igualmente ao relógio de parede, ao relógio do sino na torre da igreja, ao relógio de bolso, de pulso, do nosso mais presente celular. Todos são instrumentos de medir o tempo. Mas o tempo que cada um deles mede não é o mesmo.

    O relógio de sol media o tempo do ambiente, do ciclo natural que regia a vida, o dia e a noite, o plantio e a colheita de quem seguia as suas luzes. O relógio de parede media o tempo doméstico, da família no lar, da hora de cear, de rezar e de dormir. O relógio do sino media o tempo religioso, que confundia-se com o tempo social: o tempo de mirar o céu crepuscular, juntando as mãos e fazendo prece; o tempo de cultuar em coletivo, de conversar, flertar, negociar; o tempo de festejar e de fazer procissão.

    O relógio de bolso, como seus predecessores de pulso e de aparelhos móveis, mede o tempo do trabalho, da rotina, da obrigação, do sustento. O tempo de chegar, o tempo de sair, o tempo de pensar, o tempo de produzir. O tempo de existir? Ah, esses relógios tendem a diminuí-lo ao máximo!

    Além de todos esses relógios, temos ainda, cada um de nós, um outro, muito particular. Um relógio que não tem ponteiros, mas tem batidas - que podem ser como ritmado e suave canto ou como rufos de tambor. Um relógio cujo parar é perigoso, um relógio que pode quebrar sem conserto, um relógio que pode colar-se vezes e vezes de novo e assim tornar-se mais forte. Um relógio que não tem manual de instrução, já que sua mecânica é única e irrepetível. Humana e, como tal, praticamente indecifrável. Um relógio cujo tempo talvez nem mesmo seu próprio dono pode medir precisamente. Um relógio cujo tempo não se compara.

    Enfim, reconcilio-me comigo mesma nestas palavras. Não deixo de crer que todos esses tempos podem ser manejados por cada um de nós de forma muito distinta, como quis dizer anteriormente. Que temos escolha e que essa escolha faz toda diferença. Mas quero afirmar que de modo algum acredito que só exista um tempo, igual e constante para todos. Existem vários tempos, várias percepções e vivências deles. E para acompanhá-los, existem, é claro, diferentes tipos de relógio.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Heróis e heroísmos

               
                                                               
  Dia desses, ouvi uma discussão particularmente estarrecedora acerca do herói. É, do herói, da figura do herói, em sua forma mais genérica. Um dos alguéns discutindo fez referência à uma série ou minissérie (que, confesso, não parei para averiguar a respeito antes de escrever sobre) chamada Show me a hero, em que alguém aparentemente diz “Mostre-me um herói que eu te mostro uma tragédia”.
   
    Essa discussão girou em torno do que é narrativa, seus elementos fundamentais, seus formatos possíveis, e aquela da qual mais se falou foi a narrativa trágica, que é protagonizada por um herói. Pois, muito se disse, não havendo uma história trágica, uma catástrofe, uma situação lastimável de grande calamidade e desventura, não pode haver um herói. A existência do herói - a pessoa que se sobressai salvando o dia - só se justifica, nesse ponto de vista, a partir da existência do triste trama.

    Daí, a discussão rumou para a definição do herói, qual seja, uma pessoa (normalmente um homem) de feitos notáveis numa conjuntura de significativa contrariedade. Conversamos sobre o quanto as pessoas gostam de heróis menos por gostar unicamente dessas figuras e mais por gostar de tragédias, das situações calamitosas em que eles se destacam. Sobre a desnecessária morbidez e o extremado pessimismo desse raciocínio, não direi mais. O leitor, achando cabido, pode conjecturar ou objetar consigo.
   
    De minha parte, eu não concordo. Eu creio que o foco da conversa deveria ser bastante diferente. Eu creio que o significado maior do herói é outro, é o fato de ser um reflexo e uma projeção, um exemplo. Eu também creio que há vários tipos de heróis. Há tantos tipos de heróis quanto há tipos de histórias e estórias possíveis, reais ou inventadas, dramáticas ou suaves, poéticas ou prosaicas.
   
    Há o herói que se torna tal porque entra para a história e por ela é (não raro, sobre bases muitos questionáveis) eternizado. Há o herói de convencional natureza que realiza atos bravos e por eles é lembrado. Há o herói que sacrifica a vida num campo de batalha, o herói que desafia a morte e ganha a eternidade através da palavra escrita, da arte criada. Existe o herói cotidiano, que inspira a gente, dando o exemplo, um herói palpável e tão cheio de qualidades quanto de defeitos. Existe o herói-protagonista, mocinho de um romance. O herói às avessas, o anti-herói, que por vezes é igualmente querido e amado e produtor de efeito hipnotizante.

    De todos os jeitos, pra todos os gostos, existe o herói (e a heroína). E mais do que carregar consigo estórias ou histórias que são marcantes, mais do que “salvar o dia” e ser o personagem principal ovacionado por todos, o herói - e a narrativa em torno dele - diz muito sobre quem o admira.

    Afinal, o que é o herói senão a personificação dos valores que julgamos mais corretos, das atitudes que achamos mais louváveis? Se você admira um soldado devotado, um líder revolucionário, um de seus pais, um professor ou um artista, ele acompanha e reflete as suas próprias noções de heroísmo e valor e honra. O herói, como quase tudo na vida, é absolutamente relativo. É por isso que alguém que é herói para uma pessoa pode não ser para a outra. É por isso que, creio, poderíamos completar o ditado “Diz-me com quem andas que te direi quem és” com um “Diz-me quem admiras que te direi quem és”.

    Bem como quando alguém fala de outro alguém, o alguém que fala diz mais sobre si mesmo que sobre aquele de quem fala; quando alguém diz que admira outro alguém, o admirador diz muito mais sobre si mesmo do que sobre o admirado. E é aí que, no meu ponto de vista, jaz o sentido e a importância do herói: ele nos inspira. A cada um, particularmente, individualmente. O herói confirma, reforça os valores que nós temos, torna mais claras as nossas aspirações, mostra que são possíveis as nossas conquistas, o nosso comportamento de acordo com o parâmetro que achamos mais cabível.

    O herói é importante porque pertence a nós. É uma parte de nós, faz parte de quem nós somos e de quem nos tornamos/tornaremos. O herói pertence à sua história tanto quanto à nossa. Seu heroísmo pertence à sua narrativa (que, às vezes, é de nossa própria arquitetura ou invenção) tanto quanto àquela que construímos em nossa vida, nosso dia-pós-dia, nossas ações. O herói, eu acredito, somente muito raramente frequenta os domínios da tragédia.
   
    Portanto, é esta uma boa pergunta a se fazer para melhor conhecer uma outra pessoa ou a si mesmo: quem é seu herói? Quem são seus heróis? Qual é a sua noção de herói e heroísmo?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Os perigos da beleza

                           

    Beleza é algo que todo mundo tem. Ponto. Feiura também. Hoje, para seguir a ordem alfabética e naturalmente atrativa, falemos da primeira.

    Há belezas que não se pode ver, belezas que só se pode não ver, belezas que só existem para ser vistas. Há belezas para sentir, belezas para ouvir, belezas para tocar. Há tão diferentes belezas quanto existem diferentes pessoas - belezas em diferentes aspectos, com diferentes presenças, diferentes efeitos, belezas nos olhos de quem vê, a partir de seu olhar. Não há ser humano que não tenha beleza tanto quanto não há dia que não amanheça, mesmo sem a benção do sol ou com luzinha apenas minguada dele. Mesmo entre nuvens que o camuflem. Isso é bom, belo, deliciosamente inevitável - embora haja algumas tristes pessoas incapazes de enxergá-lo.

    Hoje, contudo, estou aqui para falar da beleza mais aparente, mais imediata e rasa, aquela circunscrita na definição mais comum e (talvez) imprópria da palavra. A beleza que salta aos olhos, torce o pescoço, mobiliza um suspiro e arrepia o corpo. A beleza daquelas poucas eleitas pessoas que comumente batizamos de indecentemente bonitas, possuidoras da beleza de traços e figura que faz toda a gente parar um minutinho para devidamente apreciar e deixar-se acreditar no feitiço.

    Essa beleza tem um perigo espetaculoso. Ou dois perigos espetaculosos, para ser mais precisa.

    O primeiro afeta o sujeito, ou os sujeitos, em redor do coração (ou do rosto) que bombeia encantos. Pois, as pessoas que cotidiana ou ocasionalmente vivem e convivem com um epicentro fenomenal desta definição de beleza podem ser seriamente prejudicadas por isso: o ser humano, esquecido e burrinho como é, tende a se esquecer ou ignorar impercebidamente os avisos mais sábios dos quais mais carece, como aquele que nos diz que “aparências enganam”. Ou aquele que diz “a beleza não é tudo”. Ou aquele que diz “quem vê cara não vê coração”. Em suma, aqueles avisos que nos dizem para não deixar de considerar a importância do conteúdo em detrimento da sedução da embalagem.

    As pessoas bonitas hipnotizam. Têm um efeito de neblina nas outras pessoas em volta. Aquelas que não têm uma força para dissipar essa neblina e enxergar através dela podem achar-se demasiadamente veneradouras de pessoas que não merecem toda essa veneração - nem, talvez, uns minutos a mais de cuidados atenção. Entendo que estar ao lado de uma pessoa bonita tem certo atrativo: você (o acompanhante), sobretudo no caso de estar em relacionamento romântico-amoroso com o muso/a musa, é olhado com pontuda inveja. E quem é aquele que não saboreia-se distintamente com a sensação, ou a certeza, de ser olhado com inveja por um semelhante?

    O segundo perigo tem alvo muito outro: direciona-se à própria pessoa que é excepcionalmente bela. Por ser excepcionalmente bela - e por nada mais - essa pessoa recebe muita atenção. Sem fazer qualquer esforço, somente por existir e estar, essa pessoa é procurada, é admirada, é cobiçada, é objeto de interesse e olhar e desejo de muitas outras. Assim, se não for muito cuidadosa ou bem orientada, ela pode não desenvolver mais nada. Não ser nem se tornar nada além de uma pessoa muito bonita.

    Pois, nós, reles mortais de semblante relativamente agradável e figura não de todo desconjuntada, (e, mais importante, reles mortais que não ainda alcançaram o nível de consciência e plenitude de quem prescinde da aprovação do outro para aprovar a si mesmo) desenvolvemos atributos e habilidades para agradar. Talvez de maneira inconsciente e até inelutável, em grande medida, por mais incômodo que seja admitir isso, o que queremos ao aprender a tocar violão, dominar várias línguas, um esporte ou uma dança, a arte de cozinhar é arrumar modos de agradar. De se fazer interessante, se tornar atrativo para o outro, possibilitando a vida em sociedade, e uma vida em que não se é completamente desprezado ou, pior, simplesmente ignorado.

    O belo, portanto, corre o risco de ser extremamente interessante à primeira vista, aos olhos, e extremamente vazio e desinteressante à segunda vista e conversa, à convivência, ao coração. Esse não é um dado absoluto, certo e fatal; nem todos os muito belos são tão rasos. Pelo contrário, alguns podem ser indivíduos de brilho enfatuante e magnético por serem duplamente atraentes - pela embalagem e pelo conteúdo. Porém, só aponto esse perigo porque vejo que ele existe e não poucas vezes é concretizado.

    Em suma, admiremos. Tratemos nossos olhos sempre que pudermos com exemplares ímpares de visual lindeza exorbitante. Como disse Vinicíus, “que me desculpem os feios, mas a beleza é fundamental”. Olhar não tira pedaço, e é bom manter os olhos saudáveis. Até para que possam, também, enxergar além do visível.

    Não deixemos, porém, que a beleza cegue e seja o entrave para uma humanidade estanque e vazia. Não deixemos os perigos da beleza se tornarem seus flagelos, seus cupins corrosivos, o círculo vicioso que pode ser tão danoso a vida das gentes. Não deixemos de dizer, ao contrário do poeta, “que me desculpem os belos, mas a feiura também pode ser fundamental.” Pode ser um ingrediente muito mais nutritivo para uma vida mais saudável e plena e interessante. Pois, a beleza é uma substância de efeito duvidosíssimo e, se mal ministrada, pode fazer mais mal que bem.

domingo, 29 de maio de 2016

Procura-se um amigo



    Não gosto de definir - especialmente no que concerne a pessoas, pessoas que nem conheço mas quero na minha vida. Definir é limitar. Às vezes, a gente pode cegar-se a pessoas maravilhosas e blindar-se de experiências belíssimas porque quem encontramos simplesmente não se encaixava nas características que estabelecemos previamente como essenciais. Assim, nem lhes permitimos a entrada em nossa vida, por uma questão de definição.

    Definir é necessariamente sinônimo de limitar. Porém, é preciso definir alguns elementos para ter parâmetros. Afinal, sem o mínimo de clareza quanto à sua busca, você não vai saber quando encontrar justamente o que procura. Portanto, aí vai uma receita, com os requisitos básicos que estou a procurar num amigo.

    Procura-se um amigo. Características desejadas:

    Geral: não importa a cor, a altura, a largura, a ascendência. A religião, a crença. De preferência, será uma aquarela com vários tons de várias cores, o mais colorido melhor. Uma aquarela grande ou pequena, anãzinha ou gigante, fina ou larga, tanto faz. Uma aquarela humana. De cores milhares, forma criativa, desenho único. O único tamanho do qual não admito variação é dos braços, que fazem o abraço. Este deve ser enorme. Vastíssimo, longuíssimo, intensíssimo. Ao mesmo tempo muito amplo e muito estreito. Abraço urso, sem hibernar, pronto para qualquer hora, de choro apoiado, de riso trocado, de silêncio encantado, de falação animada, de quietude tranquila e confortante, de um aperto que console. Que tanto quanto enorme seja seu abraço, gostoso seja o seu colo.
   
    Que seja europeu, asiático, africano, latino, brasileiro ou nômade permanente, eterno forasteiro, mas seja aberto e tolerante. Que saiba falar a língua dos vários humores e das várias situações. Que se adapte aos costumes e dialetos das minhas idades e fases, como eu certamente tentarei fazer em retorno.
   
    Que acredite em quantos deuses queira, em Moisés, Jesus, Maomé, Buda ou Chiva. Ou em deus nenhum, além de em si mesmo. Que acredite no destino escrito ou no destino que se escreve. Que acredite no verso ou no universo. Que, porém, absolutamente acredite em mim, e de mim jamais duvide. Que de meus planos jamais caçoe, minhas dores jamais satirize, de meus medos jamais faça lenda, conte história de terror ou riso. Que tenha fé em mim, na minha existência, na minha capacidade de evoluir e me tornar melhor. Que acredite no laço que podemos amarrar, que pode atar-nos de forma que ninguém desate.

    Rosto: o traço mais proeminente de seu rosto deve ser seu sorriso. Um sorriso perene, não importando a estação ou a circunstância. Um sorriso caloroso e luminoso. O traço menos destacado de seu rosto deve ser o sobrolho, ainda mais se for propenso a franzir-se. Deve ser apagado, praticamente invisível. Disso, não abro mão. Quanto aos olhos, que sejam cor de esperança. Quanto ao olhar, que seja amigo e carinhoso, belo e apreciador das pequeninas coisas. Que saiba identificar a eternidade de um momento de beleza.

    Coração: mole. De preferência, mole mais que maria-mole, mousse e gelatina. Mole por oposição a duro, casca-grossa, intocável. Mole de maleável, de empático, de compreensivo. Mole por capaz de se colocar no lugar do outro e no meu, e sentir suas (e minhas) dores sem sofrer por elas. Mole com sabedoria, e consciência de que não se pode bombear o sangue e os problemas do outro sem necessariamente sobrecarregar o caminho dos seus próprios.
   
    Que seja mole, no sentido de que não se quebre ou entorte ao sofrer impacto, mas retorne a intensidade da força aplicada com uma força igual, e tenda sempre ao equilíbrio. Que seja amável ao contato da mão, e de outro coração. Que faça conexão, e não tenha um sistema muito sistemático. Que seja ritualístico e cuidadoso com os pequenos gestos de grandeza imensa. Que, porém, não seja insensível à arte do improviso, nem muito incompetente nela, e que saiba que acasos e ocasos acontecem.

    Que seja firme e constante, mas não rígido. Que não seja permissivo a explorações e saiba rebelar-se e libertar-se delas quando são dirigidas a si e identificá-las quando acontecem a mim. Que seja bom em persuasão para me fazer enxergar tais explorações e estratégia em me ajudar no levante para abandoná-las. Que, contudo, sobretudo, seja um pouco mais permissivo e menos rígido quanto aos meus erros. Eles serão muitos. Eles serão enlouquecedores. São eles o atestado de existência do que há de pior em mim, tanto quanto, porém, de melhor: a minha humanidade.

    Que perdoe meus deslizes, esqueça meus lapsos, lembre minhas lambanças (para rir delas comigo), gentilmente aponte meus equívocos e jamais corrija minhas imperfeições. E que me ame assim mesmo. Que esteja disposto a me ouvir, dar-me atenção, esperando decerto recebê-la em troca, como devido intercâmbio. Que saiba abrir sua aorta e ser pelo amor eterna e repetidamente constipado.
   
    Procura-se um amigo. Não posso pôr anúncios nos jornais, porque para esse pesado encargo não darei mensal recompensa. Não posso fazer rifa, porque o prêmio concedido não será sorteado num único dia e entregue num pacote, mas destilado em longo período e entregue em forma de risos e sorrisos, abraços, colo, companhias e micos, tudo isso mais energia que matéria.

    Não posso pedir ao gênio da lâmpada, porque ele não pode concretizar-se em fumaça, a partir de uma polida de metal. Posso pedir ao universo, somente, e formular meu pedido em palavras, para que o primeiro quando achar viável me envie um candidato, e a força das segundas talvez faça surgir um voluntário.
   
    Procura-se um amigo. Alguém se oferece?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Questão de proporção

                                                                    
    
    Proporção. Relação das partes de um todo entre si. Dimensão, tamanho, importância. Harmonia, equilíbrio.

    Para ir direto ao ponto, creio que a proporção é um ingrediente essencial do saudável bem-viver. Se colocarmos uma maior pitada dela em nossos dias, viveremos melhor.

    Tudo é uma questão de proporção. As coisas têm o valor e o tamanho que nós damos a elas. Nada mais. Elas não são por si mesmas, a despeito de nós, apesar de nós. As coisas são o que fazemos delas. (E dentre essas coisas, estou falando literalmente de tudo. Das posses e dos pertences, dos objetos, dos objetivos. Das experiências, dos espaços, dos problemas, das preocupações. Das cobranças e das exigências, das tarefas. Dos sentimentos, das pessoas. )

    Proporção e perspectiva, portanto, fazem um par bonito que nos ajuda a viver a nossa vida, a pintar o quadro de nossa existência. Ele parece nos dizer algo como “viva a vida, porque ela passa” ou “fique tranquilo, você vai morrer mesmo.”
   
    Quando temos um problema, é bom colocá-lo na chave da proporção para lidar com ele ou, realmente, até para verificar comprovadamente sua existência (que às vezes é inventada por nós). Se você diz “acho que tenho um problema”, é bom que se pergunte “ele me impede de viver, de respirar, me impede de ser inteiro, de ser feliz?”. Na maioria dos casos, a resposta é “não” - ou é “sim”, no quesito de impedir-nos de ser feliz, só porque nós o permitimos. Porque nós damos ao contratempo (que rara vez é realmente um problema)) proporção maior do que ele de fato tem. Porque nós damos a ele o poder de nos afetar.

    No caso de a resposta às citadas perguntas ser sim, um sim resoluto... Então o problema é muito provavelmente de fato um problema. Mas, é bom que, a respeito desse problema, pensemos, como um amigo recentemente me disse: “daqui a um ano, seis meses, digamos, ele estará resolvido? Dissipado? Eu ainda poderei rir disso, me perguntar por que bulhufas eu sofri? Consigo me ver um dia contando-o a alguém com um sorriso, ou lembrando disso como uma forma de aprendizado?” Se mais uma vez podemos dizer sim, então ótimo. Temos um problema. Encaremos o problema. Nós o resolveremos, ou ele se resolverá. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.

    Da mesma forma, se você se diz “quero tanto fazer tal coisa, falar com tal pessoa, mas não tenho tempo”, é bom que pergunte a si mesma “Será? Será que não tenho mesmo tempo? Será que não tenho tempo porque o ocupo com tantas coisas desimportantes que não sobra quase nenhum para as importantes? Será que eu realmente não tenho tempo, ou eu o tenho e só não o administro bem?” O tempo existe. O tempo é. O tempo está aí. O relógio anda igualmente para todos. A sensação desse andar é que é diferente, em razão de nossas ações nele. Da proporção desse tempo que dedicamos a cada ocupação.
   
    Em suma, proporção. Lembremo-nos dela como uma chave para muitos entraves, muitas fechaduras. Lembremos que tudo (ou, suavizemos, quase tudo) é questão de proporção. E que essa é uma questão que pode ajudar a responder muitas outras. A dar-lhes respostas talvez mais tranquilas, mais bem cabidas, e mais sábias.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Em busca de silêncio

     
    Silêncio.
   
    Ouviu? Está ouvindo?

    Silêncio. É uma palavra bonita, que crisma um belo som. Um som lindo e raro.

    Raro numa medida extrema que talvez não deveria. Quantas vezes a gente ouve, realmente ouve o silêncio? O som do silêncio, do nosso silêncio? Quantas vezes, silenciando tudo, todo o resto, desligando a cacofonia do lá fora, a gente se ouve? No nosso silêncio, quantas vezes a gente ouve os nossos barulhos - até que eles se tornem sons?
   
    Poucas, eu acredito. Pouquíssimas. Poucas demais para nosso próprio bem. Porque o caos nos envolve e nos engole. Porque tantas são as exigências, as tarefas que temos que cumprir, as coisas de que temos que dar conta, tantas são as gentes - as gentes, em sua mor parte, tão barulhentas - que nos rodeiam, o tempo todo... Quase ninguém consegue passar um bom tempo sozinho, a sós consigo, com seu íntimo.

    E, não raro, quando conseguimos, quando enfim temos um ínfimo tempinho para nós, quietinhos com nossa própria companhia, que fazemos? Ligamos o tal do celular e nos conectamos... Com um monte de coisas e um monte de gentes tão acessórias se comparadas à nossa essência... Nos conectamos com o mundo inteiro e nos desconectamos... de nós mesmos.

    Precisamos reestabelecer esse contato. Precisamos de silêncio, de um silêncio tão silencioso e tão particular que nos faça ouvir o nosso coração. Isto no sentido figurado, de atender os nossos anseios e desejos, de atender aos chamados do nosso eu interior (de vozinha tão suave e tímida perto da estrondosa barulheira do exterior mundano), e no sentido literal também. No sentido de ficarmos tão quietinhos, mas tão quietinhos, e tão em paz, que possamos tomar consciência completa de nosso corpo por uns instantes e nos deixemos inundar por essa consciência, ouvindo somente as batidas do coração, sentindo a vibração do pulso, o caminhar da vida circulando em nós, vermelha.

    Precisamos reestabelecer esse contato com nosso interior, esse diálogo viabilizado pela linda sinfonia do silêncio, porque a falta dele nos deixa ansiosos, nos paralisa, nos desencontra. Deixa-nos perdidos e bagunçados, apressados numa corrida cambaleante e sem rumo.

    Ao dizermos “sim” ao mundo inteiro, dizemos “não” para nós mesmos. Nos distanciamos de nós mesmos, nos desencontramos de nossa essência, já não sabemos quem somos. Se somos. Assim, quando perguntados, não sabemos vocalizar nossos sonhos ou nomear nossos maiores desejos, ou medos, porque não sabemos quais são. Não os conhecemos, porque não nos conhecemos. Nunca paramos para pensar ou, mais do que isso, nunca paramos para sentir. Nunca paramos, a bem da verdade, para (nos) ouvir.

    Precisamos de silêncio. Precisamos das energias e das ondas do silêncio para nos sintonizarmos na estação de nós mesmos. Precisamos diminuir o volume do mundo em nós, minimizar as interferências vindas do lá fora, do excesso de informação, da sobreposição desorquestrada de barulhos para sentirmos os nossos sinais. Captarmos o melhor sinal de nós mesmos, ouvirmos nossos próprios sons, os sons de nosso âmago. Para que entremos em harmonia com a melodiosa voz do nosso silêncio.
   
    “Ei, psiu!”

    Ouviu agora? Está ouvindo? Está sentindo?

    O seu silêncio está aí. Esperando, chamando, cutucando.
   
    Basta parar para ouvi-lo.
   

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Palavras em pares: entre o poeta e o romancista

                                                                      
                                     
          A palavra é uma só. Uma palavra só pode ser mesmo uma, uma única. As palavras são, em si, as mesmas, independentemente de onde estão, e como são manipuladas, empunhadas, manobradas. Entretanto, que diferença não faz justamente esse modo como são organizadas, ou bagunçadas, a estrutura, a forma, o como são colocadas aos pares, aos trios, aos grupos, às tribos...
   
    A unidade essencial do poeta é o verso. Para ele, cada pedacinho constituinte de sua obra é o verso; ele o ama, fica a venerá-lo como à sua musa, ele que é a sua menor partícula, o seu centímetro, e seu cerne. O romancista já age diverso, mede seu trabalho por linhas, não por versos. Por linhas ele o constrói, como tijolinhos, e a essas linhas o mais importante nutriente é a massa que as cola juntinhas...
   
    O verso privilegia a forma, a estética; ele é individualista, brilha mais fácil se sozinho que a linha. Para o poeta, mais vale um único verso inesquecível que uma completa antologia apenas boa. Para o romancista, em oposição, uma bela linha não é sua maior conquista, seu grande feito, porque o valor da linha, de cada uma, está em seu conjunto com outras, no coletivo do qual ela é parte, uma linha mais uma linha mais ainda outra, encarrilhadas parceriosamente, vão fazendo o romance, a prosa.
   
    A linha carrega, primariamente, conteúdo em detrimento de forma, e ela carece necessariamente de suas irmãs e filhas e cônjuges para contar sua mensagem, anunciar a que veio, sussurar seu sentido, completo conteúdo. O romancista, então, assim, como o costureiro, vai atando as linhas, pacientemente, aqui e ali, unindo os tais fios, casando com carinho suas pontas, se agulhando no processo também, de quando em quando... Tudo porque sabe que, só assim, assim e de nenhuma outra maneira, poderá estar no caminho de tecer alguma coisa boa.

    O trabalho do romancista mais se aproxima daquele do costureiro que do poeta. Este, pois, muito mais grandemente lembra aquela do escavador, do garimpeiro: o poeta é aquele que, no rio, ao léu, ou na mina, cavernosa, em sua abundância de ideias, vive a peneirar, procurar, esperar. Garimpar por uma ideia, um versinho que Pimba!, se ressalte, brilhe mais do que todos os outros, resplandeça em som esplêndido, seja marcante ao parir-se, e permaneça ao morrer-se. E, achando-o, mesmo assim o poeta trabalha: ele o morde, aperta, amassa, joga contra a parede, lhe põe provações, torce e distorce, para só então assegurar-se de que, de fato, ele vale. Ele é ouro.   

    O trabalho romancista, em contraponto, é muito menos pontual, mas não menos ardoroso. É costureiro, exigente de enormíssima paciência. De amor. Ele constrói-se só em progressão, é um processo, não um momento; tem que ocorrer em continuidade, erguendo-se devagarinho, ao passo que o do poeta é todo mais instintivo, fruto e virtude do agora, que vem e some como um raio.

    Os instrumentos são diferentes, as habilidades pedidas, mas as durações, sobretudo. Um linha não faz poema e, sozinha, tampouco faz um romance. As linhas ligadas, entrelaçadas, deitadas em junto consumo, contínuo, imparável, precisam de tempo para construírem-se. Elas se formam, devagarinho, nas vias do coração do seu autor, até ousarem caminhar a trilha dali às suas mãos, ao lápis ao papel, ao seu derradeiro lugar nele e no coração do leitor. Elas são lentas, vagarosas, pacientes, tanto quanto é o trabalho daquele que com elas trabalha.
   
    E no âmbito da serventia desse ofício, o trabalho do operário dos panos e tecidos também muito mais assemelha-se ao do romancista que ao do lavrador de versos: um romance, narrativa comprida e larga e grande, quando bem feitinha, torna-se cobertor de alma. Por um escolhido tempo, talvez uma noite, talvez várias, talvez todas até o fim, aconchega. Aconchega, acalenta, aquece, acaricia - ainda que, por vezes, possa ter também soltas e mui naturais pontas que pinicam, incomodam, inquietam.
   
    A poesia, por sua vez, toda oposicionista, é direta, desnuda, arranca violentamente qualquer cobertura. Ela não cobre nada. Ela expõe, exibe, atreve-se, entrega-se. É a expressão palavrada símbolo do grito, do escancaro, do tapa, da nudez nas mais possivelmente completas formas. É coisa que vai, ocasionalmente volta, quase sempre escondidamente fica, cuja beleza jaz em como é frágil. Na sua fugacidade, e perene efemeridade.
   
    Para o mundo ser completo, com as letras todas bem exploradas, os íntimos humanos todos bem tratados, com o necessário afago da palavra, precisamos todos de uns como de outros, daquele que maneja a linha, daquele que manobra o verso, daquele raro espírito que, habilmente, sabe exercer os dois ofícios.

    E viva a palavra! Ela que é o carrilhão essencial viabilizador de sonhos...

    Quer sejam prosaicas, quer sejam poéticas, que sejam palavras. Que sejam sonhos...
    

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Por que(m) estamos brigando - parte II

                                                                              
                                          
   Lástima, ridículo, tragédia. Choque, embasbacamento, desilusão. Creio que essas palavras sumarizam bem o que presenciamos no último domingo e as sensações que nos marcaram então - senão a todos, gosto de pensar ao menos a uma razoável porcentagem de nós.
   
    Saudades do 7 x 1? Ouvi algumas pessoas dizendo que sentiram. Preciso dizer que consegui entendê-las. Na memorável partida, vimos Alemanha versus Brasil - ou, aliás, a seleção alemã de futebol versus a seleção brasileira de futebol. Domingo, vimos brasileiro contra brasileiro. Particularmente, essa é uma de minhas maiores tristezas. É auto-sabotagem. É tolo. É, vamos e venhamos, uma mestra expressão da arte da burrice.
   
    Os tantos clamores que ouvimos confirmam o que comentei anteriormente: nós somos míopes e individualistas, uma “irmandade” toda cheia de ranhuras. “Pela minha mãe, meu pai, o papagaio e o cachorro”, “por quem me elegeu e por Deus” (será que Ele é mesmo brasileiro?) são falas sistemáticas que ilustram bem como cada um de nós pensa por si e pelo seu grupo, não pelo todo. Como só vemos o particular, nunca o geral; só o privado, jamais o público; só o “meu”, nunca o “nosso”.
   
    Como, entrando em confronto entre nós, perdemos a noção de que o bem buscado é comum e que, se fosse mais igual, beneficiaria a todos. Como, pensando em um (incerto) ganho imediato, deixamos em segundo (terceiro, quarto, último) plano o pensamento de longo prazo. Como, em clima de festa, que nos divide em times estupidamente rivais (e, francamente, parece estar insanamente celebrando o encontro do Titanic com o iceberg), nos esquecemos das consequências da bagunça e da sujeira que ela está causando.
   
    Não quero ser simplista - esta que, aliás, parece ser outra doença crônica do brasileiro, reduzir todo um conjunto de fatores complexo que explica a situação a um ou outro simples aspecto. Atribuir responsabilidades, avanços ou lambanças, de todo um corpo de pessoas a somente uma ou outra eleita para Cristo. Mas, se há uma luz em tudo isso - e eu preciso acreditar que há - é que aprendamos.

    Que aprendamos que nossas escolhas têm consequências. Que se contratarmos palhaços, eles farão palhaçadas. Que aprendamos, conforme o velho e tão sábio ditado, que a união faz a força. Que a divisão só traz fragilidade.

    Que escolhamos melhor quem estamos permitindo (pagando para) que fale por nós. (Sim, por Nós!) Que enxerguemos feitos, não discursos; projetos e ideias, não rostos e pessoais simpatias. Que joguemos no chão esse edifício todo cheio de rachaduras, apartamentos que nos dividem, e ergamos em seu lugar uma oca. Uma oca mais sólida e mais coesa, em que todos percebam que se afetam igualmente por todos os danos que a casa sofrer. Uma oca em que todos percebam que as divisões entre si não são a seu benefício, mas a seu prejuízo.
 
     Uma oca que é nossa pátria e nossa nação. Uma oca, uma terra e um país que possamos chamar de lar. De, verdadeiramente, nosso Brasil.

domingo, 17 de abril de 2016

Por que(m) estamos brigando?

                                                                               

          Em um de seus muitos livros que já li, em um parágrafo brilhante que entre eles não consegui encontrar para citá-lo aqui, Philippa Gregory empresta sua voz a um de seus personagens para fazer afirmação muito contundente: a Inglaterra do início da época moderna não era realmente um país. Era um território mais dividido que unido, onde famílias ricas e influentes brigavam entre si por ocupar o poder, esquecendo-se - ou deixando-se esquecer - da terra que administravam, do bem comum que deveriam estar buscando, do povo que das consequências de suas decisões vivia ou morria, padecia ou celebrava. Eram Howards, Tudors, Boleyns, Cromwells, Dudleys e alguns outros clãs dos quais devo estar me esquecendo. Era um conjunto de vilas e grupos comandados por eles. Não era A Inglaterra.

          O Brasil, não no século XVI, mas no XXI, sofre parecido. Podemos nos utilizar deste mesmo raciocínio para descrever a situação que vivemos. Ou não é verdade que, mais do que de quaisquer bandeiras ou projetos ou ideias, nós vemos um confronto de grupos - a bem da verdade, entre si mais semelhantes do que dissemelhantes? Ou não é verdade que somos chamados a "tomar partido", a "escolher um lado" numa conjuntura em que muito mais produtivo que trocar raivosos brados desperdiçados seria que déssemos todos as mãos e gritássemos, juntos, num único sentido?

        Ah, falar sobre isso me aborrece! Como me aborrece! Aborrece-me porque é do interesse de quem quer dominar uma massa tê-la toda fragmentada, toda fracionada, brigando entre si, servindo a interesses que não são seus, que não lhe beneficia. Porque, enquanto continuarmos não enxergando isso, não superaremos essa condição que nos mutila e nos mantém encarcerada. Continuaremos sendo pequenos porque não conseguimos pensar grande. Pensando em times, não em unidade. Pensando em lados que supostamente nos representam e, em verdade, representam o que lhes convém, no momento que lhes convém, de acordo com o que lhes convém.

          Em suma, minha posição é esta: não tomemos posição uns contra os outros. De nada nos adianta incorporar esse espírito raivoso que nos é insuflado. Sejamos o Brasil, um país. Sejamos em vez de uma horda de dissonantes acordes mal juntados em música, uma orquestra. Sejamos, em vez de uma porção de fragmentadas partes parcamente coladas, um todo. Sejamos, ao invés de uma dicotomia pobre, ao invés de vários "eu"s desencontrados, um grande "nós", um plural rico e variado e sólido, um grande coletivo singular. Brasil.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A positividade virou brega?

                                                              
   Brega. Cafona, antiquado, jeca. Fora de moda, ridículo, meretrício.

    Já reparou como a positividade e suas várias expressões têm sido consideradas assim? Ninguém pode mais acordar já vestindo um sorriso no rosto e ser feliz sem motivo sem que seja olhado como se fosse um doido coitado. Nem expressar confiança na melhora de alguma coisa sem receber um incrédulo resmungo de volta que mais ou menos diz “Aham, sei. Realmente. Acorda, colega.” Ninguém pode mais dizer algumas palavras de otimismo, de genuíno encorajamento a alguém, que logo é taxado de sonhador. E “ser sonhador” parece estar, em muitos círculos, sendo considerado brega, cafona, sinônimo de uma ingenuidade digna de zombaria e careta.

    As pessoas vivem falando das vantagens do pessimismo, de reduzir suas expectativas em relação à vida. Que não se surpreendem mais com nada porque “o mundo está indo de mal a pior mesmo”. Que “é melhor ser realista, já que estamos vivendo na realidade”. Uma mórbida apreciação por aquilo que transmite soberana melancolia, descrença, cruel e fria ironia para com as coisas parece estar se espalhando tragicamente forte...   

    Para combater isso, creio que nós - pessoas positivas, sem quê nem porquê - temos duas alternativas de argumento. A primeira é lembrar às pessoas o poder que suas palavras têm, a força de seus pensamentos. Pois, quando você desacredita em algum seu projeto, já está colocando nele seu primeiro obstáculo. Se você encara uma situação adversa (ou, realmente, qualquer situação) com olhar negativo, você de fato só vai enxergar seu lado ruim, vai ver problemas e dificuldades e empecilhos onde poderia ver soluções, desafios e possibilidades. A energia que a gente manda para as coisas tem o poder de moldá-las; a energia que transmitimos às pessoas a nossa volta tem o poder de mudar seu dia. Além, é claro, que toda ela volta em respingo ou reflexo para a gente também.

    Existe um ditado muito sábio que diz assim “quem quer fazer alguma coisa, encontra um meio; quem não quer fazer nada, encontra uma desculpa.” Creio que a maioria dos insistentemente negativos pode ser colocada no segundo grupo - a sua postura negativa é uma desculpa para sua apatia, sua falta de vontade ou capacidade de confrontar as coisas como elas são, e procurar um jeito de mudá-las. Deixar tudo como está é mais fácil. Confortável, cômodo. Mesmo que tudo esteja realmente ruim e precise urgentemente de uma repaginada. Mas a preguiça é muita, e parece mais respeitável e perdoável quando disfarçada sob o nome de pessimismo.

    A segunda alternativa de argumento é a relatividade. Tudo depende do ângulo de que você vê. Assim, se “brega” denota mau gosto, ou falta de gosto, é bom lembrar que “gosto” é subjetivo. Se “brega” é aquilo pouco refinado, que se apresenta de maneira inapropriada e cafona segundo à opinião de quem critica, então brega também pode ser, sob um diferente ponto de vista, ficar dizendo às pessoas que aquilo que elas mais querem é “pura tolice”. Brega - e incrivelmente desagradável, difícil de conviver com - pode ser aquela pessoa que sempre tem atitude derrotista para com as coisas, que é cética perante a tudo, e parece determinada a contaminar o mundo com esse derrotismo.

    Em suma, isso foi um desabafo. Desabafo de uma otimista nata que acredita na vida e nas pessoas e prefere sonhar com o impossível do que viver sem sonhar.

    Porque, gente, vamos conversar, viver é bom. Apesar das adversidades e por causa delas também. (Já parou para pensar o quanto nossa vida seria francamente sem graça sem dificuldades para fazê-la emocionante?) Sorrir sem ter porquê é ótimo, faz bem para alma, alivia e previne as rugas. A alegria pura e por si só colore qualquer dia cinza, é contagiante, irradia-se. E não é verdade que preferimos estar rodeado de gente animada, que põe a gente para cima logo que chega?

    E ah, se ser feliz sem motivo e muito de bem com a vida é brega, então que sejamos todos adeptos do brega! Eu certamente sou, brega declarada...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Gente

    O mundo é feito por muitas gentes
    Múltiplas
    Mais do que as tantas que há em nós

    Gente que passa
    Gente que dá voltas
    Gente cuja via é o retorno
    Gente que pára e somente
    Gente que caminha sem parar
   
    Gente que apenas passa
    Gente que nos amassa
    Gente que nos adentra
    Gente que nos marca
    Gente que nos lembra
    Gente que nos esquece
    Gente que nos amarra

    Gente que nos desperta
    Gente que nos desperta outra gentes
    As tantas que há em nós
    Gente que nos desperta coisas
    Tantas coisas que a gente nem sabe
    Gente que nos adormece
    Gente que é um meio-dia
    Meio noite
    Sem sombra, sem lua

    Gente que crê
    Gente que descrê
    Gente cuja mente
    Pode-se dar de comida aos porcos
    (Pobres porcos!)
    Gente cujo espírito
    Fere-se voluntário com bisturi
    Gente que é brilhante e jamais cadente
    Gente que trai o universo
    Ao não sentir nada
    Ao não ser
   
    Ah, Esperança!
    Tu que tens a solidez da pedra
    e a metamorfose da rocha
    Alumia!
    As estrelas têm suas rotas e seus períodos
    Mas não desaparecem
    (Mesmo que as escuridões mais pavoneiem-se
    E puxem para si e seus enormes buracos de vazio
    A luz refletida - irrefletida)
    Diamantes não se perfuram
    Senão por cristais
   
    Há gente que faz
    Gente que não faz
    Gente cujo feito é o contemplar
    Gente cuja qualquer contemplação é um feito
    Gente que não contempla
    A oxigenada verdade
    De que o fazer por fazer
    É o pior que se pode fazer
    Antes nada fizesse
    Só contemplasse
    E mesmo sem prática
    Algo aprendesse 

    Gente que sonha
    Gente que anda para frente, corre, pula, grita
    Pula corda, corre-cotia, dona Chica admira-se!
    Gente que abraça a vida,
    E ainda tem que ouvir que é
    “um sonhador iludido”
    Eu pergunto se alguém, por acaso, pode   
    Ser sonhador demais para seu próprio bem?

    Gente que se pressiona pelo sonho
    Gente que se impressiona pelo pesadelo
    - Que nem sonhou mas pode
    Gente que dorme um sono tão profundo
    Que não tem sonho   
    Nem pesadelo
  
    Gente que diverte
    Gente que exaspera
    Gente que desespera
    Gente que incomoda
    Gente que acomoda
    Gente que só faz respirar
    Gente que só faz aspirar
    Gente que expira
    Gente que inspira
    Gente que suspira
    Suspiro
    Clara de ovo, açúcar
    Docinho, docinho

quarta-feira, 30 de março de 2016

Por que a literatura é uma excelente professora de história

                                                                 

    “No ano de 1930, o Brasil enfrentava um quadro político turbulento...”
   
    Só por começar com “no ano de...”, o livro já perde o aluno. Afinal, no ano de 1930, sua avó nem era nascida! Está muto longe... “E se eu mal consigo entender - ou realmente quero saber sobre - o quadro político dos dias de hoje, o que faz pensar que isso pode ser diferente com aquele de quase cem anos atrás?”
   
    Nada. Sinceramente, nada. A história colocada deste modo não é muito atraente. Essa mania de passar a história como uma série de fotografias panorâmicas (de péssima resolução) postas lado a lado, seguindo a ordem de data às quais dizem respeito a torna algo frio, lonjo, empobrecido, pouco tangível, acessível, interessante ou minimamente envolvente.

    A tendência cientificizante, demasiado objetiva, que nomeia estruturas, delimita classes, elenca fatos, suas causas e imediatas consequências é a responsável por esse acinzentamento da história. Ela nos mostra o passado de forma muito diferente daquela em que experimentamos o presente. Ela nos faz perder a dimensão mais importante da história: a humana.
   
    Ela não nos deixa saber como seria adentrar um bar de outra época, se ele seria escuro ou bem iluminado, se seria limpo e por quais pessoas normalmente frequentado. Não nos diz o teor das conversas que aconteceriam ali, o que se passava pela cabeça das pessoas, no geral. Não nos informa sobre como seria o ambiente de trabalho de alguém, como ele se sentiria em sua jornada, na realização de seu trabalho. Não nos deixa entender como seria uma família de outra época, de quais membros ela seria composta, como seriam as relações e a diária convivência dentro dela. O modo como a história é “contada”, em resumo, não nos diz quase nada sobre como nasciam, viviam e morriam as pessoas em qualquer tempo diferente do nosso.
   
    Quem pode ajudar a aquecer a narrativa é a literatura. Ela pode ser um meio bastante agradável de estudar a história porque a conta de forma vívida, humanizada. Ela mostra que, como nos nossos tempos, as decisões políticas, os sistemas econômicos, as crises e as fases de bonanças do passado eram feitas e vividas... por gente.
   
    Gente que ri, gente que chora, gente que chora de rir, gente que ri para não chorar. Gente que ama, gente que odeia, gente que é indiferente, gente que não sabe o que sente. Gente que tem medos, gente que tem sonhos, gente que tem dúvidas, gente que pensa ter respostas. Gente que erra, gente que acerta, gente que pede perdão, gente que não sabe aceitá-lo. Gente teimosa, gente volúvel, gente que desiste, gente que insiste.
   
    Gente que se apaixona perdidamente, gente que se decepciona amargamente, gente que quebra a cara. Gente que tem muita sorte, gente que é azarada, gente que joga no amor e loucamente ama o jogo. Gente que não se permite o amor, gente que não sabe amar. Gente que se entrega sem pensar, gente que pensa demais e nunca se entrega. Gente que se escancara, gente que não se mostra, gente que não se decide. Gente comedida e prudente, gente que é turbilhão.

    Gente que tem pais, gente que tem filhos, que comemora conquistas e lamenta perdas. Gente perdida, gente encontrada, gente que se acha. Gente que não sabe o que fazer da vida, que não sabe lidar com a morte. Gente que tem dinheiro, gente que não tem, gente que parece que nasceu para viver sem, gente que prefere não ter. Gente que se posiciona, gente que não toma partido, gente que tem medo de se pronunciar, gente que não se importa.

    Gente que quer abraço, gente que quer colo, gente que não sabe externar seus afetos. Gente que se expressa bem, gente que se expressa mal, gente que não sabe se expressar, gente que não tem o que expressar. Gente falsa, gente verdadeira, gente transparente, gente fosca. Gente que existe, que vive intensamente, que um dia morre. Gente sendo gente, como a gente.
   
    Não é tão mais gostoso experimentar a história assim, com o tempero da humanidade, da viveza, da emoção? Como uma banheira de estórias em que queremos mergulhar, conhecer cada gotinha que faz aquelas águas? Nisso, a literatura pode ajudar.

    Aliás, mais certo é dizer que literatura e história se ajudam, mutuamente. Quem sabe da história daquela época, pode entender muito melhor o que se passa num livro. Quem já leu certo livro, entende melhor a história, estalando os dedos e sentindo o clique da compreensão de forma mais rápida e completa.

    Afinal, um desavisado que leia os livros de Jane Austen pode não entender o porquê do menosprezo discreto com o qual ela e seus personagens tratam os comerciantes de escravos para as Antilhas que atravessam de relance suas estórias. E quem já sabe sobre a época, pode enxergar com os livros algumas de suas nuances: por exemplo, a sociedade burguesa incipiente que gestava-se - no maior dos paradoxos - com mentalidade ainda aristocrática, e que assim via com maus olhos quem enriquecesse com qualquer “trabalho” que não fosse a supervisora administração daqueles que cultivavam sua terra e, sobretudo, quem falasse muito orgulhosamente sobre seu enriquecimento.
   
    E como entender mais vivamente os efeitos da Revolução Industrial que com o pontiagudo, cruento e dolorosamente realista Germinal, de Émile Zola? Ou o impacto da ocupação colonial sobre as sociedades tradicionais africanas que com o poderoso e chocante O mundo se despedaça, de Chinua Achebe?

    Em suma, não estou dizendo que a literatura é o único ou o melhor modo de estudar história que pode haver. Até porque - sei que sou suspeita para dizer - de minha parte, penso que a história é bela e cativante por si mesma. Contudo, como já disse aqui em outras oportunidades, a gente se deixa mover muito mais por aquilo que nos comove. A gente se deixa envolver muito mais por aquilo que nos envolve, que nos enlaça a atenção e acorda emoções. E é por esse seu poder de humanizar o que conta, de tocar e emocionar quem se permite adentrar seu espaço, que a literatura pode ser uma excelente professora de história.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O norte que escolhemos para nós

                                                                   

    Pela manhã, se estendermos o braço direito voltado ao sol, teremos o norte geográfico a nossa frente. A rosa dos ventos não muda conforme sopra a brisa, é fixa, de fácil compreensão pela observação dos astros em nosso enredor.
   
    Contudo, há um outro norte tocante a cada um de nós que não é de tão simples e imediata apreensão, percepção. É o norte que guia a existência, o caminho de cada dia, todos os atos e todas as omissões, todas as escolhas e todas as renúncias. O norte para onde vai nosso olhar quando caminhamos, nosso coração quando pensamos, para onde vaga nossa mente quando os olhos se fecham e dormem.
   
    Para descobrir esse norte, não basta olhar para o céu e direcionar os braços. É preciso fazer exercício é bem mais difícil: é preciso olhar para si. Quem é estrangeiro no território de si mesmo, com certeza não saberá demarcar-se norte, nem identificar e assim trilhar caminhos que apontem para ele. Quem tem medo de adentrar suas próprias fronteiras para conhecer seu interior, não pode esperar localizar-se e orientar-se bem em rota alguma.

    Pois, o norte de cada um de nós a que aqui me refiro não se encontra lá fora. Ele se encontra dentro de cada um de nós. Ele é fruto de nossas vivências e personalidade, de parâmetros que fazemos para nós mesmos, e não são dados, ditados a nós por outrem. Cada um de nós tem o poder de criar seu próprio norte, de escolher seu próprio norte, de acordo com a pessoa que é e com a pessoa que quer se tornar, de acordo com os valores que cultiva, com as prioridades que carrega, com as experiências que deseja ter ou evitar.
   
    Dentre os mais comuns possíveis nortes, creio que os mais perigosos são aqueles, justamente, que determinam-se por outras pessoas. Quem tem por seu norte, por exemplo, aclamação social, tem no seu sol a opinião das outras pessoas. (Como são muitas as pessoas com esse norte!) Tudo o que faz, o faz para agradar alguém, e é assim, no próprio ato, tolhido em sua essência e originalidade pela expectativa alheia. A consideração que tem de si mesmo, a sua autoestima, sua confiança é determinada pela consideração de terceiros, pelo instável termômetro da opinião dos outros. Seu norte o torna refém de algo que não pode controlar, algo que tem concepções indefinidas e coerência questionável, para dizer o mínimo.

    Quem tem por norte algo vazio dessa forma, perde-se de si mesmo. Ou melhor, anula sua própria existência. O seu “eu”, sua particularidade, sua identidade única e especial deixa de existir. Em semelhante situação está aquele que abstém-se de escolher seu norte, e se deixa ser guiado pelo fluxo. Aquele que voa acompanhando o bando, que veleja - aliás, flutua, à deriva - ao sabor da correnteza. Este abdica da autoria de sua própria história, declara-se voluntariamente desorientado, seguidor de um norte tão movediço e inconstante quanto são os caminhos pelos quais perambula.
   
    Quem dera fosse tão fácil a percepção dos sentidos fundamentais de nossa vida quanto é a percepção daqueles do horizonte. Não é. Contudo, é uma percepção que temos de fazer, uma conclusão - seja ela qual for - a que temos que chegar. Afinal, a vida não é mais que uma estrada, na qual precisamos de orientação para caminharmos. E quanto mais sabiamente apontarmos nossa direção, e mais firmemente tenhamos ela mente, mais decididos serão nossos passos, mais feliz será nosso caminhar.
                                                              

quarta-feira, 16 de março de 2016

O debate e o diálogo

                                                                    

   Era uma vez o debate e o diálogo. Eram uma dupla dinâmica, um par de irmãos com nomes até muito combinadamente sonoros, quase indicativos de suas personalidades. Como o jacaré e o crocodilo, a tartaruga e o jabuti, muita gente confundia um com o outro e às vezes chegava a pensar que eram uma coisa só. Ledo engano.

    O debate e o diálogo não podiam ser mais diferentes. O debate era fortão e musculoso, de silhueta atlética bem balofa, e adorava se exercitar para ser cada vez mais isso. Tinha uma veia de ator, era um pouco exibido, adorava estar na luz, sob os holofotes. O diálogo, pelo contrário, tinha um corpo suave e saudável, não gostava de artifícios de falsidade, nem de exibicionismo, portanto não tinha nem queria ter o corpo fabricado dos galanzões de revista. Ele preferia o bastidor ao palco, existia melhor ali, e não fazia questão alguma de ser o centro das atenções.

    O debate tinha mania de grandeza. Todas as suas palavras eram estrondosas, eloquentes, e ele as entregava calculada e cuidadosamente - com a voz e os gestos sob medida, as teatrais pausas e ênfases - de modo a causar com elas o maior possível efeito. O diálogo, opostamente, gostava das coisas simples. Jamais levantava a voz, rara vez exaltava-se, passava sua mensagem com a tranquilidade de quem sabe se fazer claro sem precisar de muitos brilhos.
   
    O debate era esquentadinho e irrequieto. Só a pronúncia de seu nome já tinha o poder de fazer ferver o sangue das pessoas e tornar febril sua pele. Debate! - quase parece um tapa. Ele não tinha o belo talento de ouvir e, extremamente combativo, tinha a não muito sadia obsessão de vencer. Não escutava o seu interlocutor ouvindo-o realmente, aberto a entender seu ponto de vista, mas, ao invés disso, ouvia-o já pensando na resposta que daria nele logo que terminasse de falar. Estava sempre mais intento em fazer prevalecer seu argumento, mesmo que pela força, do que em crescer com o argumento do outro, fazendo sentido dele, contribuindo para a discussão geral. O diálogo por sua vez - ouça, Diálogo, nome tão mais sereno -, não gostava de ser, como o irmão, parte de uma luta. Ele era humilde, grande, paciente, muito equilibrado e comedido, e, acima de tudo, um excelente ouvinte. Ele sabia o que era, uma troca de sentidos, e não pretendia ser mais do que isso.

    Certa vez, o debate decidiu debater com o diálogo sobre as diferenças e semelhanças que eles tinham, que as pessoas viam neles, e qual deles era melhor que o outro. Obviamente, ele se considerava o mais destacado dos dois, o mais expressivo, o mais querido, o mais brilhante. O diálogo ouvia somente, sem quase nada dizer. Quando dizia algo, era na mais fina e inocente ironia, tão inocente que o ardiloso irmão não a percebia, e assim não sabia respondê-la. O diálogo sabia de sua quieta, tímida mas suma e fundamental importância -  como a senhora Educação, escola na qual se formou - e assim resistiu sem abalar-se às vazias comparações e investidas do irmão. O diálogo não se esbaforia, não se indignava, não se perdia, não se exaltava e ao se deparar com isso, o debate se debatia. O irmão não queria debater com ele, e ele, por sua vez, não queria, não sabia dialogar com o irmão.
   
    À medida que a situação prolongava-se, os sentimentos de um e de outro acentuavam-se. O diálogo deixava o irmão falar, sabiamente, sem nem escutá-lo, sabedor da inutilidade que seria tentar trocar razoáveis palavras com ele. O debate se acalorava e se enervava e se exaltava, incapaz de entender por que suas poderosas e certíssimas palavras não surtiam efeito algum no irmão pacato. Por fim, o debate teve uma síncope e desmaiou-se, ao que o diálogo prestou-se em ajudar e buscar ajuda a fim de reavivar o irmão. Realizada com sucesso a ressuscitação, eles pediram-se desculpas e o mais destemperado dos dois reconheceu a grandeza do mais ameno e tranquilo.

    A moral da história não nos é mistério algum: os brados tresloucados do debate de nada adiantaram, só causaram aborrecimento e mal, um atrito e um susto facilmente evitáveis. O silêncio sensato do diálogo, por outro lado, lhe ensinou mais do que qualquer sermão poderia ter feito. Podemos ver que é mais pacífico, mais prazeroso, mais respeitoso, mais construtivo o diálogo do que o debate. Preferir o primeiro ao segundo, portanto, sempre que possível, não é só uma cortesia que se presta ao outro, mas um favor que se faz a si mesmo e à harmonia de todo o entorno.


"Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro." José Saramago

quarta-feira, 9 de março de 2016

Corações itinerantes

    
    Quem muito viaja com certeza vez e outra se pergunta “e agora, estou indo para casa ou voltando dela? Onde é, realmente, minha casa? Será que eu tenho uma?”

    Embora a gente saiba que em todo lugar há gente de todos os jeitos, a maioria de nós ainda parece gostar mesmo de um lar seguro. Um lugarzinho fixo, enraizado na terra, onde temos nossa referência, nosso descanso, nosso sossego, nossos amores. Uma porta que se abrirá para sempre, como um abraço, ou um colo, um ninho que tenha completo endereço, com o qual podemos sempre contar.

    Quando topamos com modos diferentes de morar, não raro nos admiramos. Afinal, tal desprendimento é para poucos, e é preciso generosa dose de coragem, força, segurança e fôlego para viver em movimento. Quando encontramos com gente que reside e ama assim, migradouramente, não raro também nos perguntamos “será que eu sou capaz disso? Será que somos todos capazes disso? Será que é apenas questão de costume?"

    Será que todos os lugares podem ser portos nos quais um coração pousa, entre os quais veleja, ou existem lugares que não podem ser considerados senão como simplesmente inóspitos? Pode mesmo haver lugares inóspitos ou só existem, na verdade, corações arredios?"

     Creio que não é possível elaborar gabarito a qualquer dessas questões. Elas são relativas. No fundo, no fundo, só cada um pode saber de si e ninguém deve presumir ou pretender responder pelo outro. Depende de costume, de personalidade, do momento que o coração vive, da disposição e vivência dele.

    De minha parte, acredito que há corações mais calmeiros e corações viajantes. Embora completamente desconheça e não consiga entender a “lógica” de funcionamento dos segundos, creio na sua existência. Creio que há, sim, aquelas bombas de sangue e de vida que não admitem portos, mas aeroportos, onde não acontecem pousos, só decolagens, e a pista de aquecimento só é prelúdio a partidas, nunca a definitivas chegadas.

    Da mesma forma, não posso conceber que todos os lugares sejam igualmente, perfeitamente acolhedores. Existem aqueles encantadores e aqueles que despertam repulsa; uns aos quais o coração se aconchega com vontade e sem esforço, outros aos quais, mesmo veementemente tentando, talvez nunca o faça. Só cada um dos corações determinará qual lugar, para ele, é menos ou mais convidador.
   
    Estão sendo estas linhas pouco conclusivas, reconheço. Estão, talvez, sem norte e sem sul, perdidas de seu ponto de partida e borrocadas nas bordas de seu caminho. Assim, só não direi que elas refletem o desnorteio das mãos que as escrevem porque mãos não se perdem. Corações se perdem e vagam, mãos só se encontram e juntam.
   
    Mando aqui, portanto, uma singela saudação. Aos corações que encontram paz quando estabelecidos, que o aproveitem. Que aninhem-se nela com todo o ânimo que queiram e tenham e não permitam que nenhum tremor se transforme em terremoto. Aos corações que sofrem, angustiam e doem na incerteza, no indeterminado, na eternidade da estrada que não parece ter destino, acalmem-se. A chegada aparecerá no momento a ela propício e certo, nem um minuto antes. Aos corações que não sofrem no movimento, que em verdade o adoram, e enxergam e ouvem e tocam nele seu lugar, seu lar... Que distribuam a todos nós sua espécie de energia áurea, e possam receber a nossa quando o combustível de seu ânimo para trilha escassear e ela chegar numa estação findoura.