quarta-feira, 6 de maio de 2015

Alegoria do tempo

                                                                  
    O tempo é uma coisa engraçada.

    O tempo prega peças na gente.

    O tempo é um excelente ator...

    O tempo vai andando assim devagar e depois, como criança levada, começa a correr e a correr e foge do controle da gente.

    O tempo corre tanto que a gente nunca alcança - embora ele sempre alcance a gente.

    O tempo dissimula, disfarça, esconde, se esconde. Mas o tempo nunca engana.

   O tempo é professor, ensina coisas. Espera cada um de nós fazer a sua parte, mesmo que isso tome todo o seu tempo, além de todo o nosso.

    O tempo, às vezes, dá duras lições; o tempo bate na gente.

    Tempo, tempo, tempo.

    E de novo. Mas a gente é mau aluno, e não aprende.

    O tempo nos revolta, nos indigna, o tempo nunca espera.

   O tempo acalma. O tempo nos dá tempo, nos faz respirar, nos dá a possibilidade de acertar.   

   O tempo nos traz um dia após o outro, outro dia depois desse, infaltavelmente. Podemos contar com ele.

    O tempo é amigo, é piedoso. O tempo conhece o nosso tempo.

    Aquele outro tempo, que não é externo, que está em nós. O tempo que é um coração, o tempo que é indeciso, e que precisa de tempo.

    O tempo deixa marcas na gente - mas a gente quase nunca deixa marcas no tempo. A gente passa. 

    A gente passa.

    A gente sempre passa.

    Isso é difícil de aceitar.

    Meu Deus, e o tempo fica.

    O danado do tempo sempre fica.

                                                                
    O tempo nos ensina a andar, o tempo nos ensina a falar, e a guardar.

    O tempo nos ensina a viver, mas não nos ensina a morrer.

    O tempo é tão irônico!

    O tempo faz a gente de brinquedo. Mas a gente deve brincar com o tempo também, o tempo é uma grande brincadeira. Vamos rir com o tempo.

    O tempo é uma massinha que a gente molda. Cada um com seu pedacinho de tempo faz dele uma coisa diferente, de uma forma diferente, conforme a sabedoria de suas mãos permite... Ou não permite.

    E acaba que descobrimos, porém, que o tempo é teimoso. É difícil torcer o tempo. E o tempo acaba. A quantidade de massinha é muito pouca. Tia, dá mais!

    O tempo é marrento, o tempo não recebe amarras. O tempo não ouve súplicas.

    O tempo é soberbo. O tempo é supremo.

    O tempo nos deixa frustrados.

    Mas o tempo nos completa.

    O que seria de nós todos sem o tempo?

    Páginas soltas de uma história não contada, pontos perdidos de uma frase não escrita. Pontos perdidos, pontos... esparsos...

    O tempo é o narrador de todas as histórias. O tempo conta histórias, além de ser uma.

    O tempo é um eterno vovô.

    Que, inclusive, faz de suas chantagens emocionais conosco, vem rezar suas ladainhas, exigir-nos o nosso dever. Que exerce seu frustrante poder sobre nós e às vezes nos faz deixar de escolher o que muito queremos, deixar de fazer... tanta coisa.

    Não dá tempo.

    Não dá, tempo.

    O tempo não dá.

    O tempo é muito chato.

    Eu odeio o tempo. E o ódio é uma outra face do amor.

    O tempo não conhece limites.

    O tempo conhece os limites da gente.

    O tempo é um grande limite, o tempo limita a gente.

    O tempo é cruel, mas não é tão cruel assim. Só um pouquinho.

    Pois o tempo é um troféu, um êxito. É uma peça rara, mesmo que tão abundante. Quem sabe lidar com ele tem um tesouro nas mãos. Quem vive bem o seu tempo é sábio. Quem tem muito tempo é alguém de sorte.

    Pois o tempo não é muito comprido, para nós, mas o tempo é largo.

    Nele cabem muitas coisas. Uma vida.

    O tempo nos dá uma vida. Uma vida inteira. Uma vida interrompidamente - por ele, é claro, o maestro do espetáculo.

    O espetáculo que por mais simples que seja sempre merece aplauso. O espetáculo que é um presente. Um presente sem igual. Para todos os aniversários.

    O tempo é um infinito livro, em que escrevemos um pouquinho, em que muito já está escrito, muito ainda está em branco. Um livro que também podemos ler. O tempo nos auxilia no conhecimento.

    Mas, nem sempre. A gente é mau aluno, e nem sempre aprende.
  
E o que mais quer aprender, que ironia!, o tempo não sabe ensinar. O tempo não nos diz como dizer adeus. O tempo não facilita a despedida.

    O tempo é um professor engraçado!

    Um professor que não sabe escutar mas nos deixa ouvir. Nos deixa ouvir a nós mesmos.

    O tempo nos envolve. 

    O tempo nos deixa enrolados.

    O tempo não é passado quando deixa um rabinho.

    O tempo não é passado senão quando já não resta mais.

    E não é presente senão quando nele de fato estamos. Quando desfazemos o embrulho.

    E o tempo jamais será futuro.

    O tempo é.

    O tempo está aqui.

    O tempo permanece.

   O tempo é uma constante. Uma constante que revoluciona-se, e não muda. Tempo atrás de tempo atrás de tempo. Para sempre.

    Nada mudou.

    Nada muda.

    Só a gente.

    A gente muda. 

    A gente muda muito, a gente sempre muda. A gente muda o tempo todo, o tempo todo muda a gente, a gente muda para sempre.

   E coitado o tempo fica aí parado. Parado eternamente. Isso deve ser um pouco entediante.

    O tempo não muda, não muda nunca. O tempo não morre.

    No fim das contas, o tempo é um companheiro fiel, ele nunca nos deixa.

    O tempo...

    Ah, o tempo é mesmo muito engraçado!

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Endeusamentos, relativismo e pobreza

                                                                
            
    No Egito Antigo, os faraós eram considerados deuses. O povo todo os venerava não só como líderes e governantes, mas também como deuses vivos.

    Em Roma, os imperadores não eram oficialmente considerados deuses, mas queriam sê-lo. Tentavam à toda custa associar-se às figuras de alguns dos inúmeros deuses cultuados por eles, inventar em sua linhagem um ancestral deus, truques afins. E, na prática, certamente eram respeitados e adorados quase como se fossem tais, e depois da morte alguns foram divinizados.

    Já na era moderna, o tempo dos reis absolutistas, tivemos figuras como Henrique VIII, o homem das seis esposas; Luís XIV, o rei sol; e pensadores muitos que escreveram longamente sobre o poder divino dos reis, legitimando sua posição sobre a sociedade, seus mandos e desmandos, sob a ideia de que eles eram figuras divinas. Figuras que deviam ser seguidas e servidas e adoradas e, sobretudo, obedecidas, pois desrespeitá-los seria o mesmo que afrontar Deus o próprio.

    Hoje, nós não veneramos governantes (Ô, glória!) mas temos os nossos alvos de adoração e endeusamento também, o que é igualmente cômico ou igualmente trágico. Estou me referindo aqui a algumas parcelas da nossa tribo humana que escolhemos para colocar num pedestal, prestar a nossa reverência e a nossa baba: por exemplo, o povo do branco, o povo da toga, o povo do uniforme. Entre outros, é claro.

     Todo mundo entendeu, certo?

    Pois é, hoje, a nossa adoração é mais diversa e mais terrena. Nós nos ajoelhamos e colocamos submissos a um mais variado rol de deuses, humanos endeusados, pessoas que ganham essa posição relativa pelo poder, prestígio e respeito que - não raro, tolamente - nós, tão humanos quanto, damos a eles.

    Posição relativa, eu digo, porque de fato o é. Relativa. Construída. Não absoluta, não natural, não fundamental. E que, tão facilmente quanto foi erguida e concordada entre a boiada e os boiadeiros, pode ser desconstruída, desfeita, questionada, reformulada.

    O que estou querendo dizer aqui é que o príncipe não é especial de alguma forma, ele é feito especial pelo nosso comportamento perante a ele, diante dele. Não existe algo que está nele que é diferente. O que existe é uma reação para com ele que o torna assim. Todo o poder, a magia, a aura quase mística e o prestígio do príncipe, assim, é dado a ele, literalmente de bandeja, por nós, estúpidos súditos, por meio da nossa adoração, da nossa submissão, do nosso ato de ajoelhamento perante a ele. Tudo o que ele tem é dado. Da mesma forma com os faraós modernos: o doutor, o meritíssimo, o fardento a quem submissamente reverenciamos.

    Em todas as sociedades supracitadas, o critério utilizado e a natureza do poder dado eram ligados à religião e à religiosidade. Não podia ser diferente, já que aqueles povos eram muito religiosos, tinham parte fundamental de suas vidas, o centro de seus imaginários e explicações para tudo, regidas por e embasadas em religiosidades, mitos e crenças. Essa esfera da vida era muito importante para eles, e por ela eles escolhiam seus endeusados.

    De acordo, no mundo de dinheiro e aparências que vivemos hoje, os nossos endeusados o são por causa disso: eles são, na avassaladora maioria das vezes, aqueles cujas contas bancárias inspiram o maior suspiro; e, também e principalmente, são aqueles que - em matéria de falar, de andar, de vestir, de dirigir, de “viver” - podem fazer o melhor show, exibir o maior, mais imediato e vistoso espetáculo. O que nos impressiona à submissão, à reverência, à pequenez.

    Não me entendam mal. Não pretendo aqui fazer algum deboche, alguma provocação ou desconsideração. Nem atingir diretamente alguma religião específica, como o culto do jaleco. Tenho orgulho em dizer que me considero muito polida e civilizada para cometer barbaridades dessas. E suficientemente consciente do perigo das generalizações, também. O que pretendo aqui, na verdade, é só iniciar uma reflexão acerca da fluidez dos tempos, da maleabilidade constante dos paradigmas, o efêmero poder da convenção que vigora e o perene poder que o humano tem de construí-la. Desconstruí-la. Destruí-la. Reconstruí-la. Reformá-la. Adequá-la. Relativizá-la.

    O que pretendo aqui, ademais, é propor um questionamento: se tudo passa - e passa mesmo -, se tudo de aceitação geral que consideramos hoje uma verdade inquestionável provavelmente será amanhã ridículo, mitologia pura, ficção incientífica, por que fazemos as coisas que fazemos, sem pensar muito? Por que reverenciamos o que e quem reverenciamos?

    Será que não estamos sendo pobres demais, pequenos demais, tolos demais ao simplesmente seguirmos o rumo do trilho? O trilho cujo rumo alguém determinou, e que outro alguém pode facilmente desdeterminar e redirecionar? Será que não estamos indo aquém de nossa “natureza” - justo nós, humanos, que, dizem, somos os únicos animais racionais, e dessa forma temos o privilegiado lindo tesouro, poder e capacidade de criarmos razões para nós mesmos, de questionarmos o que existe e pensarmos independentemente, de não sermos governados por nada nem ninguém além de nossa própria cabeça?

    Se todos e cada um de nós, humanos, racionais, tem a sua própria cabeça (pelo menos, segundo reza a teoria), por que não usá-la, na prática? Por que não tirar a viseira e ter olhar mais amplo? Por que não distanciar-se da situação e pensar “fora da caixinha”? Por que não, como estou sugerindo aqui, comparar diferentes convenções de diferentes culturas e assim talvez enxergar como a nossa pode ser ridícula, como a nossa deve ser - na mais suave das hipóteses - problematizada, relativizada?

    Gostaria de lembrar aqui que a mesma lei que hoje tem o racismo por crime inafiançável já permitiu a escravidão. E a mesma lei que dentro em pouco explícita e oficialmente condenará a homofobia já teve a homossexualidade como crime - quase com status de pecado -, crime que recebia não só punição e expurgo mas "cura".

    E, não menos importante, gostaria de dizer que alguns daqueles que reverenciamos de fato merecem respeito e admiração. São profissionais verdadeiros, que fazem seu trabalho com disposição, alegria e entrega; pessoas íntegras que procuram levar a vida da forma mais digna possível. Mas, alguns outros, ou muitos, daqueles que reverenciamos... digamos que, não raro, se pararmos para pensar e observar a fundo, merecem muito mais o nosso desprezo que o nosso respeito. 

    Como eu disse no texto das moedinhas, nós temos um hábito lamentável de escolher muito mal os nossos heróis. Ou os nossos deuses...

    Pensar, que perigo! Repensar, que hecatombe!

    Ou não, né? Se nós vivemos a era do progresso, não a do retrocesso, tudo o que fazemos é no sentido de evoluir, certo?

    E quanto a endeusamentos... Ah, por favor, nós já devíamos ter passado dessa fase.
   

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sim, eu sou feminista

                                                                  
    Eu sou feminista e com muito orgulho me declaro assim. (E não estou sendo pleonástica nessa frase, porque as duas coisas não são uma mesma.) Tenho ouvido muitas visões distorcidas e equivocadas acerca do que é feminismo, o que muito me aborrece e entristece, o que vou canalizar para um breve e sintético esforço de conserto e esclarecimento nas próximas linhas.

    Tem gente que acha que o feminismo é um machismo inverso, um machismo ao contrário, que busca uma “supremacia feminina” em lugar de uma “supremacia masculina”. Tem gente (estes são feministas sem perceber e sem entender) que diz que o feminismo é um enorme absurdo porque “todas as pessoas devem ser tratadas igualmente” ou porque, em contrário, “todas as pessoas são diferentes, homens e mulheres inclusive, e devem assim ser consideradas”. Tem gente que acha, ainda, que o feminismo é um “grande inimigo das mulheres” na medida em que reza uma bonita ladainha em favor da liberação da mulher e dessa forma vai contra a realização “do instinto natural da espécie, o sacerdócio feminino maior” da maternidade e da família. Ai, meu coração.

      Gente, vamos conversar. Feminismo não é nada disso.

    Antes de mais nada, primeiro e principalmente, porque não existe O Feminismo, doutrina dogmática unificada, imutável, perpétua, que defende um corpo de leis rígidas e severas e excomunga ou exila todo aquele seu “membro” adepto que “desrespeita” ou discorda de uma delas. Existem feminismos, feminismos diversos, e algo mais amplo que escolhemos chamar de feminismo, que nada mais é que um conjunto de ideias que giram em torno de um eixo e culminam, mais ou menos, em um objetivo aglutinador e conjunto, em motes de luta semelhantes e comuns.

    Esse feminismo do qual estou falando (com o qual muita gente se identifica ou o qual dispensa muitas vezes sem nem saber bem o que é) não prega um novo sorrateiro sistema de dominação, não é um machismo invertido. Pelo contrário, ele rejeita toda e qualquer coerção, dominação e submissão, opõe-se a elas, e não busca implementar uma nova. O feminismo é contra o machismo, sim, mas não é um pólo oposto a ele. O feminismo é contra o machismo enquanto mentalidade que "legitima" opressão e subjugação e manipulação, mas não é contra homens - algo a que, muitas vezes, infelizmente, o movimento está associado. Até porque, meninos, nós amamos vocês, e queremos vocês do nosso lado, pensando, lutando e protestando. Homens podem (e devem) ser feministas também.

    (A única postura radical que o feminismo de fato adota em relação aos homens, e sua relação com as mulheres, é esta: em vocês, nós não queremos senhores, queremos companheiros. É pedir muito? É tão revolucionário assim? Não, é feminista. E é apenas justo, afinal.)

    A nossa luta (a luta feminista) não precisa, nem deve, ser uma luta só de mulheres. E muito mais facilmente ela alcançará as justiças que almeja se tiver homens, também, junto, dentro e ao lado. Pois, muito mais efetivo é o trabalho de um time se ele não divide forças, mas soma; se não coloca, entre si, uns contra outros, mas todos juntos, aliados, parceiros, principalmente em vista daquilo que é um bem e um avanço para todos.

    E não estou blefando quando digo que o feminismo é para todos: o feminismo considera o homem, também, muito mais justa e gentilmente que o machismo. Se alguns dizem que homem não chora, que isso é sinal de fraqueza, nós dizemos que homem chora sim, e nem por isso é fraco. É sensível, e é humano. Pois, homem também é gente, chora, tem medo, tem angústias, tem limites, tem forças e fraquezas. E qualquer tentativa de negar isso só aponta para um psicopata ou um ogro brutamontes - nenhum dos quais, aliás, é muito bem visto ou desejado por olhos femininos...

    O feminismo nasceu visando principalmente à igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres nas esferas sociais, econômicas, políticas - civis, todas as possíveis - o que pode ser explicado também pelo contexto de seu nascimento. Em fins do século XIX, a disparidade de direitos entre os gêneros era muito grande, muito maior do que é hoje, inclusive. A mulher não podia votar, participar do cenário político de forma alguma; trabalhar era visto com maus olhos e severas reservas, era restrito a certos postos aos quais “a natureza feminina” era adequada, e sempre recompensado com salário abismalmente menor que o do homem, ainda que, igualmente a ele, ela tivesse que prover para a sua casa e sua família. Em termos legais, ela era literalmente um ser inferior, em muitos países, sendo considerada incapaz de gerenciar seus próprios bens, de tomar decisões por si própria, estando submetida à tutela e assinatura e boa-vontade de seu pai ou marido. A universidade era praticamente território proibido, e mesmo a escolaridade básica não era de amplo acesso ao “belo sexo”, entre quem um “exemplar” que fosse culto ou sabedor de muitas coisas era taxado de “pouco feminino”. Em suma, a mulher não era independente, não vivia em iguais condições às dos homens, e ficava na frustrante dependência deles para, oficialmente, tudo.

    Hoje, muitos obstáculos e desigualdades já foram superados, enquanto muitos outros, em contrapartida, ainda restam a ser vencidos - e por isso a conquista dessa igualdade ainda é um objetivo principal, um forte mote de luta.

    E no entanto, reparem, o feminismo almeja a igualdade de direitos entre homens e mulheres, não a igualdade entre homens e mulheres. Isso não existe. Isso, como eu já disse em texto anterior, é uma colocação equivocada de linguagem - para não falar de um completo e perfeito delírio. E o feminismo (como, realmente, qualquer pessoa com cérebro) reconhece isso. Homens e mulheres são iguais enquanto seres humanos, mas são essencialmente e felizmente diferentes enquanto... bem, homens e mulheres. Há diferenças marcantes, particularidades indeléveis e inescapáveis que caracterizam de modo distinto cada um dos sexos, e nada jamais pode (nem deve) mudar isso.

    Além do que, meus amigos, convenhamos, não é possível falar em uma identidade feminina - bem como não é possível falar de uma identidade masculina. Isso é algo heterogêneo e não pode ser considerado como o contrário. Não existe um bloco uniforme, algo único que está presente em todas as mulheres do mesmo modo e que as define de jeito absolutamente igual. Não existe a mulher, existem as mulheres. Mulheres diversas, variadas, diferentes entre si, que se identificam particularmente com coisas diferentes. Há aquelas que adoram um futebol, aquelas que o detestam, aquelas indiferentes; como há aquelas que amam a cozinha, aquelas que fogem dela. Aquelas românticas, aquelas desapegadas; aquelas que se aquietam com um homem só, aquelas que desfrutam mais quantitativamente de sua solteirice.
    E o feminismo é muito centrado nisso também, nessas singularidades, e na luta pelo reconhecimento e respeito a elas, indistintamente. O feminismo é uma luta pelas igualdades necessárias e também pelo reconhecimento das diferenças, as diferenças entre os sexos e “dentro” dos sexos, dos indivíduos entre si. E as duas prerrogativas não excluem-se entre si - pelo contrário, se complementam e se completam.

    Por isso mesmo - por considerar as múltiplas identidades, a singularidade que há em cada mulher - o feminismo não é, nem pode ser, “contra a maternidade e a família”. Gente, para alguns de vocês pode parecer idiota (é!), mas tem uma galera considerável por aí pensando nesses termos, e eu gostaria aqui de desmistificar essa noção errônea. O feminismo não é nem “a ideologia das vagabundas” nem, com efeito, “a ideologia das ‘puritanas’”. Muitos relacionam a agenda feminista à “libertinagem feminina”, à liberação “exacerbada” da mulher, e assim, acabam tendo-a como uma “doutrina” anti-maternidade, anti-família, até anti-Deus. (?!)

    Nada disso procede. O feminismo busca e prega, sim, a emancipação da mulher - de modo que ela, assim, possa fazer o que quiser de si mesma, agir como entender melhor, se tornar quem quiser. O feminismo, no fundo e na verdade, tenta desconstruir a ideia de “natural” no que é cultural, convencionado, e dessa forma libertar a mulher dessas amarras para ela própria escolher seus caminhos. Para ela, livre, escolher como deve ser a própria vida.

    Por exemplo, só a mulher pode ser mãe. É verdade, homens não podem ser mãe (que pensamento estranho). Mas isso não significa que toda mulher nasceu para ser mãe, que toda mulher será mãe em alguma altura da vida. Ser mãe é uma escolha, deve ser uma escolha, uma opção que se decide por abraçar ou não.

    E é isso, em última instância, o que é o feminismo, o que o feminismo prega e objetiva: escolhas, o poder de escolher, a possibilidade de a mulher definir o que quer da sua vida e não tê-la definida, não ser definida por seu gênero, por simplesmente ser mulher.

    E, assim, ao contrário do que muitos pensam, mulheres que optem por serem mães e esposas em tempo integral podem ser feministas, e simbolizam muito bem o que é o feminismo. Como eu disse, o feminismo não prescreve uma receita, um caminho a ser seguido por todas, uma cartilha a ser obedecida - pelo contrário, ele liberta a mulher para que cada uma delas opte, decida, escolha por um ou outro caminho, nas várias ramificações que encontra ao longo da trilha da vida.

    O feminismo hoje, então, toca em questões como a saúde das relações que travamos, consentimento e abuso, os efeitos variados das variadas pornografias. Os salários (des)iguais pelo mesmo trabalho, a representatividade das mulheres, sexismo - por exemplo, no futebol.

    (Aliás, francamente, levantam-se bandeiras em oposição à homofobia e ao racismo, mas ninguém fala nada de sexismo, não é mesmo? E todos sabemos que ele existe, que uma jornalista esportiva infelizmente não vai trabalhar livre, leve, solta e tranquila como um jornalista esportivo, bem como acontece com as árbitras, as auxiliares, as médicas que entram no campo. As motoristas de ônibus, as engenheiras, as mecânicas. E os insultos, as provocações, os deboches afetam e incomodam, sim, mesmo que se passe por eles de cabeça erguida, como se fossem parte do vento; e eles não precisam ser tolerados dessa maneira, não podem existir com a aceitação ampla e geral como se fossem algo normal.)

    O feminismo, em resumo, é sobre a igualdade e sobre a diferença, sobre o respeito, o reconhecimento, a escolha, as escolhas. O feminismo, por si mesmo, é uma escolha, uma escolha em construção. Uma construção que eu apoio, cujas manchas eu tento clarear e esclarecer, uma construção na qual eu me orgulho de ser panfleteira e aguerrida operária.
    Porque eu sou feminista. Eu sou feminista, sim.

                                                      


quarta-feira, 15 de abril de 2015

As coisas valem pelas pessoas que nos trazem

                                                                   

    Quando o coração está em desassossego...

    Suas pernas andam a esmo, e não encontram um rumo, nem meio.

    Você chega a todos os lugares, e não está em nenhum.

   O peito angustia, aperta, e parece impossível desfazer o nó, suavizar a sensação tão próxima de se estar perdido, longe.

    A cabeça martela, o pensamento lateja, tudo a seus olhos é estranho, nada lhe parece familiar, importante, sequer mesmo real.

    Você está como que preso num limbo, em que voluntariamente se colocou.

    O sentido de tudo, do todo, de estar e não ser, é confuso, sufocante, intoxicante.

  Você se enlabirinta tentando encontrar um sentido, um outro sentido, querendo justificar-se, explicar-se a si mesmo. E, para seu desespero, sua tontura, seu choro, não consegue.

    Você mudou de endereço, mas ainda não o tornou o seu lar.

   E assim, você hiberna e flutua, você não tem mais ao mesmo tempo que ainda não tem... o seu lugar.

    Mudança.
 
   
    Eu acredito muito na importância das pessoas. Apesar de todo o engano que tem havido nessa órbita, de todo o distanciamento da gente quase toda dessa tão rústica verdade, tão simples e funcional consciência, eu ainda acredito na força e no valor do humano. A vida é feita muito mais de pessoas do que de coisas, pois as coisas não têm sentido sem as pessoas: as ideias precisam de alguém que as tenham, os planos de alguém que os realize, as posses e os bens e as conquistas e as coisas perdem a graça se você não tem pessoas com quem dividi-las, pessoas que vão fazer você querê-las por elas, para tê-las junto com elas.

    Ou não é fato que é tão mais gostoso ver um filme quando se tem alguém com quem discuti-lo, debatê-lo; alguém ao seu lado que pipoca comentários ao longo da exibição e ouve os seus, com quem se compartilha impressões ao final dele e constrói-se uma leitura - ou não se constrói nada, no feliz silêncio, além da conclusão de um tempo passado em alegria e delícia?

    Ou não é fato que a mesmíssima comida tem gosto diferente quando provada em situações distintas, sozinho e acompanhado? Não tem muito mais graça o ritual da refeição quando compartilhado, com a mesa completa, voz e riso e conhecido carinho em redor; não é muito mais lento, conscientemente sentido, percebido, regozijado o ato do levar o garfo à boca quando o ambiente preenche-se por presenças e não por ausências; não é muito mais gostosa, realmente, a própria comida, se saboreada com o tempero da companhia?

    Não é tão mais completa uma viagem, memorável sua experiência, se o seu lado por todo o trajeto não está vazio, se as malas são duplas, também as fotos, e os risos; se você tem com quem rir por todas as gafes, todos os erros, as direções enganadas, com quem relembrar os bons momentos, a visita inesquecível ao lugar que tanto adorou?

    Não é até mais suave a derrota, menos dolorida a queda, quando se tem aqueles com quem sofrê-la, aqueles que vem ao seu apoio e consolo, e te fazem rir mesmo nesse momento logicamente tão pouco propício ao riso? Não é muito mais significativa a vitória, a conquista, quando há com quem celebrá-la, aqueles que estiveram com você ao longo do caminho, e agora muito sentem contigo também a sua alegria?

    Eu poderia encumpridar isso aqui praticamente ao infinito. Poderia ser interminável em mais exemplos, comentar mais e mais situações com as quais todos se identificam, sensações pelas quais todos já passaram, das quais todos com certeza conhecem o gosto, o amargo e o doce. Mas já passei minha mensagem. Ela é simples, quase infantil, mas nem por isso perde, para mim, sua validade e seu valor.

    Machado de Assis disse assim “as coisas valem pelas ideias que nos trazem”. Eu digo que as coisas - os objetos, as artes, as viagens, os acontecimentos, os lugares - valem pelas pessoas que nos lembram, pelas pessoas  que nos trazem.

    Estou puxando o fio do lugar porque ele é o que agora experimento, mas ele é só um dos que podem exemplificar a situação de mudança e deslocamento de apego, desenrolar o novelo do apelo e do sentido das coisas para nós. Enquanto não criamos laços com as pessoas de um novo lugar, enquanto ainda não amamos a rotina que temos em torno delas, vivemos momentos memoráveis com elas, então igualmente tênue e frágil é a nossa relação com esse lugar, igualmente vazio de valor, desprovido de sentido e significância ele é. Ainda não aprendemos a amá-lo porque não amamos as suas pessoas. E quando, somente quando, elas tiverem significado para nós, tornarem-se queridas, únicas e insubstituíveis, assim também será o lugar seu enredor, o lugar em que as encontramos, o lugar que nos trouxe a elas, e assim nascerá o afeto que teremos para com ele.

    As coisas, os lugares, as vivências, valem - também e principalmente - pelas pessoas que nos trazem.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O crime da prosperidade

                                                                       
    “Eu o vi dar um rápido, clandestino olhar por toda a minha sala; ele registrou seus limites estreitos, sua mobília escassa. Em um instante, ele havia compreendido o estado das coisas - havia me absolvido do crime da prosperidade. Estou moralmente certo de que se ele tivesse me encontrado em um cômodo elegante, deitado em um macio sofá com uma esposa bonita e rica ao meu lado, ele teria me odiado. Uma visita breve, fria, distante teria sido em tal caso o extremo limite de suas civilidades, e ele não mais me procuraria pelo tempo todo em que a onda da fortuna me mantivesse em sua crista. Mas a mobília pintada, as paredes nuas, a triste solitude da minha sala relaxaram seu rígido orgulho, e uma mudança suavizante havia tomado lugar em sua voz e em sua postura quando ele falou de novo.”

    O trecho acima reproduzido é uma passagem do líndissimo romance ‘O professor’, de Charlotte Brontë. A cena, de dois amigos se reencontrando depois de algum tempo distanciados, sintetiza genialmente esse que é um mal moderno que corrói amizades, aparta familiares, distancia enamorados e, sim, instaura-se sorrateiro em nós, tornando corrompida e falsa a nossa cordialidade: o crime da prosperidade.

    Quantas vezes já não nos deparamos com a roda da fortuna em movimento produzindo abruptamente substancial mudança nas circunstâncias daqueles próximos de nós. Dinheiro vai, dinheiro vem; portas se abrem, oportunidades se criam, conquistas vêm, merecimentos são reconhecidos, empreendimentos ousados ou tímidos dão muito certo, ou muito errado, e cabum - aparentemente da noite para o dia os vemos (ou, realmente, a nós mesmos) de repente com finanças e meios significativamente diferentes daqueles de uma tão recente outrora. As reações, apesar de oscilarem, sobretudo em níveis de efusão e demonstração, costumam ser normalmente as mesmas, e lembram-se umas às outras.

    No caso de um pioramento da situação daqueles próximos de nós, tudo corre fantasticamente bem. Desperta-se em nós o tão belo senso de solidariedade e repetidamente brindamos a nós mesmos como somos excelentes pessoas ao estendermos a mão, sem um momento de hesitação ou segundo pensamento, ao nosso irmão em necessidade. Fazemos todo o possível e o impossível e, sorridentes, asseguramos ao camarada em questão que temos certeza que, fosse o contrário, ele faria o mesmo por nós, igualmente apoiador em sua presteza em ajudar e estar incondicionalmente presente e disponível.

    Ah, se não é realmente admirável o instinto do ser humano em ajudar seu semelhante! Nós somos todos, realmente, um espectro de bondade!

    Se acontece, porém, um melhoramento das condições deles - que venha a cabo e manifeste-se nos mais variados meios - tudo muda de figura. Nosso ‘rígido orgulho’, como brilhantemente ironizou a mais velha das irmãs Brontë, não nos permite entreter o conhecimento e manter a convivência nos mesmos termos de outrora, pois - convencemo-nos que estamos pensando assim - não queremos que o amigo vislumbre, por um momento, a noção de que estamos próximos por querendo ‘aproveitar’ sua condição privilegiada, deixando que ele pague a conta do barzinho, nos dê presentes generosos, nos apresente a importantes contatos para que possamos ascender por meio dele, subir como ele, apenas para depois passá-lo para trás, jogado de lado, na comum vala do esquecimento, terminada toda a amizade.

    Pois, nós somos puríssimos! Somos íntegros demais para sequer cogitar agir dessa abominável forma; somos amigos fiéis, pessoas praticamente incorruptíveis, e a mera possibilidade disso passar pela cabeça de nosso amigo - ou parente, par, enfim - nos ofende e incomoda-nos em nosso brio. Uma salva de palmas à nossa pureza de caráter, ao nosso senso ético dos mais inabaláveis!

    Entretanto, meu leitor, na verdade, o que sucede é que esse rígido orgulho é uma ironia bastarda, soberbamente implicitada por Brontë, uma ficção, um conto dos mais lindos que impercebidamente inventamos para persuadirmo-nos a nós mesmos de nossa mais profunda bondade e humildade. Para persuadirmo-nos, ludibriosamente, que é mentira a mais pura verdade de que ressentimos o sucesso dos outros e mil vezes preferimos estar, sempre, em posição superior a eles. Pois, convenhamos, a verdade é essa. A verdade pura, despida de todo falso pudor e desinfetada de toda demagogia, é que nós ressentimos o sucesso do outro (enquanto de forma alguma dispostos a honestamente admitir sua virtude, admirar sua persistência e mérito na conquista, a seguir seus passos para igual êxito) e nos regozijamos estupendamente com sua desgraça.

    Tanto isso é verdade que nós somos excelentes voluntários - a toda boa ação para o necessitado, mesmo que desconhecido, estamos prontos. E os noticiários são verdadeiros campeões de audiência, nossa parte predileta da decadente programação - eles que são a reunião última de todo exemplar da desgraça humana. Nós nos entupimos de noticiários, sempre ávidos por mais, enchendo os olhos e inundando o ambiente com o infortúnio, a dificuldade e a tragédia alheia.

    Tanto isso é verdade, querido leitor, (eu sei que você me compreende) que nas mais sutis manifestações o percebemos descaradamente: não é fato legítimo e verdadeiro, ainda que lamentável, que quando um nosso colega, por exemplo, passa num belo concurso ou consegue aquela promoção pela qual tanto trabalhou, a nossa congratulação é dada da mais forçada forma, com um sorriso amarelo, um frouxo abraço, ou murcho aperto de mão, com uma voz que denota em seu tom o quanto é insincera, fabricada, a nossa alegria pelo êxito dele.

    Nós, meus amigos, ou a maioria de nós (prefiro pensar que algumas almas por aí salvam-se, são genuinamente diferentes e isentas desse defeito) somos seres invejosos, e sofremos de uma síndrome muito da cínica que é o horror pela inferioridade. Gostamos de sermos olhados com respeito, cumprimentados com reverência, impondo uma aura de valor que muitas vezes nem temos. E, por outro lado, detestamos absolutamente a mera ideia de estarmos, em contrário, na ponta mais baixa de qualquer hierarquia - velada ou palpável.

    É por isso que enchem-se, abarrotam-se, as turmas, por exemplo, de medicina e direito, cursos que no senso comum e na prática social que o segue dão acesso a profissões de prestígio; e por isso são renegadas - esquivadas até da possível consideração de nossos alunos do ensino básico - profissões tão importantes, mas reles e degradadas, como aquela do pedreiro, do padeiro, do professor...

    (Não me odeiem médicos e advogados em formação lendo-me. Não estou falando que a profissão de vocês não é nobre, porque é sim. Estou falando que não nobre é a atitude de muitos para com ela, a sua estigmatização como distintivo social, a retirada de sua virtude para encará-la unicamente sob lógica de mercado e poder.)

    É por isso, também e principalmente, que dos nossos amigos, “coitadinhos”, subitamente desafortunados nos aproximamos incondicionalmente, amparando-os, auxiliando-os, protegendo-os até, de todas as formas possíveis, aguerrida e lealmente, com o maior afinco, a maior das doações. E dos nossos amigos, “grande coisa”, que tornam-se importantes ou vitoriosos, triunfam de alguma maneira, nos distanciamos drasticamente. Não podemos mais estar nos intermédios de sua presença porque, em verdade, não suportamos o seu sucesso.

    Que bicho esquisito não é esse ser humano! Com esse tão grande poder de iludir-se, enganar-se perfeito... E tão imperfeito, tão demasiadamente humano, tão invejoso... Pronto a acusar no outro, mesmo que louco por cometer por si mesmo, o crime da prosperidade.

sábado, 4 de abril de 2015

Contra a escola integral

                                                                   
 
     Eu gosto de fugir do óbvio. Enquanto tantos falam de redução da maioridade penal e de corrupção, proponho que falemos aqui de algo diferente, embora igualmente relevante e intrinsecamente relacionado: a educação. Se tivéssemos uma educação excelente, quem sabe corrupção e crime juvenil não seriam temas que debatemos tão urgente e corriqueiramente.

    Há uma forte tendência, hoje, em favor da escola de tempo integral. Caminhamos a passos razoavelmente largos para uma difusão crescente deste modelo de instituição-ensino que absorve os alunos por um mais comprido correr de relógio, redimindo assim os pais dessa “obrigação”, e da preocupação com “o que os filhos se ocupam” durante as horas em que não estão na escola, ‘estudando’. Não bastasse essa disseminação estar acontecendo efetivamente, parece contar com a aprovação de muitas pessoas.

    Alguns dizem que a escola integral é uma opção admirável porque nela os jovens não têm tempo para ficar à toa, pensando de acordo com aquela velha máxima “cabeça vazia, oficina do diabo”. Outros dizem que ela é uma opção vantajosa porque nela (na maioria dos casos), os jovens têm acesso a diversas atividades - esportes, xadrez, lego, música, robótica, inglês - as quais, de outra forma, os pais teriam que procurar e contratar mesmo, por fora, com um gasto maior e o problema da mobilidade. Outros, ainda, argumentam que a alternativa é não só muito boa, em vários sentidos, como também correta, porque não devemos ficar mimando os nossos filhos, facilitando a vida para eles, dando-lhes tempo, atenção e conforto, sendo que o mundo não lhes dá nada disso, é cruel, exigente e competitivo, e o melhor que os pais têm a fazer é preparar seus filhos para ele, doa o que doer.

    Eu discordo plenamente de tudo isso.

    O primeiro fator que explica minha reserva, meu franco desgosto, em relação à escola integral remete justamente a esse último argumento favorável citado acima: o mundo já é cruel o suficiente sem que precisemos adicionar aí alguma impiedade dos pais para com os filhos. Não é questão de mimá-los, e sim de amá-los e querer para eles a mais feliz juventude possível. Não é questão de cair no extremo mimo, na desmedida proteção, e sim de alcançar um meio termo. Eles têm que criar responsabilidade? Sim, é evidente. E criarão. Criarão aos poucos, com nosso auxílio, nossa orientação, sob nossa tutela e acompanhamento.

    Mas, não vejo cabimento em submetê-los a tamanha pressão, sobrecarga e cobrança enquanto são tão novos. Não há necessidade. Tudo tem seu tempo. Não devemos esperar que crianças de 13, 14 anos lidem com carga horária e volume de deveres e informações semelhante àqueles que alguém de 21, 22 está acostumado. Depois dos 18, tudo aperta mesmo, e chega uma hora em que a vida de cada um está em suas mãos, somente, e não há nada que os pais possam (ou, realmente, devam) fazer para “aliviar” isso. Porém, até lá, é justo que deixemos as crianças serem crianças. A infância é um tempo precioso que passa rápido e não volta jamais, então por que maculá-la e manchá-la ao tentar "adultificar" as crianças, fazê-las crescer cada vez mais (desnecessariamente) cedo?

    Em segundo lugar, creio que mesmo as palavras “vantajosa” e “admirável” aplicadas à escola integral podem ser relativizadas. Quanto a reunir em um pacote só várias atividades, isso é vantagem e conveniência para quem, para os pais ou para os alunos? Para os alunos, certamente que não, pois muito mais beneficia uma criança ou jovem - qualquer pessoa, na verdade - uma diversidade de sociabilidades do que uma concentração delas. Passar prolongado tempo na companhia das mesmíssimas pessoas, no mesmo espaço, pode ser não somente cansativo e difícil como também, em alguns casos, desmotivante e danoso.

    Às vezes, o ambiente não é tão saudável quanto parece, tampouco as convivências são tão profícuas, e expor a criança a tudo isso torna-se até perigoso. E num contexto de escola integral, descobrir que este é o caso é mais difícil, tanto pela demagogia que não raro existe na escola - que também é um negócio e, como tal, naturalmente não deseja perder seus ‘clientes’ - quanto pelo escasso e breve tempo que é passado com qualidade entre pais e filhos. Quero dizer, das 6 às 10 da noite, digamos, todos os dias, pais e filhos, cansados da batida do dia, querendo sossego e descanso, e não mais preocupação, para já prepararem-se para o seguinte... Que espécie de diálogo existe aí? E não é justamente por causa disso - falta de diálogo - que muitas vezes acontecem episódios de auto-mutilação, desordens alimentares, bullying, depressão, sem que os pais saibam, percebam e possam ajudar senão quando já é tarde demais? Passar tempo além da conta fora de casa, longe da família, numa fase em que tanto precisa-se de ambos, pode provar-se bastante negativo.

    Numa escola integral, o aluno não tem tempo para “fazer nada” - de fato não tempo nem para si mesmo. Não pode ficar ocioso ao passo que, em contrapartida, também não consegue ficar produtivamente ocupado em outras coisas. Não é possível para ele, por exemplo, inscrever-se em um clube de escoteiro, de trilha, de poesia; dedicar-se a algo que ele simplesmente gosta, seja a leitura de romances, assistir a um bom seriado. Participar de encontros de jovens em seu entorno, fazer um trabalho voluntário ou estudar uma nova língua - além daquela (não raro, mal e porcamente) oferecida pela escola, que já dominam. Pois, quando chegam em casa, estão tão cansados que não querem devotar seu tempo a mais nada, a não ser ao mais puro e imperturbado descanso.

    Mesmo quando a escola é inquestionavelmente excelente, e o tempo ocupado da forma mais saudável, em todos os sentidos, quem disse que isso é bom? Que passar tanto tempo aplicado, cheio do que fazer, é desejável? Que um pouquinho de ócio não é, também, um investimento, afinal?

    Não é desconhecido o palpite de muitos cientistas de que não vemos tantos gênios hoje quanto antigamente não porque não os temos, mas porque não os deixamos florescer. Temos talvez milhares de gênios em potencial andando pela Terra, mas não os permitimos desenvolver todo esse potencial. Criar é inventar algo que não existia antes, e como alguém pode fazer isso quando passa a maior parte de seu tempo carregado com coisas que lhe são ensinadas por métodos padronizados e sistemas fechados, quando o tempo todo lhe ditamos o que ele deve memorizar e REproduzir?

    Steve Jobs esteve na faculdade por apenas seis meses e largou-a, mais tarde dizendo sobre isso que “desistir foi a melhor coisa que eu fiz. Pude me dedicar a coisas que eu realmente queria fazer”. E pessoas como Mozart (na foto, compondo, em cena do filme Amadeus), por exemplo, só foram quem foram porque tiveram permissão, liberdade e tempo para dedicarem-se intensamente ao seu talento, à sua paixão. Nossos filhos podem ser potenciais artistas soberbos - cozinheiros, pintores, músicos, escritores, inventores - e nós podemos (sem saber, equivocadamente) estar enterrando todo a sua potencialidade, desperdiçando seu talento e sua vocação, ao conduzi-los, por mais e mais tempo, a aprender aquilo que foi convencionado em algum ponto ao longo da história como o que todos devem saber.

  Ou deixamos as nossas cabeças brilhantes abraçarem sua genialidade, ou as corrompemos e diminuímos, fazendo-as acatar e resignadamente seguir as obrigatoriedades do mundo moderno, que, em aparente paradoxo, parece progredir num curioso retrocesso.

    Não me entendam mal, não estou advogando a ninguém que tire seus filhos da escola, do acesso a qualquer educação formal (nem estou dizendo que a universidade é algo ruim, apenas que devemos deixar que as pessoas se descubram, ao invés de dar a elas caminhos forçados). Estou, sim, esclarecendo minhas razões para ter extremo receio quanto ao custo e ao benefício da escola em período integral - ela que, pelo simples fato de acontecer em período integral, mais ainda cerceia as liberdades e capacidades criativas de nossos filhos na medida em que mais coisa ensina-os condicionando-os a um sistema, um sistema de fixas respostas e não de perguntas. Ela que, pelo simples fato de acontecer em período integral, pede mais adulteza dos jovens que o necessário, e reduz a um mínimo muito perigoso o tempo passado desses jovens com sua família, tempo este que - nesta fase da vida, mais do que nunca - precisa ser longo, constante e bom. Como é justo e necessário; como a vida, pouco mais tarde, já não permitirá.
   
    Pessoal, comentem aí embaixo! Gostaria muito de saber se alguém pensa semelhante (ou pensa o contrário) e acho que esse é um assunto - tanto quanto a corrupção e a redução da maioridade - que merece nossa atenção, preocupação, consideração, e tempo de debate. Não é coisa pequena pensar no futuro que queremos para o nosso país, futuro este que só construímos cuidando bem da formação, também a nível pessoal, completa, dos nossos pequenos.
   

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O poder da arte - música ao longe

                                                                 

    Às vezes, topamos com perguntas que nos apertam enquanto nos abraçam. São perguntas como aquelas que tão frequentemente nos fazem as crianças, perguntas que parecem bobas e contudo se mostram as mais profundas e mais difíceis - de imediato percebemos e em posterior concluímos que a elas não temos respostas. Às perguntas mais simples, nós simplesmente não temos respostas.

    Uma dessas perguntas - capciosas ao passo que (parecendo) rústicas - eu me fiz recentemente: por que fazemos arte?

    Eis o mistério da arte. Qual é seu porquê, a sua razão de ser? Por que perdura entre nós o seu apelo e a sua tentação? O que explica seu poder, sua perenidade? É algo a se pensar sobre que, em um mundo tão corrido, nós ainda nos prestemos gratamente a parar o tempo por alguma porção dele para nos dedicarmos a algo tão ‘supérfluo’ quanto a arte. Algo que, paradoxalmente, enquanto tão acessório, é também tão necessário, tão fundamentalmente essencial - aparentemente, nós não podemos viver sem ela, mesmo que, no estrito sentido da palavra, não precisemos dela para viver.

    Pois, meus amigos, uma casa não é ainda uma casa sem a firula do desenho ou a fissura do detalhe? Se desprovida de qualquer incremento sutil que de nada realmente serve senão para agradar os olhos, ou tocar a sensibilidade? Se furtada - ou libertada - de qualquer pequeno encanto, talvez um jardim ou uma graça no gesso, que no fundo só possa prover, além de mais beleza, mais trabalho? Por que, além de projetar uma edificação, em seu esqueleto, um arquiteto também desenha sua decoração e seu corpo, nos mais infimozinhos elementos, de menor e menor instância em termos de necessidade?

    Não se poderia rezar da mesma forma num galpão imenso que numa suntuosa, trabalhosamente pensada e construída catedral?

    Não se poderia vestir da mesma forma um grande pano encapando-nos que um conjunto de roupas escolhidas, particularmente selecionadas?

    Por que enfeita seu bolo o cozinheiro, se poderia deixá-lo simples? Por que borda sua prosa o escritor, se poderia deixá-la mais sóbria, serena, fácil até, por abstêmia?

    Por que passamos - gastamos, desperdiçamos, deixamos escorrer - tanto tempo de nossa vida ocupados com música, essa tão maluca coisa que nada inteligivelmente significa para a grande maioria de nós leigos na sua ciência, que não conseguimos decodificá-la enquanto linguagem, compreendê-la racionalmente, ao passo que, apreciadores da arte, podemos entender o sentido que a move, os sentidos que dela emanam? Por que, meu Deus, deixamo-nos invadir e preencher por horas a fio, talvez meses acumulados ao longo de uma vida, por sons que nada nos ensinam, em nada acrescentam, de nenhuma palpável prática forma nos ajudam a viver, servindo?

    E, nesse pensamento, por que não extingue-se, decreta-se de uma vez o fim daquilo que talvez seja o cúmulo da objetiva inutilidade, o ápice da beleza que nada significa, nada quer significar, e de nada serve - a poesia? Por que vivem e reproduzem-se e sucedem-se, e jamais morrem, os poetas? Esses artistas que torcem, retorcem, distorcem o sentido primeiro das palavras, instituindo a irrelevância última de toda e qualquer tentativa de racional entendimento, a dificuldade hercúlea porque múltipla, perdida de todo o sentido e viúva de qualquer propósito, da interpretação sistemática; esses artesãos - ourives - que criam versos que sustentam, melodiosas sequências que cantam e encantam, organizados ou caotizados, aglomerados ou esparsos, conjuntos de palavras que espaçadamente se derramam e que - em nua e crua e seca análise - não servem para absolutamente nada?

    Porque, meu leitor, eu acredito, nem tudo o que fazemos é prescrito pela ordem da necessidade, pela lei do mínimo esforço ou da comodidade, na apenas visão da utilidade prática, serventia imediata. Nós somos humanos e, como tais, não viemos para apenas existir, e sim para plenamente viver. Cada um dos nossos movimentos não acompanha o passo da produtividade, o aspiro do retorno, o meticuloso deus da produção de cunho básico e vital, e é isso que nos diferencia das máquinas e dos outros animais. Nós vivemos de comes e bebes, e encantos. A todos os sentidos, em todos os tecidos. Nós temos necessidades naturalmente imperativas que devemos suprir, mas não só elas. Temos anseios e desejos e querências além. Temos coração.
                                                                    
                                                              
       

    Desta forma, a força da arte reside na sua condição de fornecedora de uma beleza (des)necessária. E ela tem, assim, um poder imensurável. Porque às vezes, ou quase sempre, muito mais nos faz feliz e satisfaz aquilo que apela à sensibilidade que à inteligência, aquilo que nutre o espírito em detrimento do imediato corpo. Porque tanto perecem de fome e carecem de alimento nossos estômagos quanto nossas almas e nossos corações.

    Momentos roubados de beleza como o pôr do sol ou o suave assobio de um pássaro tentamos reproduzir, e em distinta, humana, mídia mimiografar visto que eles nos encantam. Não raro dão sentido a todo um dia esses instantes pequenos de tão grande, imensa alegria, sensação de plenitude, que se expande, e se escorre.

    A arte se faz precisa e preciosa, exata e complexamente, então, por isso: ela pode ser destrutiva mas também, salva, resgata, nos torna únicos enquanto nos confere uma unidade sã. Quando você coloca em arte - que pode estar numa obra de arquitetura ou música, poesia ou contação de histórias - um sentimento, uma sensação, você a captura, segura, registra, fazendo-a eterna no mesmo instante em que ela se esvai. E ela passa a existir firme e forte e sólida, pois real, não mais somente em você, mas no mundo, para o mundo, doada por você. Você concretiza uma inspiração naturalmente morredoura e a torna inapagável, testemunho de uma existência e de um tênue átimo do belo, monumento próspero para a humanidade e seu passaporte para a idade do sempre.

    Enquanto expressão da identidade de alguém e fonte de identificação e conecto para outro alguém, uma nação, um povo, a arte é importante. Porém, enquanto fotografia e registro de um fugaz instante de beleza - e assim fonte de conforto e sustento -, ela é eterna.

    Posto tudo isso, o papel do artista, todo ele um também escritor, é - como disse Érico Veríssimo - segurar a luz. Insistir na vela contra a força da escuridão, fornecer a graça e o calor num ambiente que talvez seria doutra forma muito sério, muito triste, muito frio. O artista tem mais que um dom, mais que uma vocação - uma missão, um encargo de responsabilidade maior. Ao mesmo tempo que deleitando outros com o que produz, a produção da sua arte o deleita, e ele se torna, portanto, nos dois processos, um ser de luz. Enquanto se torna mais belo e é mais feliz, ele transforma o mundo, também, em um lugar mais belo e mais feliz.                                                                                                    
      O poder da arte é - bem provocou o mesmo escritor, em seu livro - como “Música ao longe”. Em uma serenata, ou numa peça de teatro, é a harmonia de fundo que complementa e completa e alicerça a melodia de vozes protagonistas que fazem a sua apresentação. A encenação, a homenagem, como a vida, até pode passar sem ela, mas com ela enriquece-se, engrandece-se, melhor agrada, mais profundamente toca, eterniza-se. Marca-se e marca.
  
    Nós fazemos arte então - depois de tanta volta e volteio, eu tento enfim responder - porque do modo mais bonito e fértil de todos ela é, sim, útil e extremamente necessária. Nós nos deixamos mover muito mais por aquilo que nos comove, e assim a arte é um combustível de vida, um motor poderoso da engrenagem complicada de viver. Condutora de energia, não só, mas de beleza. Uma beleza necessária. Música ao longe.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Admirável mundo novo - saindo de casa

                                                                    

                                                     
    Recentemente, ouvi um ridículo debate entre duas mães quanto a se era devido cobrar aluguel dos filhos com mais de 30 anos que retornavam à casa da família - ou que de fato de lá jamais saíram. Elas estavam rindo de fulano ou ciclano, seus conhecidos, que com 30 e poucos anos ainda moram na casa dos pais e desses pais, que os ‘aguentam’ dentro de casa e não os põem para correr, mesmo sabendo que eles são financeiramente independentes e têm plenos meios de morarem sozinhos, viverem por conta própria. Também comentavam do panorama geral da questão “filhos saindo de casa”, e como essa saída tem se dado cada vez mais tarde - coisa que é muito errada e lamentável na visão delas. Enquanto ouvindo, eu me segurava para não responder e sair com as duas no arranco. Alto lá, minhas senhoras, nem tudo é bem assim como estão pintando.

    Eu acho que há dois quadros bem distintos para serem analisados nessa questão. Um é o quadro da turma dos ‘nem-nem’, nem trabalha nem estuda, e conclui o ensino básico (ou, muitas vezes, nem ele) apenas para iniciar uma vida de escandalosa ociosidade, tocando dias sem propósito nem perspectiva. Nesse caso, a meu ver, é sim absurda a conivência dos pais - se ela existir. Nesse caso, sim, eles devem dizer “Meu filho, eu não vou deixar que você viva desse jeito, porque não é certo, e eu não sou eterno. Você trate de levantar desse sofá e estudar, ou trabalhar, ou os dois” e, se necessário, incentivarem-nos a sair de casa, indo até onde a oportunidade está. Nesse caso, sim, não se pode tapar o sol com a peneira para a existência de um problema, pois chega-se um ponto em que os pais não podem mais dar o peixe, devem ensinar o filho a pescar. Um ponto em que deixá-los no conforto da casa e da dependência, em vários sentidos, é não só incentivar um parasitismo exploratório sem cabimento como ajudar a atá-los a uma mesmice perigosa, falhando na sua missão de responsáveis pais no sentido de auxiliar o filho a construir-se, construir a própria vida, dar o final salto na transição da juventude para a idade adulta, e atingir sua plena maturidade.

    Em contrapartida, um outro quadro bem distinto - e é esse sobre o qual me proponho a discutir hoje, no viés do qual eu preciso discordar das duas senhoras maldosas - é aquele das pessoas que vivem todo esse processo enquanto residindo com os pais. Pessoas que acabam de cortar o cordão umbilical e amadurecem-se, que correm atrás das próprias conquistas e constroem a sua independência junto com os pais, inclusive estando sob o mesmo teto deles. Condenar esse tipo de situação e lamentar as mudanças que realmente vêm ocorrendo e retardando “o dia em que eu saí de casa e minha mãe me disse ‘filho, vem cá’...” é, para mim, uma atitude que se baseia numa leitura anacrônica do mundo.

    Anacrônica porque não é como se o mundo fosse o mesmo de vinte anos atrás, e todas essas graduais mudanças, então, absolutamente incompreensíveis por análise de contextos e externos fatores. Não é como se fosse, em mais profundo exame, perfeitamente absurdo esse cenário para com o tempo em que vivemos. O mundo mudou, e não podemos ignorar esse fato.

    Pois, antigamente, as pessoas saíam de casa (da casa dos pais) diretamente para formar a sua. Estabeleciam sua própria casa, adentravam e se integravam a uma vizinhança que passava a fazer parte de sua vida. As pessoas se conheciam quando morando na mesma rua, ou no mesmo bairro; bons amigos e compadres e comadres se faziam por convivência desta forma. Encontravam-se também já que seus filhos frequentavam a mesma escola, e, esperando-os sair, conversavam. Batiam na casa uns dos outros para conversar, jogar fofoca ou futrica fora, assistir o último capítulo da novela, pedir para usar o telefone (que nem todo mundo tinha) ou pegar uma xícara de farinha que faltou para o bolo que se estava fazendo. As pessoas deixavam o seu nascedouro para construir aquele de seus filhos, deixavam a casa da família de seus pais para constituir a sua própria. A maioria das pessoas se casava cedo, se mudava para um lugar novo - ou nem tão novo assim - onde fazia novos amigos, tinha próximos conhecidos. Logo vinham os filhos, os amigos de seus filhos, a brincadeira e as artes de seus filhos, os namorados de seus filhos, os netos... Que preenchiam o espaço e o ambiente, deixando-o agitado e cheio de vida. A casa nunca estava vazia (realmente nunca), e silêncio prolongado raramente se fazia. Era fácil sentir-se confortado, e mesmo cansado, com as tantas vozes em volta, e era difícil estar sozinho.

    Hoje, em contrário, a solidão é uma das armadilhas que não raro vêm com a independência, ou o construir dela. A maioria das pessoas deixa o seio de suas famílias para ter que viver somente e apenas com o seu, por vezes apertado, por vezes ainda incapaz de lidar com todo o novo que chega, e o velho que se perde. Vai morar onde a oportunidade está, em um lugar maior, a cidade grande - entre cuja multidão, a solidão é, frequentemente, a única companhia. Talvez vão morar em prédios, onde talvez contam com dezenas de vizinhos, pessoas com quem compartilham o endereço, mas entre as quais não conhecem nenhum. A maior das interações, quando ela existe, é a casual conversa de elevador “Bom dia, tudo bem?” “Tudo bem” “Como está quente hoje, né?” “Pois é, o calor castiga” e o vazio que isso traz, a carência, é enorme. A superficialidade das relações, sua repetitiva e frustrante abundância, chega a ser desesperante, e o silêncio dos corredores, enlouquecedor. Cada um entra em sua jaula voluntária e segura, o apartamento e, no virar da chave, aparta-se dos outros, realmente.

    Amiúde, paga-se uma academia porque não se sente seguro em exercitar-se ao ar livre, cidade afora, e se entra no estabelecimento - mais uma vez, um aglomerado de paredes, um cercado de tijolos e silêncio e isolamento - apenas para nele estar, todo o tempo, e dele sair, com o fone no ouvido, sem interagir com ninguém, ou interagindo com poucas pessoas - as poucas que, igualmente, permitem essa abertura. Na academia, ou no prédio, é difícil fazer amizades, ou permitir-se proximidades, também, porque você não sabe em quem confiar. E assim, você dirá bom dia, repetidamente, para pessoas que jamais conhecerá. Hoje, infelizmente, vivemos num mundo em que felicidade enorme e extraordinária é estar num lugar qualquer, rodeado de pessoas, e não sentir medo.

    Portanto, é um erro achar absurda a maior e mais longa ligação dos filhos com os pais, e com a casa dos pais. Afinal, quem - em uma circunstância que o permita - voluntária e alegremente trocaria um lugar onde se tem colo e segurança, onde se é amado e é importante, para um em que não se conhece ninguém, e provavelmente em profundo poucos conhecerá, um mundo que é hostil e competitivo e cruel, no qual dezenas de milhares de outras pessoas querem um seu lugar tanto quanto você; um mundo no qual, dessa forma, a sua vida - ou com efeito, a sua morte - não faz a menor diferença, vez que é só mais uma? Quem deixaria o afago e o aconchego, o conforto e a delícia que é estar em meio às pessoas que mais lhe querem bem, para um lugar em que as pessoas nem lhe querem bem, nem mal, mas simplesmente não lhe querem?

    À vista de tudo isso, eu concluo, as duas senhoras deviam reconsiderar suas palavras. Não podemos tentar entender o mundo de hoje através dos valores de ontem. Não podemos esperar que as realidades das pessoas de épocas diferentes se equivalham, quando é claro que, com o tempo, as circunstâncias e as estruturas do mundo em seu redor mudam, pedindo consigo, necessariamente, ajustes de comportamento e vivência que o acompanhem. Tampouco, acredito, podemos julgar pessoas e situações arbitrariamente, sem compaixão, com o olhar e a tranquilidade que caracterizam a visão de quem se está ‘de fora’, e observa sem viver o gostoso e o difícil, as alegrias e as complicações daquilo que o outro vive, e somente esse outro sabe descrever ao certo. Se os filhos de seus conhecidos vivem na casa deles, e todos ali dentro estão felizes assim, vivem bem com isso, então, por favor, minhas senhoras, os deixem em paz, sem lhes prestar o desfavor de suas línguas batendo em maldoso deboche. Como bem disse Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
  

quarta-feira, 18 de março de 2015

A primeira impressão não é a que fica

                                                                

  Eu adoro ditos populares. Tenho verdadeira fissura por essas frases marcantes cheias de sabedoria que vira e mexe nos vemos em situações em que podemos encaixadinhamente aplicá-las. “Evita dever que pagar é certo”, por exemplo, é uma paráfrase inteligente da dicotomia mais antiga que existe, do plantar e colher; e “quem vê cara não vê coração” diz inteligentemente como as pessoas podem nos enganar, e nossos sentidos e nossas sensibilidades errarem enquanto avaliando-as.  
                              
    Pois é, mas hoje não estou aqui para discorrer sobre meus favoritos -  o que é muito bom e conveniente, ou o texto não mais acabaria. Estou aqui para falar de um que muito me aborrece, do qual eu aguerridamente discordo. “A primeira impressão é a que fica”. Nunca vi ditado mais equivocado. Antes de comentar por que eu não concordo com ele, vou contar o que me aconteceu para eu começar a questioná-lo. Afinal, que argumento melhor que o exemplo?

    Uma acontecença chave foi ligada a um tal Joaquim Maria Machado de Assis, nosso excelentíssimo ‘Bruxo do Cosme Velho’. Como ocorre com a maioria das pessoas, meu primeiro contato com a sua brilhantez foi na escola, nos saudosos anos de ensino médio (nossa, estou falando como se tivesse sido há anos...). Aconteceu que, como a maioria das leituras obrigatórias, essa foi extremamente desprazerosa, e eu não enxerguei sua brilhantez, não estive imparcial e aberta o suficiente para me permitir enxergá-la. Vi tremendos defeitos no livro, D Casmurro, xinguei Machado e a baba inexplicável de tantas pessoas por suas palavras difíceis e sua narrativa excruciante de lenta e picotada que nada tinha a dizer de especial. Ah, que vergonha de ter pensado assim.

    Aí, nessa vida engraçada de meu Deus e as pulgas que a gente leva, no fim do mesmíssimo ensino médio, aconteci pegar outro livro do mesmíssimo detestado autor. (Abençoadas sejam as provas de vestibular, que muito nos servem ao nos reapresentar a mestres como meu amado Machado). Da generosa lista que devíamos ler, meu apurado senso de dever me fez ler todos, e o primeirão acabou sendo um que eu não esperava ler jamais, que tinha um olho pintado na lombada que - eu juro - piscou para mim me chamando. “Vem cá, docinho, pode me pegar. Quem desdenha quer comprar, eu sei que você está me querendo, eu sei. Anda, me pega. Pode devorar-me” Era Brás Cubas.

    Machado me provou por a com b, Helena, Brás Cubas e Iaiá Garcia que ele é uma luz maior entre as nossas letras, e que não faz mal dar nova chance àqueles que em princípio mais nos decepcionam, ou menos nos impressionam. Ele me mostrou, com seu jeito deliciosamente fluminense, que prosa muito boa também pode ser aquela mais elaborada, para ser curtida aos pouquinhos, devagarinho, entre as palavras - simples ou não - pedindo afinado exame, por ocultando, emaranhados, pensamentos de fina sabedoria.

    Primeira impressão? Eu, detestava Machado de Assis? Que é isso, colega, você está me confundindo com alguém. Ele está no topo entre os meus preferidos!

    Uma segunda determinante acontecença relacionou-se justamente à sua casa. Não sei como vocês se relacionam com seus admirados, mas eu passo a me interessar por tudo a eles ligado, inclusive tempo e espaço. Enquanto o dinheiro não sobra para me levar à Rússia, por Tolstoi, ou à Inglaterra, onde as irmãs Brontë e a singular Austen viveram, o Rio do Bruxo é uma  opção. Fora outro fator: já que Minas não tem mar, a gente vai para o Rio.

    Depois de muito sonhar, entretanto, foi meu trabalho que me levou finalmente. Se tem algum historiador por acaso lendo-me, ele sabe que há certos arquivos que só podem ser consultados lá, certos serviços que só nos podem ser prestados na antiga capital da República e corte do Império, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fazer o quê, tive que ir.

    Cheguei, toda serelepe - mentira, estava morrendo de medo, assustada com a cidade, eu era metade ansiedade e expectativa, metade absoluto terror - apenas para descobrir que o departamento que me ajudaria estava fechado, de greve...

    Passei pelos estados básicos da grande frustração. Primeiro, a completa incredulidade, a ficha que não cai, a crente descrença. Segundo, o desânimo, o abalo sísmico em seu espírito, o suspiro e a vontade de chorar. Terceiro, a raiva, a tremenda e borbulhante raiva que em revolução vulcânica ameaça para todo o lado e em qualquer pobre porventura próxima alma explodir.

    Vi defeito em tudo, no que via, no que não via. Que lugar horrível de quente! O carioca é maluco, todo mundo de blusa enquanto eu quase evaporando de tanto transpirar (eu esquecendo que sou da serra). E, meu Deus, mas que cidade feia! De onde tiraram que é cidade maravilhosa? É horrorosa, isso sim! O que mesmo eu vim fazer nesse lugar? Onde estava com a cabeça quando vim? Olha onde eu fui me enfiar! Ah, se arrependimento matasse...

    Se arrependimento matasse, toda gente se mataria por ele, apenas para depois se arrepender de ter morrido - ao invés de ter dado uma chance à vida, poder consertar o mal feito realizado, aprender com a (in)utilidade dele, curtir o Rio de Janeiro...

    Depois de mais de uma hora zanzando completamente desorientada, cheguei à conclusão de que a melhor opção que eu tinha, já que tinha batido aquela estrada toda mesmo, estava ali, e o dia estava lindo, era tentar aproveitá-lo, aproveitar o Rio, aproveitar... o mar! Eu visitei o mar, que coisa mais linda ele é, azul! É claro que eu não tinha os trajes específicos comigo, tendo ido inteiramente à trabalho, mas ah, quem se importa em molhar a barra da calça com a cosquinha do mar? Fui a vários lugares históricos do Rio de Janeiro, à famosa Ouvidor, à praia Vermelha na Urca, onde esta beleza de foto acidental aí ao lado me foi tirada... Eu sei que acabei sendo tão feliz nesse dia, fiquei tão encantada... Hoje, se você me perguntar passagem para onde me deixa mais feliz, eu não titubeio na resposta. O Rio me cativou.

    Primeira impressão? Quem foi que estava detestando a cidade horrorosa, morrendo de medo? Eu não, gente, que é isso? O Rio é lindo...

    Por tudo isso, e mais um monte de pouco que não convém agora contar e encumpridar mais esse texto, eu preciso criticar o dito da perdurante validade da primeira impressão. A primeira impressão, eu penso, normalmente não é a que fica, e nem é, naturalmente, a que deve ficar.

    A primeira impressão é uma farsa a que nos atemos quando não queremos ver além, viver além, amar além. A primeira impressão é uma pobreza temporária pela qual passamos no caminho à última, a sábia e mais correta síntese. É uma turbulência necessária, talvez marcante, em qualquer experiência em seu início, quando tentando e querendo reparar e absorver tanta nova coisa, não paramos para de fato reparar em nada, e desse nada absorvemos somente a pobre primeira perninha do ‘n’.

    A primeira impressão é, pois, apenas a primeira de muitas que virão.
                                                                 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ser mulher hoje - mulher e modernidade

                                                                  
   
   Acho que já deu para perceber que eu viajo bastante nos tempos de ontem, e critico várias facetas dos tempos de hoje. Vivo suspirando em filmes de época e quem me conhece sabe que uma das linhas que eu mais falo é “em 1900 e antigamente,...” deixando um quase visível rastro de sonhador saudosismo no ar. Mas, se há um ponto no qual preciso render-me às maravilhas da modernidade, é sua relação com as mulheres - existir no modo feminino do verbo hoje é bem mais fácil e menos doloroso do que era no passado.

    Não vivemos um mundo igual, ou justo, é verdade. Nossos salários são bem menores que os dos homens, em vários setores; sofremos preconceito e discriminação em muitas áreas de conhecimento e atuação burramente naturalizadas com de domínio masculino, nas quais alguns deles insistem em achar que não damos conta do recado como eles dão, quando, muitas vezes, fazemos melhor. Nossa jornada é tripla àquela deles, para um reconhecimento que não chega ao terço.

    Se um homem sabe impor sua autoridade, ele é dito um bom líder; se uma mulher faz o mesmo, ela é mandona. As cobranças sobre nós são cruéis, e as expectativas, torturantes: temos que ter corpo perfeito, trabalho importante, sucesso no trabalho, sermos mães e esposas e filhas impecáveis. Estamos sujeitas à todo tipo de violência, abuso, escárnio e menosprezo. Temos que aturar - todos os dias, quer seja no trabalho, ou caminhando no parque da cidade - ridículas piadas machistas, sujos comportamentos sexistas. Temos que aturar comerciais nocivos e nojentos, com nossos corpos transformados em objetos de apelo sexual, associados à cultura de poder e dominação quase sempre do lado submisso da corda, e as nossas autoridades nos fazem a vil gentileza de negarem-se a discutir o aborto como questão de saúde pública. Realmente, ainda não vivemos em um mundo igual, tampouco justo.

    Mas, ouso dizer, jamais viveremos. Primeiro e principalmente, porque isso não é possível. O mundo é um construção das pessoas, e as pessoas são imperfeitas. Além do que, dadas as particularidades próprias e naturais de cada sexo, simplesmente não somos iguais, e nunca seremos. Falar em igualdade entre homens e mulheres é tanto uma ilusão quanto um completo disparate. O certo, o mote coerente de luta, o que podemos de fato conseguir, pelo que devemos aguerridamente batalhar, é uma melhor e mais real justiça entre os gêneros, um cenário que permita aos nossos filhos e filhas crescerem de modo sadio e feliz, com oportunidades iguais, segurança e confiança para - cada um do seu jeito, de acordo com o que são, com o que almejam para si - serem o que quiserem.
                                                             

    Ainda temos muito chão para percorrer nesse sentido. Muitas barreiras para vencer, tabus e convenções para quebrar, conquistas a fazer. Mas, se pararmos para pensar, já conquistamos muito. Pelos adventos do mundo moderno, pelas lutas de nossas antepassadas, pela mera mudança de paradigmas que constantemente acontece e, de quando em vez, traz reais progressos, nós já conquistamos muito; e, hoje - apesar dos pesares, e dos persistentes problemas - podemos dizer que mais motivos temos para orgulho e alívio e comemoração que para tristeza e lamento.

    Pois, ser mulher hoje é ter acesso a universos antes inimagináveis. Se pensarmos que no Brasil colonial, o costume era educar somente os meninos e deixar as meninas perfeitamente analfabetas - pois que perigo não era ensiná-las a ler e a escrever; além de para nada servir uma mulher educada, ela decerto só ia usar as palavras para escrever clandestinas cartas de amor e através delas combinar encontros! Mulher servia para cuidar da casa, então as meninas deviam aprender somente a bordar, costurar, cozinhar, limpar, lavar, passar, arrumar, as prendas todas da casa, e, no máximo, a tocar um piano que era para receber bem as visitas e impressionar ‘bons partidos’. Hoje, nós todas vamos à escola, onde, aliás, nosso desempenho não raro é melhor que o dos meninos, já que eles realmente custam a crescer. É normal irmos à universidade - o anormal chega a ser não ir. A escola e o estudo, a academia, as artes, a ciência, o mundo do negócios, todos se renderam a nós, e estão abertos a todas aquelas que queiram deles fazer parte, e lutem por isso. Quando conversamos com nossas avós, fica nítida essa disparidade entre o mundo que elas conheceram e o que nós conhecemos, como nosso universo é mais amplo, como temos acesso à oportunidades e possibilidades com as quais elas nem sonhavam.

   Ser mulher hoje é poder ter independência, vida própria e verdadeiramente emancipada, privacidade. Era usual, no Brasil do mesmo período, o quarto das filhas ser comunicante ao dos pais, e isolado do resto da casa, o último cômodo. (A noção de privacidade, não só com relação às mulheres, é algo muito moderno. O “corredor” entre cômodos, separando partes da casa, que não mais se comunicam, é uma invenção do século XX.) Enquanto os meninos eram perdoados, até incentivados, em seus pecadilhos, as moças de família precisavam ser praticamente santas, senão castas em pensamento - que ninguém controlava, ou controla -, de certeza ‘puras’ em ação e conduta. Sair? Só para ir à missa, e mesmo assim sob olhar vigilante e indesgrudante dos pais (já que a igreja era um excelente lugar para 'se cair em tentação'). Todas praticavam o credo dos pais, só podiam frequentar os mesmos lugares que eles, travar conhecimento e manter convivência com as relações deles. Deles dependia, inclusive, o consentimento para o que lhes era uma esperança  de liberdade, o casamento. Ao passo que, hoje, somos donas de nós mesmas, escritoras de nossa história - na qual somos protagonistas, ao invés de apenas coadjuvantes principais. Somos administradoras de nossas posses, senhoras de nosso corpo e cabeça e alma. Não somos filhas de alguém, ou esposas de alguém, somos mulheres e ponto. Não precisamos depender de ninguém, para nada, legalmente ou financeiramente ou pelo velado ditame da convenção. Temos, enfim, poder de decisão sobre as várias esferas de nossa vida.

    Ser mulher hoje, em resumo, é ter escolha. É ter todo um múltiplo horizonte aberto para si e, com autonomia e liberdade, poder desfrutar dele. É ter uma vida sexual que é da sua conta, somente, e de mais ninguém (viva os métodos contraceptivos!). É poder ir e vir, voltar e revoltar-se, livremente, exercendo sua cidadania e sua independência. É não ser subjugada. É poder ser casada sucessivas vezes, ou ter vários namoridos, ou manter-se em perene e orgulhosa e agitada solteirice, de acordo com o que lhe convém e o que lhe faz feliz. É poder usar azul e rosa, cabelo comprido ou curto, panelas e carros, vestido ou calças, à gosto. É ter a possibilidade de ser mulher de uma família ou esposa de uma carreira, ou ambas, por opção e não por determinação. Porque os dois caminhos lhe estão abertos.

    Ser mulher, hoje, enfim, é poder fazer as próprias escolhas, sem que ninguém as faça por você, sem que seu gênero as determine.

   Quanto já não avançamos, malgrado os males que persistem e ainda restam ser vencidos! Como somos sortudas - nós, mulheres de hoje - e privilegiadas!

    Um viva à mulher, meus amigos, e um viva à modernidade!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Como os cães veem o mundo

                                                                    

    Algumas coisas que todos nós humanos devemos saber sobre os cães e como eles encaram o mundo, a vida e as pessoas. Ditado para mim diretamente por Paco, o preguiçoso, e Duda, a filosofante (na foto):

    1) Nós cachorros não somos como vocês humanos. Parece uma coisa óbvia para dizer, mas é sempre bom repetir, já que vocês humanos custam a aprender. Nós não somos humanos, não gostamos de tudo o que vocês gostam, roupinhas demais, sapatos, televisão. E não “funcionamos” como vocês funcionam também. Temos nosso próprio código de conduta. Nós somos criaturas bem diferentes. Tenham isso em mente.

    2) Leis e regras são coisas de humanos. Nós até podemos nos adaptar a algumas - o pipi no lugar certo, por exemplo, que torna a convivência civilizada -, mas não nos dê muitas ordens, porque não vamos seguir. Não somos fantoches. Adestramento não é bom a menos que seja divertido, e tem que ser nos dias em que estamos com disposição e bom humor. Nós, cachorros, também temos nossos humores, sabe, e vocês têm que aprender a respeitá-los, como nós respeitamos os seus.

    3) E, ah, não pegue a minha bolinha enquanto estou com ela. Nunca vi brincadeira mais boba, mandar eu buscar, e quando eu busco, dar ela para você de novo, para você jogar e eu ter que ir buscar outra vez. Eu, hein? Deixa eu brincar.
                                                                
                                                     

     4) Dia bonito é dia de brincar. Se vocês humanos conseguem ficar enfurnados dentro de casa o dia todo, perdendo um sol gostoso e um céuzinho azul, nós cachorros não conseguimos. Se não puder sair para passear conosco, peça alguém para fazer isso. É claro que preferíamos que fosse você, mas realmente precisamos do nosso pouquinho de exercício diário, especialmente nos dias bonitos. Pode ser sua mãe, ou um seu vizinho, desde que seja simpático e paciente com a gente. Se também não puder fazer isso - nós sabemos que nem todas as pessoas são confiáveis - só nos dê um pouquinho de liberdade, uma voltinha no terreiro, ou na rua, já está bom.
    5) Dia feio é dia de hibernar. Nesses dias, não há lugar melhor no mundo que a nossa casinha. Não nos tire de lá, a menos que seja caso de morte.

    6) Banhos são eventuais. A maioria de nós não gosta muito deles - é claro que tem umas exceções por aí, uns cachorros doidões que adoram uma água; coisa mais maluca, nunca vi isso, gostar de tomar banho - e o veterinário já disse que de quinze em quinze dias está bom. Então, seja consciente. Economize água do mundo. Nos poupe banhos.

  7) Nós normalmente preferimos banho de mangueira. Eles são mais divertidos. Vocês ficam agitando a mangueira para a gente ver a água balançar e tentar ir atrás dela, e nós só fazemos isso para você rir. Mas o tempo todo estamos pensando como vocês humanos são tão bobalhões, tadinhos. Mas não se preocupe, nós amamos você assim mesmo.

    8) Aliás, nós amamos você mais que tudo.

    9) Tudo o que é gostoso pode ser lambido. E, até que se prove o contrário, o que não é gostoso também. Afinal, se você não lamber, nunca vai saber.

    10) Nossos lambidos também são gestos de carinho. Se você não gosta, não precisa ficar xingando, não se zangue com a gente. A gente fica triste, sabe. Só indique que não gosta, se afaste, e a gente promete que pára.

    11) Cachorros têm muitos sentimentos. Temos sentimentos tão evoluídos quanto os de vocês, humanos - aliás, mais, muito mais evoluídos; vocês são tão insensíveis, às vezes sabiam? Nós sentimos medo, ansiedade, alegria, gratidão, raiva. Nós ficamos tristes com algumas coisas que vocês fazem, e pode ter certeza que vamos demonstrar isso. Mas também somos muito doces, e basta você pedir desculpa, e vir brincar com a gente, que a gente perdoa. Não conseguimos ficar de mal por muito tempo.

    12) Nós funcionamos com um código de ética diferente do de vocês. Nós não somos bons atores, ao contrário de vocês, e não fazemos duas caras. Nós, cachorros, não sabemos fingir. Se gostamos de alguém, que seja um estranho que você traz aqui, vamos abanar o rabinho e lamber seus dedos e pular nele e pedir para brincar. Se não gostamos... É bom você afastar ele de nós, porque vamos rosnar e morder. Nós somos muitíssimo verdadeiros, sabe?

    13) No nosso aniversário, não precisa ficar comprando coisas para a gente. Também ao contrário dos humanos, nós não precisamos de muitas coisas para sermos felizes. Só precisamos de você. Que você passe um tempo com a gente, se divirta com a gente, nos dê atenção e carinho, a sua companhia. Então, no nosso aniversário - ou todo dia -, ao invés de comprar uma bolinha nova para a gente, ou aquele cobertorzinho chique de doer que você viu no pet shop, venha ficar com a gente. É de você que precisamos para estarmos felizes.

    14) Nós somos muito companheiros. Quando você está triste, a gente sabe. Quando aconteceu alguma coisa de ruim, quando você fez lambança, a gente sabe. Não precisa ficar tentando esconder. Nós não ficamos falando muito, tentando te consolar, ajudando você a lidar com a situação porque... bom, você sabe, se conselho fosse bom, era vendido, não dado; e nós sempre pensamos que a nossa presença é mais importante, e vai ser um melhor apoio do que qualquer coisa que possamos falar. Você sabe, né, a gente fala.

    15) Nós sempre estaremos do seu lado. Não importa se você está feliz ou triste, sorrindo ou chorando, se andou dando pouca atenção para nós ultimamente, ou muita. Não importa se você está numa pindaíba danada ou tranquilinho no azul. Se é bonito, ou dos humanos mais feiinhos. Não ligamos para nada disso. Nós te amamos, e por isso, estaremos sempre com você. Por toda a nossa vida, e por toda a sua também. Só chame o nosso nome, e nós estaremos com você. Sempre.
                                                         


    Texto dedicado a todos os cãezinhos do mundo.