domingo, 30 de outubro de 2016

Redes sociais, diários digitais?

                                                              
 
 Muito tenho ouvido discutir ultimamente sobre o potencial memorialístico das redes sociais. A revolução digital, argumenta-se, que está mudando radicalmente nosso modo de ascender ao conhecimento, de nos relacionarmos com os outros e consigo, com o tempo, também altera a forma como construímos lembranças e registros.
   
    Não o contesto. Os registros nas redes são sim um modo de erigirmos memórias e nos relacionarmos com o presente e a perspectiva de posteridade. De fato, eles podem revelar ao olho atento e interessado círculos de sociabilidade, lugares frequentados, hábitos, comportamentos e formas de pensar, momentos escolhidos para serem especialmente guardados - ou compartilhados. Contudo, há fatores que devem ser levados em conta antes de se considerar a sequência de postagem pessoais de alguém seu depósito de memórias, através do qual se lê sua história.

    Em primeiro, é preciso enxergar a dimensão pública que a vida privada mostrada ali ganha. Ou seja, a presença do outro, ou de vários outros, a tudo ver. Isso é fundamental. O fato de que sabe-se que está sendo observado faz o postador adequar-se a isso. Talvez acrescente um comentário que catalize a visível popularidade/aprovação de sua postagem; talvez deixe de registrar uma vivência que não deseja entregar à vigilância virtual; talvez omita preferências, gostos, opiniões que sabe que serão pouco apreciados ou muito depreciados ali. Inclusive, a seleção das marcantes ocasiões exibidas e o modo como o são por vezes não dizem tanto respeito aos momentos em si ou à importância que eles tiveram ao vivente, mas ao potencial deles enquanto ícones promotores de quem posta aos olhos alheios.
   
    O tempo todo nas redes, percebo, existe uma competição de aparências (fabricadas). Uma ansiedade suscitada pelo constante estado de patrulha que a corrida das aparências provoca. Eu invejo e quero ser invejado, de uma inveja vazia que se gera a partir de impressões ilusórias que as pessoas deixam acerca da própria vida.
   
    Ademais, o veículo principal das novas memórias - a foto - tem seus limites e seus perigos enquanto contadora de histórias. Afinal, ela é o sequestro de um instante de sua natural efemeridade, a cristalização imagética de um átimo. Sendo assim, não conta nada a respeito de como se sentia a pessoa fotografada naquele momento, qual era o contexto dele, a história daquela vivência.

    Por vezes, se está sorrindo quando, na verdade, está se sentindo miserável. Por vezes, excede-se numa algazarra pelo simples prazer dela, da molecagem, pelo embalo muito natural da farra, e se é eternizado num feixe de imagem, ou de interpretação, como um babaca, fazendo algo que ganha conotação muito diversa da inicialmente pretendida e vivida. A leitura estreita e imediata que as imagens compartilhadas pedem e permitem faz parir interpretações equivocadas. O manejo incauto, descortês e antiético da imagem de alguém por outrem por vezes envergonha, cola estigmas, sela tóxicos rótulos de modo quase indelével.
   
    Por fim, há de se contar com a aceleração do tempo provocado pela experiência digital. Montanhas de memória são nessas plataformas produzidas todos os dias. Desde um evento inusitado que se presencia na praça, um protesto no qual se toma parte, passando por aquilo que se está lendo no presente, até o novo corte de cabelo e o que se toma no café da manhã são não raro registrados. Como quase tudo é eleito para ser eternizado, perde-se o critério de filtragem, a seletividade. O que é realmente importante? O que foi mais intenso, o que foi mais marcante? Quais foram os eventos chave daquele período de tempo vivido?

    Nesse frenesi, a vida acaba ganhando aspecto de borrão, em que não se distingue pontos ou linhas ou formas com nitidez. Nesse frenesi, o quadro de nossa existência perde a mínima organização de cenas, diálogos, pessoas que figuram em primeiro, segundo e terceiro plano. Tudo se uniformiza e se perde, esvaído num esquecimento que anseia mais por criar novas lembranças que por manter as velhas, e assim funciona como um cofre furado.

     Portanto, pergunto: será que os ambientes sociais virtuais são mesmo como nossas novas dispensas de memórias? A nossa história está sendo conservada ou dissipada ali? Até que ponto são as redes sociais os modernos álbuns de lembrança ou os modernos vales de esquecimento?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A arte do improviso


    Sabe, algumas coisas que nos ensinam na escola - ou o modo como nos ensinam - podem ser de grande valia para nos fazer pensar. Eu me lembro como, em química e física, a maioria dos cálculos nos fazia ignorar quaisquer possíveis poréns. Tomávamos a força da gravidade como 10 m/s2, porque com o número arrendondado tudo ficava mais simples. Ignorávamos forças de atrito, resistência do ar e similares. Para trabalhar com gases, volumes e afins, a orientação era sempre tomar como base as CNTP - condições normais de temperatura e pressão - ou seja, um cenário ideal para a situação, completamente blindado de interferências indesejadas, naturais oscilações e imprevistos. Em outras palavras, somos chamados a trabalhar num quadro desprovido de realidade.

    Na vida da gente, não raro pensamos assim também. Fazemos nossas escolhas pautados em cenários imaculadamente regulares, lisos e suaves que engendramos mentalmente - com frequência ignorando obviedades ásperas, amarrotadas e cheias de arestas que se apresentam a nós na real. Planejamos viagens magníficas, para um terreno plano por inteiro e um dia de sol generoso e constante, e somos desnorteados e mortalmente desapontados pela surpresa de uma chuva fina, um vento caudaloso e um chão ondulado. Treinamo-nos com antecedência e esmero para um espetáculo, nos preparando para dançar tango, e a vida vem, risonha e sem vergonha, nos convidar para um frevo.
   
    E aí? O que fazemos? Estamos despreparados, não é mesmo? Antecipamos algo completamente diferente do que o que nos aconteceu, planejamos numa esfera mui distinta daquela em que as coisas de fato tomariam lugar - o terreiro da concretude, da prática existência. Falhamos em contar com o inesperado, o imprevisto, as necessárias intervenções da imperfeita e caprichosa Realidade.

    Mas não adianta choramingar nossa falha previsão, nem espernear porque ela não se concretizou. Não adianta ficar desejando que nossas expectativas fossem melhor atendidas, que tudo não acontecesse como aconteceu. A Realidade é uma deusa que ri de nossos esbravejos e tem tanto mais acentuada sua natureza volúvel, inconstante e instável quanto mais metódicos e ritualísticos e contínuos somos em nossa relação com ela. Fora que a vida vai passar enquanto lamentamos, emburrados porque tudo não se deu na exata reprodução de nosso estéril e não raro impermeável laboratório mental.

    Capitular, portanto, é o que não podemos fazer. Precisamos fazer o magnetismo da vida nos puxar ao solo, mesmo que ela suceda numa torrente de novidades que queira nos tirar do chão. Precisamos resistir. Precisamos improvisar. Precisamos nos adaptar. Relaxar o corpo e deixá-lo apto a balançar instintivamente, segundo a melodia que toque, dançando qualquer música, qualquer ritmo. Não esperar que a estreia da peça seja gêmea idêntica do ensaio; que a partida da verdade seja a perfeita mímica do treino ideal. Saber que é possível cozinhar divinamente mesmo que não se siga à risca a receita, que o tempero disponível seja diferente daquele recomentado.

    Não perder de vista que nossos cálculos raramente serão um redondo bingo. Terão quebrados, aproximações e irracionalidades. Que as condições exatas, as perfeitudes ideais provavelmente não ocorrerão, e que isso não é o fim do mundo. É apenas o desafio da vida que nos convida a reinventarmo-nos, a moldarmo-nos, a sorrir plenamente diante do que temos, do que somos, do que acontece e não desperdiçar energias em rancores pelo que gostaríamos de ter, de ser, que acontecesse.
   

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O sentido da poesia

                                                             


Poesia não tem que ter sentido
A poesia, no mor e melhor das vezes,
não tem sentido
Não tem coerência
Só tem carência

Poesia não tem enredo
Espaço, tempo, uma voz condutora
Começo, meio e fim
Um conflito e uma solução

Vozes? Poesia tem várias. É uma orquestra.
É polifônica.
Conflitos? Também infinitos.
Sobretudo entre palavras que não se dão,
que saem e sobressaem
que guerreiam na hierarquia do ritmo
na cadência desigual da rima,
guerrilha do som, da pausa.
Palavras que, contudo, a tal carreira belamente beligerante
se doam
se entregam
e assim fazem estrondoso espetáculo.
Absurdamente poético.
Sem aposentar-se.

Soluções? Vixi!
Logicamente, poesia não tem nenhuma.
Não é narrativa
Nem problema matemático

Mas é conforto a alma
é tanto espanto dos males como o canto deles.
A expressão deles
O alívio do recalque
A resistência à repressão
O conforto da luta
A antítese da resignação
Beleza teimosa, necessária.

Começo? Sim, este poesia tem.
Mas não é começo a começar
Ponto de partida oficial
Marco zero.
É começo começado
Começo que, muitas vezes, parece uma morte
A dor do parto, o delírio da febre,
as cinzas do renascer, suspiro último da agonizante fênix

Poesia brota, calmamente embrenhada no território da dor
Na espera vazia da desesperança
na cegueira do pessimismo
Ou na gloriosa terra do amor
na comarca do desejo
na província do carinho
no distrito da amizade
da alegria, do simples júbilo de viver
da quietude, da plenitude, da paz.
No verde da esperança
dos olhos de lágrimas
escorrendo coloridas e risonhas de arco-íris

O município poderoso da arte
É cosmopolita. Universal.
É tabacaria. É o mundo inteiro. É poliglota

É língua que se fala em todo canto,
e em qualquer lugar se entende.
Responde

E por que não se entende mais o sentido da poesia?
Porque ela perdeu a partida decisiva no campo das letras ao time da prosa?
Porque poesia é para ser ouvida, não lida
Falada, cantada, declamada, declarada!
Não lida.

Poesia é para ser ajoelhada
com uma aliança em aguardo e emoções fortes lustrando os olhos
retumbando no peito com o hino arrepiante da expectativa.

Poesia é para ser suada, sofrida, perguntada
no não saber da correspondência,
do sentimento sentido sozinho
pedido desejosamente expedido na impotente e sôfrega metrópole
sem certeza de acolhimento na imprevisível colônia.

Poesia é para ser carnavalesca nos recintos da rua
nos espetáculos das gentes
todas juntas a viver alegremente pertencendo umas às outras
e à causa de vencer essa chata quaresma que quer nos ver vencidos
jejuando da existência.

Poesia é água profunda, funda demais
para um mergulho que não seja
muito sensível
muito treinado
muito acostumado na natural estranheza poética
É mergulho perigoso,
pode sufocar com as bolhas do desconhecido
provocar mal estar com as espécies exóticas
exuberantes
e ainda obscuras
de sensações com as quais povoa o território que invade

Poesia é arte deturpada pela estéril precisão da ciência.
Ah, ciência!
Ela que reina soberana em nossa época
e sufoca com simples despotismo
quaisquer esboços de revolta
e de poesia.

Meio? Fim?
Roma? Amor?
Espelho? Reflexo?
Sentido? Para ser sentido? Entendido?
Subentendido? Desentendido?
Desmascarado?
Sentido somente? Com todos os sentidos? Sem nenhum sentido?

Poesia,
equação cuja ordem dos fatores altera o produto
mistura em que as substâncias reagem
sonho em que o sentido está
imanente
transcendente
dentro de si
e além.



Foto: Trânsito, 1970. Ana Letycia. Serigrafia em cores, 60 x 34, 1 cm.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Conhecendo gente nova

                                                                  

      Muitos de nós, quando perguntados, dizemos que adoramos conhecer gente nova. Gente diferente, gente que não pertence ao nosso rol de conhecidos e convivência, gente com quem não teremos as conversas de sempre, com as exclamações de sempre, as reticências de sempre, os trejeitos de sempre. Os assuntos de sempre. Gente cujos traços não foram ainda esquadrinhados por nossa vista, gente cujas inflexões da voz não são ainda familiares aos nossos ouvidos, gente cujos movimentos e gestos, ações e reações temos atenção para observar, curiosidade em decifrar, porque ainda não nos são inteiros conhecidos, previstos e previsíveis. Gente que ainda nos são um mistério, cujo caráter, personalidade, temperamento ainda estamos a tatear. Não é verdade? Não é essa toda a graça de conhecer uma pessoa nova?

    Pois claro que não! Está é parte da graça, mas de modo algum toda ela. Talvez, não é nem mesmo a graça mais fundamental!

    A graça fundamental de conhecer gente nova não está nas pessoas que conhecemos. No novo que encontramos nelas. Está em nós mesmos, nas pessoas que podemos nos tornar quando estamos com elas. No novo que está contido em nós, então, apenas esperando para aflorar-se. Na possibilidade de nos reinventarmos que encontramos nesse terreno movediço e ainda a mapear da conhecença. 

      Pois, em companhia de gente que nos conhece, nós somos uma certa pessoa. Uma pessoa com certos padrões de comportamento, de pensamento e opinião. Uma pessoa que detesta portas batendo e ouve forró de raiz. Uma pessoa que prefere comida bem salgada e que interdita qualquer conversa de política que começa a se esboçar. Uma pessoa que lê sonetos e tem pavor de modernismos. Uma pessoa que pisa mais com o calcanhar que a ponta dos pés, se veste muito com cores frias e não entende de religião. Uma pessoa que ao fazer careta, puxa o canto direito  da boca para trás e amiuda os olhos. Uma pessoa que só põe a alça direita da mochila nas costas.

    Quando estamos diante de pessoas que não nos conhecem, e não esperam isso de nós, podemos nos reinventar. Temos a chance de não nos plagiarmos pela força do hábito e da expectativa alheia, de sermos uma versão original e inédita de nós mesmos, com pouca ou nenhuma semelhança àquela mais tradicional.
   
    Podemos ser alguém que não se importa com portas batendo e é pouco dado a irritar-se, de modo geral. Alguém que ouve hip-hop ou música flamenca. Que prefere comida sem tempero, e o doce ao salgado. Que é interessado em política e entendedor de poesia pós-moderna. Que pisa com leveza, apenas resvalando o chão, se veste combinando cores estrondosas e sorrisos devotados. Que admira a fé e estuda com fervor as religiões todas. Que troca caretas por sorrisos distraidamente divertidos e, por não gostar da mochila, usa bolsa transversal.
   
    Podemos ser alguém que não cometeu os erros que cometemos, nem carrega as culpas que carregamos. Podemos ter perspectivas de futuro e sonhos e desejos que nossos conhecidos jamais associariam a nós. Podemos reescrever nosso passado, acidentalmente borrando da memória partes que queremos esquecer, dando ênfase a outras que não é nosso costume lembrar. Podemos ter uma personalidade algo diversa daquela em que nos descrevemos usualmente, talvez um senso de humor que até então não nos caracterizava.

    Um dos grandes encantos de conhecer gente nova, portanto, é poder adentrar um território estrangeiro que ansiamos por conhecer com uma identidade que não é necessariamente aquela que carregamos em nosso país. É a liberdade de ser quem se quer ser naquele momento.



Foto: Manhã no porto, Antônio Garcia Bento. Óleo sobre tela. 46, 6 x 56, 2 cm.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Grandes e pequenos

                                                                   
     
      Quando eu era pequena, o mundo parecia grande e eu tinha medo dele. Tinha medo do escuro e não gostava quando me diziam que não existe essa bobeira de fantasmas. Não gostava de ficar sozinha e ficava feliz com qualquer companhia.

       Quando eu era pequena, me alegrava quando passava no céu do dia um avião de barriga branca e braços vermelhos plainando calma e barulhosamente. Gritava para ele os presentes que queria para o natal, com toda a força de meus pulmões de moleca e toda a cacofonia de meus primos em volta fazendo o mesmo. Achavamos que aquele era o avião do papai noel, porque... O trenó é mesmo um transporte muito antigo e agora o papai noel deve ser mesmo mais moderninho.

        Quando eu era pequena, tinha pesadelos engraçados que me atormentavam ainda quando eu acordava em que eu chutava uma bola, sozinha num campo, e em vez de seguir em frente ela vinha para trás, me fazendo um trágico gol contra de cobertura. E quando me sentia triste, olhava para o céu da noite, como o rei Leão, em busca da estrela mais brilhante, que eu acreditava ser meu avô. Ele era mesmo como uma estrela, assim calado, quieto e com uns olhos que viam tudo. Eu acho que ele me ouvia.

        Quando era pequena, não entendia porque as pessoas viviam em casas nos morros, se elas sabem que dali elas podem cair quando chove. Por que não vão para outros lugares? Tem lugares mais retos sem casas na cidade!
      Também não entendia porque quando dois meninos da rua brigavam, a brincadeira acabava, ia todo mundo murcho pra casa, e só quando as mães vinham com eles pela orelha, eles se pediam desculpas. Pedir desculpas não pode ser tão difícil assim, tão difícil ao ponto escabroso de fazer a gente perder o dia de brincadeira.

       Quando era pequena, queria mesmo crescer. Porque a água do chuveiro deve ser mais quentinha lá em cima do que aqui embaixo. Porque é tão mais elegante ser grande e ter pernas que alcançam o chão quando se está sentado, em vez de ficarem balançando bobamente, incapazes de alcançarem o chão a não ser que me eu me deite na cadeira. Porque quando se é grande, o céu está mais perto, e vai ficar mais fácil de o vô me ouvir e o papai noel também. Vou até poder alcançar as nuvens, se der um pulo bem forte e me esticar bastante. Porque vou poder usar a faca para cortar o queijo e passar a água fervendo no pó para virar café.

     Agora que sou grande, não estou tão crescida assim. Ainda não me dou muito bem com o escuro e acredito piamente em fantasmas. Ainda não faço gosto em passar muito tempo sozinha e tenho o hábito de, quando isso acontece e não pode ser evitado, sair só pra ver gentes.

      Agora que sou grande, não grito para o papai noel os presentes que quero para o natal, porque... Bom, o céu continua longe, e ele não vai me ouvir. Só a voz da criança tem o timbre exato do som que os ouvidos de papai noel vão escutar. Mas ainda olho para o céu estrelado da noite para fazer minhas confidências e pedir por guia.

       Hoje, boa parte de meus pesadelos - dormidos e acordados - ainda envolvem a vida me surpreendendo com seus truques e me levando a situações que não estavam em meu estrito roteiro e com as quais não sei lidar. Isso ainda não superei. Por mais que tenha me acostumado a tomar gols de cobertura na quadra.

      Hoje, entendo porque certas pessoas moram em casas nos morros. Não é escolha delas, é necessidade. Mas ainda não entendo como as pessoas, as outras pessoas, que moram em casas bem melhores e bem maiores, especialmente aquelas que vão de vez em quando trabalhar numa casa velha, franzida e severa que é batizada de "câmara municipal", conseguem ver isso acontecer e não fazer nada a respeito.

      Hoje, ainda acho um grande pecado as pessoas perderem tempo que podiam estar de bem estando de mal só porque não podem dizer algumas poucas palavras. Ainda lamento a dificuldade dos meninos em dizer certas coisas, principalmente as coisas boas. Mas já entendo melhor como um pedido de desculpas pode custar para sair da boca, parecendo machucar os lábios, cortar a língua, como um ácido. Entendo porque sou uma menina e aprendi que, ao contrário do que imaginava, as meninas normalmente têm mais dificuldades para pedir desculpas que os meninos.

       Hoje, me alegro quando vejo em mim vestígios de minha versão pequenina. Felicito-me pela geometria básica do universo que orquestra que o grande pode conter o pequeno, mas o pequeno não contém o grande. Alegre do grande que tem em si o pequeno. E mais alegre ainda o pequeno, que, mesmo sem saber, não tem em si nada do grande.
        Afinal, as pessoas grandes são mesmo muito bobas.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Quem sou eu?

                                                                  

  Dia desses, me foi pedido que eu me apresentasse. Dizesse "quem sou", e não estando valendo a tríade simples de meu nome, idade, enquadramento ou desenquadramento profissional. Era preciso que eu esclarecesse quem sou eu, de verdade. Quem sou eu, de verdade?

    Ah, pergunta difícil! Mais difícil pra mim mesma que para aqueles ao meu lado. Mais difícil para os meus próximos que para meus distantes. Mais difícil para os que me conhecem à distância que para os que não me conhecem, nem assim.
   
    As várias camadas de nós confundem-se, fundam-se, abraçam-se, deitam-se... se encontram e se perdem, e não há escavação que as delimite todas na mais perfeita fronteira, que as enxergue e recrie na mais perfeita clareza.

    Quem sou eu? Eu sou boca que come, sou come que baba, sou boca que beija. Sou voz que canta, sou voz que encanta, sou voz que nina, sou voz que emudece. Voz que oscila. Sou olho que olha, olho que fecha, olho que escancara, olho que lacrimeja e que deságua. Sou ouvido que escuta, ouvido que ouve, ouvido que tampa e destampa. Sou riso que ri, sorriso que sorri - por vezes sem ser sorridente. Ah, cordialidade!

    Sou peito que suspira, peito que soluça. Coração que bombeia, coração que sangra, coração que infarta. Coração que desembesteia, coração que para e suspende. Intestino que peristalteia e estômago que refluxa.

    Sou mãos que tocam, que manuseiam, que massageiam, mãos que manufaturam. Mãos que afagam, mãos que arranham, mãos que espalmeiam, batem e machucam. Mãos que sovam massas de palavras e as põem no forno. Mãos que perdem o ponto, deixam cru demais, duro demais, intragável demais. Mãos que passam do ponto, deixam mole demais, macio demais, enjoativo demais. Sou pés que pisam, que revolucionam, que andam em linha, sou pés que sustentam, pés que tanto aguentam, que correm, que cansam. Pés que param, que permanecem.

    Eu sou toda a natureza que há em mim e toda a minha interna sociedade. Sou todo o meu texto e todo o meu contexto, e todo o meu prefácio. Um dia, serei todo o meu epílogo.

    Eu sou a Vitória, a derrota, o empate. Mais vitórias que derrotas, prefiro pensar, e mais derrotas que empates. Empates não se mexem. Empates só empatam. Empates não fazem mexer. É melhor que a inércia, decerto, o abismo da queda, e sua talvez escalada de retorno. E esse talvez é um provocador irresistível!

    Eu sou o conjunto de minhas escolhas, de minhas renúncias; de meus sucessos, de meus fracassos; de meus excessos, de minhas faltas; de minhas presenças, de minhas ausências; de meus eufemismos e de minhas hipérboles. Sou uma história muito apaixonada e convicta, uma geografia confusa ainda a mapear, uma filosofia logicamente inexplicável, uma arte muito mais que abstrata, em moldes paradoxalmente clássicos. Sou uma grande prosopopeia.

    Eu sou filha, irmã, neta. Sou colega, e raramente amiga. Queria ser mais amiga que colega, e não em estatística. Eu sou amiga, sim, no entanto, e como tal semideusa. Porque toda amizade tem seu quê de divino, e seu acento de humano.

    Eu sou amante, ouso dizer, do indeciso Destino que, normalmente, faz muito do que eu lhe direciono, falando ou silente. Tendemos a gostar daqueles que fazem o que nós queremos que eles façam, e a desgostar daqueles que não o fazem. Grande burrice, da qual não escapo. Pois, os passos e caminhos que meu amante toma são muitas vezes sussurrados a ele por mim. Sou eu quem dito a mor parte de seu rumo. Uma outra parte, porém, ele faz obedecendo seu capricho. E esse capricho, então, me leva a lugares e me presenteia com sensações e experiências que eu jamais podia esperar. Às vezes na vitória, às vezes na derrota, as vezes infelizmente no empate. Sempre no jogo da vida, que dá ao seu jogador um oscilante quinhão das três recompensas.

    Amante do destino, sou, e casada a mim mesma, em aliança eterna. Pode ser que eu contraia outra, e outra, e tantas mais, porque a monogamia me exigiria um único cônjuge, mas eu não posso abrir mão de mim mesma. É um abandono inconcebível, uma traição que não estou disposta e não me acho capaz de fazer. Esta é mesmo, como dizem, uma união indissolúvel. Nem a morte separa.

    Sou filha, irmã, neta, colega, amiga, amante e casada. Eterna estudante. Aluna, não. Não sou ainda mãe. Tenho os elementos de mãe dispersos em mim, acho, e de quando em vez por circunstâncias ativados. Mas não tenho o essencial de mãe pois não gerei. Escrevi minhas palavras, borroquei meus textos, sonhei meus sonhos e fiz minhas lambanças, mas por mais vivos que tenham sido todos eles, em certa medida gerados por mim, ninados por mim, alimentados por mim... por mais que todos eles venham, na justeza da autoria, a carregar meu sobrenome, e na polifonia do silêncio e da conversa contar histórias minhas e a minha história... por mais que vários por mais... não são ainda humanos completos, com boca, voz, olhos, ouvidos, peito, coração, riso, sorriso, peito, coração, intestino, estômago, mãos e pés. São fruto de mim, mas não são meus filhos. Sou assim mãe em potencial.
        
    Posso dizer que sou, creio, um corpo, um espírito, uma alma, uma mente, uma consciência. Um quebra-cabeças ainda em processo de montagem.

    Quem sou eu? Ah, esqueci de responder. Rodeei e rodeei e não respondi. Desculpem, sempre preferi a figura do círculo ao quadrado. Eu sou, talvez, este texto. E escrevo sobre mim por isto ser tanto minha grande falta de assunto quanto meu assunto favorito.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O semáforo da intuição

                                                              

    Intuição, pressentimento, instinto, sexto sentido... Chamem lá como queiram. Não posso me furtar de acreditar que isso é um grande farol, um semáforo iluminando as vielas da nossa existência. Uma fonte de sinais que, tão imprudentes transitantes, nós costumamos ignorar.
   
    Sim, vítimas de uma tradição demasiado racionalista, materialista, nós tendemos a não dar ouvidos ao que nos diz uma vozinha que não sabemos bem definir como surge e vem nos murmurar certas cousas de quando em quando. Castramos essa dimensão de nós mesmos, esse raciocínio do sentimento e da sensação, da energia. Esquecemos que essa parte de nós também é uma importante forma de conhecimento e contato com o mundo, uma capacidade de que somos naturalmente dotados para o nosso bem, nossa sobrevivência.

    Assim, tomamos decisões pautados em valores e parâmetros (não raro muito questionáveis) importados do mundo exterior, em detrimento dos talvez inexplicáveis apelos do nosso interior.
   
    Ao nos depararmos, por exemplo, com dois apartamentos muito diferentes sendo alugados pelo mesmo preço, escolhemos aquele maior e mais novo, que enche os olhos de nossos satisfeitos pais mas que nos transmite algo impronunciável de carregado e perigoso em vez daqueloutro antigo, menor e apertado que tão aconchegante e caloroso recebe a nossa presença. Afinal, tal escolha faz muito mais sentido. E o bom senso - esse péssimo conselheiro sob cuja guia ninguém faz amor ou guerra - aponta para tal opção! A escolha não pode mesmo ser outra.
   
    E quanto mais se põe a pensar, mais parece bobagem, cisma, criancice aquela ruim sensação sorrateira que se apossou da gente, tão logo pusemos os pés na deslumbrante habitação. A intuição é espasmódica. Moda raio, ela vem, alumia e estrondeia, e logo some, para não mais aparecer. Ela não gasta sua sabedoria com repetições. Não fala a mesma coisa duas vezes.
   
    Ao sermos apresentados àquela pessoa de sorriso fácil e rosto tão prontamente simpático que de modo inexplicável desperta uma luz amarelenta no nosso semáforo interior, balançamos os ombros. Sacudimos a cabeça. “Que cisma, hein? Preciso deixar de bestagem!” Essa pessoa não é tão querida por todos à sua volta? Não é recomendada por fulano e ciclano, indivíduos cujo julgamento eu aprecio e ouço? Todos gostam dela, admiram-na até, como posso eu sentir diferente? Como posso eu querer distância dela? Como posso me sentir tão ressabiada à sua presença? Mais ainda que ressabiada, arredia e horrorizada à sequer perspectiva de sua proximidade?
   
    Quantas vezes já não aconteceu de uma oportunidade aparecer do absoluto nada, sem anúncio qualquer, apresentada a nós à queima roupa, e nós não a deixamos passar porque fomos medrosos demais para abraçá-la? O primeiro impulso até nos impeliu para ela, mas ah... quem pode confiar no seu primeiro impulso? E não tive tempo de considerar todos os prós e contras, todas as questões que precisariam ser avaliadas antes de tomar a decisão de me jogar nisso...

    De minha parte, reconheço que cometo essa atroz burrice. A burrice de ponderar demais, de analisar fria e meticulosa e demoradamente, de abafar as frestas de luz sinalizadas a mim por minha intuição. Está provado cientificamente que é mais provável acertar uma questão de múltipla escolha no primeiro chute, no impulso, que na opção se marca em lugar deste, depois de muito titubear e balançar e pensar... Se não enxergamos as luzes da intuição, talvez deveríamos ouvir a voz decerto sábia da ciência!

    Afinal, qualquer dia desses, seremos atropelados pela vida ao atravessar suas pontes sem obedecer o semáforo e nosso guia particular e invisível da intuição. Ou, pior, ficaremos colecionando as passagens dessa vida só observando, empacados no mesmo lugar, por esquecermos de avançar no momento em que a luz verde abriu...
   

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Divórcios

                                                                  

    Não. Não estou aqui para discutir o delicado processo de separação entre duas pessoas que se uniram por livre e espontânea vontade, se não por livre e espontâneo sentimento. Não é desta espécie de divórcio que escreverei. Pois, este é divórcio de uma união que foi decisão tomada por dois indivíduos, não nasceu pronta, não é natural e inerente à condição de sua existência.
   
    Quero falar desses divórcios. Os divórcios que contrariam a ordem mais simples das coisas, os divórcios contra os quais a juíza natureza aconselha e que normalmente pune.
   
    Por exemplo, o divórcio entre o corpo e alma. Quem nunca passou pela experiência da queda de braço entre os dois, quem nunca sofreu deste conflito? O conflito no qual, às vezes, a alma quer que seu corpo não queira, mas ele quer. Simplesmente quer, desesperadamente quer. E outras vezes, ela quer que ele queira, mas ele não quer. Ele teima, insiste, não será obrigado.

    Além desse, o divórcio entre tempos. O nosso tempo e o tempo exigido de nós. O relógio que bate como um chicote, nos movendo sempre para frente, insistindo que continuemos, que emendemos suas horas sem percebê-las quando tudo o que queremos é uma pausa, um momento de meditação e solitude e silêncio. Da imobilidade que não raro é necessária para que notemos a nossa vida: a leve ondulação da respiração, o ritmado rugir da pulsação, o fugidio piscar dos olhos.
   
    O divórcio entre o ser humano e seu hábitat, seu lar. Entre o social e o natural. Vez e outra que nos sentimos angustiados sem aparente razão, sinto que esta pode muito bem sê-la. Esse chisma não pode fazer bem.

    Quanto tempo passamos apartados da natureza, enfurnados em salas condicionadas sem perceber o escoar do dia, os azuis do céu, os humores de sua temperatura? Quanto tempo passamos contrariando o contraste claro e escuro que foi pintado pela mestra mão do universo, e ao qual nosso organismo é naturalmente compatível? Quanto tempo atuando em cenários fabricados, cobertos de concreto, que nem sempre favorecem o espetáculo da vida?

    E quanto tempo misturados à harmonia simples da beleza pensada pelo mundo, não por nós? Quanto tempo expostos e dispostos a beber e brindar das paisagens esculpidas com carinho e paciência pelas eras, a socializar com os outros animais que povoam este reino tão próspera da terra? Quanto tempo passamos enxergamos motivo e júbilo na nossa existência pelo simples fato de que ela é uma parte importante desse lindo todo, e de que é um privilégio contemplá-lo, sorvê-lo, tanto quanto participar dele minimamente?
   
    Creio que boa ideia seria embargar todos esses processos de divórcio em nossas vidas. Fazer a união funcionar de novo. Respeitar as vontades, os desejos e limites de nosso corpo ao invés de submetê-lo. Ouvir com atenção o que ele nos diz, em vez de calá-lo. Enfrentar a tirania do relógio que querem nos impor, não acatá-lo. Fugir do domínio do artifício e celebrar no quilombo do natural. Aceitar as belezas que o mundo sorrateiramente nos faz todos dias em vez de recusá-las sem uma hesitação .

    Curar essa síndrome de deus que nos acomete, perceber a nossa pequenez. Deixar de pensar que somos senhores de tudo à nossa volta e tudo dentro de nós, perceber que somos miúdas partículas incrustadas no complexo da natureza, não mestres magnânimos a quem esse complexo existe para servir e satisfazer. Alinhar os desalinhos, aproximar o que se distanciou, harmonizar as partes que fizemos brigadas. Fazer as pazes nos duelos que inventamos e ficar em paz.


                                                             

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Humanidade - dois pesos e duas medidas

                                                                 


    Creio que todos nós, em certo momento ou outro, nos pegamos no erro muito sério de utilizar parâmetros diferentes para avaliar elementos semelhantes. Isso é ruim não só porque borra o nosso julgamento e o torna já de antemão desigual mas também porque pode acarretar danos graves. No que estou pensando ao dar esse exemplo? Em mim mesma. Vou explicar melhor.
   
    Eu sofro da muito perigosa síndrome do perfeccionismo, da intolerância ao que não encaixa-se nos meus altos padrões. Contudo, essa síndrome só afeta ao que eu mesma faço, não se estende aqueles ao meu redor, sejam eles os meus mais próximos ou mais mais distantes. Eu não consigo lidar com meus erros. Sobretudo, não suporto a consciência que depois de cometê-los me tortura lenta e poderosamente.

    Não é que eu não consiga lidar com as repreensões de outras pessoas. Elas me desconcertam enormemente também, quando as julgo justificadas. Contudo, as repreensões mais difíceis de aceitar são aquelas vindas da minha própria consciência. À minha própria maneira, sou vítima e algoz de mim mesma.

    Aceito sem dificuldades os erros alheios, reconhecendo neles um sintoma de sua natural condição de ser humano, falho e faltoso, imperfeito. Balanço os ombros, rio deles sem uma mácula de tristeza no rosto ou no peito. Afinal, acontece. Todo mundo erra. E quanto melhor aceitarmos isso, menos sofreremos desnecessariamente. No entanto, a mim mesma não rogo tal piedade.
   
    Não justifico meus próprios erros pautada na minha humanidade. Na minha impossibilidade de acertar sempre. No fato de que eu também estou aqui para aprender, não nasci sabendo e muito proveito posso tomar dos meus próprios erros. No meu esquecimento, na minha limitação a um só corpo e uma só mente, que não podem se desdobrar em mil, que não podem atender a todos, a todas as demandas, em todos os momentos.

    Em vez disso, me martirizo. Porque eu deveria ter lembrado. Deveria ter sido ainda mais maleável. Deveria ter antecipado o imprevisível imprevisto. Deveria ter contado com a velocidade em que corre o relógio. Poderia ter me portado melhor. Poderia ter mantido a calma. Poderia ter me esforçado um último pouquinho a mais, excedendo o já exagerado muito que tinha solicitado o professor. Poderia ter adiado minha viagem ainda algumas horas para aliviar a barria de um colega que não estava pensando em mim ao, por pura falta de compromisso, atrasar sua entrega do trabalho para além do prazo combinado. Poderia ter sido ainda mais explícita ao demarcar o prazo da entrega. Poderia ter me desdobrado um pouco mais. Poderia... Deveria...
   
    Em verdade, eu deveria mesmo é aliviar meu próprio sofrimento ao suavizar a dose de autocobrança. Deveria aprender a lavar minhas mãos, com água limpa e sabonete, sem a poluição da culpa. Deveria calar com firmeza minha própria consciência quando ela insiste em ser desmedidamente mais dura comigo que com qualquer um outro na mesma situação. Deveria não ser tão severa comigo mesma, e fazer as pazes com minha própria humanidade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A arte de criar problemas

                                                              
   
      Nós seres humanos deste tempo tresloucado parecemos nascer doutos na arte de criar problemas para nós mesmos e ficarmos insanamente dependentes das soluções para eles. Isso mesmo. Não, eu não estou enlouquecendo. Talvez, para os parâmetros da época em que vivemos, só um pouco. Já disse que ela é que é tresloucada. Mas, que fique avisado, este texto é contra indicado no caso de suspeita de normalidade, ausência inteira de loucura. Pois, se a loucura é o desvio completo do normal, acho que ela é o estado mais saudável para se viver neste mundo maluco.

    Do que estou dizendo quando digo que nós criamos problemas para nós mesmos? Estou dizendo que criamos padrões. O cabelo liso, por exemplo, colocado como apogeu e ideal de cabelo torna o cabelo destoante, enrolado, um problema. Cria um problema (que em verdade não existe, já que a mesma natureza planejou que fôssemos variados uns dos outros até para nos tornamos mais fortes) e ficamos dependentes da delirante “solução”: alisar o cabelo. Até que essa solução se torna um problema, já que bem nenhum pode fazer um acúmulo enorme de estranhos materiais combinados e agressivos aplicados continuamente em nosso lindo corpo. E aí, vamos aos hospitais a fim de tratar do câncer que provocamos em nós mesmos.

    Isso mesmo. Não, repito, e com ênfase. Não estou delirando. Você que está, se não o percebeu ainda. Quer outro exemplo? Protetor solar. Quem disse que temos que usá-lo? Uma indústria que se interessa por vendê-lo. Certo? Certo. Mas, você pode dizer, é uma indústria que prima por cuidar de nós. E em resposta, eu posso dizer, você que não cuide de você mesmo, corpo e mente, e vai passar a acreditar nas amassadas e aparentemente apetitosas abobrinhas que te oferecem generosamente e sofrerá as consequências de aceitá-las e digeri-las.

    Mas e o câncer de pele? Ele também é um problema criado? É. O sol também faz parte do plano harmônico e bem dirigido da natureza para a vida da gente. Você tente escapar dele, estando sob efeito das abobrinhas estragadas que te deram sob a atraente roupagem da propaganda, e terá falta de vitamina D. E vai procurar um médico, o mesmo que te receitou o protetor solar - que contribui para você desenvolver câncer de pele, ao invés de evitá-lo -, para receber dele um suplemento artificial de vitamina D. Caríssimo, com certeza, o tal medicamento será. E você pagará com seu tempo para resolver um problema que criou para si mesmo. Que poderia nem existir se você tivesse tomado uma boa dose dessa embriagante maravilha que é o sol sem borrocar-se de protetor solar antes.

    Está vendo? Eu estou fazendo sentido. Não estou inventando problema, enxergando-o onde ele não existe. Os psicólogos é que estão. Isso mesmo. Você já parou pra pensar que até pouco tempo as pessoas passavam a vida inteira sem cogitar ir em um psicólogo, psicoterapeuta, psicanalista e as demais varianças? E que mais antigamente ainda as pessoas nem cogitavam a ideia de que precisavam de tais profissionais e suas ajudas? Parando pra pensar a respeito, eu concluí que nós passamos a pensar que precisávamos disso no momento em que isso foi inventado.
   
    Não é que a vida moderna seja mais complicada que a antiga. Nem que nos evoluímos e nos tornamos mais complexos e agora precisamos de tratamento. Na verdade, o que acontece é que um dia nos disseram que esses profissionais existem e devem ser parte fundamental de nossa vida é nós passamos a acreditar, e a criar necessidades para serem atendidas por eles. Só isso.

    As pessoas sempre tiveram questões com as quais precisaram lidar que às vezes (muitas vezes) lhes traziam angústias e dificuldades. E elas lidavam com isso. Em diários, em conversas, trabalhando e dirigindo energias e pensamentos ao seu trabalho, interagindo com aqueles à sua volta, com seu deus e a natureza. E nós de modo algum podemos dizer que hoje lidamos com nossos problemas melhor do que as pessoas de antes o faziam. Só podemos dizer que agora carecemos (ou pensamos carecer) de ajuda profissional pra isso. Terceirizando a nossa conversa com nosso íntimo.

    (Que fique claro: não estou dizendo que não existem pessoas que precisem de ajuda profissional, e que esses profissionais não tenham um papel importante a fazer. Porém, acredito que a maioria das pessoas que realmente precisa de ajuda, não a recebe, não pode tê-la, não tem acesso a ela. E a maioria das pessoas que recebe essa ajuda não precisa dela. Pensa que precisa.)

    De cabelo à protetor solar aos médicos da mente, à comida de todo dia. Tantos são os problemas que inventamos para nós mesmos - problemas que não raro provém de elementos absolutamente naturais de nossa vida que transformamos artificialmente em problemas e defeitos, aos quais procuramos soluções que acabam trazendo novos problemas... Talvez seja bom parar pra pensar na relação que mantemos com as pequeninas coisas à nossa volta, e no poder que nós mesmos temos de torná-las problemas e dores de cabeça... Ou, pelo contrário, belezas e delícias (ou dificuldades) que fazem parte da nossa vida, e as quais podemos desfrutar e experimentar em sua plenitude.

    É, minha gente... Pensar é mesmo um perigo. Mas, mais perigoso, eu acho, é não pensar. É deixar que os outros pensem por nós e nos deem de presente alguns probleminhas que não existem para resolvermos.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os vários afluentes da bacia do amor


     O amor, podemos dizer, é como um rio. Um rio que, por tão longo alcance, tão imensa profundidade, tão fértil poder, é necessária água para sobrevivermos e bem vivermos na estepe da vida. É necessária inundação para o pantanal da existência.

    O amor, como um rio, pode ser considerado de modos diferentes por suas características. Pode ser perene, de tão firme volume e fluxo, constante mesmo na seca e na escassez, na aridez da paisagem, no desespero do frio escaldante e do calor capaz de evaporar. Ao contrário do que ocorre com os rios, porém, creio, a maioria dos amores do mundo não pode ser presenteada com o qualitativo de perene. Até porque, aqueles que de fato mais perene são têm o dom de passarem discretamente presentes e impercebidos. Quase nunca entram nas estatísticas.

    Mais percebíveis são, na verdade, os amores intermitentes. Aqueles que desaparecem na estiagem e reaparecem na estação chuvosa. Aqueles que precisam da irrigação da conveniência, ou do desespero, para voltarem à vida. Aqueles que precisam sofrer a ameaça de extinção ou a festa da abundância para aflorarem à superfície. Ou aqueles que, apenas tímidos, embora muitíssimo genuínos, existem somente no subterrâneo e não mostram-se e demonstram-se à luz senão esparsamente. Pode haver um tipo de perenidade nos amores intermitentes. Como pode haver também um fundo e caudaloso egoísmo.
   
    Os mais comuns de todos, porém, são os amores efêmeros. Aqueles que, incapazes de penetrar a terra e o reino do coração, ficam na passarela da superfície e da pele. A maioria de nós, contudo, não é impermeável a ele. Bebemos de sua água com frequência. Ele acontece a nós quase que inevitavelmente. E é praticamente impossível resistir à sua cascata, deixar de nutrir-se de seus doces filetes, quando aparecem. A passagem dessas águas efêmeras do amor pode ser refrescante delícia - contanto que, é claro, não se torne demasiado áspero, seco, árido, dolorido e sofrido seu natural escoamento a outras terras, ou sua simples evaporação.

    Há também, como rios, amores efluentes e influentes. Os primeiros são os mais belos e os mais difíceis de viver, ao passo que os segundos, os mais arrebatadores e por isso mesmo, fáceis de morrer.

    Amores efluentes são amores práticos, amores que viram corrente volumosa e robusta no curso de todo dia. Amores, portanto, difíceis mas importantíssimos de se manter. São os amores que, saídos do esconderijo do subterrâneo e do devaneio para existirem na exterior realidade, sujeita a intempéries e predadores, permanecem. Amores que avolumam-se e engrandecem-se em seu curso ao saírem do subsolo. Amores que continuam.
   
    Amores influentes, por seu turno, são aqueles, como já adiantado, menos difíceis de se viver e mais frequentes e fáceis de ver morrer. São os amores platônicos, amores que existem nas cordilheiras do desejo e da distância. São os amores que, ao desfilarem do fino lençol do devaneio para subirem o despenhadeiro da vida concreta e real... terminam. Perdem volume ao invés de ganharem. Diminuem sua vazão, morrendo antes de chegar ao mar.

    Por questão de sobrevivência, sua existência deve mesmo confinar-se às cavernas do pensamento, do sonho, da imaginação. Por questão igual de sobrevivência, entretanto, sua existência em alargada dose pode ser um perigo, e deve ser balanceada com a presença de alguns amores efluentes.
   
    A moral da história - ou, aliás, da geografia do amor? Ela confunde-se a uma das lições mais primárias da biologia, se não me engana a traiçoeira memória. Do que são feitos os rios, afinal, bem como os lagos e as lagoas, os mares e oceanos? De água. E a água é um elemento essencial da vida. Uma condição indelével de existência. Sem ela, nada se cria e nada se transforma. Tudo se despedaça.

    Assim também é o amor, esteja ele em qualquer de suas formas de expressão, quaisquer de suas configurações. 70% do nosso corpo, pelo menos, deve ser feito de amor, e de amor continuamente abastecido. No mínimo, de 2 litros de amor devemos nutrir o nosso organismo todos os dias. E o planeta terra - água - é azul... Tem 3/4 de sua superfície cobertos de amor. O amor é azul, já nos disseram Djavan e Clara Nunes

    A ecologia do amor, portanto, é uma das quais devemos muito nos empenhar em proteger e preservar. Sem ela... não há vida que seja possível.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Lições do renascimento

                                                             
                                                              
    Ah, minhas leituras acadêmicas! Elas furtam-me das minhas leituras literárias e dos escritos literários... Aliás, dos escritos todos − ou nem todos já que este está aqui. Mas elas fazem-me pensar. Cobram tributo do meu tempo, mas dão recibo em pensamento. Acho que está valendo.

    Dia desses, li cousa muito bonita, que me levou a pensar muito além da nuvem acadêmica. Um autor que gigantescamente me agrada, Peter Burke, ao perguntar sobre os possíveis porquês de a Itália ter sido o berço do renascimento, diz que um destes está no desprendimento italiano ao gótico. Ou seja, a arte na terra da bota desenvolveu-se magnífica, intensa e vastamente para frente porque tinha-se ligado menos aferrada e intimamente ao que houvera antes.

    Se não é isto uma escultura em palavras de uma verdade dispersa e opaca na realidade, nos corações e nas mentes da gente!

    Sempre pensando nesse respeito, não tinha até essa leitura tido sobre ele um estalo de compreensão tão claro, tão preciso. Só abre-se para receber (ou dar) abraço apertado e caloroso do futuro quem despediu-se bem resolvido e leve do passado. E só se põe nesse movimento também quem está inteiramente inteiro, em um único e concentrado pedaço, presente no presente.

    Cada vez mais acredito que esse é um dos mais importantes e decisivos − e talvez por isso mesmo um dos mais difíceis − desafios da nossa existência: aprender a lidar com essa belezinha mágica, linda, temperamental, esquiva e pirracenta que é o tempo. O tempo em suas várias esferas, seus vários planos, seus vários volumes e suas várias arestas.

    O tempo do relógio das obrigações; o tempo do calendário, das metas e dos balanços; o tempo do agora e das livres borboletas; o tempo dos corações, dos ferimentos e das cicatrizes; o tempo da realidade social da qual somos pequenina e vital partícula; o tempo da vida da gente, da história de cada um de nós. O tempo de lembrar, o tempo de esquecer, o tempo de somente - sem pensar - sentir e viver. O tempo: passado, presente e - quem sabe? - futuro.

    Mais especificamente falando do casamento entre o tempo do qual temos flutuante sensação de certeza (passado) e aquele que nos instiga perpétua certeza de dúvida (futuro), creio que, como em todas as relações, deve-se procurar aí um equilíbrio. Como nos chama a pensar Peter Burke, é preciso desvencilhar-se das sedutoras e confortáveis chamadas do passado para jogar-se nos braços do futuro, e vivê-lo magnificamente. É preciso, caso necessário, deixar morrer a morte do medíocre para viver o renascimento do sublime.

    Do contrário, corre-se o risco de prender-se ao passado numa amarra cega e fazê-lo durar mais tempo do que deveria. Corre-se o risco de - ao estar voluntária e conscientemente amarrado e vendado - não ver passar um futuro e um presente que... ó! passaram. Num instantinho terão passado. Serão passado, sem que nada de lindo se tenha feito deles, sem que nenhuma intensa vida se tenha vivido. Serão um passado que se acumulará pesado nas costas, como um fardo, fardo que grande tem volume, sem nenhum valor.

    Por outro lado, é também preciso deixar na ponta dos dedos, ao alcance dos olhos, alguns nós bem atados do passado, para jamais nos permitimos esquecê-lo por completo. Pois, quem se liberta muito rebelde e radicalmente do passado, torna-se justamente refém dele. Comete sempre os mesmos erros, cai sempre nas mesmas armadilhas, vagueia sempre pelos mesmos caminhos. Quem extremisticamente se desgarra, realisticamente se agarra. Empaca.

    Em suma, é preciso andar pra frente, ser para frente, fazer para frente. A fênix é parte de nós, o renascimento chama, é preciso renascer. E para tal, é mister esquecer e deixar o passado passar, ir descansar bem calminho nas profundezas de sua lápide. Contudo, não se pode querer demolir essa lápide para substituí-la por qualquer comum e virgem pedra. É para o fundamental ato de lembrar que servem as necessárias inscrições esculpidas na lápide.

    Todavia, acima de qualquer coisa, antes de tudo e de mais nada, não podemos deixar que passado e futuro em seu cabo de guerra, sua sedução altamente persuasiva pelos sussurros da lembrança e do projeto, vençam o apelo do presente e façam-no mumificado pelas cordas do devaneio.

    É preciso fazer do frustrantemente fugaz momento presente uma atração inelutável e perpétua. Um vício, sanado e alimentado contínua e constantemente, sem fim. É preciso sim, como nos dizem os sábios conselheiros num já muito sabido conselho, viver intensamente o agora. Viver intensa, descarada, exaltada, atrevida, curiosa, sedenta e regaladamente o presente. Ser insaciável por ele e fartar-se dele na mais indiscreta gula, na mais declarada paixão.

    Como não me deixam esquecer minhas volumosas leituras acadêmicas...
   

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Os diferentes tipos de relógio

                                                                

  Dia desses, disse algo aqui que muito me aborreceu. Não me arrependo de tê-lo dito, mas incomodou-me pensar que não sei se acredito tanto naquilo.  A meu ver, acreditar no que se diz é o coração da sabedoria, a força que faz tanta diferença na realização do pensamento, plano ou sonho. Dizer aquilo no que se acredita, por seu turno, é o princípio básico da honestidade. E, se qualquer coisa, gosto de me pensar uma pessoa honesta.

    Eu disse “O tempo é. O tempo existe. O tempo está aí. O relógio anda igualmente para todos.” É esta última parte que tem me incomodado. O relógio não pode andar igualmente para todos porque não existe. O relógio não existe. Existem vários tipos de relógio. E os diferentes tipos de relógio não funcionam sobre o mesmo princípio, nem andam no mesmo ritmo, batem no mesmo passo.

    Ou não é verdade? Não podemos imaginar que o relógio de sol andava e batia igualmente ao relógio de parede, ao relógio do sino na torre da igreja, ao relógio de bolso, de pulso, do nosso mais presente celular. Todos são instrumentos de medir o tempo. Mas o tempo que cada um deles mede não é o mesmo.

    O relógio de sol media o tempo do ambiente, do ciclo natural que regia a vida, o dia e a noite, o plantio e a colheita de quem seguia as suas luzes. O relógio de parede media o tempo doméstico, da família no lar, da hora de cear, de rezar e de dormir. O relógio do sino media o tempo religioso, que confundia-se com o tempo social: o tempo de mirar o céu crepuscular, juntando as mãos e fazendo prece; o tempo de cultuar em coletivo, de conversar, flertar, negociar; o tempo de festejar e de fazer procissão.

    O relógio de bolso, como seus predecessores de pulso e de aparelhos móveis, mede o tempo do trabalho, da rotina, da obrigação, do sustento. O tempo de chegar, o tempo de sair, o tempo de pensar, o tempo de produzir. O tempo de existir? Ah, esses relógios tendem a diminuí-lo ao máximo!

    Além de todos esses relógios, temos ainda, cada um de nós, um outro, muito particular. Um relógio que não tem ponteiros, mas tem batidas - que podem ser como ritmado e suave canto ou como rufos de tambor. Um relógio cujo parar é perigoso, um relógio que pode quebrar sem conserto, um relógio que pode colar-se vezes e vezes de novo e assim tornar-se mais forte. Um relógio que não tem manual de instrução, já que sua mecânica é única e irrepetível. Humana e, como tal, praticamente indecifrável. Um relógio cujo tempo talvez nem mesmo seu próprio dono pode medir precisamente. Um relógio cujo tempo não se compara.

    Enfim, reconcilio-me comigo mesma nestas palavras. Não deixo de crer que todos esses tempos podem ser manejados por cada um de nós de forma muito distinta, como quis dizer anteriormente. Que temos escolha e que essa escolha faz toda diferença. Mas quero afirmar que de modo algum acredito que só exista um tempo, igual e constante para todos. Existem vários tempos, várias percepções e vivências deles. E para acompanhá-los, existem, é claro, diferentes tipos de relógio.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Heróis e heroísmos

               
                                                               
  Dia desses, ouvi uma discussão particularmente estarrecedora acerca do herói. É, do herói, da figura do herói, em sua forma mais genérica. Um dos alguéns discutindo fez referência à uma série ou minissérie (que, confesso, não parei para averiguar a respeito antes de escrever sobre) chamada Show me a hero, em que alguém aparentemente diz “Mostre-me um herói que eu te mostro uma tragédia”.
   
    Essa discussão girou em torno do que é narrativa, seus elementos fundamentais, seus formatos possíveis, e aquela da qual mais se falou foi a narrativa trágica, que é protagonizada por um herói. Pois, muito se disse, não havendo uma história trágica, uma catástrofe, uma situação lastimável de grande calamidade e desventura, não pode haver um herói. A existência do herói - a pessoa que se sobressai salvando o dia - só se justifica, nesse ponto de vista, a partir da existência do triste trama.

    Daí, a discussão rumou para a definição do herói, qual seja, uma pessoa (normalmente um homem) de feitos notáveis numa conjuntura de significativa contrariedade. Conversamos sobre o quanto as pessoas gostam de heróis menos por gostar unicamente dessas figuras e mais por gostar de tragédias, das situações calamitosas em que eles se destacam. Sobre a desnecessária morbidez e o extremado pessimismo desse raciocínio, não direi mais. O leitor, achando cabido, pode conjecturar ou objetar consigo.
   
    De minha parte, eu não concordo. Eu creio que o foco da conversa deveria ser bastante diferente. Eu creio que o significado maior do herói é outro, é o fato de ser um reflexo e uma projeção, um exemplo. Eu também creio que há vários tipos de heróis. Há tantos tipos de heróis quanto há tipos de histórias e estórias possíveis, reais ou inventadas, dramáticas ou suaves, poéticas ou prosaicas.
   
    Há o herói que se torna tal porque entra para a história e por ela é (não raro, sobre bases muitos questionáveis) eternizado. Há o herói de convencional natureza que realiza atos bravos e por eles é lembrado. Há o herói que sacrifica a vida num campo de batalha, o herói que desafia a morte e ganha a eternidade através da palavra escrita, da arte criada. Existe o herói cotidiano, que inspira a gente, dando o exemplo, um herói palpável e tão cheio de qualidades quanto de defeitos. Existe o herói-protagonista, mocinho de um romance. O herói às avessas, o anti-herói, que por vezes é igualmente querido e amado e produtor de efeito hipnotizante.

    De todos os jeitos, pra todos os gostos, existe o herói (e a heroína). E mais do que carregar consigo estórias ou histórias que são marcantes, mais do que “salvar o dia” e ser o personagem principal ovacionado por todos, o herói - e a narrativa em torno dele - diz muito sobre quem o admira.

    Afinal, o que é o herói senão a personificação dos valores que julgamos mais corretos, das atitudes que achamos mais louváveis? Se você admira um soldado devotado, um líder revolucionário, um de seus pais, um professor ou um artista, ele acompanha e reflete as suas próprias noções de heroísmo e valor e honra. O herói, como quase tudo na vida, é absolutamente relativo. É por isso que alguém que é herói para uma pessoa pode não ser para a outra. É por isso que, creio, poderíamos completar o ditado “Diz-me com quem andas que te direi quem és” com um “Diz-me quem admiras que te direi quem és”.

    Bem como quando alguém fala de outro alguém, o alguém que fala diz mais sobre si mesmo que sobre aquele de quem fala; quando alguém diz que admira outro alguém, o admirador diz muito mais sobre si mesmo do que sobre o admirado. E é aí que, no meu ponto de vista, jaz o sentido e a importância do herói: ele nos inspira. A cada um, particularmente, individualmente. O herói confirma, reforça os valores que nós temos, torna mais claras as nossas aspirações, mostra que são possíveis as nossas conquistas, o nosso comportamento de acordo com o parâmetro que achamos mais cabível.

    O herói é importante porque pertence a nós. É uma parte de nós, faz parte de quem nós somos e de quem nos tornamos/tornaremos. O herói pertence à sua história tanto quanto à nossa. Seu heroísmo pertence à sua narrativa (que, às vezes, é de nossa própria arquitetura ou invenção) tanto quanto àquela que construímos em nossa vida, nosso dia-pós-dia, nossas ações. O herói, eu acredito, somente muito raramente frequenta os domínios da tragédia.
   
    Portanto, é esta uma boa pergunta a se fazer para melhor conhecer uma outra pessoa ou a si mesmo: quem é seu herói? Quem são seus heróis? Qual é a sua noção de herói e heroísmo?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Os perigos da beleza

                           

    Beleza é algo que todo mundo tem. Ponto. Feiura também. Hoje, para seguir a ordem alfabética e naturalmente atrativa, falemos da primeira.

    Há belezas que não se pode ver, belezas que só se pode não ver, belezas que só existem para ser vistas. Há belezas para sentir, belezas para ouvir, belezas para tocar. Há tão diferentes belezas quanto existem diferentes pessoas - belezas em diferentes aspectos, com diferentes presenças, diferentes efeitos, belezas nos olhos de quem vê, a partir de seu olhar. Não há ser humano que não tenha beleza tanto quanto não há dia que não amanheça, mesmo sem a benção do sol ou com luzinha apenas minguada dele. Mesmo entre nuvens que o camuflem. Isso é bom, belo, deliciosamente inevitável - embora haja algumas tristes pessoas incapazes de enxergá-lo.

    Hoje, contudo, estou aqui para falar da beleza mais aparente, mais imediata e rasa, aquela circunscrita na definição mais comum e (talvez) imprópria da palavra. A beleza que salta aos olhos, torce o pescoço, mobiliza um suspiro e arrepia o corpo. A beleza daquelas poucas eleitas pessoas que comumente batizamos de indecentemente bonitas, possuidoras da beleza de traços e figura que faz toda a gente parar um minutinho para devidamente apreciar e deixar-se acreditar no feitiço.

    Essa beleza tem um perigo espetaculoso. Ou dois perigos espetaculosos, para ser mais precisa.

    O primeiro afeta o sujeito, ou os sujeitos, em redor do coração (ou do rosto) que bombeia encantos. Pois, as pessoas que cotidiana ou ocasionalmente vivem e convivem com um epicentro fenomenal desta definição de beleza podem ser seriamente prejudicadas por isso: o ser humano, esquecido e burrinho como é, tende a se esquecer ou ignorar impercebidamente os avisos mais sábios dos quais mais carece, como aquele que nos diz que “aparências enganam”. Ou aquele que diz “a beleza não é tudo”. Ou aquele que diz “quem vê cara não vê coração”. Em suma, aqueles avisos que nos dizem para não deixar de considerar a importância do conteúdo em detrimento da sedução da embalagem.

    As pessoas bonitas hipnotizam. Têm um efeito de neblina nas outras pessoas em volta. Aquelas que não têm uma força para dissipar essa neblina e enxergar através dela podem achar-se demasiadamente veneradouras de pessoas que não merecem toda essa veneração - nem, talvez, uns minutos a mais de cuidados atenção. Entendo que estar ao lado de uma pessoa bonita tem certo atrativo: você (o acompanhante), sobretudo no caso de estar em relacionamento romântico-amoroso com o muso/a musa, é olhado com pontuda inveja. E quem é aquele que não saboreia-se distintamente com a sensação, ou a certeza, de ser olhado com inveja por um semelhante?

    O segundo perigo tem alvo muito outro: direciona-se à própria pessoa que é excepcionalmente bela. Por ser excepcionalmente bela - e por nada mais - essa pessoa recebe muita atenção. Sem fazer qualquer esforço, somente por existir e estar, essa pessoa é procurada, é admirada, é cobiçada, é objeto de interesse e olhar e desejo de muitas outras. Assim, se não for muito cuidadosa ou bem orientada, ela pode não desenvolver mais nada. Não ser nem se tornar nada além de uma pessoa muito bonita.

    Pois, nós, reles mortais de semblante relativamente agradável e figura não de todo desconjuntada, (e, mais importante, reles mortais que não ainda alcançaram o nível de consciência e plenitude de quem prescinde da aprovação do outro para aprovar a si mesmo) desenvolvemos atributos e habilidades para agradar. Talvez de maneira inconsciente e até inelutável, em grande medida, por mais incômodo que seja admitir isso, o que queremos ao aprender a tocar violão, dominar várias línguas, um esporte ou uma dança, a arte de cozinhar é arrumar modos de agradar. De se fazer interessante, se tornar atrativo para o outro, possibilitando a vida em sociedade, e uma vida em que não se é completamente desprezado ou, pior, simplesmente ignorado.

    O belo, portanto, corre o risco de ser extremamente interessante à primeira vista, aos olhos, e extremamente vazio e desinteressante à segunda vista e conversa, à convivência, ao coração. Esse não é um dado absoluto, certo e fatal; nem todos os muito belos são tão rasos. Pelo contrário, alguns podem ser indivíduos de brilho enfatuante e magnético por serem duplamente atraentes - pela embalagem e pelo conteúdo. Porém, só aponto esse perigo porque vejo que ele existe e não poucas vezes é concretizado.

    Em suma, admiremos. Tratemos nossos olhos sempre que pudermos com exemplares ímpares de visual lindeza exorbitante. Como disse Vinicíus, “que me desculpem os feios, mas a beleza é fundamental”. Olhar não tira pedaço, e é bom manter os olhos saudáveis. Até para que possam, também, enxergar além do visível.

    Não deixemos, porém, que a beleza cegue e seja o entrave para uma humanidade estanque e vazia. Não deixemos os perigos da beleza se tornarem seus flagelos, seus cupins corrosivos, o círculo vicioso que pode ser tão danoso a vida das gentes. Não deixemos de dizer, ao contrário do poeta, “que me desculpem os belos, mas a feiura também pode ser fundamental.” Pode ser um ingrediente muito mais nutritivo para uma vida mais saudável e plena e interessante. Pois, a beleza é uma substância de efeito duvidosíssimo e, se mal ministrada, pode fazer mais mal que bem.

domingo, 29 de maio de 2016

Procura-se um amigo



    Não gosto de definir - especialmente no que concerne a pessoas, pessoas que nem conheço mas quero na minha vida. Definir é limitar. Às vezes, a gente pode cegar-se a pessoas maravilhosas e blindar-se de experiências belíssimas porque quem encontramos simplesmente não se encaixava nas características que estabelecemos previamente como essenciais. Assim, nem lhes permitimos a entrada em nossa vida, por uma questão de definição.

    Definir é necessariamente sinônimo de limitar. Porém, é preciso definir alguns elementos para ter parâmetros. Afinal, sem o mínimo de clareza quanto à sua busca, você não vai saber quando encontrar justamente o que procura. Portanto, aí vai uma receita, com os requisitos básicos que estou a procurar num amigo.

    Procura-se um amigo. Características desejadas:

    Geral: não importa a cor, a altura, a largura, a ascendência. A religião, a crença. De preferência, será uma aquarela com vários tons de várias cores, o mais colorido melhor. Uma aquarela grande ou pequena, anãzinha ou gigante, fina ou larga, tanto faz. Uma aquarela humana. De cores milhares, forma criativa, desenho único. O único tamanho do qual não admito variação é dos braços, que fazem o abraço. Este deve ser enorme. Vastíssimo, longuíssimo, intensíssimo. Ao mesmo tempo muito amplo e muito estreito. Abraço urso, sem hibernar, pronto para qualquer hora, de choro apoiado, de riso trocado, de silêncio encantado, de falação animada, de quietude tranquila e confortante, de um aperto que console. Que tanto quanto enorme seja seu abraço, gostoso seja o seu colo.
   
    Que seja europeu, asiático, africano, latino, brasileiro ou nômade permanente, eterno forasteiro, mas seja aberto e tolerante. Que saiba falar a língua dos vários humores e das várias situações. Que se adapte aos costumes e dialetos das minhas idades e fases, como eu certamente tentarei fazer em retorno.
   
    Que acredite em quantos deuses queira, em Moisés, Jesus, Maomé, Buda ou Chiva. Ou em deus nenhum, além de em si mesmo. Que acredite no destino escrito ou no destino que se escreve. Que acredite no verso ou no universo. Que, porém, absolutamente acredite em mim, e de mim jamais duvide. Que de meus planos jamais caçoe, minhas dores jamais satirize, de meus medos jamais faça lenda, conte história de terror ou riso. Que tenha fé em mim, na minha existência, na minha capacidade de evoluir e me tornar melhor. Que acredite no laço que podemos amarrar, que pode atar-nos de forma que ninguém desate.

    Rosto: o traço mais proeminente de seu rosto deve ser seu sorriso. Um sorriso perene, não importando a estação ou a circunstância. Um sorriso caloroso e luminoso. O traço menos destacado de seu rosto deve ser o sobrolho, ainda mais se for propenso a franzir-se. Deve ser apagado, praticamente invisível. Disso, não abro mão. Quanto aos olhos, que sejam cor de esperança. Quanto ao olhar, que seja amigo e carinhoso, belo e apreciador das pequeninas coisas. Que saiba identificar a eternidade de um momento de beleza.

    Coração: mole. De preferência, mole mais que maria-mole, mousse e gelatina. Mole por oposição a duro, casca-grossa, intocável. Mole de maleável, de empático, de compreensivo. Mole por capaz de se colocar no lugar do outro e no meu, e sentir suas (e minhas) dores sem sofrer por elas. Mole com sabedoria, e consciência de que não se pode bombear o sangue e os problemas do outro sem necessariamente sobrecarregar o caminho dos seus próprios.
   
    Que seja mole, no sentido de que não se quebre ou entorte ao sofrer impacto, mas retorne a intensidade da força aplicada com uma força igual, e tenda sempre ao equilíbrio. Que seja amável ao contato da mão, e de outro coração. Que faça conexão, e não tenha um sistema muito sistemático. Que seja ritualístico e cuidadoso com os pequenos gestos de grandeza imensa. Que, porém, não seja insensível à arte do improviso, nem muito incompetente nela, e que saiba que acasos e ocasos acontecem.

    Que seja firme e constante, mas não rígido. Que não seja permissivo a explorações e saiba rebelar-se e libertar-se delas quando são dirigidas a si e identificá-las quando acontecem a mim. Que seja bom em persuasão para me fazer enxergar tais explorações e estratégia em me ajudar no levante para abandoná-las. Que, contudo, sobretudo, seja um pouco mais permissivo e menos rígido quanto aos meus erros. Eles serão muitos. Eles serão enlouquecedores. São eles o atestado de existência do que há de pior em mim, tanto quanto, porém, de melhor: a minha humanidade.

    Que perdoe meus deslizes, esqueça meus lapsos, lembre minhas lambanças (para rir delas comigo), gentilmente aponte meus equívocos e jamais corrija minhas imperfeições. E que me ame assim mesmo. Que esteja disposto a me ouvir, dar-me atenção, esperando decerto recebê-la em troca, como devido intercâmbio. Que saiba abrir sua aorta e ser pelo amor eterna e repetidamente constipado.
   
    Procura-se um amigo. Não posso pôr anúncios nos jornais, porque para esse pesado encargo não darei mensal recompensa. Não posso fazer rifa, porque o prêmio concedido não será sorteado num único dia e entregue num pacote, mas destilado em longo período e entregue em forma de risos e sorrisos, abraços, colo, companhias e micos, tudo isso mais energia que matéria.

    Não posso pedir ao gênio da lâmpada, porque ele não pode concretizar-se em fumaça, a partir de uma polida de metal. Posso pedir ao universo, somente, e formular meu pedido em palavras, para que o primeiro quando achar viável me envie um candidato, e a força das segundas talvez faça surgir um voluntário.
   
    Procura-se um amigo. Alguém se oferece?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Questão de proporção

                                                                    
    
    Proporção. Relação das partes de um todo entre si. Dimensão, tamanho, importância. Harmonia, equilíbrio.

    Para ir direto ao ponto, creio que a proporção é um ingrediente essencial do saudável bem-viver. Se colocarmos uma maior pitada dela em nossos dias, viveremos melhor.

    Tudo é uma questão de proporção. As coisas têm o valor e o tamanho que nós damos a elas. Nada mais. Elas não são por si mesmas, a despeito de nós, apesar de nós. As coisas são o que fazemos delas. (E dentre essas coisas, estou falando literalmente de tudo. Das posses e dos pertences, dos objetos, dos objetivos. Das experiências, dos espaços, dos problemas, das preocupações. Das cobranças e das exigências, das tarefas. Dos sentimentos, das pessoas. )

    Proporção e perspectiva, portanto, fazem um par bonito que nos ajuda a viver a nossa vida, a pintar o quadro de nossa existência. Ele parece nos dizer algo como “viva a vida, porque ela passa” ou “fique tranquilo, você vai morrer mesmo.”
   
    Quando temos um problema, é bom colocá-lo na chave da proporção para lidar com ele ou, realmente, até para verificar comprovadamente sua existência (que às vezes é inventada por nós). Se você diz “acho que tenho um problema”, é bom que se pergunte “ele me impede de viver, de respirar, me impede de ser inteiro, de ser feliz?”. Na maioria dos casos, a resposta é “não” - ou é “sim”, no quesito de impedir-nos de ser feliz, só porque nós o permitimos. Porque nós damos ao contratempo (que rara vez é realmente um problema)) proporção maior do que ele de fato tem. Porque nós damos a ele o poder de nos afetar.

    No caso de a resposta às citadas perguntas ser sim, um sim resoluto... Então o problema é muito provavelmente de fato um problema. Mas, é bom que, a respeito desse problema, pensemos, como um amigo recentemente me disse: “daqui a um ano, seis meses, digamos, ele estará resolvido? Dissipado? Eu ainda poderei rir disso, me perguntar por que bulhufas eu sofri? Consigo me ver um dia contando-o a alguém com um sorriso, ou lembrando disso como uma forma de aprendizado?” Se mais uma vez podemos dizer sim, então ótimo. Temos um problema. Encaremos o problema. Nós o resolveremos, ou ele se resolverá. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.

    Da mesma forma, se você se diz “quero tanto fazer tal coisa, falar com tal pessoa, mas não tenho tempo”, é bom que pergunte a si mesma “Será? Será que não tenho mesmo tempo? Será que não tenho tempo porque o ocupo com tantas coisas desimportantes que não sobra quase nenhum para as importantes? Será que eu realmente não tenho tempo, ou eu o tenho e só não o administro bem?” O tempo existe. O tempo é. O tempo está aí. O relógio anda igualmente para todos. A sensação desse andar é que é diferente, em razão de nossas ações nele. Da proporção desse tempo que dedicamos a cada ocupação.
   
    Em suma, proporção. Lembremo-nos dela como uma chave para muitos entraves, muitas fechaduras. Lembremos que tudo (ou, suavizemos, quase tudo) é questão de proporção. E que essa é uma questão que pode ajudar a responder muitas outras. A dar-lhes respostas talvez mais tranquilas, mais bem cabidas, e mais sábias.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Em busca de silêncio

     
    Silêncio.
   
    Ouviu? Está ouvindo?

    Silêncio. É uma palavra bonita, que crisma um belo som. Um som lindo e raro.

    Raro numa medida extrema que talvez não deveria. Quantas vezes a gente ouve, realmente ouve o silêncio? O som do silêncio, do nosso silêncio? Quantas vezes, silenciando tudo, todo o resto, desligando a cacofonia do lá fora, a gente se ouve? No nosso silêncio, quantas vezes a gente ouve os nossos barulhos - até que eles se tornem sons?
   
    Poucas, eu acredito. Pouquíssimas. Poucas demais para nosso próprio bem. Porque o caos nos envolve e nos engole. Porque tantas são as exigências, as tarefas que temos que cumprir, as coisas de que temos que dar conta, tantas são as gentes - as gentes, em sua mor parte, tão barulhentas - que nos rodeiam, o tempo todo... Quase ninguém consegue passar um bom tempo sozinho, a sós consigo, com seu íntimo.

    E, não raro, quando conseguimos, quando enfim temos um ínfimo tempinho para nós, quietinhos com nossa própria companhia, que fazemos? Ligamos o tal do celular e nos conectamos... Com um monte de coisas e um monte de gentes tão acessórias se comparadas à nossa essência... Nos conectamos com o mundo inteiro e nos desconectamos... de nós mesmos.

    Precisamos reestabelecer esse contato. Precisamos de silêncio, de um silêncio tão silencioso e tão particular que nos faça ouvir o nosso coração. Isto no sentido figurado, de atender os nossos anseios e desejos, de atender aos chamados do nosso eu interior (de vozinha tão suave e tímida perto da estrondosa barulheira do exterior mundano), e no sentido literal também. No sentido de ficarmos tão quietinhos, mas tão quietinhos, e tão em paz, que possamos tomar consciência completa de nosso corpo por uns instantes e nos deixemos inundar por essa consciência, ouvindo somente as batidas do coração, sentindo a vibração do pulso, o caminhar da vida circulando em nós, vermelha.

    Precisamos reestabelecer esse contato com nosso interior, esse diálogo viabilizado pela linda sinfonia do silêncio, porque a falta dele nos deixa ansiosos, nos paralisa, nos desencontra. Deixa-nos perdidos e bagunçados, apressados numa corrida cambaleante e sem rumo.

    Ao dizermos “sim” ao mundo inteiro, dizemos “não” para nós mesmos. Nos distanciamos de nós mesmos, nos desencontramos de nossa essência, já não sabemos quem somos. Se somos. Assim, quando perguntados, não sabemos vocalizar nossos sonhos ou nomear nossos maiores desejos, ou medos, porque não sabemos quais são. Não os conhecemos, porque não nos conhecemos. Nunca paramos para pensar ou, mais do que isso, nunca paramos para sentir. Nunca paramos, a bem da verdade, para (nos) ouvir.

    Precisamos de silêncio. Precisamos das energias e das ondas do silêncio para nos sintonizarmos na estação de nós mesmos. Precisamos diminuir o volume do mundo em nós, minimizar as interferências vindas do lá fora, do excesso de informação, da sobreposição desorquestrada de barulhos para sentirmos os nossos sinais. Captarmos o melhor sinal de nós mesmos, ouvirmos nossos próprios sons, os sons de nosso âmago. Para que entremos em harmonia com a melodiosa voz do nosso silêncio.
   
    “Ei, psiu!”

    Ouviu agora? Está ouvindo? Está sentindo?

    O seu silêncio está aí. Esperando, chamando, cutucando.
   
    Basta parar para ouvi-lo.