quarta-feira, 7 de junho de 2017

Futebol de moleca e lição de (semi)adulta: a economia das emoções

                                                         
  
   Quando era eu jovenzinha, ou talvez nem tanto, apenas um pouco mais que agora, mamãe me cercava com olhos assombrados, coração buliçoso a palpitar no apelo de voz inteira. Ia eu futebolearme, entre outros deportes mais, e ela se preocupava. Por que vai com tanta gana? Vai se machucar desse jeito! E pode ser feio! A violência do meu ritmo, da minha entrega, lhe assustava. 

      Eu corria, trombava, dividia, passava, corria mais muito, entrava com tudo e saía com não menos que isso. Minhas energias estavam doadas, mas não me eram exauridas. Eu não tinha mesmo limites. E tampouco medo. Adentrava-me de corpo inteiro em qualquer jogo, qualquer campeonato, qualquer treino. Se não fosse para ser assim, de modo nenhum seria. E não era por cálculo: a ele desde sempre pareço não conseguir me amigar. Eu sou assim. E nunca quebrei um sequer dedo no ginásio. Mamãe não precisava se preocupar.

      Na quadra da vida, os quinhentos são outros. Ou, aliás, eles também nem tão outros, talvez agora somente um pouco diferentes de então. Ainda sou incapaz de cálculo ou parcimônia de energia. Mas não sou incapaz de sentir cansaço, nem herdei do esporte à vida a blindagem que me escudou (milagrosamente) de lesões. A entrega não se amenizou, leal ao que deve ser minha selvagem natureza, mas os machucados vieram. E suas quelóides, casquinhas e ardências trazem-me a estas palavras.

       Elas, que, porém, não se tratam com ou de lamentos. São pensares de forma e cores neutrais, espelhadas apenas a enxergar e reconhecer o que refletem. Sem a isso esquivarem olhar ou esboçarem careta.

      Eu sou assim. Ligeira a envolver-me no calor da emoção. Destreinada em poupar-me a um tempo seguinte, uma partida talvez mais oportuna e mais decisiva. E isso tanto me torna mais suscetível a danos quanto a memórias mil. Quem vive sem intensidade, eu suspeito, não produz viva lembrança. Quem não lembra rara vez de fato viveu. Ou viveu com frequência e constância uma vida lamentavelmente rarefeita. Aguada. Insossa.

      Quem não se lembra tampouco aprende. E, ah, eu me lembrarei! Muito já me marca, atestando-me intensa vivente e intensa aprendiz. Nem que quisesse conseguiria fugir do que já me foi absorvido pela esponja aluna da alma. Da consciência, agora tímida mas em sólida formação, de que certos princípios regem a economia das emoções. E violá-los causa crise custosa de vencer e austeridade desnecessária de enfrentar.

      Por exemplo, só se gasta sem limites se a reposição é pronta e igualmente contínua. Como quando eu era jovenzinha a esportear. Do contrário, cabe dispêndio sábio. Cabe avaliação de riscos. Se o risco é alto demais, e a incerteza do início ainda não deu a aprovação confiável do tempo, não é de mau gosto investir com cautela e resguardo. A intensidade não precisa atenuar-se ou esmaecer-se. Só é preciso levar em alta conta e com respeito o montante a ser tomado da receita da entrega.

      Por outro exemplo, tanto é mais saudável a transação quanto mais simétricos são os valores e as quantias envolvidas. É incomum bom e longevo resultado de relação entre partes muito distintas. É inusitado o sucesso de ligação em que a prosperidade, o crescimento - de si, do outro e de ambos - não é prioridade fundamental e igualmente considerada do empreendimento. E ainda mais singular um superávit emotivo entre lados que investem quantidades e profundidades muito díspares na construção de seu nós.

        Nossa energia é bem valioso demais para ser dissipado na imprudência, no descuido, na simples falta de uma equilibrada avaliação da situação, de perspectiva coerente do que se vive. Se do cálculo ainda me acerco com distância, a balança consigo manejar com mais crença, e mais ciência. Creio estar agora pesando o gasto das minhas emoções e entregas, avaliando o quanto elas valem e do quanto delas posso me desprender. Com o fim de tê-la o mais sempre possível num emocional favorável.

      Enfim, mamãe não precisa se preocupar. Aos poucos, a gente aprende. Estou aprendendo. Viver é como jogar bola: na arena, o coração bate forte, o corpo e a alma se envolvem, a gente se expõe a emoções de todo tipo e toda intensidade. A vitória alegra e recompensa, o empate acinzenta, a derrota frustra e entristece. A lesão dói. Mas logo sara. E o que a gente guarda é fruto da inteireza, da vivacidade, da entrega com que estivemos em quadra.

    O pior que pode acontecer são as trombadas estrondosas no meio do caminho. E mesmo da fratura a gente se recupera. Pra voltar a jogar como antes. Ou, com alguma sensatez e boa lição de economia, muito melhor que.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A praça

                                                                             
 
    É aí onde estão os patins e patinetes, correndo alvoroçados e risonhos, lambuzando-se de liberdade.

     É aí onde estão os bebês, no colo e nos móveis berços, encantando-se com as luzes do dia, os movimentos da vida e os barulhos e olhares das pessoas.
   
     É aí onde estão os avós, papeando entre si lá as suas doenças e seus remédios, os acontecimentos grandíssimos de suas vidas e da vida daqueles que amam, olhando sem inveja e com carinho a juventude juventudear-se.

     É aí onde estão os enamorados, em busca de um canto que seja a música para a melodia de algumas palavras baixinhas, o palco do singelo espetáculo de toques furtados, ou o cenário para a exibição de sua felicidade aos olhos alheios, que deles em verdade se fogem.

     É aí onde estão os papais, despreocupados de pula-pulas onde saltitam seus pequenos com a alegria colorida de toda a vida que ainda lhes é inédita.

     É aí onde estão os sós, sem laço nem melaço, sem intranquilidade nem drama, a observar seu entorno, somente e completamente estando.

     É aí onde estão as mentes, lúcidas ou desvairadas, daqueles cujos corpos vagamundam, e cujas palavras não raro teatrais e saracoteantes, longe de ferir a paz do recanto, são parte constituinte dela.

     É aí onde estão as pipocas, craqueteando-se nos gustadores das pessoas, decorando suas fileiras dentais, passeando pelo chão sempre acolhedor da praça.

      É aí onde desagarram-se as leituras, regadas pelo respiro de vida, a escuta piada do sabiá, da fonte, do cosmos humano e não humano a rebolar-se calmeiro.

      É aí onde passam e ficam as pombas, disputando os grãos e farelos minguadamente disponíveis e as hostilidades das pessoas pouco amenas, pouco escassas.

     É aí onde estão os sorveteiros e seus simpáticos gritos propagandísticos. É aí onde estão as massas de nuvens coloridas que as crianças tanto apreciam e os adultos fingem não apreciar tanto.

     É aí onde está a preguiça do domingo, a sonolência do almoço findado, o charme do roçar doce da tarde que se achega. Aí onde esperam reservados uns minutos calmeiros escapulidos da pressa da semana e dos agitos sabadisticos.

     Aí onde a eternidade da vida cabe, pouco mudada pela caminhada dos séculos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A saliência dos contornos e a poupança da verdade

                                                           

     Desde muito cedo, talvez não cedo suficiente, aprendemos a lidar com os diferentes usos públicos que fazemos do dinheiro. Por exemplo, somos instruídos por nossos pais e avós (quando louvavelmente cautos) a não fazermos espetáculo de item comprado com vultosa soma ou de alguma vultosa soma em espécie. Por segurança, para não colarmos em nós mesmos a perigosamente invejada marca da abundância. Porém, não nos preocupamos em demonstrar, em símbolos adquiridos ou em viveza de moedas, quantias humildes que são do acesso de todos, que não impressionam, não destoam do comum, não carimbam marcantemente a memória de alguém.

    Ultimamente tenho reparado que o mesmo deveria se processar com vivências e traços de personalidade, de nós mesmos e das pessoas à nossa volta. Devíamos economizar aquilo que manifestamos.

      Do que estou falando? Com exemplos, o argumento ficará mais claro.

     Já reparou que, quando algo dá certo em nossa vida, um plano ou um relacionamento, nosso primeiro impulso é contá-lo a Deus e o mundo? Queremos que quem nos ama saiba como estamos felizes, e quem nos odeia também. Queremos compartilhar nossa experiência e alegres sensações com quem nos é caro, despertar o olhar invejoso e despeitado em nosso desafeto. É nossa mais comum reação, até certo ponto compreensível. Gostamos de exercer poder sobre um outro, mesmo ou principalmente se for este o de machucá-lo, bem como de comunicar uma experiência que estamos tendo.

    Porém, mais sensato seria se fizemos o contrário. Muito calássemos, pouco falássemos. Tesouros nós são roubados muitas vezes pela informação que a seu respeito deixamos, sem querer, circular. Ou pela nossa insuportável alegria em tê-lo, que um (des) semelhante deseja para si, e tenta alcançá-la através do meio que nos causou-a, exatamente, tomando-o para si.

     Parecido ocorre com características - de pessoas ou coisas. Nossas palavras delineam realidades, com um poder de criação que barbaramente subestimamos. Elas dão contornos, inventando e criando traços que já estavam ali, mas antes indefinidos, fundidos ao todo.

   Ao dizermos a nós mesmos que somos inúteis gastadores de tempo e nada que preste conseguimos realizar, malgrado tenhamos absurda fartura dele, de fato nada faremos. Se dissemos a nós mesmos que somos plenamente capazes de cumprir o prazo desafiador que nos foi dado para certa tarefa, passaremos a obrar nessa direção e, no final, teremos cumprido com folga o limite já folgado. 

     Se dizemos a alguém que o que menos gostamos em si é seu jeito de fazer interjeições debochadas e cruéis, só o que veremos com esse dispêndio infeliz de sinceridade é que o traço se acentue e se saliente. A pessoa, que talvez nunca tenha se dado conta de possuir tais formas de expressão, passará a reparar nela e a efetuá-las. Repetir o padrão de comportamento que supostamente identificamos, replicar a realidade que na verdade estamos gestando com nosso bisturi delimitador das palavras.
  
    Uma das maiores dificuldades do ser humano é entender-se em meio ao seu caos, delinear características que é o definem em meio à sua névoa, a seu conjunto de luzes sombras, à sua metamorfose, à sua multiplicidade. Quando alguém, ou esse próprio alguém, se apresenta com uma receita, uma leitura pronta e fechada do ser, o mais fácil e quase inevitável é segui-la. É tão difícil e angustioso viver sem delimitar suas próprias fronteiras, sem assinar sua identidade, que pouquíssimos de nós contrariam alguém que faz isso por nós, por favor, por caridade. Por imprudência comunicativa, por desatino palavrório.

      Um indivíduo alcança sapiência e grandeza, assim, quando não se deixa usurpar de amores, viagens, memórias e projetos pelo desperdício imprudente de palavras. Quando sabe poupar o outro da exteriorização de um negativo julgamento, se não absolutamente necessário, porque sabe do poder de suas palavras em moldá-lo. Quando não se deixa generalizar, perdendo o que há de infinito em si ao circunscrever-se, limitar-se seguindo a prescrição de outros, se fazendo em conformidade com a imagem recortada e incompleta que alguém vê de si e congela.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A lição do valete de copas

                                                          

  Era tarde, uma agradável tarde de verão alongada pelo comprida luz natural do dia e pelo esperto horário humano que se ajusta para aproveitá-la. Eu ainda tinha lá a idade em que o grande gosto da vida era brincar junto da molecada da rua e apostar pra ver quem ia pular o muro do vizinho e enfrentar seu pouco simpático cão para recuperar a bola. Ou, quando a coragem ajudava, para roubar um punhado de mexericas que chupávamos como se fosse o néctar dos deuses e, quando sobrava, exibíamos em casa como troféus de grande aventura.

    Devia ser fim de ano, época em que a família se ajunta. Depois do café com pão e conversa fresquinha, sentamos para jogar baralho: eu, minha irmã e duas tias da minha invejável coleção delas. Cada tia parejada com uma de nós, meninas, claro, para dar um páreo bom. Lembro da ocasião com detalhe, com a viveza típica de memória de criança e de momento marcante.
   
    Certa rodada, minha mão veio com uma sequência de jogo admirável. K,Q-10,9. Rei, dama, dez e nove de copas. Faltava o valete. Quem joga buraco sabe que jogo com números baixos no contar final vale menos, acima de 7 vale mais. Fora que a carta desenhada é mais bonita que aquela só com números. Eu era uma criança encantável e gostava de ganhar. Queria o valete. Estava determinada a conseguir o valete.
   
    E fiz por onde achá-lo! Evitei lixar durante toda a rodada, para não encher a mão de muambas enquanto podia estar comprando e conseguindo o valete. Deixei passar descartes desatentos da minha irmã que completavam o jogo da minha parceira porque precisava comprar o valete. Aliás, até esqueci que tia Zinha era minha dupla, e eu precisava jogar em dupla.

    Também não prestei atenção que minha irmã e tia Lourdes foram avançando no jogo, pegando o morto e podendo logo encerrar a rodada muitos pontos à nossa frente. Nem preciso dizer que ao comprar, e seguidamente não ser premiada com o valete, descartei partes de pequenos joguinhos que se formavam, talvez um 5-4-3 de espadas. Mas eles não valiam o que meu jogo grande valia. Ou valeria, se tivesse acontecido. Se o bendito valete tivesse dado as caras. Não deu.

    A rodada logo terminou com saldo minguado pra nós. Pontuamos muito pouco, quase nada. Porque tia Zinha jogou sozinha e eu joguei fixada no fantasma do valete, o que lamentei abertamente, com direito a carranca emburrada e muxoxos variados. Não deixando passar a ocasião para valoroso conselho, minha tia-parceira se pronunciou. Perguntou se eu tinha entendido porque perdemos tão feio, e percebido que deixei passar várias oportunidades, deixei escorrer o jogo inteiro por causa de uma única carta. Que nem encontrei.

    Então, eu corei. O rosto ardeu e os olhos procuraram o chão como acontece com quem sabe que a lição cabe, é bem dada. Nunca esqueci aquele dia. Mas, passados alguns anos da minha era de moleca, de novo eu quase me peguei remoendo um valete de copas - que não era carta de baralho. Felizmente, percebi a bom tempo. E quis abrir aqui essa conversa.

    Quantas pessoas não sofrem com valetes de copas? Quanta gente não quer tanto ir a um determinado show, ou viajar a um evento específico, tão longe no futuro, que se fecha a qualquer oportunidade de diversão para poupar dinheiro para a meta e deixa de aproveitar as presenças da vida?

    Quanta gente não se encasqueta com um caminho pré-definido de carreira, um concurso, e passa batido por várias outras opções que aparecem e não raro descaradamente se oferecem, se insinuam? E deixa os anos passarem num estupor sem mesmo aproveitar a escolha? Quantos de nós não cismamos tão doentiamente com um par maravilhoso que não conhecemos mas mentalmente criamos que nem enxergamos a talvez igualmente maravilhosa pessoa que divide conosco elevador todos os dias?

    A falta de foco produz imagem de reduzida qualidade e um caminhar vagueante, de que tiramos pouco proveito. Mas o excesso de foco tampouco resulta num harmônico conjunto. Deixa borradas partes da vista que subtraem dela o seu possível sublime. Deixa a gente blindado, impermeável, ensebado de certeza e obsessão. Barrando com um escudo revestido de burrice o encanto do inesperado.

    É bom deixar espaço para o inesperado. Para as várias possibilidades. Não condicionar o olhar buscando um só elemento do horizonte. Não estreitar a visão, perfeitamente capaz de abarcar primeiro, segundo e terceiro plano, centro e periferia, com sábia perspectiva. É apenas sensato não se esconder da oportunidade ou bloquear sua aparição. Alforriar o espírito da fixidez e a vida do roteiro traçado.

    Às vezes, o universo sabe melhor que nós o que é melhor para nós mesmos. E o que visualizamos não nos convém tanto quanto aquilo que se intromete, que improvisa, que surge antes de qualquer expectativa, qualquer plano. Ou contra eles.

    Quando precisamos deles, sinais aparecem. Alternativas. O universo pode ser, se quisermos, um multiverso. Mas é imperativo nos permitirmos perceber. Tirar a venda e a anestesia que o valete de copas pode nos colocar. Cuidar para que ele não nos enfeitice para a vaziez da linha reta, acabe trancando portas e janelas. E nos fazendo perder rodadas tristonhas de um jogo de baralho, indo para o buraco...

quarta-feira, 22 de março de 2017

O orientalismo do século XXI

                                                              
        
   Minimalismo. Mindfulness. Meditação. Yoga. Silêncio da mente. Pipocas que estão estourando quentinhas no recipiente do tempo presente. Estejam seus sons despontando percebidos ou impercebidos, fato é que seu olor destila-se no ar em nosso redor com força estonteante. E os por quês de nossa avidez por respirá-lo pululam interrogantes no horizonte de quem tem mania de detetive.

    Creio ter topado com um possível ensaio de resposta.

    A vida nativa digital coloniza nosso imaginário, nosso corpo e nosso espaço. As coisas nos possuem, nós não as possuímos. Temos que ter. E temos que fazer. Não temos mais a ousadia de reivindicar o direito ao tédio. A monotonia e a contemplação rareiam, tornam-se fator de alergia que inquieta e irrita a alma da gente. 

     Estamos sendo artificialmente adestrados todo o tempo. Passamos larga porção dele em espaços condicionados, salas de cinema ou parques de diversões ou academias, que tentam simular em nós percepções e sensações que mais genuína e arrebatadoramente poderíamos sentir ao ar livre, exercendo nossa liberdade, a plenitude de nosso corpo, nossa imaginação.
   
    O horário de trabalho é o nome fantasia que batiza a mão cheia de horas que passamos por dia no local determinado de labor. Contudo, ele jamais termina. O celular acusa o email que se recebe com o compromisso que se tem; as férias são passadas planejando o trabalho a ser feito na volta; o final de semana é interditado pela possibilidade de concluir, através de dispositivos infelizmente móveis aos quais contraímos vício, pedaços inconclusos da semana anterior. Ou adiantar serviços da próxima.
   
    Não temos mais corda no pescoço ou chicote nas costas, mas a cobrança introjetada na cabeça perpetra crueldades de grandeza aproximada. O estado de alerta nunca nos deixa. A sensação do dever “devia estar estudando, devia trabalhar mais, devia estar ocupado em vez de perdendo tempo com nada” é uma ladra que sequestra nosso momento presente sem deixar sequer margem para resgate.
   
    Não desfrutamos do que vivemos, da companhia daqueles que estão a nosso lado. Nossos sentidos parecem anestesiados para às pequenas belezas cotidianas, como uma brisa acariciando as folhas das árvores ou o rosto da gente, a meninada saindo da escola em algazarra, o sol dizendo seu adeus ao céu maravilhosamente nostálgico...

    Diante de tudo isso, do frenesi, da auto-tortura, da vida passando borradamente sem que possamos de fato percebê-la... A gente pára. Felizmente, a gente pára. Repara que qualquer organismo vivo maltratado - com energias ruins ou substâncias pouco nutritivas -  sucumbe. Adoece, perde o viço e a cor, expira. Se até a máquina, que consideramos quase imbatível, se rende, murcha, cai enferma por uso abusado, exagerado, descuidado... Nós com certeza não somos menos vulneráveis.

    Venturosamente, começamos a entender que, se corpo e mente e espírito estão em desalinho, e de modo tão constante, a existência se torna fraudulenta. Farsante. Uma obrigação que nos impomos e que cumprimos mal, sem gana ou gosto, sem inteireza. Uma ação mecânica que realizamos sem presença. Por inércia.

    É neste momento, eu acredito, do tímido mas importantíssimo despertar, da consciência de si mesmo e da loucura que é a tentativa de seguir o fluxo sob a custa da própria saúde, da própria potência de viver... Que nossos olhos se voltam à sabedoria do leste. Ao oriente.

    É historicamente registrado que o exercício que por lá mais se aprecia é aquele que torneia o pensamento, não o corpo. Aquele que enleva o espírito a uma beleza transcendente, a um silêncio pleno, ao seu infinito interior, sem ruídos ou interferências. Aquele que conecta o ser consigo, e o ensina que ele é capaz de ignorar toda a perturbação que levam-no a rumo contrário. Porque ele tem toda a força em si, só precisa descobri-la.

    Esse exercício, essa filosofia de paz, nos convida ao desapego. Porque não precisamos de uma coleção vultosa de coisas ou de multidões cercando-nos, quanto fazemos boa companhia a nós mesmos, sintonizados com nosso "eu". Assim, além da correria e da cacofonia diária, das pretensas obrigações que nos cerceiam, aprendemos a nos emancipar das posses. Daquilo que mais entulha nossa vida do que a ela acrescenta. Daquilo que esconde os escombros de nossa alma, desbota as nossas emoções ou delas nos afasta. O essencial está dentro de nós. O resto é resto.
   
    O orientalismo deste momento do século XXI, portanto, creio, é uma reação. Uma adaptação evolutiva que desenvolvemos para sobreviver salutarmente à cadeia predatória da modernidade acelerada. Da ditadura das coisas. Elas que nos distraem de nós mesmos, nos engolem, nos sufocam.

    A adesão ao orientalismo é uma decisão que um crescente número de nós escolhe tomar, no lugar de remédios. É um carinho que nos fazemos, um caminho que trilhamos em busca de silêncio, calma, equilíbrio. Uma opção que, depois de ser bóia de salvamento, se torna modo de viver. Um modo surpreendentemente tranquilo de viver, mesmo nesse mundo tão tresloucado.

quarta-feira, 15 de março de 2017

O que será que seria? ou O moderno arquipélago dos encontros perdidos

                                                             
 
  Hoje, encontrei um desconhecido no ônibus. Dentre muitos com quem estive e me desencontrei, encontrei este rapaz. Estava com uma discretamente encantadora camisa mostarda, tinha óculos de moldura original que decoravam bem seu rosto viçoso de moço. Cabelo aparado com asseio, esboço de barba agradavelmente despreocupado.

    Seu chamariz principal, porém, não estava em si: ele lia Madame Bovary, cativado. À espreita, por sobre seu ombro, reli com ele as derradeiras páginas: a morte de Emma, a contemplação do cadáver, da tragédia, o fechamento certeiro com curioso sabor do inevitável. Queria abordá-lo.

    - Bom esse livro, não é?
    - Sim. estou quase acabando, mas já posso dizer que adorei.
    - Do que gostou mais?
    - Ah, não sei... De tudo. A linguagem é ótima, com suas pontadas naturalistas;  a história é bem conduzida; as personagens são densas e reais...
    - Também senti isso. É impressionante como a gente consegue empatizar com eles, embora sejam tão diferentes entre si e tão, tão imperfeitos...
    - É bom, né, quando a gente lê um livro que envolve e cujas personagens respiram, criam corpo dentro da gente...
    - Sim! Já leu Anna Karenina, ou O retrato de uma senhora? Têm o mesmo tema e a mesma concretude.

    Ele lia, absorto. Como podia, com tanto sacolejo? Mas como não poderia, com tão hipnótico material literário ante os olhos? Ele prosseguia sua leitura, eu prosseguia meu teimoso silêncio. A hesitação me carcomia o espírito, e numa manhã tão bonita!
   
    Conversava com ele, apenas mentalmente. Ensaiava o timbre imaginário de sua voz, sua insistência irritantemente correta em dizer “as personagens”, ao invés de “os”, que é o que sempre me soou mais natural e agradável... Via um simpático entusiasmo tingindo seu rosto diante da inesperada abordagem, de tom inesperadamente literário....
   
    Mas será? Será que assim será? Ele tem tanto os ouvidos quanto os olhos ocupados, afinal. Esqueci de mencionar esse detalhe... O fone é um sinal vermelho à conversa? E a fascinância que as páginas claramente lhe causam? Tenho eu o direito de quebrá-la, de me intrometer ali com meu potencial incontestavelmente menor de fascínio que a obra de Flaubert?

    Pigarrei, clareei a voz. Molhei os lábios. Está começando a ficar ridícula essa tormenta. Quero fazer isso, e agora tenho que fazer isso, ou nunca saberei o que será que seria, e serei perseguida pelo lampejo desse pensamento por dias.

    Quem não desespera com o que não foi, mas poderia? Abri a boca. Engasguei e mordi a língua. Fui empurrada. O nosso caríssimo levador automotivo cuspiu gentes, e as que restaram queriam desespremer-se. Naturalmente, fui empurrada. Arredada. De modo até gentil, é verdade. Fui separada do meu desconhecido, por muitos outros desconhecidos. O pé bateu, pisando a frustração.
   
    Não acredito! Demorei tanto pra vencer a hesitação civilizada, o limiar convencional e cerimonioso da solidão compartilhada... e quando enfim ia fazê-lo...  Fui levada pelo fluxo a voltar à ilha de mim mesma. Ao meu normal e, parece, pavorosamente inviolável retiro.
   
    Daqui a pouco mais uma leva grande de ilhas vão sair, eu posso nadar até ele outra vez. Vou dar um jeito de falar com esse moço! Agora está na janela, não no corredor, ele também empurrado pelo espetacularmente vasto e ansioso desfile insular. Mas isso não será impedimento.

    Saíram as pessoas. Fui. Abordada por uma pessoa, uma colega que não tinha visto, que tampouco tinha me visto até então. Nosso ponto é o próximo. Ai, mas logo agora! Posso deixá-la com uma desculpa e adiar minha descida. Mas a conversa adiada confinada num curtíssimo tempo não vai render. Seu começo já será terminal e eu ficarei amargando na boca a avalanche do tempo, que pagará minha indecisão com sua fuga e cobrará o doloroso tributo do não vivido. Eu ficarei amargando na boca a força da social correnteza, com sua textura acelerada, que é de uma fortaleza com a qual a individual fraqueza - o titubeio, o receio, as pequenas timidezes - não pode lidar.

    O consolo? Não somos nós, eu e o moço-leitor-de-Flaubert-vestindo-camisa- mostarda, as únicas ilhas que se desgarram pelo oceânico empurrão das gentes modernas, apertadas e apressadas, coletivamente separadas no mesmo espaço pelo hábito do cordial silêncio. Somos partes de um todo, que padece do mesmo mal do encontro perdido, e rara vez é presenteado com o respiro do encontro acontecido. Saber que não se sofre sozinho é sempre um carinho culpado que suaviza o sofrer.

     Outro consolo? O encanto não foi quebrado. De pensar que eu poderia tê-lo feito, ao abrir a boca e deparar-me com ouvidos relutantes em ouvir-me, ao tocar seu ombro e deparar-me com olhar murado, pouquíssimo receptivo à minha aproximação indesejada, penetra naquela leitura tão feiticeira, tão reservada...

     Por não ter concretizado o que o devaneio conjurou, nunca saberei de fato o que a concretude me reservaria. Se a conversa real seria mais rósea ou mais cinza que aquela que imaginei, a atitude do rapaz mais aberta ou mais cerrada que aquela que visualizei, sua voz mais calorosa ou mais fria que aquela que em matinal sonho ouvi. E assim posso brincar com a ideia do que será que seria... E deixá-la tão viva e mutante, tão bela ou tão feia, tão engraçada, ridícula ou catastrófica quanto minha imaginação desejar...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Solteirona - o direito de escolher a própria vida

 
   Uma mulher adulta sorri um sorriso que rebrilha a um só tempo a jovem maturidade e energia. Está sentada num sofá dourado, relaxada e elegante. Traja um vestido de caimento delgado e seguro. Tem numa das mãos um par de xícara e pires adornado com requinte. Esse par, juntamente a seus sapatos confiantes, o caloroso estofado, o pequeno móvel ao lado com um busto em miniatura, relógio e porcelana, sugere bom gosto, apreço pelos detalhes, e a suficiência financeira - de dinheiro e tempo - que permite desfrutá-los.
   
    Seus olhos estão fechados, no crepúsculo de um piscar. A expressão transparece o pensamento arrebatado por uma lembrança engraçada. Ela está voltada para si mesma. E, num enquadramento fechado, ocupa o centro exato da imagem. É a ela que todo olhar imediatamente converge.

    O conjunto é harmônico e agradável, mas nada específico em sua composição nos diz em absoluto que se trata de uma mulher solteira. À exceção, é claro, da mão esquerda pousada suavemente sobre o joelho em decidido destaque, no front visual da cena: seus dedos nus são a evidência gritante da solteirice.

    Como a feliz ilustração de capa, assim também é o livro. Seu foco é menos na escolha do status civil do que na escolha da vida que a autora queria para si, e sua jornada até descobri-la e aceitá-la. De modo algum uma evangelização do “jeito solteiro de viver”, a obra é um apelo poderoso e certeiro ao autoconhecimento, à autonomia das nossas escolhas face à massa de ar social que tenta controlá-las, soprando nossa vida a um lado ou outro, por vezes para longe de nós mesmos. E sem que nos demos conta.

    Kate Bolick inicia passeando por sua infância e juventude pelo carrossel das palavras de maneira agradável, confessional, reflexiva. Leve, e levemente profunda. Revisita conosco suas primeiras experiências de solidão prazerosa e de fases enamoradas, a concepção de intimidade e companheirismo de que sempre foi cercada e como ela moldou suas necessidades emocionais.

    Rumo à idade adulta, começa a perguntar-se como pode entender a si mesma, conhecer-se, tornar-se madura e independente realmente se sempre foi (e continua sendo) cuidada e acompanhada por alguém, ou vários alguéns. Seus pais, seu irmãos, seus namorados. Começa a perceber como sente falta da sua própria companhia, em regime de exclusividade, e como anseia pelo desenvolvimento de seu eu, pelo reconhecimento de sua identidade. Como, sobretudo, suspeita que esse desenvolvimento não casaria bem (casaria?) com um compromisso incondicional a uma pessoa, e às futuras pessoas advindas desse compromisso.

    Embora o mais saboroso do livro, para mim, tenha sido mesmo esse desvelo da sua trajetória pessoal - os questionamentos de si consigo ao longo dos anos de quem era e de quem queria ser, os contínuos sinais de que o script universalmente aceito para mulheres como ela não lhe cabia particularmente - isto não é o que torna Solteirona uma preciosidade.

    Seu maior trunfo, pois, é a aliança deste desnudamento pessoal à história de cinco “despertadoras” e a um exame apurado e pertinente das condições histórico-sociológicas da solteirice feminina ao longo de diferentes momentos dos séculos XIX e XX. Sim, buscando entender seus desejos em relação ao casamento, à solteirice, à autonomia, a autora procura inspiração na história - na história de certas pessoas e da sua coletividade.

    Ela encontra, ao longo dos anos, mulheres norte-americanas solteiras (e escritoras) de outras épocas cujas reflexões lhe fazem companhia e dialogam com as suas próprias. Pesquisa a progressão das condições das solteiras através do tempo, as circunstâncias sociais que propiciaram sua ascensão ou bloquearam seu florescimento, a concepção da sociedade em relação a elas nos diferentes momentos.

    A consciência de Bolick do quanto as possibilidades das solteiras do presente deve às lutas das mulheres de passadas gerações que gradualmente abriram o caminho é louvável, exata, tocante. Sua percepção de como o contexto é absolutamente indissociável do percurso individual de cada uma, também sensível e precisa. A interlocução que realiza com suas inspiradoras ao longo de seus anos e suas questões, porém, me parece a mais esplêndida luz do livro.
   
    Ela nos mostra brilhantemente a potencialidade que a literatura tem de ser amiga da gente. Amiga que ouve, que dá conselhos, que sempre tem uma boa prosa (ou poesia) para nos dar, ajudando a amaciar (ou inflamar) diferentes indagações, angústias, anseios. Amiga à qual recorremos como guia, procurando lições, uma luz quanto ao caminho a seguir. Procurando o conforto do reconhecimento, da empatia, da proximidade.

    Ademais, essa deliciosa conversa realça a necessidade de positive role models em nossa cultura, não só de mulheres solteiras felizes e de sucesso, mas de pessoas em todas as condições minoritárias, diferentes, desviantes do padrão normativo. São esses exemplos que nos inspiram, que nos fazem acreditar que é possível, que nos expandem o olhar para caminhos alternativos e muito prósperos de vida. A ausência deles, muitas vezes, encaminha pessoas ímpares, singulares, a caminhos esmagadoramente comuns - simplesmente porque elas desconhecem outros. Infertiliza a imaginação da gente quanto a futuros possíveis, a opções disponíveis, em todos os aspectos da vida. Uniformiza destinos, empobrecendo venenosa e toxicamente a nossa natural pluralidade.

    Eu precisava ler este livro. Precisava degustá-lo com carinho e gosto, como fiz. Precisava de suas páginas a tocar a pele dos meus dedos e espetar a película de minha alma, como fizeram. Precisava da sinceridade tão sutil quanto brutal de sua narrativa, que permite perceber concretamente a insegurança, a hesitação, os passos cambaleantes de uma pessoa inteligente a escolher sua vida. A delinear sua identidade, sua individualidade, no embrenhado nebuloso de si mesma, em meio à voz social que se funde e se confunde com a sua, às expectativas que fazem sombra desagradável a suas decisões e indecisões.

    Eu precisava, porém, que mais gente lesse esse livro. O mundo precisava que todo o mundo lesse, senão este livro, um outro familiar desse. Ou vários outros. E lesse com frequência, com os poros abertos, com a alma às escâncaras. O mundo precisava ser um lugar onde toda mulher tem consciência de que é mulher e, antes disso, é gente. O feminino é adjetivo, não sujeito. Adjetivos caracterizam, não definem. 

    A mulher não precisa ser um "animal útil" no lar e ao lar, se não quiser, como tantas vezes refletem as inspiradoras de Kate Bolick. Não precisa ser esposa, mãe, avó, filha, somente.  Não precisa, por outra parte, deixar de viver cada uma dessas vidas, se as quiser. Mas precisa ser si mesma. 

    Antes de existir no feminino, a mulher existe no singular. Tem o direito, e deve tê-lo assegurado, a descobrir-se indivíduo. "Eu". Um "eu" afirmado, um "eu" interrogado, jamais um negado. Um "eu" diferente de todos os outros em redor, e ainda assim deles semelhante, com eles comungando. A exercer sua individualidade. A inventar-se, reinventar-se, desconstruir-se. Conhecer-se, desconhecer-se, reconhecer-se. Existir tão simplesmente como si mesma. Ou tão complexamente como si mesma. E não precisar aceitar que qualquer outro alguém lhe diga o que ser ou deixar de ser, o que fazer e não fazer, onde estar e onde não estar.

   Quer seja casada, quer seja solteira, divorciada, ou qualquer das nuances nesses ínterins, que seja LIVRE. Livre para escolher a própria vida.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ganas

                                                         
                                                                           
    Tenho ganas de me desfazer do que tenho. De fazer o que ainda não tenho e preciso, em vez de ir à via da compra. De me divorciar das posses. De só possuir o vento e ser possuída inteiramente por ele.
   
    Tenho ganas de me desfazer do que sou. De me demitir do meu cargo. De me desenquadrar da dedicação exclusiva de mim mesma.

    Tenho ganas de trabalhar como vivem os pássaros, desconhecendo no solo morada. Flexível. Com pousos leves e partidas tão leves quanto. Carregando como única certeza a viagem.

    Tenho ganas de ter mais ganas. De sonhar mais sonhos. E mais ilusões também. A utopia para nada serve senão ao mais importante: o movimento. O encanto colorido, brilhantoso e aconchegante do imaginar engravida a alma. Fertiliza a mente. Dá luz a reais realizações. É fecundação necessária.

    Tenho ganas de hipnotizar o tempo. De torcê-lo a meu capricho e majestade. De passear por um atraso, abrir brechas em suas voltas. De cirandar à vontade. De me enveredar moleca pelo (re)aberto campo da infância e o bosque da quase adolescência. Passei mui pronta por eles, deixando joelhos com ralados poucos demais para meu gosto.
   
    Tenho ganas de evaporar calendários e ignorar horários. Ter como única urgência os pedidos e chamados do corpo. Emergência, a minha paz. Banir a pressa por decreto. Condenar o cronograma a exílio perpétuo. Ele com seu cúmplice, o planejamento.

    Tenho ganas de despreocupar da história, ou de ocupar-me poderosamente dela. De não precisar confiar, apenas, que as linhas tortas escrevem certo. De conseguir não confiar desconfiando.

    Tenho ganas de superpoderes laboratoriais. De experimentar com minha constituição, fazê-la reagir doutra maneira. Misturar minha pureza, arredar minhas ideias, demover minhas paragens. Anestesiar minha cerebral hipertrofia. Esticar as minhas asas e os meus abraços, abrir os voos para mais longe e os braços para mais gente.

    Tenho ganas de arreganhar o coração, permitindo a todos a entrada. Sem restrições, condição de idade ou maturidade. Sem esgotar as vagas, dilatando para sempre a capacidade das cardíacas câmaras. Sem respeitar o quanto comporta, o quanto descomportam.

    Tenho ganas de enxugar minhas ganâncias, enxaguar minhas gangrenas, desganhar meus ganhos, gandaiar minhas perdas, engrandecer meus gametas e minhas gargalhadas. Tagarelas minhas gagueiras, sem vergonha, glorificar minhas desditas. Tenho ganas de aprender a sabedoria de viver despegada, de tudo e de todos, ao léu da existência, guarnecida apenas e sempre de gratidão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Manifesto em favor da carona



    Eu pego carona. Dentro da cidade, de um lugarinho a outro, entre uma cidade e outra, rodoviariamente. Seja porque o céu está rugindo e não poderei fazer minha habitual caminhada sem banhar-me na chuva, seja porque tenho compromisso na avizinhada cidade, eu pego carona. E adoro.
   
    Tenho percebido reações de nada apoucado espanto e assombro quando digo isso - conto da prática que adotei e de meu prazer nela. Por isso, deixo aqui o desvelo, acorde à minha particular perspectiva, das vantagens e des- do “tomar carona”.

    Em primeiro e óbvio lugar, a carona é gentil com os bolsos. Sim, economizamos ao tomar carona, tanto o ônibus entre bairros quanto entre cidades. As caronas combinadas, por exemplo, a partir de grupos do facebook, costumam ter um preço fixo, tacitamente acordado entre os participantes, de modo a não haver abuso. O objetivo da carona é facilitar a vida - de quem oferece e de quem procura. Assim, para aqueles que viajam amiúde, frequentemente, 10, 15, reais de distância entre a passagem-carona e a passagem convencional fazem uma bela diferença.
   
    Em segundo e principal lugar, ao meu ver, as gentes. Isso mesmo. Ao pegar carona, a gente conhece gentes. Passa certa fatia de tempo confinada com elas num automotivo espaço - oportunidade ímpar para engatar conversa. O mais disfrutável, é claro, ocorre quanto as pessoas envolvidas estão em disposição conversadora - ou mais conversadora que silenciosa - e o papo flui.
   
    Além disso, a coloridez plural das diferentes flores fazem mais vistoso buquê. Em outras palavras, é ótimo conhecer pessoas fora da nossa bolha, de nossos habituais círculos de convivência e ocupação. E cada carona é uma surpresa. Pode ser uma instrutora de música que de repente canta e arrepia sua alma, ou um biólogo que pesquisa zoologia dos invertebrados numa reserva, ou uma pessoa que faz mussarela de búfalos num lugar onde a internet não chega. Ora um programador de software que trabalha numa gráfica, outrora um bombeiro aventureiro que tem modo vida viajante.

    De que outra maneira, eu me pergunto, nossas existências teriam chance de resvalarem-se, elas que se existem em paragens tão díspares, tão outras umas das outras?

    “Ah, os perigos”, podem uns e outros objetarem. É verdade, eles são numerosos. Tantos quantos seriam nos modos tradicionais de transporte. “Quem vê cara não vê coração, vai que é alguém de má índole e quer te fazer algum mal?”
   
    Em resposta a isso, eu normalmente devolvo pergunta: “você conhece todas as pessoas com quem anda de ônibus todos os dias, ou nos finais de semana? Botaria sua mão no fogo pelo caráter e as intenções delas? Conseguiria afirmar sem esboço de dúvida que está absolutamente seguro ali?

    Perigos se corre a cada instante que se vive. “Viver perigosamente”, para mim, é uma expressão pleonástica. O risco é inerente ao respirar e, mais ainda, ao movimento. O pior dos riscos, ouso dizer, é não viver.

    Pois, quem não se entrega a riscos vive tão cautelosamente, com tanta parcimônia, economizando emoções e experiências, não vive. Quem não se atreve, não se joga, não se expõe, não se permite... Não explora personalidades preciosas, estrangeiras, não se entrega a situações inéditas, muitas vezes dignas de um bom causo... Não vive.

    Vamos e venhamos, minha gente, a vida é tão mais gostosa quando somos atrevidos! E a viagem, não raro, quando pegamos carona.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Pares e ímpares

                                                                       
 
   Já Aristóteles dizia, na mui antiga Grécia, “a melhor maneira de não se conhecer é ficar a olhar-se no espelho". Ou seja, nós nos construímos e nos reconhecemos através do contraste, contrapondo-nos ao nosso diferente, observando e reconhecendo o outro, nos deixando fascinar por ele.
   
    De fato, só podemos “pensar fora da caixinha” se primeiramente a reconhecemos, identificamos sua existência. E obrigatoriamente só a enxergamos se estivermos fora dela. Ou olhando-a de dentro, atentos, porém, ao tudo o que lhe é externo. Similarmente, o isolamento não é bom cenário para o autoconhecimento. Passar mais tempo em nossa companhia, unicamente, não concorre para conhecermo-nos melhor. Pelo contrário. Assim, não temos uma boa perspectiva para miramo-nos, não nos colocamos em situações em que nos comportamentos de certo modo, pensamos tal cousa e depois nos indagamos por quê.

    Analogamente, mais efetivo é o conhecimento que tomamos de nós mesmos se estamos entre nossos diferentes que entre nossos semelhantes. Precisamos do contraste para delinearmos nossas percepções, nossa silhueta, nosso perfil.

    Não é à toa que muito melhor podemos esboçar uma definição do que é “ser brasileiro” se voltearmos pela Argentina e Colômbia do que em nosso país. Aqui, tudo é brasileiro e tendemos a generalizar comportamentos humanos como próprios do Brasil. Lá, temos parâmetro para saber o que não é brasileiro e, portanto, o que é que nos particulariza e especifica.

    Por que então preferimos a proximidade de nossos pares e evitamos a de nossos ímpares? Por que tão desconfortáveis nos sentimos na presença destes últimos a ponto de desejarmos a fuga, de sofremos já por antecipação ao ter que estar com ela? Por que fechamos de tal modo nossos círculos àqueles mais semelhantes a nós?

    Será que não sabemos mais olhar para nós mesmos, através do mais liso e preciso espelho de todos, os olhos do outro? Será, por outro lado, pela liquidez que nossa personalidade e nossas convicções não raro assumem quando nos encontramos num hábitat estrangeiro em que de todo modo queremos ser incluídos e sabemos que muito menos hostil ele nos será se lhe parecermos parecidos do que estranhos, diferentes completos?

    Será por essa sensação de que não podemos “ser nós mesmos”, falarmos sobre os assuntos que mais nos apetecem, expressar opiniões que mais genuína e convictamente temos, com conforto e sem reservas, entre nossos ímpares? Será por que é mais difícil existir sendo fiel a si mesmo com segurança entre quem nos é diametralmente oposto? Ou pelo desconforto da autopercepção, da claridade límpida em que vemos a nós mesmos no ambiente entre outrem?

    Não sei. Talvez seja por tudo isso. Mas fato é que - e eu digo isso principal e especialmente para mim mesma, já que esta é uma dificuldade na qual me identifico - grande bem nos faríamos se passássemos a reservar mais tempo e ocasião para estar entre nossos ímpares. Entre quem leva a vida de modo outro ao nosso, tem dias regulares que nos parecem fenômenos alienígenas se comparados aos nossos. Entre quem tem concepções diferentes sobre tudo e em nada se comporta como nós.

    Clarões de autopercepção e entendimento nos ocorrem nesses ensejos que muito preciosos nos podem ser para vivermos - quando sozinhos conosco, entre nossos ímpares e nossos pares.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Vivemos num mundo despalavrado?

“O olho devora tudo instantaneamente, e o cérebro, agradavelmente provocado, se acomoda para ver coisas acontecendo sem se preocupar em pensar.” Virginia Woolf

    Como um mundo com pudor de menos é dito despudorado, um mundo com palavras de menos é dito despalavrado. De minha parte, acho que ainda não vivemos um mundo despudorado. Mas já vivemos às bordas de um mundo despalavrado. Isso, para mim, claro, que sou uma pessoa muito palavrosa.

    Sim, palavrosa. Palavrosa porque me guardo e me entrego, me sufoco e me desafogo, me perco e me compreendo, me calo e me expresso com palavras. Penso em prosa. Poesia, não, porque a poesia é muito musical para pertencer aos contadores de histórias.

    Por ser uma pessoa palavrosa, o hábitat natural do meu sentimento é o romance. Por ser uma pessoa palavrosa, é muito difícil que uma peça de teatro, um filme ou uma escultura me toquem mais que um romance. Ou um ensaio, ou uma crônica. Eu não costumo me identificar com um personagem transmitido à vida por um ator, em gestos, fisionomias e movimentos como me identifico por um cuja profundeza posso acessar pelas palavras, na descrição de um narrador ou no fluxo da consciência do próprio narrador-personagem. Não sinto tanta empatia ou transferência no cinema como na literatura. E quando quero dizer algo a alguém, demonstrar o que sinto, falsear o que não sinto, fazer um apelo sempre me vem mais fácil, me parece mais exata e mais capaz uma mão cheia de palavras que, por exemplo, uma mão cheia de imagens.
   
    Talvez isso seja sinal de que minhas sensibilidades são de algum modo aleijadas, tartarugas. Elas precisam da vagareza das palavras para sentir o que alguns sentem com o disparo do toque, da forma, da imagem, do som. Talvez seja indicador de que minha inteligência, minha razão governa soberana - possivelmente despótica - sobre meus sentidos.
   
    Não sei. Só sei que fato é que o mundo - ah, o mundo! - e sua maioria parecem estar na contracorrente da palavra. E eu, agarrada às palavras, na contracorrente do mundo.

    Cada vez mais gente parece associar ver como sinônimo a pensar. Cada vez mais gente consegue canalizar o que pensa, o que sente, o que quer contar pelo áudio e pelo visual. Cada vez mais gente prefere acompanhar uma história, experimentar uma sensação pelo áudio-visual.

    E eu fico a me perguntar se isso é questão de personalidade ou de coletividade. Se cada um de nós tem um pendor, por natureza, ou se nossas sensibilidades são condicionadas ao que somos expostos. Se é coincidência que no meu tempo existam aparentemente tão poucas pessoas palavrosas ou se isso se explica porque a calma das palavras não cabe, não convém no nosso frenesi moderno. Se a entrega que elas pedem não combina mais com a preguiça que nos domina.

    Eu fico a me perguntar se nós, perpétuos palavrosos, condenados a viver em meio às palavras porque não conseguimos desaprender a amá-las... Se nós estamos mesmo em extinção. E se o mundo não tem algo a perder com isso.
   
    Afinal, a mais rasa das palavras muitas vezes dá conta da mais profunda emoção. Um par bem arranjado de palavras tem um poder imenso de tocar, de despertar, de mover. Há certas explicações que se precisa dar na tranquilidade, na demora e no detalhe das palavras. Há certas vivências cujo narrar é incompleto sem as palavras. Há certas palavras que contemplam o infinito. Há certos “eu te amo” que não se substituem sem prejuízo por um ♥.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O sucesso, o fracasso e as horas vagas

                                                              

    Às vezes, sinto que queria fracassar. Sim, queria ter a oportunidade de viver um fracasso. Mas não um pequeno fracasso, desses que colecionamos discretamente todos os dias, como o término de uma relação, ou a continuação daquela que já azedou. Não, um grande fracasso. Um fracasso estrondoso, desses que deixam a gente sem chão, ou sem casa, e que engrandecem os olhos e a língua das pessoas.
   
    Você deve estar achando que enlouqueci. Que joguei todo o meu juízo pela janela. Que devia ser mais prudente com as palavras, que têm poder, e “tomar cuidado com o que desejo”. Vai que uma hora acontece.
   
    Não finjo conhecer a sensação, provavelmente a princípio muito indigesta, muito amarga, angustiante do grande fracasso. Não finjo, tampouco, não sentir medo dessa sensação. Contudo, percebo que o fracasso liberta. E me sinto atraída pelo sabor dessa liberdade que o fracasso dá.

    Pois, quando somos uma promessa, sentimos que temos que cumpri-la. Temos que cumprir-nos. Mostrar que são justificadas as esperanças das pessoas em nossa volta, que foi certo o palpite daqueles que apostaram em nós. Ou, por outro lado, demonstrar o engano daqueles que apostaram contra nós. Queremos provar algo a alguém. Seja que estão errados a nosso respeito, seja que estão certos. Queremos provar algo, também, a nós mesmos.
   
    E quando alcançamos algum sucesso... em geral contraímos um doentio vício a ele. Estamos presos a ele, presos por ele. Passamos a viver nossa vida em sua órbita, a seu favor, a seu serviço, submissamente. Viramos escravos de nossas conquistas.

    Quem tem um ponto comercial bombando logo quer abrir outro, noutro ponto da cidade. E depois mais um. E depois outro, numa cidade vizinha. Quem se tornou capitão, quer se tornar major. Quem fez um nome, tem um nome a zelar e se torna zelador dele em tempo integral. Num trabalho que não é nada flexível.

    Quem alcança o sucesso, em geral o coloca em primeiro lugar. Deixa a vida para mais tarde, para depois. Para as horas vagas.

    Não pode ler aquele livro que quer ler há tanto tempo, que flerta consigo na estante todo dia e toda noite, porque não tem tempo ou paz de mente para isso. Precisa ler as últimas inovações de seu campo de atuação, ser um profissional atualizado. Antenado.

    Não pode fazer aquela viagem àquele lugarzinho lindo que dá um quentinho no peito ao pensar sobre porque tem muitos compromissos. Deixa de passar tempo com aquele amigo cuja companhia faz tão bem, aquele que tão perfeitamente lhe entende, que parece conhecer sua alma do avesso... porque está sempre muito ocupado.

    Ficar à toa? Tempo para si mesmo? Fica para as horas vagas.
   
    Viajar sem destino, conhecer gente interessante? Experimentar sabores e paisagens, momentos e cores lindas? Para as horas vagas.
   
    Jogar tudo para o alto, uma só vez? Passar o dia na cama? Passear com os cachorros? Horas vagas. Quando tiver um tempinho. Talvez nas férias do próximo ano.

    Viver a vida fica para depois. Para as horas vagas. Que de alguma forma parecem não existir. Desaparecem sempre que se aproximam.
   
    Por isso eu sinto que gostaria de fracassar, no sentido mais senso comum da palavra. Para viver mais. Para não deixar a grandeza das pequeninas alegrias para depois. Para não adiar os ousados e tão desejados projetos para mais tarde. A vida para as horas vagas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Palavras de aniversário

                                                                   


     Quando a gente faz aniversário, e o celebra, as pessoas costumam pedir um punhado de palavras, um arremedo de discurso. Pelos 2 anos do Pensar, que perigo!, aqui estão suas palavras de aniversário.

    É contraditório o sentimento de fazer anos. Alegre e triste, cheio e vazio, complexamente simplório. Ficamos a nos orgulhar de tudo o que realizamos em mais este ano (e na vida), a nos envergonhar de tudo o que poderíamos ter feito e não fizemos, do que não realizamos. A matutar inutilmente o que poderíamos ter feito feito diferente, ou melhor.

    A sensação de infância não se alivia quando amadurecemos. A de amadorismo, não empalidece quando nos profissionalizamos. Ai, parecemos ainda tão irremediavelmente imperfeitos e inocentes! Com tanto mais a aprender do que já aprendido! Com um despreparo para a vida (e para a morte) que só cresce à medida que para elas nos preparamos...
   
    Em alguns aspectos, porém, melhoramos. Crescemos. Quando ficamos mais velhos, em geral falamos menos, mas nos expressamos mais. E melhor. Não precisamos de palavras em excesso, aprendemos a manuseá-las com parcimônia, com cuidado. Estancamos a verborragia da juventude, que tagarela, que desperdiça a preciosidade das palavras sem medida... deixando-as jogadas desleixadamente sobre a cama, entre o abraço, nas desculpas, nas falsidades, e até nos agradecimentos.
   
    Quando a gente fica mais velho, aprende a ter mais paciência. Entende que é preciso se engravidar da ideia, do plano, do projeto, antes de sair despejando-os pelas palavras, em papel ou em ouvidos alheios. O tempo da gestação é uma custosa espera quando somos jovens. Ao crescer, percebemos que é necessário para tudo se fortalecer, madurar e proteger dentro da gente. Até conseguimos apreciar esse tempo. Saboreá-lo.

    Quando a gente fica mais velho, nem sempre aprende a lidar melhor com os outros, mas decerto consegue lidar melhor consigo mesmo. A gente se conhece melhor, sabe das próprias fases e das crises, do que gosta e do que não gosta, do que dá prazer, causa desgosto e preguiça. Sabe dos próprios talentos e das próprias virtudes, do que sabe fazer e do que absolutamente não nasceu para.

    A gente aprende a se aceitar. Desiste de se mutilar para se enquadrar na expectativa e no aplauso dos outros. Até porque, normalmente, eles deixam de importar. Percebemos que dele não precisamos. Dele prescindimos. Estamos melhor sem.

    Quando a gente fica mais velho, aprende a não fazer perguntas demais. A tomar o que a vida nos oferece, esbanjando elegante apetite, sem botar defeito. A gente aceita, entrega, confia, agradece. E o faz sem esforço, nem esperneio, sem sacrifício.

    Quando a gente fica mais velho, por fim, e tendo sido tocado pela sabedoria da experiência, faz as pazes com o tempo. Entende e aceita suas voltas e viravoltas, convive bem com sua outrora exasperante alternância entre uma lentidão morosa e uma rapidez alucinante. Passa a caracterizá-lo como amigo, não como impiedoso. Acostuma o ouvido a seus tiques e seus chiliques, ouve as lições que ele dá em seu sussurrado silêncio, as histórias que conta na nossa hora certa, sempre certa.

    Nesse mais um ano completo de existência, gosto de pensar que o Pensar, que perigo! fez um pouco de tudo isso... Falou menos, se expressou mais; se acalmou com seus projetos, consigo mesmo, com o tempo... Ah, o tempo, esse tempo levado... Nem me deu tempo de planejar um festejo mais bem escrito desse feliz e orgulhoso aniversário...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A importância da convicção



“... nos parece que o mais importante reside na sinceridade e na força da própria convicção... e o resultado está nas mãos do destino. Só o destino pode nos mostrar se lutamos contra espectros ou contra inimigos reais [...]. Nossa tarefa é armar-nos e combater.” Ivan Turgêniev

“É o que eu digo, a gente sempre duvida se o que faz tem algum sentido. Daí decorre em grande medida a nossa fragilidade.” Rosa Montero

    Um grande perigo da vida da gente é o não acreditar. Da gente eu digo, principalmente, quem tem o triste pendor a pensar mais do que devia ou a ser exageradamente permeável às estupidezes alheias.
   
    Muitas vezes, vivemos situações em que ouvimos, de nossos peçonhentos pensamentos ou de outras peçonhentas pessoas, às ocultas ou às escâncaras, que o que fazemos não é útil. Que toda a gente pode prescindir do que fazemos, que nossa existência não é necessária, que aquilo que mais amamos e ao qual dedicamos nossas vidas é plenamente supérfluo.
   
    E o pior de tudo é que, às vezes, acreditamos. Somos balançados em nossa crença no que fazemos. Deixamos de responder às insensíveis ofensas das pessoas porque não temos argumentos bem formulados nem para convencer a nós mesmos nesse respeito, quem dirá a elas.
   
    Em nosso íntimo, temos a certeza, que mais se sente do que se explica, de que o que fazemos é importante, mas não sabemos exteriorizá-lo em racionais palavras, não sabemos fazer esquemas de explicação. Não conseguimos defender nossa causa e isso nos abala.
   
    Esta pode ser a nossa perdição. Isto pode ser a tesoura que poda um gênio ainda germinando, a lâmina que corta uma pulsante existência ainda amadurecendo. E o contrário disso, a crença firme e convicta, de uma fidelidade canina e religiosa, antes da alma que da mente, é frequentemente a chama que alimenta a vida e faz arder todo o potencial, o motor que inspira o sonho e propulsiona a obra.
   
    Acima de tudo, antes de mais nada, mais primordialmente que qualquer coisa, é preciso acreditar no que se é e no que se faz. E não admitir que alguém desacredite. Não permitir que se insinue a necessidade de justificação. Seguir, dia após dia, com paciência e com fervor, munido de paz e inflamado por ganas, sendo o que se é e fazendo o que se faz. Por, principalmente, dois motivos:

    Primeiro, porque jamais saberemos realmente se o que fazemos é mesmo importante. Se somos essenciais ou acessórios, marcantes ou absolutamente passageiros. Só a distância do tempo e da ampliada perspectiva dirá. Só o olhar de cima. Só o véu da posteridade.

    Dom Quixote lutou contra gigantes disfarçados de moinhos de vento; Hamlet, contra fantasmas. Para ambos, seus inimigos eram reais, e isso os fez existir. Quem de nós pode dizer que suas lutas eram fictícias e inúteis?

    Quem de nós ousa decretar ao outro que o que faz não importa, não move, não inspira, não contagia, como se houvesse critérios objetivos para avaliá-lo, parâmetros concretos e exatos para medi-lo?

    Segundo, e o tenho dito repetidamente porque cada vez mais nisso acredito, não podemos ir contra nossa natureza. Isso é tão tolo quanto, ao imaginar uma história, querer que um personagem loiro se torne moreno no meio do caminho.
   
    É tão vão e tão estúpido quanto tentar transferir um peixe de água salgada à água doce. Em poucas horas, ele morrerá. Sendo incapaz de modificar seu novo ambiente, de moldá-lo a si ou de moldar-se a ele, dentro em pouco expirará.
   
    Só é possível viver como si mesmo, e não tentando ser nenhuma outra pessoa. Só é possível fazer, extraordinariamente ou apenas bem, o que cabe à sua natureza. Estamos, todos e cada um de nós, condenados perpetuamente a ser quem somos. Cumprir essa pena, aproveitando-a ao máximo, em sua delícia e em sua dor, é nossa única e mais sábia opção. A fuga só existe na morte.

    Assim, seja qual for o nosso ofício, a nossa arte, a nossa paz e ao mesmo tempo a nossa guerra, armemo-nos. Acreditemos. Tomemos nossos instrumentos, enchamos o peito de ar e confiança e vamos à luta. É nosso caminho, nosso inferno e nossa salvação. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

A contemplação do escravo

                                                               
                                                                
    A conjuntura política atual de nosso Brasil, ao contrário do que muitos dizem, não é complexa - no que tange à dificuldade de seu entendimento. É simples. Assim como é simples, bem simples mesmo, a compreensão da opinião pública maioritária em respeito à esta conjuntura.

    Não, as pessoas não estão sofrendo um surto de esquizofrenia coletiva, de visão alucinada da realidade. Na verdade, estão sofrendo de algo parecido, mas que não se deve a um problema psíquico e sim a um desvio de perspectiva, estimulado pela mídia que a alimenta e a quer mansinha, adestrada. Estão sofrendo da síndrome do escravo que se contempla pelos olhos do amo.

    Em outras palavras, sofrem por não reconhecer sua posição oprimida. Afinal, esses escravos (a classe trabalhadora brasileira) são da casa-grande, têm liberdade de trânsito dentro dela, um trabalho leve que começa antes do sol e com ele não termina, têm roupas que cobrem seu corpo e o mínimo conforto negado a outros. Têm muitas vantagens se comparados aos escravos-mais-escravos da lavoura, que têm um trabalho pesadíssimo, coitados, não tem direito de morar bem, comer e viver como eu. Eles, sim, são escravos.

    Sofremos, em suma, da síndrome do escravo que, por sofrer menos que alguns outros de seu mesmo status, não se considera escravo. Apenas um criado sem direito algum, que não é pago e pode ser vendido.

    Esse escravo que não se vê como tal não só apoia como aplaude medidas que o oprimam ainda mais. Admira os modos dos senhores e tenta arremedá-los, pois se imagina praticamente um deles. Não enxerga por que alguns de seus semelhantes (escravos) estão insatisfeitos e ousam reivindicar. Não só discorda da atitude de seus protestos mas tenta sabotá-los, e muitas vezes consegue.
   
    Está no fundo do poço, é chicoteado por sua realidade seguidas vezes, sob o véu do disfarce, e ainda assim sinceramente acredita que as leis dos senhores estão certas, têm razão. Os escravos (entre os quais ele não está, é claro) são sujos, podem muito bem passar sem as regalias que andaram negociando a custo, suportam tranquilamente mais algumas horas de trabalho, já que as catorze diárias são leves, deixam até tempo para vadiar antes de dormir. Suportam também algumas centenas de gramas de comida a menos, porque comem muito.   

    Já é hora de a classe escrava do Brasil de hoje libertar-se dessa dissociação e enxergar-se em seu lugar, em sua condição. Já é hora de deixar de lado essa aspiração sonhadora a ser o que não se é, esta vivência autoenganadora como se fosse o que não é e situar-se no mundo, arrasador e difícil como ele está.

    Situar-se ativamente, tendo clareza quanto ao muito precário e precarizado espaço que ocupa e a necessidade de armar-se até os dentes para lutar por seus interesses, por si e pelos seus.

    Pois, os nossos dominantes - dominantes para dentro, dominados de fora - como já bem disse Eduardo Galeano, já o fazem e muito bem.


Imagem: Execução de castigo de açoite. Negros ao tronco. Jean-Baptiste Debret.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Perfumaria

                                                               

Tanto me acusam
De perfumeira
De boticária
História afim

Pois eu não tenho
Avental fresco
Máscara velha
Luva marfim
Meu uniforme
é muito outro
é desnudado, é literário
escritartista
é aguerrido

Em conteúdo
Tenho fragrâncias
Tântras ao cheiro
Pura mistura
Lindezas mil
Muito me alegra
Mais que a tristeza
Tanta beleza
Que aspira ao fim

Fim das mazelas
Fim das tragédias
De todo dia
Tão desiguais

Fim das surdezas
Fim dos mutismos
Fim dos tampões
Viva aos motins!

Mais que o debate
Tanto me bate
Um outrossim
É a gastura das cem palavras
Sem meio ou fim
É a eloquência
De tantos gestos
Num teatrado
Vazio tinto
Falácia ao sol

Quanto mais vejo,
Quanto mais ouço,
Mais acredito
nisto que digo:
Perfumaria
Mui formidável
E mais do que isso
Essencial

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Personalidades centrífugas e centrípetas

                                                                      

     Esta reflexão pariu-se na conversa com um amigo. Portanto, embora torneada em palavras por mim, talvez seja de autoria compartilhada.

    Quanto ao comportamento para com o outro, creio que podemos ver duas tendências gerais: a personalidade centrípeta e a personalidade centrífuga. Como já assinalam os adjetivos, uma é orientada por e para si; a outra, por e para fora de si.

    A pessoa de personalidade centrífuga é aquela que prefere levar calote a deixar o outro em prejuízo. Aquela cuja convivência consigo mesmo se torna um tormento quando fez - ou imagina ter feito - algum mal a alguém. Ela não suporta o sequer pensamento de ter se portado de forma descortês, indelicada, menos que exemplar para com outra pessoa - seja ela bastante próxima ou relativamente distante, estimada ou apenas conhecida -, nem de que lhe saíram dos lábios algumas palavras espinhosas por extravio. Ela mói e remói o sucedido em pensamento, repetida e excruciantemente, e de pronto procurará modos de fazer reparação.

    A pessoa de traços predominantemente centrífugos por vezes contrariará a própria vontade para apaziguar ânimos, satisfazer ou consolar a outrem. Se colocará em situações desagradáveis para si a fim de agradar, ou não desagradar, alguém. Perderá um jogo qualquer - e também um que muito lhe importe - só para ver o sorriso brilhante no rosto de quem nunca vence, desaguando sua paixão em compaixão, ou gentileza, o ponto de vista dirá.

    Terá grande dificuldade de superar relacionamentos findados, amores ou amizades incorporadas ao domínio do passado. Afinal, ela se importa com o impacto que as pessoas têm em sua vida, não só, mas também e principalmente com o efeito que ela tem na vida das pessoas. Assim, a menos que consiga convencer-se de que fez bem àquela pessoa de quem se apartou, ajudou-a a evoluir dalgum modo, deu-lhe alegrias e momentos gratos dos quais se lembrar, ela não estará em paz. Não passará a página.

    Por fim, quem tem essa maneira de ser tem também, pela minha percepção, uma dificuldade extra ao procurar por e encontrar, digamos, sem drama ou eufemismo, o sentido de sua vida. Aquilo que lhe motiva e encanta. Pois, não lhe basta a sua própria realização e satisfação, não lhe basta que algo lhe agrade, somente. A pessoa de orientação centrífuga precisa sentir-se útil, precisa servir, ter sua importância ao outro - ou não se sente digna de sua felicidade, das oportunidades e dos retornos que tem.

    Tudo isso opostamente ao indivíduo de tendência centrípeta. Ele não se importa demasiado em levar calote, se ele não o deixa completamente destituído e se o aborrecimento do processo da recuperação não valer o prejuízo. Tampouco, se martiriza, tortura ou cobra se por ventura aflige perdas a alguém - no âmbito financeiro, relacional, emocional... Pois, não o fez sem uma boa razão! Acredita que a lástima imposta ao outro é preferível à lástima imposta a si mesmo, e a primeira não se pratica gratuitamente mas para própria proteção.

    No tocante ao seu comportamento em relação a outrem, tampouco é o caso em que imponha tristezas, pratique indelicadezas ou rejubile-se em tratar mal, mas que seja simplesmente indiferente. Em lugar de ver em cada pessoa alguém de muita importância por sua simples existência, como seus contrários centrífugos, o indivíduo centripetamente dirigido vê cada outro com igual imparcialidade, até que algum deles mostre que vale sua parcialidade. Ele não dispende sua energia, cortesia ou atenção com ninguém gratuitamente. Ele as investe naqueles que mostram dignos disso, com quem considera ter afinidades, ou poder vir a ter algum tipo de relação significativa. Interesseiros, podem chamá-los alguns, sábios utilizadores de seu tempo e suas atenções com parcimônia, outros.

    Fato é que, se sua conduta respinga negativamente em alguém, essas pessoas em geral nem o notam. O que pensam os outros dela, como ela os faz sentir, como reagem à sua presença... Isso nem resvala as esquinas de seus olhos, menos ainda os recantos de seu espírito.
   
    Fato também é que a pessoa de personalidade centrípeta está em posição que se machuca menos se comparada àqueloutra centrífuga. Suas cicatrizes decorrentes de relações chegadas à sua estação final não carecem do outro para sarar; a motivação de seus dias e sua vida dispensa o atendimento de necessidades alheias para justificar-se. Ela se basta. Ela nada faz para agradar o outro, e não lhe molesta em nada que desagrade - impossível agradar a todos, impossível não machucar a alguém no meio do caminho! Crê que deve estar em paz, bem resolvida e plena consigo mesma para poder prestar qualquer serviço ao todo, e assim não vê razão em buscar utilidade imediata e visível na sua existência para outros, mas prioriza seu próprio bem estar e satisfação. Estando bem e satisfeita, afinal, ela já está prestando um favor à humanidade!

    Quem é melhor, caro leitor? Quem é mais feliz e mais admirável? Logicamente, gabarito mais preciso não poderia haver! Entre centrífugos e centrípetos, menos bons, felizes e admiráveis são aqueles que, ao olharem para si, não se enxergam como são; ao se enxergarem, não se aceitam, tentam tolamente fugir de si mesmos, agir em desacordo consigo - o que é inviável. Melhores, mais felizes e admiráveis são aqueles que enxergam-se com simpleza e claridade, aceitam-se, vivem afinados com sua essência tentando ser o melhor que podem.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Desligando: uma experiência de sociabilidade

                                                                             

    Dia desses, uma percepção atingiu-me arrabatadoramente. O senhor leitor pode surpreender-se com o quão óbvia ela é. Mas eu diria que sua obviedade é parte fundamental do pânico que me causou.
   
    Atentei, num desses clarões de entendimento que nos chegam sem convite ou aviso e nos deixam atarantados, para o tanto de perguntas que eu fazia quase diariamente às ferramentas de busca na internet nas várias telas ao meu redor. Que horas passaria o ônibus para tal lugar, ou que direção eu precisava tomar para chegar em outro a pé. A previsão do tempo para aquele dia, os recintos da cidade em que procurar por tal produto ou tal serviço, a avaliação maioritária do estabelecimento que abriu mês assado. A recomendação de um livro para ler agora, um CD para embalar meu tranquilo final de semana.
   
    Ora, não são essas todas perguntas que eu poderia fazer para pessoas ao meu redor? Gente de verdade, de carne e osso, que me responderia com um sorriso surpreso à indagação ou uma voz alegre, que contorceria o rosto em concentração para pensar numa resposta e seria tímido e medroso, que me daria um gentil aceno de cabeça em retornou ao meu agradecimento e ficaria contente por ter tido a chance de ser útil a alguém.
   
    Perturbada por essa percepção e por pensar no que eu estava perdendo substituindo pessoas por telas, resolvi emendar-me. Fiz o experimento em um inteiro marcante dia de abordar pessoas - que estavam aos montes em minha volta naquela fervilhante segunda-feira - para fazer-lhes quaisquer perguntas que me ocorressem ao invés de buscá-las na internet.
   
    Foi uma experiência mais que adorável. Abordei várias pessoas ao longo do dia, em diferentes lugares, escolhendo sempre aquelas que mais abertas se mostravam ao contato. Sem fones de ouvido ou sequestradores similares de atenção, sem expressão grave ou emburrada ou compenetrada, sem aquela pressa maníaca que não raro adoenta gentes por aí. Abordei completos desconhecidos, sempre tentando aliar certo grau de polidez à conversa casual.
   
    Com algumas pessoas, a conversa fluiu para além da inicial indagação. Descobrimo-nos vizinhos e compartilhando opiniões e gostos, trocamos contatos. Com outras, a interação cessou com a resposta ao perguntado, talvez por reserva ou timidez, talvez por uma incompatibilidade natural mesmo, sentida pela poderosa via da intuição no muito breve átimo que precisamos para percebê-lo.
   
    Ora fui recebida com muito calor e admirada curiosidade, ora com receio e distância, ora com franca e indisfarçada estranheza pela ousadia. Algumas vezes, fiquei até estonteada pelas tantas sugestões e possibilidades  oferecidas à minha inocente interrogação. Noutras, a pessoa também não sabia o que eu perguntava e recorria ao recurso virtual. Nessas ocasiões, eu procurava enxergar a positividade da coisa: estávamos interagindo no plano real da existência e juntos fazendo passeio pelo plano virtual, mirando a mesma tela.

    Se a percepção que me agonizou e provocou-me a este experimento também se verifica em você que me lê, recomendo que tente fazer algo parecido. Nem que seja só por um dia. Você pode se surpreender com a receptividade das pessoas e descobrir que abordá-las e conhecê-las é muito mais fácil que difícil, muito mais gostoso que custoso. Basta deixar de lado a internet um pouquinho e tomar a iniciativa da abordagem, de preferência portando um sorriso como cartão de visita. Basta dar o primeiro passo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O temperamento das ideias

                                                                             

   Publicitário, escritores, compositores, artistas de modo geral sabem o quão ardiloso é o temperamento das ideias. E que lindo é o desafio de trabalhar com ele - desafio que pode transformar-se em delícia ou em tormento, dependendo de como for trabalhado.
       
    As ideias são assim... indisciplinadas. Anticapitalistas. Não sabem trabalhar batendo ponto. Têm um parentesco com o modo vulcânico de ser, na medida em que podem passar longo tempo adormecidas, aparentemente falecidas, e também entrarem em atividade inesperadamente, de modo intenso e quase incontrolável.

    Apesar de indisciplinadas, elas não são indisciplináveis, como os vulcões. Há certos jeitos de lidar com elas que fazem-nas mais comportadas, regulares até. De fato, as danadas são ariscas, caprichosas, escorregadias. Mas não são indomáveis. A meu ver, a abordagem que deve ser feita com as ideias não é muito distante da conquista, da sedução. Temos que seduzir as ideias.

    E seduzir, sabemos, não é sinônimo de correr atrás de. Pelo contrário, quanto mais permanentemente insistentes somos, mais esquivas as ideias se tornam. Quanto mais fixamente pensamos nelas e mais fixadamente as rodeamos, menos interessadas elas parecem estar em acercarem-se de nós.

    Por outro lado, é claro, se nada fizermos, nada conseguiremos. É preciso ter atitude. Mas qual atitude? Preparar o terreno, agindo carinhosa e cautelosamente. Em primeiro lugar, mantermo-nos de bem com a vida, de bom humor, com o espírito leve, distraído até. Afinal, quem quer fazer companhia a alguém preocupado, tenso, sisudo e mal humorado? Ninguém, nem mesmo as ideias. Assim, aborrecer-se porque elas não vem, xingá-las ou àqueles à nossa volta não é um meio inteligente de atraí-las. Pessoas ou ideias. Isso as bloqueia, as afasta.
   
    Em segundo lugar, alimentar-se bem, no sentido literal e principalmente no figurado. Nutrir-se ricamente de elementos próximos a ela, referências relacionadas. Isso nos estimula e as atrai. Pois, embora não estejamos pensando nelas diretamente (o que é um erro fazer com insistência) estamos com ela no fundo, ou no canto de nossa mente. E estamos recebendo nutrientes que, batidos no nosso liquidificador mental, aos pouquinhos ou de repente, podem fazer surgir uma ideia. Ou ser o substrato rico que ela carecia para florescer.

    Quando enfim atraímos uma ideia que vale a pena e vemos que ela se encaminha a nós... Ah, é uma alegria que entorna! Contudo, não podemos ser ansiosos com ela. Por descuido, distração ou negligência, ela se vai. Toma chá de sumiço, foge, desaparece, despeitada. É preciso cuidar-lhe com afinco. É preciso ter paciência com ela, que, quando muito verde, fresca, imatura, toma ares de adolescente.
   
    Queremos acariciá-la, e ela não deixa. Queremos conversar, e ela não diz palavra, nem parece escutar. Faz um silêncio irritante, atrevido, de birra. Empaca, faz greve. Se vamos lhe dar um conselho para que melhore, então, vixi... Aí é que a perdemos de vez.

    Outras vezes, como criança pequena que teve pesadelo, ou jovem que percebe o quanto é frágil e precisa de ajuda para crescer e evoluir, ela sobe mansinha à nossa cama, querendo aconchego. Sim, não raro, a melhor solução é dormir com a ideia. Deitar com ela, fazendo-lhe pegar no sono serenamente, ninando-a... E levantar com ela, olhando-a nos olhos. Dando-lhe um bom dia transformado, seguro e forte.


    É... Conviver com as ideias, tê-las como necessárias colegas de trabalho... Não é mesmo fácil. Seu temperamento é dos mais capciosos. Mas a jornada de conhecê-lo e lidar com ele, nas diferentes fases do conhecimento e da aproximação... Também é das mais saborosas.