quarta-feira, 27 de maio de 2015

Um elogio à timidez - proteção de retaguarda

                                                               
                                                                       

 “A timidez é sempre efeito de uma sensação de inferioridade, de um modo ou de outro. Se eu pudesse me convencer de que meus modos são perfeitamente graciosos e espontâneos, não seria tímido.” (Jane Austen, em Razão e Sensibilidade)
   
    “O sofrimento das pessoas tímidas provém de não saberem a opinião que os outros têm delas. Assim que essa opinião, qualquer que seja, se torna conhecida, o sofrimento termina.” (Lev Tolstoi, em Infância)

     Muita gente confunde timidez e reserva, inclusive eu. E estou aqui hoje para falar um pouquinho das duas.

   Normalmente, define-se timidez como apreensão, insegurança, desajeito ou desconforto que sente-se numa situação de início ou novidade: no primeiro dia de trabalho, quando se chega à uma escola nova, quando se está sendo apresentado a uma pessoa ou um grupo, encontrando-lhes e conversando com eles pela primeira vez. Reserva, por outro lado, é usualmente tida como um hábito de resguardo, distância, retração de uma pessoa em relação a outras. A pessoa reservada, dizemos, é fechada. Não conversa muito, raramente dá opiniões e pitacos, transparece ou deixa mostrar quem é. Dizendo assim, a distinção parece simples, e a confusão entre as duas coisas, boba e infantil.

    No entanto, eu acredito, ela - a confusão - tem uma razão de ser, um forte porquê. Timidez e reserva não têm fronteiras tão nítidas assim, e não são dissociadas uma da outra. Pelo contrário, a linha entre elas é tênue e esparsa; elas são intimamente relacionadas, têm uma mesma raiz.

    Esclarecendo, afora o aspecto do desajeito ou embaraço, e da novidade - teoricamente presente na timidez, ausente na reserva -, as duas coisas poderiam ser a mesma. Não é à toa que, muitas vezes, caracterizamos uma pessoa como reservada quando ela está apenas vivendo uma situação de timidez, e vice-versa.
    O que estou querendo dizer é que é pouco relevante tentar defini-las em separado, discutir os limites entre uma e outra; muito melhor é enxergar as continuidades entre elas, seus núcleos comuns. Pois, a timidez não é senão um estágio primeiro da reserva - comportamento que tem como motor uma insegurança profunda, um medo, receio de ser conhecido. Assim, uma pessoa pode não ser reservada mas estar tímida, como pode não estar tímida e ser reservada. (E essa diferença ainda pode cair por terra se considerarmos que todo dia é um novo, e que as pessoas se constroem e reconstroem aos olhos das outras em cada um deles, que são, portanto, não mais que sucessivos começos. Pensando assim, a pessoa reservada é uma que está sempre tímida.)

    De um jeito ou de outro, tudo pela mesma razão: uma autoconsciência pujante, uma percepção clara de si mesmo em relação ao outro, e de que se está sendo observado e julgado por esse outro o tempo todo, e de que se teme e receia esse julgamento, essa opinião, e se quer evitá-la, dando o mínimo possível de base para ela se formar negativamente.

    Aproveitando a brilhante colocação do meu guru Tolstoi, se essa opinião fosse conhecida, toda a timidez e a reserva cessaria. Completando com a de Jane, se fosse conhecida e favorável, mais ainda o ser se abriria e se mostraria. Não estando mais preocupado com o desconhecimento, do que ela pode ser, nem incomodado com o seu teor, tendo-a descoberto, ele poderia agora agir livremente, sem a sorrateira mas muito presente consciência de que, por suas ações, ele molda a opinião que o outro tem acerca dele.

    O ser humano é um bicho engraçadíssimo! Crescendo, incorporando em si ideias conjuntamente criadas e tendo as suas próprias, fruto de observação, ele julga e torna-se pouco tolerante. Mais do que isso, ele pode ser maldoso, e tão facilmente quanto respira, sabe bater a língua sobre seus companheiros viventes a outros companheiros viventes, expondo os primeiros ao escárnio.

    Esse mesmo ser humano, porém, quer ser amado, precisa ser amado. Gosta de se sentir parte do grupo, de estar encaixado, sendo querido. E, vivendo e vivendo situações diversas - ora sendo aquele que bate a língua, ora do grupo que escuta, ora do que é objeto dessa fala toda, ora de um outro que só observa - ele sabe que tudo isso acontece. E, tendo uma enorme necessidade de ser querido, se sentir amado, conectar-se a seus semelhantes de forma boa e forte, é muito natural que tema a opinião desse semelhante na medida em que é ela que vai determinar em que condição está ou não de ser querido por ele.

    Isso porque, convenhamos, nós normalmente amamos e admiramos e queremos perto o que achamos bom, agradável, positivo. E não gostamos tanto, queremos distância, do que é ruim e desagradável. (Embora, é claro, existam por aí gatos e gatas pingados que sentem um magnetismo aparentemente irresistível àquilo e àqueles que podem ser corrosivos, que dizemos incorretos e de virtudes, digamos, pouco uniformes. Mas isso é papo para outra história.)

    Dessa forma, voltando à discussão principal, eu vejo duas maneiras comumente utilizadas de as pessoas fugirem da potencial desfavorável opinião de outrem, tentarem mantê-la favorável ou ao menos neutra, no intuito de serem amadas. Uma é adotando uma personalidade maleável, camaleoa. Ou seja, sendo, para cada pessoa com quem se relaciona, exatamente aquela de que sabe que ela irá gostar.

    Por mais que muito tente não condená-la, eu desgosto bastante dessa maneira, porque ela significa que a pessoa não tem (ou, pior ainda, não quer ter) identidade própria. Não gosta de suas certas coisas, não tem suas opiniões, não age de uma sua certa forma, não se identifica com suas certas preferências, e despreferências, que fazem com que ela seja quem é. Essa pessoa é tudo, todo mundo, e ao mesmo tempo não é ninguém.

    É um tiro que pode sair pela culatra porque, ao passo que é difícil desgostar dessa pessoa - já que ela não tem rosto, é alguém que não é ninguém -, é igualmente muito difícil gostar dela, quando se percebe isso, pelo mesmo motivo.

    A segunda maneira é justamente a que estou elogiando hoje: a timidez-reserva. Ela é uma forma de proteção, uma proteção da sua retaguarda, sua essência, para que ela possa não ser diluída pelas demandas (ou pretensas exigências) de outrem a seu respeito, ou afetada e machucada pelas possíveis más opiniões deles. É um escudo contra o desgosto e a maldade de outras pessoas e a dor que pode vir disso, já que, com ele, se deixa transparecer, evidenciar, muito pouco do que realmente é. É uma inconscientemente inteligente forma de não abdicar da própria personalidade, preservando-a autêntica e firme, não submetendo-a aos olhares de outras pessoas, que podem não entendê-la e impiedosamente julgá-la.

    Obviamente, há pontos de perigo aqui também. Essa maneira também pode se mostrar contraprodutiva pois, se todos em volta desconhecem a pessoa linda que está contida naquele ser fechado, como podem amá-la? Contudo, eu acredito que esse desconhecimento por ser superado com o bálsamo de todas as angústias, o tempo; e essa possível desvantagem ser transformada em ponto positivo à medida que a pessoa conhece melhor aqueles em volta, passa a confiar neles, um pouco que seja, e se permite ser conhecida. Tendo sondado o terreno, percebido-se segura ali, ela pode sim se mostrar, gradualmente ir desvencilhando-se das camadas e camadas de neutra capa que cobrem quem ela é, de fato.

    (Mais uma vez me esclarecendo, não estou dizendo aqui que essas são estratégias cuidadosamente pensadas, analisadas, conscientemente adotadas por uns e outros de nós em nossas relações, porque não são. Estou só comentando o que percebo delas, o que podem ser implícitas motivações desses comportamentos que, vivendo, nós muitas vezes não percebemos, ou não paramos para pensar sobre.

    Tampouco, entendam, misturo a qualidade do reservado com a do introspectivo - que é aquele que, naturalmente, vive mais consigo mesmo, de si consigo, e pouco investe ou busca intercâmbio com outras pessoas. São coisas diferentes. O introspectivo é quieto e calado porque esse é seu jeito. O reservado é quieto e calado porque assim esconde o seu jeito, que não é esse.

    Por último, também não estou dizendo que toda pessoa quieta e calada é obrigatoriamente ou introspectiva ou reservada. Há sempre aqueles, nós bem sabemos, que não falam nada porque realmente não têm nada a dizer.)

    Concluindo, eu registro aqui hoje meu elogio à timidez. Às vezes fofa, às vezes tão forte que sufoca, fato é que ela é uma maneira inteligente e curiosa - para alguns necessária - de se navegar pela vida entre as pessoas. Afinal, poucos de nós são orgulhosos e vaidosos ao ponto de ter alta opinião acerca de si mesmo, e desejar ser conhecido para que, certamente, todos - ou uma agradável maioria - possam ter a mesma alta opinião acerca dele que ele tem acerca de si mesmo.

    Mais ainda, infelizmente, pouquíssimos de nós são confiantes e seguros a ponto de, recebendo a notícia, por exemplo, de que “fulano não gosta de você. Diz que te acha isso e isso e isso”, genuinamente não se importar e dizer em retorno “ah, é mesmo? Não gosta? E daí? O problema é todo dele. Eu sou assim, e é ele quem está perdendo a minha companhia.”
    Até chegarmos a esse estágio de evolução humana, não é de todo um mal negócio viver timidamente.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A obsessão da novidade

                                                                
    Já repararam como a todo momento nós somos encorajados a estarmos atualizados? Somos, a cada instante, bombardeados com milhares de informações ao mesmo tempo as quais sentimos um dever enorme de acompanhar, embora, talvez, nem saibamos bem o motivo pelo qual o fazemos.

    Nessa modernidade louca que vivemos, a era da informação, nós nunca estamos desconectados. Sentimos que, a qualquer hora, algo de muito extraordinário pode acontecer e mudar todas as nossas vidas, e nós estaremos danados se o perdermos, se ficarmos atrasados por alguns segundos. É um vídeo novo que sai, a próxima edição da revista, a seguinte tendência da moda, uma tragédia nova que as novas mídias noticiam com o maior entusiasmo, uma tecnologia nova que é apresentada e, imediatamente, tem que fazer parte das nossas vidas, pois aquela que segurávamos apenas agora há pouco já está ultrapassadíssima.

    Essa ânsia por novidades nos dá a sensação de que tudo é superado muito rapidamente - e deve ser mesmo porque, se não for, “algo está errado, nós pararemos no tempo”. Pois, se nós estamos evoluindo o tempo inteiro, alcançando progressos e avanços num ritmo extremamente veloz, nunca antes visto, se nós não pudermos perceber palpavelmente e ter acesso a essa evolução, essas mudanças, algo de fato não pode estar certo. Ou nós estamos completamente alienados na vida, isolados do mundo, ou - cientes do que acontece e de todas as últimas maravilhas e adventos, escolhendo não colocá-los em nossa vida - somos seres absolutamente retrógrados, demasiado rígidos e intransigentes, “cegos ao benefício e à diversão daquela novidade”, estamos ficando para trás, parados no tempo.

    Essa ânsia por novidades, também, nos leva a ter a questionável ideia de que a repetição é algo ruim, e o aprofundamento que ela traz, desnecessário. Para quê você vai ler o mesmo livro outra vez, se há tantos novos saindo para você ler, e que, ao optar por reler um já lido, vai estar fatalmente abdicando da oportunidade de lê-los, deixando o seu caminho impercorrido? Para quê procurar a revista do mês passado - aliás, da semana passada -, se ela não poderá trazer nada de bom, nenhum acréscimo, já que tudo nela é um passado inútil, está inevitavelmente datado e ultrapassado e só pode ter como destino o lixo? Para quê, realmente, meu Deus, continuar usando esse tijolo de celular da época dos dinossauros que você tem, se pode comprar um novo, que te dá acesso a um mundo de possibilidades antes impensável?

    O que ninguém parece notar é que esse estilo de vida é insustentável, não só para a natureza como para a sanidade humana. O que ninguém parece notar ou questionar são os danos que isso - essa obsessão por novidade consequente, dentre outras coisas, do grande volume de informações que nos é facilmente disponível e que somos encorajados a consumir - traz para a nossa vida, como a superficialidade das leituras e construções e a inquietude interior coletiva, só para dar alguns exemplos.

    Pois, se a informação agora é democrática, de todos para todos, acessível em crescente quantidade, o aproveitamento que fazemos dela é francamente duvidoso. Quantas vezes não ligamos o computador com um certo objetivo - uma pesquisa - e abrimos outras tantas abas com outras tantas coisas, em nada relacionadas ao objetivo, e depois de uma hora escorrida, quase nada de fato produzimos e temos para apresentar por causa dessa dispersão?

    Quantas vezes não vemos pessoas exibirem orgulhosamente uma estante enorme - ou, realmente, um quarto inteiro - cheio de livros, e dizemos “nossa, quantos livros você tem!”. Se perguntamos, no entanto, quantos ali ela realmente leu, aproveitou profundamente até o final, ouvimos uma resposta vaga, seguida de um sorriso amarelo. Devíamos exclamar, na verdade, “quanta cultura, quanta sabedoria você tem!”, coisa que não é, necessariamente, advinda de muitos livros lidos, mas, dentre outras coisas, de poucos livros muito bem lidos. Devíamos nos inspirar na lógica dos antigos, que possuíam alguns poucos, seletos exemplares mas os tinham como verdadeiros tesouros, os liam de novo e de novo e de novo, aproveitando-os ao máximo, extraindo toda a contribuição que eles podiam dar.

    Mas, não, hoje nós valoramos informação ao invés de conhecimento, quantidade ao invés de qualidade. E tudo tem que ser fresquinho, ligado ao novo - de ontem, não; de hoje. De agora.

    Com isso, a capacidade das pessoas de concentrarem-se, focando e investindo toda sua capacidade mental, intensamente, por prolongado (ou mesmo curto) espaço de tempo numa só, específica tarefa está sendo tragicamente comprometido. As constantes interrupções e distrações trazidas pelas novidades - que sejam em forma de sociais digitais contatos ou paralelas informações - tiram nosso foco no durante inteiro da tentativa.

    Da mesma forma, vai esvaindo-se a capacidade - ou o interesse - por uma leitura demorada, densa, longa, funda e profunda. Todos parecem passar grandes horas a ler (fáceis e acessíveis) pequenos textos ou pequenas bobagens, mas ninguém se dispõe a ler livros como Guerra e Paz, de Tolstoi, ou Middlemarch, de George Eliot, paçocos de livros que, vistos de fora, intimidam mas quando se pára para ler... Aí, realmente se percebe que as páginas estão cheias não só de linhas e tinta, mas de conteúdo, conteúdo valioso que pode nos ajudar a viver melhor, ver melhor, pensar melhor, se apenas nós nos permitimos encontrá-los e absorvê-los - largando, um pouquinho só, os milhares de fragmentos que, juntos, não são tão construtivos quanto.

    Nós estamos com a péssima mania de ver nossas ocupações de tempo não como investimento, mas como gasto. Assim, não investimos mais em algo substancial, profundo, sólido, que demande paciência e perseverança, precise ser pensado a logo prazo. Algo que, igualmente, no futuro, trará recompensas e frutos fortes e confiáveis, substanciais, profundos e sólidos. Além do que, como tudo é muito fácil, qualquer coisa que fique um pouco difícil já é conquista impossível e chata para nós.

    Até as relações estão sofrendo com esse mesmo processo: as pessoas hoje se casam pensando “ah, se não der certo, depois eu separo” e, mesmo antes disso, vivem seus relacionamentos assim “por que ficar com a mesma pessoa duas vezes, se o gosto do beijo é o mesmo?”.

    Desiste-se muito facilmente de alguém, de uma relação, já que qualquer obstáculo vira uma provação imensa, razão pela qual desistir desta e “partir pra outra”. Movidos sempre por uma necessidade de novas e diferentes experiências, nós o fazemos à custa da sua profundidade e segurança. Vivemos a incerteza dos começos muitas vezes - vezes demais. Ao invés de - porque realmente gostamos dela - investirmos num pessoa, persistirmos com ela, lutarmos por ela, dispostos a gradualmente vencer as dificuldades que se apresentem, entender os nossos erros e aqueles do outro, aprender a lidar com ambos e quem sabe melhorá-los, o esforço é demasiado e nós desistimos. Desistimos muito fácil, paramos no primeiro desafio, vamos buscar algo novo. Apenas para, com esse novo, vivermos tudo de novo, a superficialidade, o envolvimento raso, a curta frustrante duração, o efêmero.

    Assim, ao invés de termos um grande e forte porto seguro, nós pipocamos em várias paradas, como bolinhas de pingue-pongue, em portos inseguros, dos quais logo partimos carregados de uma sensação de vazio. Vazio, insegurança, inquietude, incerteza, como se estivéssemos andando imersos numa areia movediça que ameaça dissolver-se a qualquer momento e finalmente nos deixar mesmo sem chão.

    É a mesma, tão conhecida sensação que nos povoa o corpo e coração quando abrimos a caixa de email, ou qualquer plataforma de digital contato, e, depois de um dia inteiro (ou, realmente, algumas horas), não vemos nada de novo. “O mundo me esqueceu, ninguém liga para mim.”

    É a mesma, tão horripilantemente conhecida, sensação que nos toma também ao fim de mais um noticiário - dos quais nos entupimos seguidamente para mantermo-nos a par das últimas, as mais novas, efêmeras, que rapidamente sucedem-se e ficam ultrapassadas, nos fazendo cair num círculo vicioso, consumindo-nos das tantas coisas ruins, que parecem ser só o noticiado.

    A saída? Não, gente, não estou sugerindo que voltemos à idade média - embora, ouso dizer, então, as pessoas tinham uma mais segura noção do agora, e de si mesmos nele, e uma menos ávida necessidade de novidades do que de verdades que lhes serviam perenemente e ensinavam a viver e sossegavam a alma.

    Talvez, uma possível saída - ou, mais brandamente digamos, um escape - seria desconectarmo-nos um pouquinho, tentar viver a sabedoria do jardineiro: se você encher seu jardim de coisas, tentar trocá-las a cada dia ou querer que frutifiquem muito rápido, você será um falho, potencialmente sempre frustrado jardineiro. Mas, se você selecionar bem o que quer no seu jardim, deixá-lo decorado e preenchido com parcimônia e não excessos, cuidar dele com gosto, carinho, paciência, um pouquinho todo dia, e esperar o tempo que ele precisar, aí sim, você terá um jardim alegre, segura e coloridamente florido e forte e vivo.
                                                                   

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ao maior amor que existe - mãe

                                                                


    Oi, mãe!
 
    Tudo bem?

    Que saudade...

    Eu queria te falar tantas coisas, mas justo agora que me ponho a escrever, as palavras me faltam. Danadinhas; quando a emoção parece demais para elas, elas fogem.

    Nessas horas, normalmente, a gente fala mais por gestos. Como você tantas vezes fez.

    Lembra quando você me dava colo, acalmando meu cabelo enroladinho, depois de eu espetacularmente ralar o joelho brincando na rua? E, mais velha um pouquinho, também nos primeiros dias da escola, quando eu tinha medo de ficar lá sozinha e precisava perceber a sua presença na hora do recreio para ficar tranquila? E, mais velha ainda um pouquinho, quando eu comecei a descobrir como o mundo pode ser cruel; e, as pessoas, maldosas, e precisava do seu aconchego para me sentir segura de novo?

    Você não me iludiu naquela ocasião, não disse uma sequer palavra de consolo ou engano, mas deixou a desilusão terminar, sempre mostrando que estava ali para mim. Então, eu não sabia, mas hoje eu sei: naquele momento, naqueles todos momentos, você me ensinou a ser forte. Você me ajudou a crescer.

    Lembra quando, pequenina, eu te via lendo e, querendo crescer, me punha a imitá-la? Lembra quando, malandrinha em termos, eu ficava lendo e lendo e esquecia de estudar, e você passava, olhava, continuava, com um sorriso sorrateiro, sem falar nada?

    Você pôs o primeiro gibi na minha mão e o primeiro lápis. Você me ensinou a juntar as letras, a brincar com as palavras e, muito mais do que isso, a fazer sentido do mundo, a ler as pessoas, a compreender a mim mesma. Mãe, você me ensinou a pensar, a pensar com minha própria cabeça. Você me ensinou a usá-la bem. E isso não é pouco.

    Lembra quando você me deu gostoso abraço e me cobriu de beijos quando, certa vez, eu ganhei um prêmio na escola? E, no final do ano seguinte, quando eu não ganhei o mesmo prêmio e fiquei desapontada, você me deu mais gostoso e forte abraço ainda e mais torrencial chuva de beijos, dizendo que não precisava que eu ganhasse medalha nenhuma, porque você era muito orgulhosa de mim, independentemente, e me amava muito, por eu ser a simples tão especial pessoa que eu sou?

    Tudo o que eu fazia era para ver um sorriso no seu rosto, um sorriso de orgulho, e ver você estufando o peito para falar de mim com as outras mães. Mas, eu não entendia que você é muito maior que isso - você não liga para títulos e medalhas e conquistas. Você só precisa de mim, que eu seja eu mesma e seja feliz e esteja perto, para você ser feliz.

    Lembra, na primeira vez que eu saí de casa, para passar uma semana inteira longe, como você me ligava de dez em dez minutos, durante a viagem, só para ouvir minha voz e assegurar-se de que eu estava bem, e, durante o dia, todos os dias, umas dez vezes, no mesmo propósito? Lembra, quando eu cheguei, como você fez uma festa para mim, para a minha chegada, e preparou todas as coisas gostosas de que eu tanto gostava, e nós ficamos acordadas até tarde só para a gente poder falar de todas as minhas aventuras, todas as minhas novidades?

    Se eu parecia achar chato ou obsessivo o seu zelo, a sua preocupação, hoje eu sei que tudo isso só significa cuidado. E, mesmo na época, no fundo, eu achava fofo, era grata, ficava feliz: você me fez perceber como eu era amada.

    Lembra quando eu estava crescendo e queria sair e papai ficava de cara fechada, olho arregalado e não queria deixar, de jeito maneira, e você revirava os olhos a todas as objeções dele, a todo o bombardeio de perguntações de onde eu ia, com quem, o que estaria fazendo? Lembra como, com um olhar, você convencia-o a deixar eu ir e, com o mesmo olhar, erguia as sobrancelhas para mim, dizendo - no silêncio, para ele não ouvir - “a vida é uma só e a juventude também, vá viver a sua, e viva bem. Mas veja lá o que vai aprontar, hein? Juízo. E não pense que não sei o que vai pela sua cabeça porque sei sim. Eu já tive a sua idade”.

    Você me deu liberdade para eu agir com responsabilidade. E assim, eu fiz. Ou gosto de pensar que fiz. Ali, eu ficava radiante não só por poder ir e aprontar todas (mentira, mãe, eu sempre fui bem comportada!) mas por sentir em você uma amiga, uma companheira, uma confidente - que, ainda por cima, tinha a vantagem da experiência e podia me ajudar a lidar com todas as coisas das quais eu ainda não sabia. Você tinha percorrido o caminho antes de mim.

    Lembra quando as primeiras decepções vieram, e você esteve ali para mim, o tempo todo? Acho que, no fundo, você sabia que seria assim. Mas tinha que deixar eu ir, tentar me alertar seria inútil, e era importante eu quebrar a cara sozinha. Deixar eu cometer meus próprios erros era parte de uma jornada dura mas necessária para mim e para você também: para mim, a dura jornada de crescer. Para você, a de me ver crescendo, crescendo para o mundo.

    Lembra quando, ainda crescendo, eu tive que escolher minha vida, escolher o meu caminho, e andava pela casa angustiada, inquieta, falava e falava e falava e você só ouvia, sem dizer nada, até eu chorosamente perder a paciência e pedir ajudar, e você pacientemente pôr a mão no meu ombro e dizer que você não podia me ajudar mais, agora, porque a decisão não era sua, era minha para tomar? Porque a minha vida estava nas minhas mãos e cabia a mim, somente, a decisão do que fazer com ela, de que rumos dar a ela, enquanto você apoiaria o que quer que fosse que eu decidisse e me ajudaria de todas as formas possíveis nos primeiros passos desse caminho. Lembra, mãe?

    Naquele momento, mais uma vez, você me ajudou. Você me forçou a ser eu mesma, a construir o meu próprio caminho, a construir a minha identidade, eu mesma. Eu sou grata, mãe, você me deu todo o apoio. E você não podia, mesmo, escolher por mim.

    Lembra quando, tantas vezes, maior um pouquinho, eu duvidei de minha capacidade, tive dúvidas e medos e descrenças, achando que tão fácil quanto alcançar os meus sonhos seria alcançar o céu? Lembra quando você não me deixou desistir?

    Hoje, eu já alcancei um pouquinho dos dois, e boa parte da boa culpa por isso é sua. Tem dedo seu nisso; dedo e mão e dedicação e alma inteira.

    Aliás, você está mesmo em tudo. Você é minha referência maior, minha certeza, minha segurança, meu lar. Você me fez a pessoa que sou hoje. A você, eu devo a minha vida, o que tenho, o que sou. O que penso. O que escrevo. E hoje, estou aqui, desastradamente tentando pôr em palavras todo o meu amor, toda a minha gratidão.

    Porque, no fim das contas, é isso o que mais sinto, e isso é tudo mesmo o que tenho a dizer.

    Obrigada, mãe, por tudo. Eu espero que, no futuro, eu possa ser para os meus filhos um pouquinho da mãe que você é para mim.

    E, por último, só mais uma coisinha: eu te amo.

    Essas são as palavras que, para você, não fogem nunca.

    Um beijo,
    Vitória
   

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Alegoria do tempo

                                                                  
    O tempo é uma coisa engraçada.

    O tempo prega peças na gente.

    O tempo é um excelente ator...

    O tempo vai andando assim devagar e depois, como criança levada, começa a correr e a correr e foge do controle da gente.

    O tempo corre tanto que a gente nunca alcança - embora ele sempre alcance a gente.

    O tempo dissimula, disfarça, esconde, se esconde. Mas o tempo nunca engana.

   O tempo é professor, ensina coisas. Espera cada um de nós fazer a sua parte, mesmo que isso tome todo o seu tempo, além de todo o nosso.

    O tempo, às vezes, dá duras lições; o tempo bate na gente.

    Tempo, tempo, tempo.

    E de novo. Mas a gente é mau aluno, e não aprende.

    O tempo nos revolta, nos indigna, o tempo nunca espera.

   O tempo acalma. O tempo nos dá tempo, nos faz respirar, nos dá a possibilidade de acertar.   

   O tempo nos traz um dia após o outro, outro dia depois desse, infaltavelmente. Podemos contar com ele.

    O tempo é amigo, é piedoso. O tempo conhece o nosso tempo.

    Aquele outro tempo, que não é externo, que está em nós. O tempo que é um coração, o tempo que é indeciso, e que precisa de tempo.

    O tempo deixa marcas na gente - mas a gente quase nunca deixa marcas no tempo. A gente passa. 

    A gente passa.

    A gente sempre passa.

    Isso é difícil de aceitar.

    Meu Deus, e o tempo fica.

    O danado do tempo sempre fica.

                                                                
    O tempo nos ensina a andar, o tempo nos ensina a falar, e a guardar.

    O tempo nos ensina a viver, mas não nos ensina a morrer.

    O tempo é tão irônico!

    O tempo faz a gente de brinquedo. Mas a gente deve brincar com o tempo também, o tempo é uma grande brincadeira. Vamos rir com o tempo.

    O tempo é uma massinha que a gente molda. Cada um com seu pedacinho de tempo faz dele uma coisa diferente, de uma forma diferente, conforme a sabedoria de suas mãos permite... Ou não permite.

    E acaba que descobrimos, porém, que o tempo é teimoso. É difícil torcer o tempo. E o tempo acaba. A quantidade de massinha é muito pouca. Tia, dá mais!

    O tempo é marrento, o tempo não recebe amarras. O tempo não ouve súplicas.

    O tempo é soberbo. O tempo é supremo.

    O tempo nos deixa frustrados.

    Mas o tempo nos completa.

    O que seria de nós todos sem o tempo?

    Páginas soltas de uma história não contada, pontos perdidos de uma frase não escrita. Pontos perdidos, pontos... esparsos...

    O tempo é o narrador de todas as histórias. O tempo conta histórias, além de ser uma.

    O tempo é um eterno vovô.

    Que, inclusive, faz de suas chantagens emocionais conosco, vem rezar suas ladainhas, exigir-nos o nosso dever. Que exerce seu frustrante poder sobre nós e às vezes nos faz deixar de escolher o que muito queremos, deixar de fazer... tanta coisa.

    Não dá tempo.

    Não dá, tempo.

    O tempo não dá.

    O tempo é muito chato.

    Eu odeio o tempo. E o ódio é uma outra face do amor.

    O tempo não conhece limites.

    O tempo conhece os limites da gente.

    O tempo é um grande limite, o tempo limita a gente.

    O tempo é cruel, mas não é tão cruel assim. Só um pouquinho.

    Pois o tempo é um troféu, um êxito. É uma peça rara, mesmo que tão abundante. Quem sabe lidar com ele tem um tesouro nas mãos. Quem vive bem o seu tempo é sábio. Quem tem muito tempo é alguém de sorte.

    Pois o tempo não é muito comprido, para nós, mas o tempo é largo.

    Nele cabem muitas coisas. Uma vida.

    O tempo nos dá uma vida. Uma vida inteira. Uma vida interrompidamente - por ele, é claro, o maestro do espetáculo.

    O espetáculo que por mais simples que seja sempre merece aplauso. O espetáculo que é um presente. Um presente sem igual. Para todos os aniversários.

    O tempo é um infinito livro, em que escrevemos um pouquinho, em que muito já está escrito, muito ainda está em branco. Um livro que também podemos ler. O tempo nos auxilia no conhecimento.

    Mas, nem sempre. A gente é mau aluno, e nem sempre aprende.
  
E o que mais quer aprender, que ironia!, o tempo não sabe ensinar. O tempo não nos diz como dizer adeus. O tempo não facilita a despedida.

    O tempo é um professor engraçado!

    Um professor que não sabe escutar mas nos deixa ouvir. Nos deixa ouvir a nós mesmos.

    O tempo nos envolve. 

    O tempo nos deixa enrolados.

    O tempo não é passado quando deixa um rabinho.

    O tempo não é passado senão quando já não resta mais.

    E não é presente senão quando nele de fato estamos. Quando desfazemos o embrulho.

    E o tempo jamais será futuro.

    O tempo é.

    O tempo está aqui.

    O tempo permanece.

   O tempo é uma constante. Uma constante que revoluciona-se, e não muda. Tempo atrás de tempo atrás de tempo. Para sempre.

    Nada mudou.

    Nada muda.

    Só a gente.

    A gente muda. 

    A gente muda muito, a gente sempre muda. A gente muda o tempo todo, o tempo todo muda a gente, a gente muda para sempre.

   E coitado o tempo fica aí parado. Parado eternamente. Isso deve ser um pouco entediante.

    O tempo não muda, não muda nunca. O tempo não morre.

    No fim das contas, o tempo é um companheiro fiel, ele nunca nos deixa.

    O tempo...

    Ah, o tempo é mesmo muito engraçado!

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Endeusamentos, relativismo e pobreza

                                                                
            
    No Egito Antigo, os faraós eram considerados deuses. O povo todo os venerava não só como líderes e governantes, mas também como deuses vivos.

    Em Roma, os imperadores não eram oficialmente considerados deuses, mas queriam sê-lo. Tentavam à toda custa associar-se às figuras de alguns dos inúmeros deuses cultuados por eles, inventar em sua linhagem um ancestral deus, truques afins. E, na prática, certamente eram respeitados e adorados quase como se fossem tais, e depois da morte alguns foram divinizados.

    Já na era moderna, o tempo dos reis absolutistas, tivemos figuras como Henrique VIII, o homem das seis esposas; Luís XIV, o rei sol; e pensadores muitos que escreveram longamente sobre o poder divino dos reis, legitimando sua posição sobre a sociedade, seus mandos e desmandos, sob a ideia de que eles eram figuras divinas. Figuras que deviam ser seguidas e servidas e adoradas e, sobretudo, obedecidas, pois desrespeitá-los seria o mesmo que afrontar Deus o próprio.

    Hoje, nós não veneramos governantes (Ô, glória!) mas temos os nossos alvos de adoração e endeusamento também, o que é igualmente cômico ou igualmente trágico. Estou me referindo aqui a algumas parcelas da nossa tribo humana que escolhemos para colocar num pedestal, prestar a nossa reverência e a nossa baba: por exemplo, o povo do branco, o povo da toga, o povo do uniforme. Entre outros, é claro.

     Todo mundo entendeu, certo?

    Pois é, hoje, a nossa adoração é mais diversa e mais terrena. Nós nos ajoelhamos e colocamos submissos a um mais variado rol de deuses, humanos endeusados, pessoas que ganham essa posição relativa pelo poder, prestígio e respeito que - não raro, tolamente - nós, tão humanos quanto, damos a eles.

    Posição relativa, eu digo, porque de fato o é. Relativa. Construída. Não absoluta, não natural, não fundamental. E que, tão facilmente quanto foi erguida e concordada entre a boiada e os boiadeiros, pode ser desconstruída, desfeita, questionada, reformulada.

    O que estou querendo dizer aqui é que o príncipe não é especial de alguma forma, ele é feito especial pelo nosso comportamento perante a ele, diante dele. Não existe algo que está nele que é diferente. O que existe é uma reação para com ele que o torna assim. Todo o poder, a magia, a aura quase mística e o prestígio do príncipe, assim, é dado a ele, literalmente de bandeja, por nós, estúpidos súditos, por meio da nossa adoração, da nossa submissão, do nosso ato de ajoelhamento perante a ele. Tudo o que ele tem é dado. Da mesma forma com os faraós modernos: o doutor, o meritíssimo, o fardento a quem submissamente reverenciamos.

    Em todas as sociedades supracitadas, o critério utilizado e a natureza do poder dado eram ligados à religião e à religiosidade. Não podia ser diferente, já que aqueles povos eram muito religiosos, tinham parte fundamental de suas vidas, o centro de seus imaginários e explicações para tudo, regidas por e embasadas em religiosidades, mitos e crenças. Essa esfera da vida era muito importante para eles, e por ela eles escolhiam seus endeusados.

    De acordo, no mundo de dinheiro e aparências que vivemos hoje, os nossos endeusados o são por causa disso: eles são, na avassaladora maioria das vezes, aqueles cujas contas bancárias inspiram o maior suspiro; e, também e principalmente, são aqueles que - em matéria de falar, de andar, de vestir, de dirigir, de “viver” - podem fazer o melhor show, exibir o maior, mais imediato e vistoso espetáculo. O que nos impressiona à submissão, à reverência, à pequenez.

    Não me entendam mal. Não pretendo aqui fazer algum deboche, alguma provocação ou desconsideração. Nem atingir diretamente alguma religião específica, como o culto do jaleco. Tenho orgulho em dizer que me considero muito polida e civilizada para cometer barbaridades dessas. E suficientemente consciente do perigo das generalizações, também. O que pretendo aqui, na verdade, é só iniciar uma reflexão acerca da fluidez dos tempos, da maleabilidade constante dos paradigmas, o efêmero poder da convenção que vigora e o perene poder que o humano tem de construí-la. Desconstruí-la. Destruí-la. Reconstruí-la. Reformá-la. Adequá-la. Relativizá-la.

    O que pretendo aqui, ademais, é propor um questionamento: se tudo passa - e passa mesmo -, se tudo de aceitação geral que consideramos hoje uma verdade inquestionável provavelmente será amanhã ridículo, mitologia pura, ficção incientífica, por que fazemos as coisas que fazemos, sem pensar muito? Por que reverenciamos o que e quem reverenciamos?

    Será que não estamos sendo pobres demais, pequenos demais, tolos demais ao simplesmente seguirmos o rumo do trilho? O trilho cujo rumo alguém determinou, e que outro alguém pode facilmente desdeterminar e redirecionar? Será que não estamos indo aquém de nossa “natureza” - justo nós, humanos, que, dizem, somos os únicos animais racionais, e dessa forma temos o privilegiado lindo tesouro, poder e capacidade de criarmos razões para nós mesmos, de questionarmos o que existe e pensarmos independentemente, de não sermos governados por nada nem ninguém além de nossa própria cabeça?

    Se todos e cada um de nós, humanos, racionais, tem a sua própria cabeça (pelo menos, segundo reza a teoria), por que não usá-la, na prática? Por que não tirar a viseira e ter olhar mais amplo? Por que não distanciar-se da situação e pensar “fora da caixinha”? Por que não, como estou sugerindo aqui, comparar diferentes convenções de diferentes culturas e assim talvez enxergar como a nossa pode ser ridícula, como a nossa deve ser - na mais suave das hipóteses - problematizada, relativizada?

    Gostaria de lembrar aqui que a mesma lei que hoje tem o racismo por crime inafiançável já permitiu a escravidão. E a mesma lei que dentro em pouco explícita e oficialmente condenará a homofobia já teve a homossexualidade como crime - quase com status de pecado -, crime que recebia não só punição e expurgo mas "cura".

    E, não menos importante, gostaria de dizer que alguns daqueles que reverenciamos de fato merecem respeito e admiração. São profissionais verdadeiros, que fazem seu trabalho com disposição, alegria e entrega; pessoas íntegras que procuram levar a vida da forma mais digna possível. Mas, alguns outros, ou muitos, daqueles que reverenciamos... digamos que, não raro, se pararmos para pensar e observar a fundo, merecem muito mais o nosso desprezo que o nosso respeito. 

    Como eu disse no texto das moedinhas, nós temos um hábito lamentável de escolher muito mal os nossos heróis. Ou os nossos deuses...

    Pensar, que perigo! Repensar, que hecatombe!

    Ou não, né? Se nós vivemos a era do progresso, não a do retrocesso, tudo o que fazemos é no sentido de evoluir, certo?

    E quanto a endeusamentos... Ah, por favor, nós já devíamos ter passado dessa fase.
   

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sim, eu sou feminista

                                                                  
    Eu sou feminista e com muito orgulho me declaro assim. (E não estou sendo pleonástica nessa frase, porque as duas coisas não são uma mesma.) Tenho ouvido muitas visões distorcidas e equivocadas acerca do que é feminismo, o que muito me aborrece e entristece, o que vou canalizar para um breve e sintético esforço de conserto e esclarecimento nas próximas linhas.

    Tem gente que acha que o feminismo é um machismo inverso, um machismo ao contrário, que busca uma “supremacia feminina” em lugar de uma “supremacia masculina”. Tem gente (estes são feministas sem perceber e sem entender) que diz que o feminismo é um enorme absurdo porque “todas as pessoas devem ser tratadas igualmente” ou porque, em contrário, “todas as pessoas são diferentes, homens e mulheres inclusive, e devem assim ser consideradas”. Tem gente que acha, ainda, que o feminismo é um “grande inimigo das mulheres” na medida em que reza uma bonita ladainha em favor da liberação da mulher e dessa forma vai contra a realização “do instinto natural da espécie, o sacerdócio feminino maior” da maternidade e da família. Ai, meu coração.

      Gente, vamos conversar. Feminismo não é nada disso.

    Antes de mais nada, primeiro e principalmente, porque não existe O Feminismo, doutrina dogmática unificada, imutável, perpétua, que defende um corpo de leis rígidas e severas e excomunga ou exila todo aquele seu “membro” adepto que “desrespeita” ou discorda de uma delas. Existem feminismos, feminismos diversos, e algo mais amplo que escolhemos chamar de feminismo, que nada mais é que um conjunto de ideias que giram em torno de um eixo e culminam, mais ou menos, em um objetivo aglutinador e conjunto, em motes de luta semelhantes e comuns.

    Esse feminismo do qual estou falando (com o qual muita gente se identifica ou o qual dispensa muitas vezes sem nem saber bem o que é) não prega um novo sorrateiro sistema de dominação, não é um machismo invertido. Pelo contrário, ele rejeita toda e qualquer coerção, dominação e submissão, opõe-se a elas, e não busca implementar uma nova. O feminismo é contra o machismo, sim, mas não é um pólo oposto a ele. O feminismo é contra o machismo enquanto mentalidade que "legitima" opressão e subjugação e manipulação, mas não é contra homens - algo a que, muitas vezes, infelizmente, o movimento está associado. Até porque, meninos, nós amamos vocês, e queremos vocês do nosso lado, pensando, lutando e protestando. Homens podem (e devem) ser feministas também.

    (A única postura radical que o feminismo de fato adota em relação aos homens, e sua relação com as mulheres, é esta: em vocês, nós não queremos senhores, queremos companheiros. É pedir muito? É tão revolucionário assim? Não, é feminista. E é apenas justo, afinal.)

    A nossa luta (a luta feminista) não precisa, nem deve, ser uma luta só de mulheres. E muito mais facilmente ela alcançará as justiças que almeja se tiver homens, também, junto, dentro e ao lado. Pois, muito mais efetivo é o trabalho de um time se ele não divide forças, mas soma; se não coloca, entre si, uns contra outros, mas todos juntos, aliados, parceiros, principalmente em vista daquilo que é um bem e um avanço para todos.

    E não estou blefando quando digo que o feminismo é para todos: o feminismo considera o homem, também, muito mais justa e gentilmente que o machismo. Se alguns dizem que homem não chora, que isso é sinal de fraqueza, nós dizemos que homem chora sim, e nem por isso é fraco. É sensível, e é humano. Pois, homem também é gente, chora, tem medo, tem angústias, tem limites, tem forças e fraquezas. E qualquer tentativa de negar isso só aponta para um psicopata ou um ogro brutamontes - nenhum dos quais, aliás, é muito bem visto ou desejado por olhos femininos...

    O feminismo nasceu visando principalmente à igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres nas esferas sociais, econômicas, políticas - civis, todas as possíveis - o que pode ser explicado também pelo contexto de seu nascimento. Em fins do século XIX, a disparidade de direitos entre os gêneros era muito grande, muito maior do que é hoje, inclusive. A mulher não podia votar, participar do cenário político de forma alguma; trabalhar era visto com maus olhos e severas reservas, era restrito a certos postos aos quais “a natureza feminina” era adequada, e sempre recompensado com salário abismalmente menor que o do homem, ainda que, igualmente a ele, ela tivesse que prover para a sua casa e sua família. Em termos legais, ela era literalmente um ser inferior, em muitos países, sendo considerada incapaz de gerenciar seus próprios bens, de tomar decisões por si própria, estando submetida à tutela e assinatura e boa-vontade de seu pai ou marido. A universidade era praticamente território proibido, e mesmo a escolaridade básica não era de amplo acesso ao “belo sexo”, entre quem um “exemplar” que fosse culto ou sabedor de muitas coisas era taxado de “pouco feminino”. Em suma, a mulher não era independente, não vivia em iguais condições às dos homens, e ficava na frustrante dependência deles para, oficialmente, tudo.

    Hoje, muitos obstáculos e desigualdades já foram superados, enquanto muitos outros, em contrapartida, ainda restam a ser vencidos - e por isso a conquista dessa igualdade ainda é um objetivo principal, um forte mote de luta.

    E no entanto, reparem, o feminismo almeja a igualdade de direitos entre homens e mulheres, não a igualdade entre homens e mulheres. Isso não existe. Isso, como eu já disse em texto anterior, é uma colocação equivocada de linguagem - para não falar de um completo e perfeito delírio. E o feminismo (como, realmente, qualquer pessoa com cérebro) reconhece isso. Homens e mulheres são iguais enquanto seres humanos, mas são essencialmente e felizmente diferentes enquanto... bem, homens e mulheres. Há diferenças marcantes, particularidades indeléveis e inescapáveis que caracterizam de modo distinto cada um dos sexos, e nada jamais pode (nem deve) mudar isso.

    Além do que, meus amigos, convenhamos, não é possível falar em uma identidade feminina - bem como não é possível falar de uma identidade masculina. Isso é algo heterogêneo e não pode ser considerado como o contrário. Não existe um bloco uniforme, algo único que está presente em todas as mulheres do mesmo modo e que as define de jeito absolutamente igual. Não existe a mulher, existem as mulheres. Mulheres diversas, variadas, diferentes entre si, que se identificam particularmente com coisas diferentes. Há aquelas que adoram um futebol, aquelas que o detestam, aquelas indiferentes; como há aquelas que amam a cozinha, aquelas que fogem dela. Aquelas românticas, aquelas desapegadas; aquelas que se aquietam com um homem só, aquelas que desfrutam mais quantitativamente de sua solteirice.
    E o feminismo é muito centrado nisso também, nessas singularidades, e na luta pelo reconhecimento e respeito a elas, indistintamente. O feminismo é uma luta pelas igualdades necessárias e também pelo reconhecimento das diferenças, as diferenças entre os sexos e “dentro” dos sexos, dos indivíduos entre si. E as duas prerrogativas não excluem-se entre si - pelo contrário, se complementam e se completam.

    Por isso mesmo - por considerar as múltiplas identidades, a singularidade que há em cada mulher - o feminismo não é, nem pode ser, “contra a maternidade e a família”. Gente, para alguns de vocês pode parecer idiota (é!), mas tem uma galera considerável por aí pensando nesses termos, e eu gostaria aqui de desmistificar essa noção errônea. O feminismo não é nem “a ideologia das vagabundas” nem, com efeito, “a ideologia das ‘puritanas’”. Muitos relacionam a agenda feminista à “libertinagem feminina”, à liberação “exacerbada” da mulher, e assim, acabam tendo-a como uma “doutrina” anti-maternidade, anti-família, até anti-Deus. (?!)

    Nada disso procede. O feminismo busca e prega, sim, a emancipação da mulher - de modo que ela, assim, possa fazer o que quiser de si mesma, agir como entender melhor, se tornar quem quiser. O feminismo, no fundo e na verdade, tenta desconstruir a ideia de “natural” no que é cultural, convencionado, e dessa forma libertar a mulher dessas amarras para ela própria escolher seus caminhos. Para ela, livre, escolher como deve ser a própria vida.

    Por exemplo, só a mulher pode ser mãe. É verdade, homens não podem ser mãe (que pensamento estranho). Mas isso não significa que toda mulher nasceu para ser mãe, que toda mulher será mãe em alguma altura da vida. Ser mãe é uma escolha, deve ser uma escolha, uma opção que se decide por abraçar ou não.

    E é isso, em última instância, o que é o feminismo, o que o feminismo prega e objetiva: escolhas, o poder de escolher, a possibilidade de a mulher definir o que quer da sua vida e não tê-la definida, não ser definida por seu gênero, por simplesmente ser mulher.

    E, assim, ao contrário do que muitos pensam, mulheres que optem por serem mães e esposas em tempo integral podem ser feministas, e simbolizam muito bem o que é o feminismo. Como eu disse, o feminismo não prescreve uma receita, um caminho a ser seguido por todas, uma cartilha a ser obedecida - pelo contrário, ele liberta a mulher para que cada uma delas opte, decida, escolha por um ou outro caminho, nas várias ramificações que encontra ao longo da trilha da vida.

    O feminismo hoje, então, toca em questões como a saúde das relações que travamos, consentimento e abuso, os efeitos variados das variadas pornografias. Os salários (des)iguais pelo mesmo trabalho, a representatividade das mulheres, sexismo - por exemplo, no futebol.

    (Aliás, francamente, levantam-se bandeiras em oposição à homofobia e ao racismo, mas ninguém fala nada de sexismo, não é mesmo? E todos sabemos que ele existe, que uma jornalista esportiva infelizmente não vai trabalhar livre, leve, solta e tranquila como um jornalista esportivo, bem como acontece com as árbitras, as auxiliares, as médicas que entram no campo. As motoristas de ônibus, as engenheiras, as mecânicas. E os insultos, as provocações, os deboches afetam e incomodam, sim, mesmo que se passe por eles de cabeça erguida, como se fossem parte do vento; e eles não precisam ser tolerados dessa maneira, não podem existir com a aceitação ampla e geral como se fossem algo normal.)

    O feminismo, em resumo, é sobre a igualdade e sobre a diferença, sobre o respeito, o reconhecimento, a escolha, as escolhas. O feminismo, por si mesmo, é uma escolha, uma escolha em construção. Uma construção que eu apoio, cujas manchas eu tento clarear e esclarecer, uma construção na qual eu me orgulho de ser panfleteira e aguerrida operária.
    Porque eu sou feminista. Eu sou feminista, sim.

                                                      


quarta-feira, 15 de abril de 2015

As coisas valem pelas pessoas que nos trazem

                                                                   

    Quando o coração está em desassossego...

    Suas pernas andam a esmo, e não encontram um rumo, nem meio.

    Você chega a todos os lugares, e não está em nenhum.

   O peito angustia, aperta, e parece impossível desfazer o nó, suavizar a sensação tão próxima de se estar perdido, longe.

    A cabeça martela, o pensamento lateja, tudo a seus olhos é estranho, nada lhe parece familiar, importante, sequer mesmo real.

    Você está como que preso num limbo, em que voluntariamente se colocou.

    O sentido de tudo, do todo, de estar e não ser, é confuso, sufocante, intoxicante.

  Você se enlabirinta tentando encontrar um sentido, um outro sentido, querendo justificar-se, explicar-se a si mesmo. E, para seu desespero, sua tontura, seu choro, não consegue.

    Você mudou de endereço, mas ainda não o tornou o seu lar.

   E assim, você hiberna e flutua, você não tem mais ao mesmo tempo que ainda não tem... o seu lugar.

    Mudança.
 
   
    Eu acredito muito na importância das pessoas. Apesar de todo o engano que tem havido nessa órbita, de todo o distanciamento da gente quase toda dessa tão rústica verdade, tão simples e funcional consciência, eu ainda acredito na força e no valor do humano. A vida é feita muito mais de pessoas do que de coisas, pois as coisas não têm sentido sem as pessoas: as ideias precisam de alguém que as tenham, os planos de alguém que os realize, as posses e os bens e as conquistas e as coisas perdem a graça se você não tem pessoas com quem dividi-las, pessoas que vão fazer você querê-las por elas, para tê-las junto com elas.

    Ou não é fato que é tão mais gostoso ver um filme quando se tem alguém com quem discuti-lo, debatê-lo; alguém ao seu lado que pipoca comentários ao longo da exibição e ouve os seus, com quem se compartilha impressões ao final dele e constrói-se uma leitura - ou não se constrói nada, no feliz silêncio, além da conclusão de um tempo passado em alegria e delícia?

    Ou não é fato que a mesmíssima comida tem gosto diferente quando provada em situações distintas, sozinho e acompanhado? Não tem muito mais graça o ritual da refeição quando compartilhado, com a mesa completa, voz e riso e conhecido carinho em redor; não é muito mais lento, conscientemente sentido, percebido, regozijado o ato do levar o garfo à boca quando o ambiente preenche-se por presenças e não por ausências; não é muito mais gostosa, realmente, a própria comida, se saboreada com o tempero da companhia?

    Não é tão mais completa uma viagem, memorável sua experiência, se o seu lado por todo o trajeto não está vazio, se as malas são duplas, também as fotos, e os risos; se você tem com quem rir por todas as gafes, todos os erros, as direções enganadas, com quem relembrar os bons momentos, a visita inesquecível ao lugar que tanto adorou?

    Não é até mais suave a derrota, menos dolorida a queda, quando se tem aqueles com quem sofrê-la, aqueles que vem ao seu apoio e consolo, e te fazem rir mesmo nesse momento logicamente tão pouco propício ao riso? Não é muito mais significativa a vitória, a conquista, quando há com quem celebrá-la, aqueles que estiveram com você ao longo do caminho, e agora muito sentem contigo também a sua alegria?

    Eu poderia encumpridar isso aqui praticamente ao infinito. Poderia ser interminável em mais exemplos, comentar mais e mais situações com as quais todos se identificam, sensações pelas quais todos já passaram, das quais todos com certeza conhecem o gosto, o amargo e o doce. Mas já passei minha mensagem. Ela é simples, quase infantil, mas nem por isso perde, para mim, sua validade e seu valor.

    Machado de Assis disse assim “as coisas valem pelas ideias que nos trazem”. Eu digo que as coisas - os objetos, as artes, as viagens, os acontecimentos, os lugares - valem pelas pessoas que nos lembram, pelas pessoas  que nos trazem.

    Estou puxando o fio do lugar porque ele é o que agora experimento, mas ele é só um dos que podem exemplificar a situação de mudança e deslocamento de apego, desenrolar o novelo do apelo e do sentido das coisas para nós. Enquanto não criamos laços com as pessoas de um novo lugar, enquanto ainda não amamos a rotina que temos em torno delas, vivemos momentos memoráveis com elas, então igualmente tênue e frágil é a nossa relação com esse lugar, igualmente vazio de valor, desprovido de sentido e significância ele é. Ainda não aprendemos a amá-lo porque não amamos as suas pessoas. E quando, somente quando, elas tiverem significado para nós, tornarem-se queridas, únicas e insubstituíveis, assim também será o lugar seu enredor, o lugar em que as encontramos, o lugar que nos trouxe a elas, e assim nascerá o afeto que teremos para com ele.

    As coisas, os lugares, as vivências, valem - também e principalmente - pelas pessoas que nos trazem.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O crime da prosperidade

                                                                       
    “Eu o vi dar um rápido, clandestino olhar por toda a minha sala; ele registrou seus limites estreitos, sua mobília escassa. Em um instante, ele havia compreendido o estado das coisas - havia me absolvido do crime da prosperidade. Estou moralmente certo de que se ele tivesse me encontrado em um cômodo elegante, deitado em um macio sofá com uma esposa bonita e rica ao meu lado, ele teria me odiado. Uma visita breve, fria, distante teria sido em tal caso o extremo limite de suas civilidades, e ele não mais me procuraria pelo tempo todo em que a onda da fortuna me mantivesse em sua crista. Mas a mobília pintada, as paredes nuas, a triste solitude da minha sala relaxaram seu rígido orgulho, e uma mudança suavizante havia tomado lugar em sua voz e em sua postura quando ele falou de novo.”

    O trecho acima reproduzido é uma passagem do líndissimo romance ‘O professor’, de Charlotte Brontë. A cena, de dois amigos se reencontrando depois de algum tempo distanciados, sintetiza genialmente esse que é um mal moderno que corrói amizades, aparta familiares, distancia enamorados e, sim, instaura-se sorrateiro em nós, tornando corrompida e falsa a nossa cordialidade: o crime da prosperidade.

    Quantas vezes já não nos deparamos com a roda da fortuna em movimento produzindo abruptamente substancial mudança nas circunstâncias daqueles próximos de nós. Dinheiro vai, dinheiro vem; portas se abrem, oportunidades se criam, conquistas vêm, merecimentos são reconhecidos, empreendimentos ousados ou tímidos dão muito certo, ou muito errado, e cabum - aparentemente da noite para o dia os vemos (ou, realmente, a nós mesmos) de repente com finanças e meios significativamente diferentes daqueles de uma tão recente outrora. As reações, apesar de oscilarem, sobretudo em níveis de efusão e demonstração, costumam ser normalmente as mesmas, e lembram-se umas às outras.

    No caso de um pioramento da situação daqueles próximos de nós, tudo corre fantasticamente bem. Desperta-se em nós o tão belo senso de solidariedade e repetidamente brindamos a nós mesmos como somos excelentes pessoas ao estendermos a mão, sem um momento de hesitação ou segundo pensamento, ao nosso irmão em necessidade. Fazemos todo o possível e o impossível e, sorridentes, asseguramos ao camarada em questão que temos certeza que, fosse o contrário, ele faria o mesmo por nós, igualmente apoiador em sua presteza em ajudar e estar incondicionalmente presente e disponível.

    Ah, se não é realmente admirável o instinto do ser humano em ajudar seu semelhante! Nós somos todos, realmente, um espectro de bondade!

    Se acontece, porém, um melhoramento das condições deles - que venha a cabo e manifeste-se nos mais variados meios - tudo muda de figura. Nosso ‘rígido orgulho’, como brilhantemente ironizou a mais velha das irmãs Brontë, não nos permite entreter o conhecimento e manter a convivência nos mesmos termos de outrora, pois - convencemo-nos que estamos pensando assim - não queremos que o amigo vislumbre, por um momento, a noção de que estamos próximos por querendo ‘aproveitar’ sua condição privilegiada, deixando que ele pague a conta do barzinho, nos dê presentes generosos, nos apresente a importantes contatos para que possamos ascender por meio dele, subir como ele, apenas para depois passá-lo para trás, jogado de lado, na comum vala do esquecimento, terminada toda a amizade.

    Pois, nós somos puríssimos! Somos íntegros demais para sequer cogitar agir dessa abominável forma; somos amigos fiéis, pessoas praticamente incorruptíveis, e a mera possibilidade disso passar pela cabeça de nosso amigo - ou parente, par, enfim - nos ofende e incomoda-nos em nosso brio. Uma salva de palmas à nossa pureza de caráter, ao nosso senso ético dos mais inabaláveis!

    Entretanto, meu leitor, na verdade, o que sucede é que esse rígido orgulho é uma ironia bastarda, soberbamente implicitada por Brontë, uma ficção, um conto dos mais lindos que impercebidamente inventamos para persuadirmo-nos a nós mesmos de nossa mais profunda bondade e humildade. Para persuadirmo-nos, ludibriosamente, que é mentira a mais pura verdade de que ressentimos o sucesso dos outros e mil vezes preferimos estar, sempre, em posição superior a eles. Pois, convenhamos, a verdade é essa. A verdade pura, despida de todo falso pudor e desinfetada de toda demagogia, é que nós ressentimos o sucesso do outro (enquanto de forma alguma dispostos a honestamente admitir sua virtude, admirar sua persistência e mérito na conquista, a seguir seus passos para igual êxito) e nos regozijamos estupendamente com sua desgraça.

    Tanto isso é verdade que nós somos excelentes voluntários - a toda boa ação para o necessitado, mesmo que desconhecido, estamos prontos. E os noticiários são verdadeiros campeões de audiência, nossa parte predileta da decadente programação - eles que são a reunião última de todo exemplar da desgraça humana. Nós nos entupimos de noticiários, sempre ávidos por mais, enchendo os olhos e inundando o ambiente com o infortúnio, a dificuldade e a tragédia alheia.

    Tanto isso é verdade, querido leitor, (eu sei que você me compreende) que nas mais sutis manifestações o percebemos descaradamente: não é fato legítimo e verdadeiro, ainda que lamentável, que quando um nosso colega, por exemplo, passa num belo concurso ou consegue aquela promoção pela qual tanto trabalhou, a nossa congratulação é dada da mais forçada forma, com um sorriso amarelo, um frouxo abraço, ou murcho aperto de mão, com uma voz que denota em seu tom o quanto é insincera, fabricada, a nossa alegria pelo êxito dele.

    Nós, meus amigos, ou a maioria de nós (prefiro pensar que algumas almas por aí salvam-se, são genuinamente diferentes e isentas desse defeito) somos seres invejosos, e sofremos de uma síndrome muito da cínica que é o horror pela inferioridade. Gostamos de sermos olhados com respeito, cumprimentados com reverência, impondo uma aura de valor que muitas vezes nem temos. E, por outro lado, detestamos absolutamente a mera ideia de estarmos, em contrário, na ponta mais baixa de qualquer hierarquia - velada ou palpável.

    É por isso que enchem-se, abarrotam-se, as turmas, por exemplo, de medicina e direito, cursos que no senso comum e na prática social que o segue dão acesso a profissões de prestígio; e por isso são renegadas - esquivadas até da possível consideração de nossos alunos do ensino básico - profissões tão importantes, mas reles e degradadas, como aquela do pedreiro, do padeiro, do professor...

    (Não me odeiem médicos e advogados em formação lendo-me. Não estou falando que a profissão de vocês não é nobre, porque é sim. Estou falando que não nobre é a atitude de muitos para com ela, a sua estigmatização como distintivo social, a retirada de sua virtude para encará-la unicamente sob lógica de mercado e poder.)

    É por isso, também e principalmente, que dos nossos amigos, “coitadinhos”, subitamente desafortunados nos aproximamos incondicionalmente, amparando-os, auxiliando-os, protegendo-os até, de todas as formas possíveis, aguerrida e lealmente, com o maior afinco, a maior das doações. E dos nossos amigos, “grande coisa”, que tornam-se importantes ou vitoriosos, triunfam de alguma maneira, nos distanciamos drasticamente. Não podemos mais estar nos intermédios de sua presença porque, em verdade, não suportamos o seu sucesso.

    Que bicho esquisito não é esse ser humano! Com esse tão grande poder de iludir-se, enganar-se perfeito... E tão imperfeito, tão demasiadamente humano, tão invejoso... Pronto a acusar no outro, mesmo que louco por cometer por si mesmo, o crime da prosperidade.

sábado, 4 de abril de 2015

Contra a escola integral

                                                                   
 
     Eu gosto de fugir do óbvio. Enquanto tantos falam de redução da maioridade penal e de corrupção, proponho que falemos aqui de algo diferente, embora igualmente relevante e intrinsecamente relacionado: a educação. Se tivéssemos uma educação excelente, quem sabe corrupção e crime juvenil não seriam temas que debatemos tão urgente e corriqueiramente.

    Há uma forte tendência, hoje, em favor da escola de tempo integral. Caminhamos a passos razoavelmente largos para uma difusão crescente deste modelo de instituição-ensino que absorve os alunos por um mais comprido correr de relógio, redimindo assim os pais dessa “obrigação”, e da preocupação com “o que os filhos se ocupam” durante as horas em que não estão na escola, ‘estudando’. Não bastasse essa disseminação estar acontecendo efetivamente, parece contar com a aprovação de muitas pessoas.

    Alguns dizem que a escola integral é uma opção admirável porque nela os jovens não têm tempo para ficar à toa, pensando de acordo com aquela velha máxima “cabeça vazia, oficina do diabo”. Outros dizem que ela é uma opção vantajosa porque nela (na maioria dos casos), os jovens têm acesso a diversas atividades - esportes, xadrez, lego, música, robótica, inglês - as quais, de outra forma, os pais teriam que procurar e contratar mesmo, por fora, com um gasto maior e o problema da mobilidade. Outros, ainda, argumentam que a alternativa é não só muito boa, em vários sentidos, como também correta, porque não devemos ficar mimando os nossos filhos, facilitando a vida para eles, dando-lhes tempo, atenção e conforto, sendo que o mundo não lhes dá nada disso, é cruel, exigente e competitivo, e o melhor que os pais têm a fazer é preparar seus filhos para ele, doa o que doer.

    Eu discordo plenamente de tudo isso.

    O primeiro fator que explica minha reserva, meu franco desgosto, em relação à escola integral remete justamente a esse último argumento favorável citado acima: o mundo já é cruel o suficiente sem que precisemos adicionar aí alguma impiedade dos pais para com os filhos. Não é questão de mimá-los, e sim de amá-los e querer para eles a mais feliz juventude possível. Não é questão de cair no extremo mimo, na desmedida proteção, e sim de alcançar um meio termo. Eles têm que criar responsabilidade? Sim, é evidente. E criarão. Criarão aos poucos, com nosso auxílio, nossa orientação, sob nossa tutela e acompanhamento.

    Mas, não vejo cabimento em submetê-los a tamanha pressão, sobrecarga e cobrança enquanto são tão novos. Não há necessidade. Tudo tem seu tempo. Não devemos esperar que crianças de 13, 14 anos lidem com carga horária e volume de deveres e informações semelhante àqueles que alguém de 21, 22 está acostumado. Depois dos 18, tudo aperta mesmo, e chega uma hora em que a vida de cada um está em suas mãos, somente, e não há nada que os pais possam (ou, realmente, devam) fazer para “aliviar” isso. Porém, até lá, é justo que deixemos as crianças serem crianças. A infância é um tempo precioso que passa rápido e não volta jamais, então por que maculá-la e manchá-la ao tentar "adultificar" as crianças, fazê-las crescer cada vez mais (desnecessariamente) cedo?

    Em segundo lugar, creio que mesmo as palavras “vantajosa” e “admirável” aplicadas à escola integral podem ser relativizadas. Quanto a reunir em um pacote só várias atividades, isso é vantagem e conveniência para quem, para os pais ou para os alunos? Para os alunos, certamente que não, pois muito mais beneficia uma criança ou jovem - qualquer pessoa, na verdade - uma diversidade de sociabilidades do que uma concentração delas. Passar prolongado tempo na companhia das mesmíssimas pessoas, no mesmo espaço, pode ser não somente cansativo e difícil como também, em alguns casos, desmotivante e danoso.

    Às vezes, o ambiente não é tão saudável quanto parece, tampouco as convivências são tão profícuas, e expor a criança a tudo isso torna-se até perigoso. E num contexto de escola integral, descobrir que este é o caso é mais difícil, tanto pela demagogia que não raro existe na escola - que também é um negócio e, como tal, naturalmente não deseja perder seus ‘clientes’ - quanto pelo escasso e breve tempo que é passado com qualidade entre pais e filhos. Quero dizer, das 6 às 10 da noite, digamos, todos os dias, pais e filhos, cansados da batida do dia, querendo sossego e descanso, e não mais preocupação, para já prepararem-se para o seguinte... Que espécie de diálogo existe aí? E não é justamente por causa disso - falta de diálogo - que muitas vezes acontecem episódios de auto-mutilação, desordens alimentares, bullying, depressão, sem que os pais saibam, percebam e possam ajudar senão quando já é tarde demais? Passar tempo além da conta fora de casa, longe da família, numa fase em que tanto precisa-se de ambos, pode provar-se bastante negativo.

    Numa escola integral, o aluno não tem tempo para “fazer nada” - de fato não tempo nem para si mesmo. Não pode ficar ocioso ao passo que, em contrapartida, também não consegue ficar produtivamente ocupado em outras coisas. Não é possível para ele, por exemplo, inscrever-se em um clube de escoteiro, de trilha, de poesia; dedicar-se a algo que ele simplesmente gosta, seja a leitura de romances, assistir a um bom seriado. Participar de encontros de jovens em seu entorno, fazer um trabalho voluntário ou estudar uma nova língua - além daquela (não raro, mal e porcamente) oferecida pela escola, que já dominam. Pois, quando chegam em casa, estão tão cansados que não querem devotar seu tempo a mais nada, a não ser ao mais puro e imperturbado descanso.

    Mesmo quando a escola é inquestionavelmente excelente, e o tempo ocupado da forma mais saudável, em todos os sentidos, quem disse que isso é bom? Que passar tanto tempo aplicado, cheio do que fazer, é desejável? Que um pouquinho de ócio não é, também, um investimento, afinal?

    Não é desconhecido o palpite de muitos cientistas de que não vemos tantos gênios hoje quanto antigamente não porque não os temos, mas porque não os deixamos florescer. Temos talvez milhares de gênios em potencial andando pela Terra, mas não os permitimos desenvolver todo esse potencial. Criar é inventar algo que não existia antes, e como alguém pode fazer isso quando passa a maior parte de seu tempo carregado com coisas que lhe são ensinadas por métodos padronizados e sistemas fechados, quando o tempo todo lhe ditamos o que ele deve memorizar e REproduzir?

    Steve Jobs esteve na faculdade por apenas seis meses e largou-a, mais tarde dizendo sobre isso que “desistir foi a melhor coisa que eu fiz. Pude me dedicar a coisas que eu realmente queria fazer”. E pessoas como Mozart (na foto, compondo, em cena do filme Amadeus), por exemplo, só foram quem foram porque tiveram permissão, liberdade e tempo para dedicarem-se intensamente ao seu talento, à sua paixão. Nossos filhos podem ser potenciais artistas soberbos - cozinheiros, pintores, músicos, escritores, inventores - e nós podemos (sem saber, equivocadamente) estar enterrando todo a sua potencialidade, desperdiçando seu talento e sua vocação, ao conduzi-los, por mais e mais tempo, a aprender aquilo que foi convencionado em algum ponto ao longo da história como o que todos devem saber.

  Ou deixamos as nossas cabeças brilhantes abraçarem sua genialidade, ou as corrompemos e diminuímos, fazendo-as acatar e resignadamente seguir as obrigatoriedades do mundo moderno, que, em aparente paradoxo, parece progredir num curioso retrocesso.

    Não me entendam mal, não estou advogando a ninguém que tire seus filhos da escola, do acesso a qualquer educação formal (nem estou dizendo que a universidade é algo ruim, apenas que devemos deixar que as pessoas se descubram, ao invés de dar a elas caminhos forçados). Estou, sim, esclarecendo minhas razões para ter extremo receio quanto ao custo e ao benefício da escola em período integral - ela que, pelo simples fato de acontecer em período integral, mais ainda cerceia as liberdades e capacidades criativas de nossos filhos na medida em que mais coisa ensina-os condicionando-os a um sistema, um sistema de fixas respostas e não de perguntas. Ela que, pelo simples fato de acontecer em período integral, pede mais adulteza dos jovens que o necessário, e reduz a um mínimo muito perigoso o tempo passado desses jovens com sua família, tempo este que - nesta fase da vida, mais do que nunca - precisa ser longo, constante e bom. Como é justo e necessário; como a vida, pouco mais tarde, já não permitirá.
   
    Pessoal, comentem aí embaixo! Gostaria muito de saber se alguém pensa semelhante (ou pensa o contrário) e acho que esse é um assunto - tanto quanto a corrupção e a redução da maioridade - que merece nossa atenção, preocupação, consideração, e tempo de debate. Não é coisa pequena pensar no futuro que queremos para o nosso país, futuro este que só construímos cuidando bem da formação, também a nível pessoal, completa, dos nossos pequenos.
   

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O poder da arte - música ao longe

                                                                 

    Às vezes, topamos com perguntas que nos apertam enquanto nos abraçam. São perguntas como aquelas que tão frequentemente nos fazem as crianças, perguntas que parecem bobas e contudo se mostram as mais profundas e mais difíceis - de imediato percebemos e em posterior concluímos que a elas não temos respostas. Às perguntas mais simples, nós simplesmente não temos respostas.

    Uma dessas perguntas - capciosas ao passo que (parecendo) rústicas - eu me fiz recentemente: por que fazemos arte?

    Eis o mistério da arte. Qual é seu porquê, a sua razão de ser? Por que perdura entre nós o seu apelo e a sua tentação? O que explica seu poder, sua perenidade? É algo a se pensar sobre que, em um mundo tão corrido, nós ainda nos prestemos gratamente a parar o tempo por alguma porção dele para nos dedicarmos a algo tão ‘supérfluo’ quanto a arte. Algo que, paradoxalmente, enquanto tão acessório, é também tão necessário, tão fundamentalmente essencial - aparentemente, nós não podemos viver sem ela, mesmo que, no estrito sentido da palavra, não precisemos dela para viver.

    Pois, meus amigos, uma casa não é ainda uma casa sem a firula do desenho ou a fissura do detalhe? Se desprovida de qualquer incremento sutil que de nada realmente serve senão para agradar os olhos, ou tocar a sensibilidade? Se furtada - ou libertada - de qualquer pequeno encanto, talvez um jardim ou uma graça no gesso, que no fundo só possa prover, além de mais beleza, mais trabalho? Por que, além de projetar uma edificação, em seu esqueleto, um arquiteto também desenha sua decoração e seu corpo, nos mais infimozinhos elementos, de menor e menor instância em termos de necessidade?

    Não se poderia rezar da mesma forma num galpão imenso que numa suntuosa, trabalhosamente pensada e construída catedral?

    Não se poderia vestir da mesma forma um grande pano encapando-nos que um conjunto de roupas escolhidas, particularmente selecionadas?

    Por que enfeita seu bolo o cozinheiro, se poderia deixá-lo simples? Por que borda sua prosa o escritor, se poderia deixá-la mais sóbria, serena, fácil até, por abstêmia?

    Por que passamos - gastamos, desperdiçamos, deixamos escorrer - tanto tempo de nossa vida ocupados com música, essa tão maluca coisa que nada inteligivelmente significa para a grande maioria de nós leigos na sua ciência, que não conseguimos decodificá-la enquanto linguagem, compreendê-la racionalmente, ao passo que, apreciadores da arte, podemos entender o sentido que a move, os sentidos que dela emanam? Por que, meu Deus, deixamo-nos invadir e preencher por horas a fio, talvez meses acumulados ao longo de uma vida, por sons que nada nos ensinam, em nada acrescentam, de nenhuma palpável prática forma nos ajudam a viver, servindo?

    E, nesse pensamento, por que não extingue-se, decreta-se de uma vez o fim daquilo que talvez seja o cúmulo da objetiva inutilidade, o ápice da beleza que nada significa, nada quer significar, e de nada serve - a poesia? Por que vivem e reproduzem-se e sucedem-se, e jamais morrem, os poetas? Esses artistas que torcem, retorcem, distorcem o sentido primeiro das palavras, instituindo a irrelevância última de toda e qualquer tentativa de racional entendimento, a dificuldade hercúlea porque múltipla, perdida de todo o sentido e viúva de qualquer propósito, da interpretação sistemática; esses artesãos - ourives - que criam versos que sustentam, melodiosas sequências que cantam e encantam, organizados ou caotizados, aglomerados ou esparsos, conjuntos de palavras que espaçadamente se derramam e que - em nua e crua e seca análise - não servem para absolutamente nada?

    Porque, meu leitor, eu acredito, nem tudo o que fazemos é prescrito pela ordem da necessidade, pela lei do mínimo esforço ou da comodidade, na apenas visão da utilidade prática, serventia imediata. Nós somos humanos e, como tais, não viemos para apenas existir, e sim para plenamente viver. Cada um dos nossos movimentos não acompanha o passo da produtividade, o aspiro do retorno, o meticuloso deus da produção de cunho básico e vital, e é isso que nos diferencia das máquinas e dos outros animais. Nós vivemos de comes e bebes, e encantos. A todos os sentidos, em todos os tecidos. Nós temos necessidades naturalmente imperativas que devemos suprir, mas não só elas. Temos anseios e desejos e querências além. Temos coração.
                                                                    
                                                              
       

    Desta forma, a força da arte reside na sua condição de fornecedora de uma beleza (des)necessária. E ela tem, assim, um poder imensurável. Porque às vezes, ou quase sempre, muito mais nos faz feliz e satisfaz aquilo que apela à sensibilidade que à inteligência, aquilo que nutre o espírito em detrimento do imediato corpo. Porque tanto perecem de fome e carecem de alimento nossos estômagos quanto nossas almas e nossos corações.

    Momentos roubados de beleza como o pôr do sol ou o suave assobio de um pássaro tentamos reproduzir, e em distinta, humana, mídia mimiografar visto que eles nos encantam. Não raro dão sentido a todo um dia esses instantes pequenos de tão grande, imensa alegria, sensação de plenitude, que se expande, e se escorre.

    A arte se faz precisa e preciosa, exata e complexamente, então, por isso: ela pode ser destrutiva mas também, salva, resgata, nos torna únicos enquanto nos confere uma unidade sã. Quando você coloca em arte - que pode estar numa obra de arquitetura ou música, poesia ou contação de histórias - um sentimento, uma sensação, você a captura, segura, registra, fazendo-a eterna no mesmo instante em que ela se esvai. E ela passa a existir firme e forte e sólida, pois real, não mais somente em você, mas no mundo, para o mundo, doada por você. Você concretiza uma inspiração naturalmente morredoura e a torna inapagável, testemunho de uma existência e de um tênue átimo do belo, monumento próspero para a humanidade e seu passaporte para a idade do sempre.

    Enquanto expressão da identidade de alguém e fonte de identificação e conecto para outro alguém, uma nação, um povo, a arte é importante. Porém, enquanto fotografia e registro de um fugaz instante de beleza - e assim fonte de conforto e sustento -, ela é eterna.

    Posto tudo isso, o papel do artista, todo ele um também escritor, é - como disse Érico Veríssimo - segurar a luz. Insistir na vela contra a força da escuridão, fornecer a graça e o calor num ambiente que talvez seria doutra forma muito sério, muito triste, muito frio. O artista tem mais que um dom, mais que uma vocação - uma missão, um encargo de responsabilidade maior. Ao mesmo tempo que deleitando outros com o que produz, a produção da sua arte o deleita, e ele se torna, portanto, nos dois processos, um ser de luz. Enquanto se torna mais belo e é mais feliz, ele transforma o mundo, também, em um lugar mais belo e mais feliz.                                                                                                    
      O poder da arte é - bem provocou o mesmo escritor, em seu livro - como “Música ao longe”. Em uma serenata, ou numa peça de teatro, é a harmonia de fundo que complementa e completa e alicerça a melodia de vozes protagonistas que fazem a sua apresentação. A encenação, a homenagem, como a vida, até pode passar sem ela, mas com ela enriquece-se, engrandece-se, melhor agrada, mais profundamente toca, eterniza-se. Marca-se e marca.
  
    Nós fazemos arte então - depois de tanta volta e volteio, eu tento enfim responder - porque do modo mais bonito e fértil de todos ela é, sim, útil e extremamente necessária. Nós nos deixamos mover muito mais por aquilo que nos comove, e assim a arte é um combustível de vida, um motor poderoso da engrenagem complicada de viver. Condutora de energia, não só, mas de beleza. Uma beleza necessária. Música ao longe.