quarta-feira, 25 de março de 2015

Admirável mundo novo - saindo de casa

                                                                    

                                                     
    Recentemente, ouvi um ridículo debate entre duas mães quanto a se era devido cobrar aluguel dos filhos com mais de 30 anos que retornavam à casa da família - ou que de fato de lá jamais saíram. Elas estavam rindo de fulano ou ciclano, seus conhecidos, que com 30 e poucos anos ainda moram na casa dos pais e desses pais, que os ‘aguentam’ dentro de casa e não os põem para correr, mesmo sabendo que eles são financeiramente independentes e têm plenos meios de morarem sozinhos, viverem por conta própria. Também comentavam do panorama geral da questão “filhos saindo de casa”, e como essa saída tem se dado cada vez mais tarde - coisa que é muito errada e lamentável na visão delas. Enquanto ouvindo, eu me segurava para não responder e sair com as duas no arranco. Alto lá, minhas senhoras, nem tudo é bem assim como estão pintando.

    Eu acho que há dois quadros bem distintos para serem analisados nessa questão. Um é o quadro da turma dos ‘nem-nem’, nem trabalha nem estuda, e conclui o ensino básico (ou, muitas vezes, nem ele) apenas para iniciar uma vida de escandalosa ociosidade, tocando dias sem propósito nem perspectiva. Nesse caso, a meu ver, é sim absurda a conivência dos pais - se ela existir. Nesse caso, sim, eles devem dizer “Meu filho, eu não vou deixar que você viva desse jeito, porque não é certo, e eu não sou eterno. Você trate de levantar desse sofá e estudar, ou trabalhar, ou os dois” e, se necessário, incentivarem-nos a sair de casa, indo até onde a oportunidade está. Nesse caso, sim, não se pode tapar o sol com a peneira para a existência de um problema, pois chega-se um ponto em que os pais não podem mais dar o peixe, devem ensinar o filho a pescar. Um ponto em que deixá-los no conforto da casa e da dependência, em vários sentidos, é não só incentivar um parasitismo exploratório sem cabimento como ajudar a atá-los a uma mesmice perigosa, falhando na sua missão de responsáveis pais no sentido de auxiliar o filho a construir-se, construir a própria vida, dar o final salto na transição da juventude para a idade adulta, e atingir sua plena maturidade.

    Em contrapartida, um outro quadro bem distinto - e é esse sobre o qual me proponho a discutir hoje, no viés do qual eu preciso discordar das duas senhoras maldosas - é aquele das pessoas que vivem todo esse processo enquanto residindo com os pais. Pessoas que acabam de cortar o cordão umbilical e amadurecem-se, que correm atrás das próprias conquistas e constroem a sua independência junto com os pais, inclusive estando sob o mesmo teto deles. Condenar esse tipo de situação e lamentar as mudanças que realmente vêm ocorrendo e retardando “o dia em que eu saí de casa e minha mãe me disse ‘filho, vem cá’...” é, para mim, uma atitude que se baseia numa leitura anacrônica do mundo.

    Anacrônica porque não é como se o mundo fosse o mesmo de vinte anos atrás, e todas essas graduais mudanças, então, absolutamente incompreensíveis por análise de contextos e externos fatores. Não é como se fosse, em mais profundo exame, perfeitamente absurdo esse cenário para com o tempo em que vivemos. O mundo mudou, e não podemos ignorar esse fato.

    Pois, antigamente, as pessoas saíam de casa (da casa dos pais) diretamente para formar a sua. Estabeleciam sua própria casa, adentravam e se integravam a uma vizinhança que passava a fazer parte de sua vida. As pessoas se conheciam quando morando na mesma rua, ou no mesmo bairro; bons amigos e compadres e comadres se faziam por convivência desta forma. Encontravam-se também já que seus filhos frequentavam a mesma escola, e, esperando-os sair, conversavam. Batiam na casa uns dos outros para conversar, jogar fofoca ou futrica fora, assistir o último capítulo da novela, pedir para usar o telefone (que nem todo mundo tinha) ou pegar uma xícara de farinha que faltou para o bolo que se estava fazendo. As pessoas deixavam o seu nascedouro para construir aquele de seus filhos, deixavam a casa da família de seus pais para constituir a sua própria. A maioria das pessoas se casava cedo, se mudava para um lugar novo - ou nem tão novo assim - onde fazia novos amigos, tinha próximos conhecidos. Logo vinham os filhos, os amigos de seus filhos, a brincadeira e as artes de seus filhos, os namorados de seus filhos, os netos... Que preenchiam o espaço e o ambiente, deixando-o agitado e cheio de vida. A casa nunca estava vazia (realmente nunca), e silêncio prolongado raramente se fazia. Era fácil sentir-se confortado, e mesmo cansado, com as tantas vozes em volta, e era difícil estar sozinho.

    Hoje, em contrário, a solidão é uma das armadilhas que não raro vêm com a independência, ou o construir dela. A maioria das pessoas deixa o seio de suas famílias para ter que viver somente e apenas com o seu, por vezes apertado, por vezes ainda incapaz de lidar com todo o novo que chega, e o velho que se perde. Vai morar onde a oportunidade está, em um lugar maior, a cidade grande - entre cuja multidão, a solidão é, frequentemente, a única companhia. Talvez vão morar em prédios, onde talvez contam com dezenas de vizinhos, pessoas com quem compartilham o endereço, mas entre as quais não conhecem nenhum. A maior das interações, quando ela existe, é a casual conversa de elevador “Bom dia, tudo bem?” “Tudo bem” “Como está quente hoje, né?” “Pois é, o calor castiga” e o vazio que isso traz, a carência, é enorme. A superficialidade das relações, sua repetitiva e frustrante abundância, chega a ser desesperante, e o silêncio dos corredores, enlouquecedor. Cada um entra em sua jaula voluntária e segura, o apartamento e, no virar da chave, aparta-se dos outros, realmente.

    Amiúde, paga-se uma academia porque não se sente seguro em exercitar-se ao ar livre, cidade afora, e se entra no estabelecimento - mais uma vez, um aglomerado de paredes, um cercado de tijolos e silêncio e isolamento - apenas para nele estar, todo o tempo, e dele sair, com o fone no ouvido, sem interagir com ninguém, ou interagindo com poucas pessoas - as poucas que, igualmente, permitem essa abertura. Na academia, ou no prédio, é difícil fazer amizades, ou permitir-se proximidades, também, porque você não sabe em quem confiar. E assim, você dirá bom dia, repetidamente, para pessoas que jamais conhecerá. Hoje, infelizmente, vivemos num mundo em que felicidade enorme e extraordinária é estar num lugar qualquer, rodeado de pessoas, e não sentir medo.

    Portanto, é um erro achar absurda a maior e mais longa ligação dos filhos com os pais, e com a casa dos pais. Afinal, quem - em uma circunstância que o permita - voluntária e alegremente trocaria um lugar onde se tem colo e segurança, onde se é amado e é importante, para um em que não se conhece ninguém, e provavelmente em profundo poucos conhecerá, um mundo que é hostil e competitivo e cruel, no qual dezenas de milhares de outras pessoas querem um seu lugar tanto quanto você; um mundo no qual, dessa forma, a sua vida - ou com efeito, a sua morte - não faz a menor diferença, vez que é só mais uma? Quem deixaria o afago e o aconchego, o conforto e a delícia que é estar em meio às pessoas que mais lhe querem bem, para um lugar em que as pessoas nem lhe querem bem, nem mal, mas simplesmente não lhe querem?

    À vista de tudo isso, eu concluo, as duas senhoras deviam reconsiderar suas palavras. Não podemos tentar entender o mundo de hoje através dos valores de ontem. Não podemos esperar que as realidades das pessoas de épocas diferentes se equivalham, quando é claro que, com o tempo, as circunstâncias e as estruturas do mundo em seu redor mudam, pedindo consigo, necessariamente, ajustes de comportamento e vivência que o acompanhem. Tampouco, acredito, podemos julgar pessoas e situações arbitrariamente, sem compaixão, com o olhar e a tranquilidade que caracterizam a visão de quem se está ‘de fora’, e observa sem viver o gostoso e o difícil, as alegrias e as complicações daquilo que o outro vive, e somente esse outro sabe descrever ao certo. Se os filhos de seus conhecidos vivem na casa deles, e todos ali dentro estão felizes assim, vivem bem com isso, então, por favor, minhas senhoras, os deixem em paz, sem lhes prestar o desfavor de suas línguas batendo em maldoso deboche. Como bem disse Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
  

quarta-feira, 18 de março de 2015

A primeira impressão não é a que fica

                                                                

  Eu adoro ditos populares. Tenho verdadeira fissura por essas frases marcantes cheias de sabedoria que vira e mexe nos vemos em situações em que podemos encaixadinhamente aplicá-las. “Evita dever que pagar é certo”, por exemplo, é uma paráfrase inteligente da dicotomia mais antiga que existe, do plantar e colher; e “quem vê cara não vê coração” diz inteligentemente como as pessoas podem nos enganar, e nossos sentidos e nossas sensibilidades errarem enquanto avaliando-as.  
                              
    Pois é, mas hoje não estou aqui para discorrer sobre meus favoritos -  o que é muito bom e conveniente, ou o texto não mais acabaria. Estou aqui para falar de um que muito me aborrece, do qual eu aguerridamente discordo. “A primeira impressão é a que fica”. Nunca vi ditado mais equivocado. Antes de comentar por que eu não concordo com ele, vou contar o que me aconteceu para eu começar a questioná-lo. Afinal, que argumento melhor que o exemplo?

    Uma acontecença chave foi ligada a um tal Joaquim Maria Machado de Assis, nosso excelentíssimo ‘Bruxo do Cosme Velho’. Como ocorre com a maioria das pessoas, meu primeiro contato com a sua brilhantez foi na escola, nos saudosos anos de ensino médio (nossa, estou falando como se tivesse sido há anos...). Aconteceu que, como a maioria das leituras obrigatórias, essa foi extremamente desprazerosa, e eu não enxerguei sua brilhantez, não estive imparcial e aberta o suficiente para me permitir enxergá-la. Vi tremendos defeitos no livro, D Casmurro, xinguei Machado e a baba inexplicável de tantas pessoas por suas palavras difíceis e sua narrativa excruciante de lenta e picotada que nada tinha a dizer de especial. Ah, que vergonha de ter pensado assim.

    Aí, nessa vida engraçada de meu Deus e as pulgas que a gente leva, no fim do mesmíssimo ensino médio, aconteci pegar outro livro do mesmíssimo detestado autor. (Abençoadas sejam as provas de vestibular, que muito nos servem ao nos reapresentar a mestres como meu amado Machado). Da generosa lista que devíamos ler, meu apurado senso de dever me fez ler todos, e o primeirão acabou sendo um que eu não esperava ler jamais, que tinha um olho pintado na lombada que - eu juro - piscou para mim me chamando. “Vem cá, docinho, pode me pegar. Quem desdenha quer comprar, eu sei que você está me querendo, eu sei. Anda, me pega. Pode devorar-me” Era Brás Cubas.

    Machado me provou por a com b, Helena, Brás Cubas e Iaiá Garcia que ele é uma luz maior entre as nossas letras, e que não faz mal dar nova chance àqueles que em princípio mais nos decepcionam, ou menos nos impressionam. Ele me mostrou, com seu jeito deliciosamente fluminense, que prosa muito boa também pode ser aquela mais elaborada, para ser curtida aos pouquinhos, devagarinho, entre as palavras - simples ou não - pedindo afinado exame, por ocultando, emaranhados, pensamentos de fina sabedoria.

    Primeira impressão? Eu, detestava Machado de Assis? Que é isso, colega, você está me confundindo com alguém. Ele está no topo entre os meus preferidos!

    Uma segunda determinante acontecença relacionou-se justamente à sua casa. Não sei como vocês se relacionam com seus admirados, mas eu passo a me interessar por tudo a eles ligado, inclusive tempo e espaço. Enquanto o dinheiro não sobra para me levar à Rússia, por Tolstoi, ou à Inglaterra, onde as irmãs Brontë e a singular Austen viveram, o Rio do Bruxo é uma  opção. Fora outro fator: já que Minas não tem mar, a gente vai para o Rio.

    Depois de muito sonhar, entretanto, foi meu trabalho que me levou finalmente. Se tem algum historiador por acaso lendo-me, ele sabe que há certos arquivos que só podem ser consultados lá, certos serviços que só nos podem ser prestados na antiga capital da República e corte do Império, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fazer o quê, tive que ir.

    Cheguei, toda serelepe - mentira, estava morrendo de medo, assustada com a cidade, eu era metade ansiedade e expectativa, metade absoluto terror - apenas para descobrir que o departamento que me ajudaria estava fechado, de greve...

    Passei pelos estados básicos da grande frustração. Primeiro, a completa incredulidade, a ficha que não cai, a crente descrença. Segundo, o desânimo, o abalo sísmico em seu espírito, o suspiro e a vontade de chorar. Terceiro, a raiva, a tremenda e borbulhante raiva que em revolução vulcânica ameaça para todo o lado e em qualquer pobre porventura próxima alma explodir.

    Vi defeito em tudo, no que via, no que não via. Que lugar horrível de quente! O carioca é maluco, todo mundo de blusa enquanto eu quase evaporando de tanto transpirar (eu esquecendo que sou da serra). E, meu Deus, mas que cidade feia! De onde tiraram que é cidade maravilhosa? É horrorosa, isso sim! O que mesmo eu vim fazer nesse lugar? Onde estava com a cabeça quando vim? Olha onde eu fui me enfiar! Ah, se arrependimento matasse...

    Se arrependimento matasse, toda gente se mataria por ele, apenas para depois se arrepender de ter morrido - ao invés de ter dado uma chance à vida, poder consertar o mal feito realizado, aprender com a (in)utilidade dele, curtir o Rio de Janeiro...

    Depois de mais de uma hora zanzando completamente desorientada, cheguei à conclusão de que a melhor opção que eu tinha, já que tinha batido aquela estrada toda mesmo, estava ali, e o dia estava lindo, era tentar aproveitá-lo, aproveitar o Rio, aproveitar... o mar! Eu visitei o mar, que coisa mais linda ele é, azul! É claro que eu não tinha os trajes específicos comigo, tendo ido inteiramente à trabalho, mas ah, quem se importa em molhar a barra da calça com a cosquinha do mar? Fui a vários lugares históricos do Rio de Janeiro, à famosa Ouvidor, à praia Vermelha na Urca, onde esta beleza de foto acidental aí ao lado me foi tirada... Eu sei que acabei sendo tão feliz nesse dia, fiquei tão encantada... Hoje, se você me perguntar passagem para onde me deixa mais feliz, eu não titubeio na resposta. O Rio me cativou.

    Primeira impressão? Quem foi que estava detestando a cidade horrorosa, morrendo de medo? Eu não, gente, que é isso? O Rio é lindo...

    Por tudo isso, e mais um monte de pouco que não convém agora contar e encumpridar mais esse texto, eu preciso criticar o dito da perdurante validade da primeira impressão. A primeira impressão, eu penso, normalmente não é a que fica, e nem é, naturalmente, a que deve ficar.

    A primeira impressão é uma farsa a que nos atemos quando não queremos ver além, viver além, amar além. A primeira impressão é uma pobreza temporária pela qual passamos no caminho à última, a sábia e mais correta síntese. É uma turbulência necessária, talvez marcante, em qualquer experiência em seu início, quando tentando e querendo reparar e absorver tanta nova coisa, não paramos para de fato reparar em nada, e desse nada absorvemos somente a pobre primeira perninha do ‘n’.

    A primeira impressão é, pois, apenas a primeira de muitas que virão.
                                                                 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ser mulher hoje - mulher e modernidade

                                                                  
   
   Acho que já deu para perceber que eu viajo bastante nos tempos de ontem, e critico várias facetas dos tempos de hoje. Vivo suspirando em filmes de época e quem me conhece sabe que uma das linhas que eu mais falo é “em 1900 e antigamente,...” deixando um quase visível rastro de sonhador saudosismo no ar. Mas, se há um ponto no qual preciso render-me às maravilhas da modernidade, é sua relação com as mulheres - existir no modo feminino do verbo hoje é bem mais fácil e menos doloroso do que era no passado.

    Não vivemos um mundo igual, ou justo, é verdade. Nossos salários são bem menores que os dos homens, em vários setores; sofremos preconceito e discriminação em muitas áreas de conhecimento e atuação burramente naturalizadas com de domínio masculino, nas quais alguns deles insistem em achar que não damos conta do recado como eles dão, quando, muitas vezes, fazemos melhor. Nossa jornada é tripla àquela deles, para um reconhecimento que não chega ao terço.

    Se um homem sabe impor sua autoridade, ele é dito um bom líder; se uma mulher faz o mesmo, ela é mandona. As cobranças sobre nós são cruéis, e as expectativas, torturantes: temos que ter corpo perfeito, trabalho importante, sucesso no trabalho, sermos mães e esposas e filhas impecáveis. Estamos sujeitas à todo tipo de violência, abuso, escárnio e menosprezo. Temos que aturar - todos os dias, quer seja no trabalho, ou caminhando no parque da cidade - ridículas piadas machistas, sujos comportamentos sexistas. Temos que aturar comerciais nocivos e nojentos, com nossos corpos transformados em objetos de apelo sexual, associados à cultura de poder e dominação quase sempre do lado submisso da corda, e as nossas autoridades nos fazem a vil gentileza de negarem-se a discutir o aborto como questão de saúde pública. Realmente, ainda não vivemos em um mundo igual, tampouco justo.

    Mas, ouso dizer, jamais viveremos. Primeiro e principalmente, porque isso não é possível. O mundo é um construção das pessoas, e as pessoas são imperfeitas. Além do que, dadas as particularidades próprias e naturais de cada sexo, simplesmente não somos iguais, e nunca seremos. Falar em igualdade entre homens e mulheres é tanto uma ilusão quanto um completo disparate. O certo, o mote coerente de luta, o que podemos de fato conseguir, pelo que devemos aguerridamente batalhar, é uma melhor e mais real justiça entre os gêneros, um cenário que permita aos nossos filhos e filhas crescerem de modo sadio e feliz, com oportunidades iguais, segurança e confiança para - cada um do seu jeito, de acordo com o que são, com o que almejam para si - serem o que quiserem.
                                                             

    Ainda temos muito chão para percorrer nesse sentido. Muitas barreiras para vencer, tabus e convenções para quebrar, conquistas a fazer. Mas, se pararmos para pensar, já conquistamos muito. Pelos adventos do mundo moderno, pelas lutas de nossas antepassadas, pela mera mudança de paradigmas que constantemente acontece e, de quando em vez, traz reais progressos, nós já conquistamos muito; e, hoje - apesar dos pesares, e dos persistentes problemas - podemos dizer que mais motivos temos para orgulho e alívio e comemoração que para tristeza e lamento.

    Pois, ser mulher hoje é ter acesso a universos antes inimagináveis. Se pensarmos que no Brasil colonial, o costume era educar somente os meninos e deixar as meninas perfeitamente analfabetas - pois que perigo não era ensiná-las a ler e a escrever; além de para nada servir uma mulher educada, ela decerto só ia usar as palavras para escrever clandestinas cartas de amor e através delas combinar encontros! Mulher servia para cuidar da casa, então as meninas deviam aprender somente a bordar, costurar, cozinhar, limpar, lavar, passar, arrumar, as prendas todas da casa, e, no máximo, a tocar um piano que era para receber bem as visitas e impressionar ‘bons partidos’. Hoje, nós todas vamos à escola, onde, aliás, nosso desempenho não raro é melhor que o dos meninos, já que eles realmente custam a crescer. É normal irmos à universidade - o anormal chega a ser não ir. A escola e o estudo, a academia, as artes, a ciência, o mundo do negócios, todos se renderam a nós, e estão abertos a todas aquelas que queiram deles fazer parte, e lutem por isso. Quando conversamos com nossas avós, fica nítida essa disparidade entre o mundo que elas conheceram e o que nós conhecemos, como nosso universo é mais amplo, como temos acesso à oportunidades e possibilidades com as quais elas nem sonhavam.

   Ser mulher hoje é poder ter independência, vida própria e verdadeiramente emancipada, privacidade. Era usual, no Brasil do mesmo período, o quarto das filhas ser comunicante ao dos pais, e isolado do resto da casa, o último cômodo. (A noção de privacidade, não só com relação às mulheres, é algo muito moderno. O “corredor” entre cômodos, separando partes da casa, que não mais se comunicam, é uma invenção do século XX.) Enquanto os meninos eram perdoados, até incentivados, em seus pecadilhos, as moças de família precisavam ser praticamente santas, senão castas em pensamento - que ninguém controlava, ou controla -, de certeza ‘puras’ em ação e conduta. Sair? Só para ir à missa, e mesmo assim sob olhar vigilante e indesgrudante dos pais (já que a igreja era um excelente lugar para 'se cair em tentação'). Todas praticavam o credo dos pais, só podiam frequentar os mesmos lugares que eles, travar conhecimento e manter convivência com as relações deles. Deles dependia, inclusive, o consentimento para o que lhes era uma esperança  de liberdade, o casamento. Ao passo que, hoje, somos donas de nós mesmas, escritoras de nossa história - na qual somos protagonistas, ao invés de apenas coadjuvantes principais. Somos administradoras de nossas posses, senhoras de nosso corpo e cabeça e alma. Não somos filhas de alguém, ou esposas de alguém, somos mulheres e ponto. Não precisamos depender de ninguém, para nada, legalmente ou financeiramente ou pelo velado ditame da convenção. Temos, enfim, poder de decisão sobre as várias esferas de nossa vida.

    Ser mulher hoje, em resumo, é ter escolha. É ter todo um múltiplo horizonte aberto para si e, com autonomia e liberdade, poder desfrutar dele. É ter uma vida sexual que é da sua conta, somente, e de mais ninguém (viva os métodos contraceptivos!). É poder ir e vir, voltar e revoltar-se, livremente, exercendo sua cidadania e sua independência. É não ser subjugada. É poder ser casada sucessivas vezes, ou ter vários namoridos, ou manter-se em perene e orgulhosa e agitada solteirice, de acordo com o que lhe convém e o que lhe faz feliz. É poder usar azul e rosa, cabelo comprido ou curto, panelas e carros, vestido ou calças, à gosto. É ter a possibilidade de ser mulher de uma família ou esposa de uma carreira, ou ambas, por opção e não por determinação. Porque os dois caminhos lhe estão abertos.

    Ser mulher, hoje, enfim, é poder fazer as próprias escolhas, sem que ninguém as faça por você, sem que seu gênero as determine.

   Quanto já não avançamos, malgrado os males que persistem e ainda restam ser vencidos! Como somos sortudas - nós, mulheres de hoje - e privilegiadas!

    Um viva à mulher, meus amigos, e um viva à modernidade!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Como os cães veem o mundo

                                                                    

    Algumas coisas que todos nós humanos devemos saber sobre os cães e como eles encaram o mundo, a vida e as pessoas. Ditado para mim diretamente por Paco, o preguiçoso, e Duda, a filosofante (na foto):

    1) Nós cachorros não somos como vocês humanos. Parece uma coisa óbvia para dizer, mas é sempre bom repetir, já que vocês humanos custam a aprender. Nós não somos humanos, não gostamos de tudo o que vocês gostam, roupinhas demais, sapatos, televisão. E não “funcionamos” como vocês funcionam também. Temos nosso próprio código de conduta. Nós somos criaturas bem diferentes. Tenham isso em mente.

    2) Leis e regras são coisas de humanos. Nós até podemos nos adaptar a algumas - o pipi no lugar certo, por exemplo, que torna a convivência civilizada -, mas não nos dê muitas ordens, porque não vamos seguir. Não somos fantoches. Adestramento não é bom a menos que seja divertido, e tem que ser nos dias em que estamos com disposição e bom humor. Nós, cachorros, também temos nossos humores, sabe, e vocês têm que aprender a respeitá-los, como nós respeitamos os seus.

    3) E, ah, não pegue a minha bolinha enquanto estou com ela. Nunca vi brincadeira mais boba, mandar eu buscar, e quando eu busco, dar ela para você de novo, para você jogar e eu ter que ir buscar outra vez. Eu, hein? Deixa eu brincar.
                                                                
                                                     

     4) Dia bonito é dia de brincar. Se vocês humanos conseguem ficar enfurnados dentro de casa o dia todo, perdendo um sol gostoso e um céuzinho azul, nós cachorros não conseguimos. Se não puder sair para passear conosco, peça alguém para fazer isso. É claro que preferíamos que fosse você, mas realmente precisamos do nosso pouquinho de exercício diário, especialmente nos dias bonitos. Pode ser sua mãe, ou um seu vizinho, desde que seja simpático e paciente com a gente. Se também não puder fazer isso - nós sabemos que nem todas as pessoas são confiáveis - só nos dê um pouquinho de liberdade, uma voltinha no terreiro, ou na rua, já está bom.
    5) Dia feio é dia de hibernar. Nesses dias, não há lugar melhor no mundo que a nossa casinha. Não nos tire de lá, a menos que seja caso de morte.

    6) Banhos são eventuais. A maioria de nós não gosta muito deles - é claro que tem umas exceções por aí, uns cachorros doidões que adoram uma água; coisa mais maluca, nunca vi isso, gostar de tomar banho - e o veterinário já disse que de quinze em quinze dias está bom. Então, seja consciente. Economize água do mundo. Nos poupe banhos.

  7) Nós normalmente preferimos banho de mangueira. Eles são mais divertidos. Vocês ficam agitando a mangueira para a gente ver a água balançar e tentar ir atrás dela, e nós só fazemos isso para você rir. Mas o tempo todo estamos pensando como vocês humanos são tão bobalhões, tadinhos. Mas não se preocupe, nós amamos você assim mesmo.

    8) Aliás, nós amamos você mais que tudo.

    9) Tudo o que é gostoso pode ser lambido. E, até que se prove o contrário, o que não é gostoso também. Afinal, se você não lamber, nunca vai saber.

    10) Nossos lambidos também são gestos de carinho. Se você não gosta, não precisa ficar xingando, não se zangue com a gente. A gente fica triste, sabe. Só indique que não gosta, se afaste, e a gente promete que pára.

    11) Cachorros têm muitos sentimentos. Temos sentimentos tão evoluídos quanto os de vocês, humanos - aliás, mais, muito mais evoluídos; vocês são tão insensíveis, às vezes sabiam? Nós sentimos medo, ansiedade, alegria, gratidão, raiva. Nós ficamos tristes com algumas coisas que vocês fazem, e pode ter certeza que vamos demonstrar isso. Mas também somos muito doces, e basta você pedir desculpa, e vir brincar com a gente, que a gente perdoa. Não conseguimos ficar de mal por muito tempo.

    12) Nós funcionamos com um código de ética diferente do de vocês. Nós não somos bons atores, ao contrário de vocês, e não fazemos duas caras. Nós, cachorros, não sabemos fingir. Se gostamos de alguém, que seja um estranho que você traz aqui, vamos abanar o rabinho e lamber seus dedos e pular nele e pedir para brincar. Se não gostamos... É bom você afastar ele de nós, porque vamos rosnar e morder. Nós somos muitíssimo verdadeiros, sabe?

    13) No nosso aniversário, não precisa ficar comprando coisas para a gente. Também ao contrário dos humanos, nós não precisamos de muitas coisas para sermos felizes. Só precisamos de você. Que você passe um tempo com a gente, se divirta com a gente, nos dê atenção e carinho, a sua companhia. Então, no nosso aniversário - ou todo dia -, ao invés de comprar uma bolinha nova para a gente, ou aquele cobertorzinho chique de doer que você viu no pet shop, venha ficar com a gente. É de você que precisamos para estarmos felizes.

    14) Nós somos muito companheiros. Quando você está triste, a gente sabe. Quando aconteceu alguma coisa de ruim, quando você fez lambança, a gente sabe. Não precisa ficar tentando esconder. Nós não ficamos falando muito, tentando te consolar, ajudando você a lidar com a situação porque... bom, você sabe, se conselho fosse bom, era vendido, não dado; e nós sempre pensamos que a nossa presença é mais importante, e vai ser um melhor apoio do que qualquer coisa que possamos falar. Você sabe, né, a gente fala.

    15) Nós sempre estaremos do seu lado. Não importa se você está feliz ou triste, sorrindo ou chorando, se andou dando pouca atenção para nós ultimamente, ou muita. Não importa se você está numa pindaíba danada ou tranquilinho no azul. Se é bonito, ou dos humanos mais feiinhos. Não ligamos para nada disso. Nós te amamos, e por isso, estaremos sempre com você. Por toda a nossa vida, e por toda a sua também. Só chame o nosso nome, e nós estaremos com você. Sempre.
                                                         


    Texto dedicado a todos os cãezinhos do mundo.
                                                                 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O amor nos tempos modernos

                                                            

    “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro possuidor de boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.”

    Outra vez, inicio com uma frase marcante, abertura de um clássico mundial - este, ‘Orgulho e Preconceito’ , de Jane Austen. Desta vez, porém, dela não venho discordar, e sim com ela fazer paralelos.

    Recentemente, assisti ao filme ‘Ela’, que confirmou o pensamento, uma verdade tão verdadeira que, de 1814 até aqui, perdura-se, e parece não se aproximar de uma data de validade. A película, uma severa e certeira crítica à loucura que tem havido das pessoas com o universo virtual e sua mascarada vaziez, trata da nossa muito humana necessidade de nos conectarmos, nos conectarmos com gente - de carne e osso, nariz para respirar, sensibilidades para sentir, defeitos e qualidades - em interações reais.

    Não vou nem tentar comentar o filme em si, porque não me sinto apta. Saí tão embasbacada dele que está difícil sacudi-lo de mim, e pôr em ordem ou em palavras as tantas e tão diversas sensações, o turbilhão de intensidade, que ele traz e provoca. Mas, as reflexões às quais ele é ponto de partida... Delas eu não posso me esquivar.

    O cenário mostrado é o seguinte: um mundo onde pessoas se encostam mas não se comunicam, onde dividem o mesmo espaço, no mesmo espaço de tempo, mas não interagem, nem mesmo se enxergam, cada um estando isolado em seu próprio virtual universo, preferindo uma telinha em sua mão às pessoas a sua volta. Alguém identificou alguma semelhança, alguma verossimilhança com o nosso mundo (real)? Sim?

    Pois é. E conforme as cenas avançam e o protagonista, um homem extremamente solitário e cheio de internos conflitos inresolvidos, se apaixona por seu sistema operacional (?!), um outro filme vai também rolando em nossa cabeça, as tantas vezes que vimos gente distanciando-se de gente que está perto, dividindo com elas a mesa enquanto fazendo um lanche, mas sem conversar, sem trocar palavra ou olhar, sem perceber a sua presença, pois compenetrados em seus smartphones. E a solidão, a solidão moderna, baseada em relações ilusórias travadas através do triste engodo das telas.

    Meus amigos, nenhum relacionamento, nenhuma convivência ou vivência virtual substitui a interação real, intermediada por ar, sentidos, toque. Não existe desafio maior que a densidade de uma pessoa, de tentar decifrar seus pensamentos, suas emoções num dado momento, de analisá-las e discutir com elas ideias em tempo presente e espaço real. Não existe magia maior que sentir as mãos de alguém nas suas, conforto maior que um abraço, delícia maior que a de perceber uma pessoa em sua totalidade, a expressão de seus olhos, o ritmo de sua respiração, o tom de sua voz, seus gestos e jeitos, tranquilos ou agitados, o modo como ela se mexe - em desconforto, alegria ou embaraço -, ou organiza e verbaliza seus pensamentos, de uma vez ou pausadamente. Nenhum aplicativo pode nos proporcionar tudo isso, porque nada disso se percebe na muito limitada dimensão de uma tela.

    Eu sempre me perguntei como funcionariam os relacionamentos à distância, mantidos apenas pelas tecnologias de informação. Quero dizer, e quando seu par está triste e você, na intenção de consolá-lo, de demostrar sua proximidade e transmitir seu afeto e sua empatia, estende a mão para tocar seu rosto e encontra apenas o frio monitor de um computador? Isso deve ser agonizantemente frustrante. A pessoa estar ali tão perto, aparentemente ao alcance do toque, e ao mesmo tempo simplesmente não estar... Ao meu ver, não há laço - ou sanidade - que assim se sustente. E o que me diz o leitor daqueles que embarcam nesse tipo de interação voluntariamente, sem mesmo a distância que a torne necessária?

    Além do viés amor, em suas inúmeras variâncias, além do canalizar para um ilusão sentimentos que deveriam ser investidos em pessoas, há outras esferas da vida que experimentam problemas relacionados ao mundo virtual, do qual tão perigosamente nos aproximamos e nos tornamos dependentes. Quantas pessoas, jovens especialmente, não conhecemos que têm linguagem corporal deturpada, confusa, enquanto parecendo presa e amarrada, e simplesmente não conseguem olhar nos olhos dos outros? Expressar um pensamento, em claras e audíveis e articuladas palavras, então? Tomar parte numa discussão, num debate? A timidez, ou anti-sociabilidade por forças de internet, chega a ser doentia.

    E quantas empresas e serviços não têm tido seu rendimento lá embaixo, devido a funcionários que, insistentemente, estão ativos online em tudo quanto é coisa no horário em que, dizem, estão trabalhando? E quem consegue trabalhar, estudar, concentrar-se continuamente numa tarefa com a droga do celular apitando toda hora avisando a chegada de novas mensagens, de outras gentes desocupadas, às quais você sente uma ansiedade muito grande em responder imediatamente, sem deixar transcorrer minuto sequer?

    Eu não vou sugerir a ninguém que exclua - por hoje, pelo menos um - algum de seus tantos artifícios de social 'existência' por meio virtual, ou se desligue, um pouquinho que seja, desse mundo. Sinto que as pessoas são muito mais receptivas aos nossos apelos quando eles não vem de forma direta, com verbos no imperativo. Mas deixem-me dar aqui um testemunho. Eu não tenho nada disso, nenhuma rede 'social' e semelhantes. E não porque já tive e ao perceber o dano que eles constituem, acabei excluindo. Não tenho porque nunca tive mesmo. Não sinto necessidade. A humanidade viveu milhares de anos sem esses negócios aborrecidos e pode muito bem continuar assim. E eu também. Não dói, nunca morri por isso - pelo contrário, vivo muito bem. Não fico tomando conta de vida dos outros, porque tenho a minha, muito excitante e cheia e plena, da qual cuidar. E é uma liberdade imensa esquecer o celular descarregado de vez em quando, não lembrar de ligar o computador por dias seguidos, enquanto cozinhando, escrevendo com lápis num papel, lendo um livro, fazendo música, passando tempo com pessoas reais, quem realmente importa, e no mundo real, de um modo pleno e ininterrompido.

    Aliás, alguém aí já parou pra pensar por que usamos as palavras ‘real’ e ‘virtual’ como opostas? Porque são opostas, antônimas inconciliáveis; o que é virtual não é real, e o que é real não precisa da plataforma virtual para existir, pois é real.

    Jane Austen não viveu nos tempos do chuveiro, da luz elétrica, do sufrágio universal, nem da tecnologia, ou mais especificamente dos derivados de internet. Não viveu nos tempos modernos. E, no entanto, o seu tempo era povoado por pessoas, pessoas como nós - criaturas complexas e fascinantes, feitas não de placas-mãe e sim de tecidos vivos, com celulites e estrias, braços e pernas, miolos que raciocinam e pensam (ou não); pessoas que, sim, devem estar à procura de cônjuges, assim como de bons amigos, colegas próximos, porque precisam relacionar-se com outras, com outras pessoas. Pessoas que tornarão a convivência por vezes muito difícil, que nos farão arrancar cabelos da cabeça, e provavelmente nos cortarão o coração em algum ponto do caminho. Pessoas que serão irritantemente burras para umas coisas, lentas para outras, que terão manias que incomodam, hábitos que magoam, peculiaridades que as fazem únicas, uma densidade própria que as define. Defeitos e imperfeições que as fazem seres humanos, completos.

    Nossa cara Jane disse bem, não podemos negar o quanto precisamos de nos conectarmos, ou privarmo-nos dessas conexões - reais. Nem nos escondermos atrás de telas, por comodismo ou falso conforto, por medo ou despreparo. Não podemos deixar que a dependência em tecnologia nos aliene de pessoas de verdade, daquelas que estão perto. Não podemos deixar de viver as complicadices do orgulho e do preconceito, da razão e do sentimento, da virtude e da maldade, pois é esse conjunto que nos faz humanos, e as experiências e vivências por meio dele que nos faz dizer “Vivi. Vivo. Penso e sinto, tenho boas lembranças de boas reais vivências, logo existo. E como isso vale a pena!”

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A força de um sorriso

                                                              

    Há mais ou menos um mês, estive em Brasília, nosso ilustre distrito federal, e lá se sucederam alguns episódios que me deram muito no que pensar. Duas pessoas eu encontrei que me fizeram parar para refletir na importância de um gesto que muito negligenciamos: o sorriso, tradutor melhor da alegria em um rosto, feixe de dentes e bochechas e energia que pode iluminar todo um dia. Vou contar brevemente as duas histórias em separado.

    A primeira aconteceu numa sala de aula. Eram três os dias de prova desse exame no qual tomei parte, todos durando cinco horas, muito divertidas. Nos dois primeiros dias, os fiscais foram dois ‘generais’. Dois diferentes homens que chegaram, seu dever fizeram, e por cinco horas permaneceram calados, contidos, de cara fechada. Nada fizeram de errado, não nos deram motivo para queixa, cumpriram seu papel e seguiram todo o protocolo - friamente, e isso me incomodou.

    No terceiro dia, Deus teve piedade de nós, e mandou uma luz, um homem-luz. Na mesma hora que ele entrou na sala, eu pensei comigo “ai, que colírio!”. Devia ter por volta de uns trinta anos, era negro, alto, forte mas não tão forte que passasse da medida, de rosto bonito e sorriso lindo. E, não bastasse tudo isso, ele conquistou - a todos - com sua simpatia. Foi o único dos três que nos deu um “boa tarde” ao chegar, e um “boa tarde” sincero. Tão logo começou a organizar as coisas na mesa e se ambientar na sala, parou, e interagiu conosco de um modo muito simples. “Ah, gente, eu sei que sou carioca, mas até pra mim, aqui tá quente pra caramba!”. E perguntou, gentilmente, se podia ligar o ventilador ou se ele atrapalharia quem estava ali na frente pelo barulho.

    No calor intenso do centrão do Brasil em meados de janeiro, é evidente que as duas outras almas que nos aplicaram a prova ligaram o ventilador também. Mas o fizeram em ato mecânico, de um jeito automático, e totalmente indiferente a nós, perdendo assim a pequena enquanto excelente oportunidade de trocar conosco algumas palavras, ou um sorriso. Para o colírio que logo à minha frente estava, eu sentada por arte do acaso na carteira imediata à mesa do professor, perguntei “Carioca de onde?” ao que ele orgulhosamente respondeu. “De Madureira”, e  perguntou “Por que, bela, você é carioca também?”

    O tal galante terceiro instrutor fez tudo o que os outros fizeram, apenas com o muito simples tempero da alegria e da gentileza. Ele distribuiu embalagens para celulares, passou verificando assinaturas e polegares carimbados, entregando os cadernos de prova, mas ele se dirigia a nós enquanto fazendo isso, nos enxergava. Isso faz uma diferença muito grande, significa muito embora possa parecer tão pouco; ninguém gosta de ser invisível, de se sentir objetificado. Ele interagia, sorrindo, falando coisas pequeninas como “Tudo certo aí, princesa, ansiosa para começar ou para terminar?” ou “passa a tinta outra vez, colega, teu carimbo não saiu não”. Por mais que isso possa parecer trivial - e essa linguagem seja realmente o carioquês típico, e portanto vinda de um carioca, não devesse impressionar -, tudo isso nos impressionou, e muito, dado o tratamento duro enquanto frio, indiferente quase robótico, que recebemos dos fiscais anteriores. O mero fato deste estar conversando com a gente, e com essa gentil e cordial amabilidade, nos pareceu um luxo indizível, comparado ao modo com os outros se portaram, extremamente sérios, e mal nos notando.   

    No decorrer da prova, é claro, não havia espaço para dois dedos de prosaica conversa ou para brincadeira. Mas, enquanto no silêncio, riscado pelo ventilador, as canetas freneticamente rabiscavam e discorriam, eu senti algo de melhor na atmosfera da sala, algo de mais leve. Meus músculos de ombro e pescoço estavam menos tensos, ainda que aquele dia de prova estivesse sendo o mais difícil pra mim. E, na hora da saída, a coroação: ao invés do apenas civilizado aceno de cabeça dos outros fiscais em resposta ao nosso “tchau”, ele dizia um amistoso “tchau” em retorno, a cada um de nós, e completava com um cúmplice “boa sorte”.

    A segunda história é sobre outra pessoa que, de um jeito diferente, também me cativou instantaneamente. (Alô, Lilian!) É uma amiga da minha familiar residente em Brasília, com quem passei esses tão bons dias (Alô, tia Elza!), que por ela tinha sabido de mim e de nossas paixões comuns (inglês britânico, História, Jane Austen, Londres, e afins) e assim queria me conhecer.

    Ela chegou e simplesmente preencheu a sala com seu sorriso. Cumprimentou-me com uma familiaridade tão amiga e tão simpática, contou-nos umas histórias de sua recentes aventuras na Europa, resumidamente descreveu os lugares por onde passou, deu para mim uma lembrancinha de Londres  - delicadeza que nem precisava ter feito, que outra pessoa com certeza não faria, afinal ela nem me conhecia! - e foi embora, me deixando absolutamente encantada, pensando “Que pessoa mais alegre, que alto astral contagiante! Como precisamos de pessoas assim no mundo!”

    Eu contei tudo isso só para ilustrar quanta diferença não faz um sorriso. E como é incrível o poder de uma disposição alegre em transmitir boas energias, e não só contagiar, mas conquistar; tornar um dia bom melhor ainda e melhorar um que parecia prometer-se ruim. Como é mais abordável uma pessoa sorridente que uma de cenho franzido e expressão fechada, como é mais gostoso receber um cumprimento com alegria que um com frieza, por educação. Como parece até mais saudável viver com um sorriso!
    Não estou dizendo que todos devemos estar felizes e saltitantes o tempo todo, até porque isso não é possível. Todos temos aqueles dias em que chorar é simplesmente muito mais confortável que sorrir, aqueles dias em que é mesmo difícil tentar transmitir uma alegria e uma serenidade que não sentimos. Mas, na maioria dos dias, eu acredito, nós somos, sim, capazes de escolher entre dar um “bom dia!” com energia ou um “bom dia” no modo automático. Podemos escolher - entre tantos problemas, que aliás muitas vezes exageramos e superestimamos, e tantas intempéries que irremediavelmente povoam a vida de todos nós - manter no rosto um alegre sorriso.

    Parece extremamente simples, o generoso ato de sorrir, e no entanto, não é tão comum que sua presença chegue a ser um agradável normal. É um simples que se torna especial principalmente se considerarmos a frieza, a civilizada indiferença, a distinta má vontade de muitas pessoas umas com as outras, que por vezes não preocupam-se nem em serem minimamente corteses... Eu fico olhando algumas cenas, observando algumas pessoas e pensando... Gente, nós somos todos irmãos, do pó viemos e ao pó igualmente voltaremos, não temos motivo para sermos hostis uns com os outros se podemos ser gentis...

    Por isso, aqui deixo um singelo apelo pelo sorriso, pelo bom humor, pela alegria e pela gentileza. Não só por seus poderes inebriantes, de dardejar corações por aí, como por sua pureza e sua vivacidade, seu poder de propagar-se, irradiar-se. Que não subestimemos a força que tem um sorriso, e não deixemos, sempre que possível, de exercê-la, praticá-la, continuá-la.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aos nossos heróis...

                                                                  

    Outro dia, parei para examinar o verso de nossas moedas. Nada mais indicativo de uma enorme falta do que fazer. Mas, não me xinguem, leitores, pois não é que a falta do que fazer se mostrou imensamente produtiva? É o ócio criativo, como gostava de pontuar Bertrand Russell, meu admirado filósofo, e como gosto de pontuar eu mesma, adepta de sua filosofia, que advogo a todos uma porçãozinha de ócio diária para o bem estar e a criatividade. Meia hora passada todo dia a humanamente vegetar - sem fazer nada, sem voluntariamente pensar em muita coisa - é o suficiente para relaxar o cérebro e depois vê-lo pipocar de boas ideias.

    Mas, enfim, sabem o que verifiquei no outro lado das moedas? Que lá estão encravadas figuras que deveriam ser - ou assim erradamente são consideradas, até pelo privilégio de ganharem essa posição - os nossos heróis.

    Ressoem os tabores, e que faça-se ouvir, nas próximas ilustres linhas, toda a minha reverência.

    Na moedinha de 5, “Tiradentes”, o homem morto careca e sem barba que, com a invenção da República, ganhou feições e cabelos de Jesus, e status de mártir; o alferes que queria tornar Minas Gerais livre de Portugal, para ficar livre de seus incômodos impostos e suas leis engessadoras e arbitrárias, apenas para fazer as suas próprias, e poder governar o Estado como bem entendesse, servindo aos próprios interesses.

    Nos 10 centavos, D. Pedro I, nosso exímio imperador, que nos tornou independentes de Portugal apenas para nos vender à Inglaterra - dependência da qual ainda penaríamos por décadas a fio -, que contratou corsários por verdadeiras, e brasileiras, fortunas para acabar de expulsar portugueses (um português expulsando portugueses!) daqui, nas guerras de independência... Governante realmente inspirador, que, além de tudo, ainda era safado e sem vergonha, tendo vários affairs notórios, entre eles o mais famoso, com a Marquesa de Santos, e tantos outros, talvez nem todos ainda devidamente identificados por historiadores.

    Na moedinha de 25, junto ao brasão da República, Deodoro, o marechal que proclamou-a sem, contudo, realmente acreditar nela. Isso mesmo. O homem que nos fez República era conhecido monarquista, que dizia “O único sustentáculo do Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela". Mas, que, mesmo contrariado, para o bem de todos e a felicidade geral das forças armadas, menos de parte da marinha, concordou em dar o brado retumbante. Declarou a república e governou-a provisoriamente de modo bastante desastrado, muito aproximando-se de nomes monarquistas, conduzindo relações de atrito com grupos de fazendeiros, elites políticas estaduais, que lhe fizeram oposição, derrubaram, e depois apoiaram a dura presidência florianista.

    E, por último, o Barão do Rio Branco, na moeda de 50, e dando nome à uma das principais avenidas de Juiz de Fora, do Rio de Janeiro, de sabe-se-lá-mais-onde, além é claro, à capital do estado que anexou ao país e à nossa escola formadora de diplomatas. Não estou aqui desmerecendo os feitos do homem, que foi um inegável marco na diplomacia brasileira, mas além de conduzir as negociações de compra do Acre, e de trabalhar, com muita destreza, no nosso Ministério das Relações Exteriores por muito tempo, ele nenhum outro grande bem fez ao Brasil e aos brasileiros.

    Não me entendam mal. O que estou querendo com esse deboche não é denegrir a imagem ou diminuir a importância que, apesar dos pesares, todas essas figuras tiveram na história brasileira. O meu objetivo com ele é, sim, dizer que, embora importantes e marcantes, essas pessoas não foram, não são, e jamais serão os nossos heróis.

    Os nossos heróis, nossos verdadeiros heróis, que merecem toda a reverência, toda a homenagem e todo o nosso respeito, são os heróis ocultos. Pessoas cujo nome não constará no registro histórico, cujo trabalho é formiguesco e aparentemente pequeno e insignificante; pessoas que vivem uma vida escondida e viverão uma morte discreta, restando em túmulos comuns, que não serão muito visitados ou badalados, não tendo estátuas ou bustos que os acompanhem.

    Os nossos heróis são os nossos professores, pessoas que trabalham em transmitir o seu conhecimento, semear cultura e informação na cabeça e na alma dos nossos pequenos - trabalho que fazem, muitas vezes, sem as básicas condições necessárias, sem um material em bom estado, sem um salário que seja equivalente à importância do que fazem ou mesmo dignamente suficiente para sua confortável sobrevivência e, sobretudo, sem o reconhecimento que pede tão nobre trabalho.

    Os nossos heróis são os nossos médicos, principalmente aqueles da rede pública, verdadeiros gladiadores da saúde, que têm que trabalhar dia após dia com um excesso de pacientes para uma escassez de recursos, com sobrecarga de horas, com indevidas condições de aparato para exames, diagnóstico, tratamento, de remédios e outros elementos imprescindíveis para o adequado atendimento, e, mesmo assim, se esforçam em dar o melhor cuidado que podem oferecer, de forma mais humana e sensível que muitos médicos de rede particular.

    Os nossos heróis são os homens do campo, que com pouco ou nenhum incentivo - e muito menos reconhecimento -, levantam cedinho, todos os dias, faça chuva ou faça sol, e trabalham duro por horas seguidas para pôr a comida na mesa de todos nós.

    Os nossos heróis são os assistentes sociais, que muitas vezes, na mesma insofrível escassez de suporte e apoio, tentam dar um lar, um melhor destino, às nossas crianças abandonadas, ou órfãs mesmo tendo pais e casa, trabalhando pelo futuro delas. São aqueles que trabalham pela agricultura, a educação e a saúde, pelo esporte, por nossa literatura, pela sustentabilidade, por essas e outras áreas tão negligenciadas por nossas autoridades, tão sucateadas e desvalorizadas por esta “ordem” maluca que vivemos. São pessoas, enfim, como o Guilherme, o Maicon, o Marcelo, o Darlon, ou o Vicente - que trabalha em dias alternados numa loja, e nos dias de folga abre sua garagem, cheia de livros, gibis e alguns violões, para ensinar música e inglês para jovens que queiram, ou apenas para eles ali passarem o tempo de forma construtiva e sadia, e diz que “não estou ganhando nada não, mas enquanto eles estão comigo, não estão perdidos na rua, talvez mexendo com drogas”. Pessoas que trabalham pelo futuro, e pelas pessoas, servindo aos interesses de algo maior que seu bem próprio, numa doação enorme e sincera, para o país progredir e não retroceder. Essas pessoas que, como eu disse, fazem tanto, merecem tanto ou mais, mas recebem de volta tão pouco, em todos os sentidos.

    Eu dedico este texto (como dediquei meus minutos de hoje de reflexão e puro e produtivo ócio) a essas pessoas. É uma homenagem parca e insuficiente para vocês que merecem todo o nosso aplauso e agradecimento, a oficial reconhecença, e as moedas, que em tão triste quantidade lhes passam pela mão, preenchidas por figuras que, ao meu ver, têm seu merecimento heroico que pode ser relativizado, e recebem uma homenagem da qual vocês são muito, mas muito, mais dignos. Pois, mais dignos vocês são de serem chamados “nossos heróis”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Vagões femininos - um problema do século XXI

   Muito recentemente, li que estava sendo debatida, na Inglaterra, a implantação de vagões femininos em trens e metrôs dada a significativa alta em crimes de assédio sexual - principalmente nesses meios de transporte - verificada por lá. Muito me abismou que um país de primeiro mundo como a Inglaterra tenha chegado ao ponto de sequer cogitar essa absurda opção, e a mera circunstância disso estar acontecendo aponta que o problema é muito mais grave e geral do que imaginamos.

    Quando entrevistada sobre o assunto, a feminista Laura Bates, criadora do projeto ‘Everyday sexism’, declarou “Para mim, [implantar os vagões femininos] seria um grande passo para trás. Quero dizer, colocar mulheres num vagão só delas essencialmente manda a mensagem muito clara que assédio e ofensas sexuais de homens para mulheres são inevitáveis, então nós bem podemos fechá-las a parte. Pra mim, é a mensagem errada. A mensagem deveria ser ‘a vasta maioria dos homens jamais sonharia em cometer essas ofensas, nós temos que pegar os ofensores,  aqueles que estão cometendo-as’. E é claro, a situação pode passar muito perto da culpabilização das vítimas. Se nós temos vagões femininos, e uma mulher não viaja neles e é sexualmente assediada, as pessoas então vão pôr a culpa nela por isso ter-lhe acontecido? Estamos indo na direção errada."

    Ah, enfim alguém com a cabeça em cima do pescoço e os olhos na realidade! Como eu fiquei grata de ouvi-la dizer isso, em meio a tanta gente aprovando a medida que, realmente, é um andar para trás. Segregar homens e mulheres para prevenir um assédio que é somente questão de educação? Sinceramente! Em que século estamos mesmo? XXI, ah é!

    No Brasil, os vagões femininos infelizmente já existem. Em São Paulo, a medida foi aprovada em julho de 2014. No distrito federal, vagões rosa rodam desde 2013, e no Rio, desde 2006. Algumas mulheres dizem se sentir mais seguras com a ‘proteção’, principalmente se estão viajando sozinhas tarde da noite, ou nos desagradáveis horários de pico. Algumas argumentam que se sentem mais seguras sabendo que há só mulheres em volta. Dizem que, já que acontece mesmo (a violência, o constrangimento, as fotos sutilmente intrusivas, o “passar a mão”, as tão variadas formas de assédio) nós podemos tentar nos manter em lugares menos propícios a isso.

    Gente, a questão não é de proteger-se contra uma acontecença certa! Isso é vergonhoso. Nós não precisamos nem de vagões segregadores nem de alfinetes contra os encoxadores! O que nós realmente precisamos é de uma reeducação urgente, de toda a população, quanto as questões de sexo, de gênero, de comportamento. Urge um programa de educação sexual nas escolas! Urge que os pais estejam presentes para os filhos, lhes ensinem o certo e o errado, conversem com eles  abertamente e, principalmente, lhes deem o exemplo!

    Nós precisamos que meninas de 14 ou 15 anos não achem normal um cara sentar ao seu lado no ônibus e começar a apalpar suas pernas, ou a mexer com elas de qualquer forma, em sussurradas provocações desagradáveis. Que elas não encarem esse tipo de violência como só mais um abuso com que elas tem que lidar diariamente. Que não achem normal nenhum tipo de constrangimento, coerção, intimidade forçada, de ninguém, nem de estranhos no transporte, nem de seus namorados. Precisamos que os meninos e jovens e adultos inocentes dessas ofensas percebam que elas acontecem e sejam patrulheiros do próprio sexo. Que aqueles que as cometem saibam que isso é intolerável e não deve ser praticado. Que todos passem a jamais imaginar realizar um ato nessa linha de comportamento - pela simples razão de ele ser impraticável, absolutamente inadmissível. Precisamos que mulheres e homens aprendam a se respeitar, e respeitar aqueles ao seu redor, como iguais, como pessoas cuja integridade moral e física deve ser respeitada, vendo-lhes como uma moça que poderia ser sua irmã ou um rapaz que pode vir a ser seu marido.

    Precisamos que as pessoas aprendam a se conter, a visualizar o espaço do outro, e não praticar aquilo que pode vir a incomodá-lo. Que não vejam corpos como aparatos para conseguir seu prazer, sua satisfação, e sim como parte de uma pessoa, um indivíduo, que merece ser amado e respeitado inteiramente. Que meninos e meninas deixem de encarar a virgindade como um estado vergonhoso, que deve ser perdido a qualquer custo, e a ‘inexperiência’ - por timidez ou reserva, por querer preservar-se, por simples acanhamento, por qualquer motivo - como um comportamento careta, digno de riso e deboche e que, se possível, deve ser ‘consertado’ por influência, revertendo-se à irreverência que, neste caso que abordamos, é insolência, descortesia e afronta, um ultraje. Que cada um viva sua sexualidade conforme se sente à vontade, sem pressões, e sem molestar o limite do outro, que seja um desconhecido ou um parceiro. (E que não tenhamos mais que tolerar campanhas como aquela “não mereço mulher rodada” que redutoramente julga o caráter da mulher pelo status de sua atividade sexual, e rotula liberalidades - femininas - como amorais e repulsivas, peso que não recai sobre o mesmo ‘estilo de vida’, se masculino.)

    Não estou dizendo que medidas não devem ser tomadas contra os assédios, tampouco estou sugerindo que todos tomem votos de castidade. Não é isso. O que faz-se essencial é uma reeducação sexual que abranja as condutas básicas. Uma conscientização, um abordar o mal pelo seu começo, que faça com que medidas como essa dos vagões femininos - por sua natureza, ridículos - não sejam necessários. Uma revolução no pensamento e no modo de agir que faça com que a violência não seja o normal esperado, seja a exceção abominada, e devidamente punida. Que faça com que os registros desse tipo de ofensa baixem a um mínimo, e não surpreendam desagradavelmente os hóspedes ou visitantes que recebemos, como na copa. Que faça com que nós, brasileiras, e brasileiros, também, por que não, nos sintamos seguros para ir de um lugar a outro, sem nos sentirmos ameaçados, podendo até nos permitir o flerte que pode rolar nas situações em que se passa horas, todos os dias, mais ou menos nos mesmos horários, confinado num mesmo transporte com as mesmas pessoas. Flerte, conversa ou conhecimento - que chega a desembocar em boas amizades ou em casamentos. E tudo com respeito, cada um e todos os envolvidos se sentindo à vontade, livres para dizer e fazer somente e apenas o que têm vontade, e perfeitamente seguros. Afinal, como diz o velho ditado “o seu direito termina onde começa o do outro”. Percebam as flores como vivem espaçadas umas das outras. Pois é, o dito popular sintetiza e a natureza ilustra, a natureza dá o exemplo. Toda flor precisa de seu espaço para desabrochar. Espaço, não confinamento.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Família, três pontos e uma certeza

                                                                     
    “Todas as famílias felizes são parecidas, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."
    Essa frase - talvez uma das mais célebres da literatura universal, a abertura do trágico ‘Anna Karenina’, obra prima do grande Leo Tolstoi - contém um pensamento que já me pareceu acertado, mas do qual, hoje, eu preciso veementemente discordar. Desculpe, Tolstoi. Eu continuo admirando-o fervorosamente, e se estou discordando e questionando nesse momento, só me provo mais ainda uma tolstoiana, tendo desenvolvido faculdades suficientes para, a partir do embate de ideais, parturiar a minha própria. Então, não se zangue comigo.
                                                                 

    Recentemente, caro Tolstoi e queridos leitores, assisti ao filme ‘Boyhood’, e ele me fez pensar que não, nem todas as famílias felizes se assemelham umas às outras. As famílias felizes, também, são felizes cada uma de seu muito diverso jeito próprio.

    No filme, o menino protagonista tem uma família, digamos, moderna. Seus pais nunca foram casados; sua mãe passa por vários relacionamentos problemáticos, numa aparente extrema necessidade de autoafirmação, e é a provedora da casa; enquanto o pai, em contrário, não é o que dá o sustento, mas o que dá a alegria, o principal humano suporte, um verdadeiro ‘cool dad’ que conversa, brinca, ri, está realmente envolvido com os filhos. Ele demora a se assentar, conhecendo seu par - anos mais jovem - apenas anos depois, e tendo com ela mais um menininho, o irmão pelo menos uma década e meia mais novo que os outros dois.

    A minha família - e a maioria daquelas com as quais tenho conhecimento e convivo na minha muito aristocrática Barbacena - se encaixa no modelo tradicional: papai, mamãe, filhinhos, morando numa casa fixa ao longo de sua existência, vivendo um casamento que muito lembra uma pecinha de lego - frágil e sólida, ao mesmo tempo, um cubinho que se desgasta com o tempo, tem as arestas danificadas, a cor e o brilho um pouco desbotados, mas se sustenta, simplesmente não se dissolve ou quebra, e é tão pequenina que parece insignificante, um detalhe normal ao qual nos acostumamos e que não parece ter muita importância, embora, no conjunto da obra, a vida, depois perceba-se que ela é essencial e que sem ela, a pecinha pequenina, o espetáculo não existiria, sua montagem seria fraturada, incompleta, um vazio preenchendo espaço.

    Esse meu tipo de família, eu creio, está em franca extinção. Mas A Família, não. O conceito se expandiu e diversificou, se reinventou, está mudado e mais amplo, sim, mas não morreu, nem caiu em desuso. Porque a Família, em si, permanece, continua, para sempre.

    O que estou querendo dizer com todo esse enrolê é o seguinte: uma vez, ouvi alguém dizer que a vida é como um trem, que tem estações e estações nas quais vai parando, onde gente vai embarcando e gente vai nos deixando, umas pessoas saltando para dentro, outras para fora, num ciclo que só se encerra quando o trem para e a gente morre.

    Pois é, a vida é mesmo um trem (que não necessariamente vai nos atropelar, viu gente? se, é claro, não nos enfiarmos embaixo dele), um trem no qual todos são passageiros, exceto o motorista e o trocador - e a sua família. Porque ela é a teimosia mais chata e mais importante que existe, o exemplo maior de uma força que não se extingue, aquela que os faz ficar grudados ao trem, sempre empurrando-o para frente, atravessando toda e qualquer intempérie com ele, numa constância quase inexplicável, de nome amor. Às vezes, você, no seu trem, vai até querer jogar a sua família para fora, colocá-los num vagão para deixar para trás. Ou, então, torcer o pescocinho deles de uma vez, ou mandá-los para a fila de execução na Indonésia, em regime de urgência. Vai fazer todas as cachorradas do mundo com ela, aprontar todas, e erradamente esperar vê-las voltando-lhe as costas, apenas para vê-la, ainda assim, apesar de tudo, pronta para você - pode até ser que seja com um chinelo -, mas ela estará ali, para você, por você, ao seu lado, para sempre.

    No filme, vemos exatamente isso. Tantos personagens passam à medida que o filme corre, e o menino vive. Todos vêm, e invariavelmente vão. Os únicos que estão ali o tempo todo, em cada cena, acompanhando episódio por episódio, a completa trajetória, são os pais dele, e a irmã. A sua família.

    Eu, que não estou muito longe nada da fase na qual Mason termina o filme, vi quanta verdade estava encravada ali, naquela longa sequência de cenas tão real, ao mesmo tempo extremamente simples e simplesmente extraordinária, como a vida de cada um de nós. Todos vão passando, aquele que chamou de melhor amigo, o companheirão de videogame na infância, o colega de futebol, o professor que inspirou. A pessoa a quem deu a primeira piscadela, com quem teve o primeiro beijo, a primeira vez. Os filhos das pessoas com quem seus pais se relacionaram, de um modo ou de outro, e essas pessoas também. Todos, todos, todos vêm, fazem parte da sua viagem por um tempo, e depois vão embora. Somem, somem mesmo, num processo natural. Menos a sua família, que ainda está ali, que está sempre ali, e estará ali para sempre, mesmo quando em memória. Essa força que eternamente nos empurra para frente e nos traz de volta. A mágica real que, igual ou diferente, moderna ou tradicional, feliz ou não tão feliz assim, permanece, continua, transcende o tempo, junto com o tempo, em todas as suas badaladas. A família, a única certeza que temos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O vício da embalagem

                                                              

   Há algumas semanas (ano passado), um pequeno grande burburinho fez-se ouvir na mídia em torno de uma atriz que apareceu irreconhecível numa cerimônia em Los Angeles. Renée Zellweger pode ou não ter feito procedimento cirúrgico ou cosmético, mas o fato permanece de que mudanças em seu rosto são notáveis e serviram de mote para mais uma vez levantar o assunto estética, e até onde somos capazes de ir por ela.

    Em primeiro lugar, achei curiosíssima a postura de grande parte da mídia, que criticou e debochou as transformações da atriz, e talvez sua atitude de fazê-las, enquanto é, inegavelmente, a principal força motriz dessa generalizada obsessão por beleza, a principal difusora dessa indústria, a invisível instituição que instigou o germe que motiva as pessoas a tantas loucuras por sua imagem e colocou Renée nessa posição em que ela tende a fazer tudo e qualquer coisa para manter a aparência. Em segundo, os comentários favoráveis parecem fazer mais do que simplesmente prestar elogio ou apoio à estrela de “Bridget Jones”, parecem esconder o problema cerne da questão: estamos chegando à um ponto de culto à superfície que é doentio, no qual nem percebemos a tremenda insanidade de tudo isso.

    Muitos dizem que optar por botox, cirurgia plástica, cremes, tratamentos e afins é perfeitamente aceitável se isso vai te fazer mais feliz, se vai te ajudar a elevar sua autoestima, viver melhor consigo mesma e com os outros. Dizem que, caso a coisa toda seja feita com segurança, com um profissional qualificado e numa clínica especializada, por métodos confiáveis, está tudo bem. Desculpem, não está tudo bem.

     Cada vez mais as pessoas estão se submetendo a procedimentos caros e perigosos para se tornarem mais bonitas, tentando se admitir na zona do universalmente considerado belo, mesmo sabendo que o conceito é relativo, e há várias formas de beleza. Se submetem a procedimentos caros e perigosos para se sentirem mais bonitas e terem a ilusão de que estão mais felizes por isso, quando, na verdade, se fossem realmente felizes e bem resolvidas consigo mesmas, não precisariam recorrer à esse tipo de fútil coisa para se sentirem mais felizes.

    Sinceramente, o exterior é só um dos elementos que constituem uma pessoa. É importante, sim, o primeiro que se vê, mas não é o único, e nem de longe o mais importante, o essencial. Nós somos mais do que o estampado à vista. Mais que um sorriso bonito ou um corpo perfeito, mais que rugas, olheiras, nariz torto ou dentes desalinhados. Lindas ou feias, devíamos praticar a arte da aceitação, de ser feliz simplesmente com o que somos, ou temos, e parar de venerar a superfície. Ao invés disso, devíamos tratar do conteúdo. De conhecer pessoas interessantes, ter conversas enriquecedoras, ocupar-nos com atividades que nos dêem prazer, e fazer uma pequena diferença no mundo, um trabalho importante. Devíamos dedicar menos espaço mental, energia e tempo em aparência, e nos preocuparmos mais em viver a vida, em viver uma vida que valha a pena.

    Também devíamos parar com essa neura de ficarmos mais jovens, de tentar não envelhecer. Meu Deus, que besta idiotice! Os sinais da idade deviam ser comemorados! É uma grande vitória ter vivido muitos anos, visto muitas coisas, ter histórias e histórias pra contar. Ter vivido é algo celebrável. A idade é algo de que todos devíamos ter orgulho, e mostrar como um troféu, não tentar disfarçar, atrasar, ou pior, apagar.

    Posso estar soando deveras radical, e entretanto, no fundo sei que estou sendo apenas razoável. Afinal, porque subitamente é tão necessário gastar algumas centenas de reais por ano na própria imagem, quando melhor obra que a natural não há, e respeitá-la, sem violá-la com toda sorte de processos agressivos, é o curso mais seguro para a saúde e o bem-estar? Acompanhar todas as tendências não é uma opção para quem deseja uma existência plena. Tampouco o é ficar lutando contra a inevitável, e talvez muito positiva, ação do tempo. Além do que, estar sempre insatisfeito consigo mesmo é jeito pouco sábio de se viver; e incessantemente olhar-se no espelho e desejar voltar cinco anos no tempo para ter aquele rostinho de antes, ou os quilos a menos, não é maneira boa de viver tão curta vida, e de manter no rosto um sorriso que - além de fazer muito bem ao espírito -, evita rugas, e realça a sua beleza com o brilho da alegria.

     De qualquer forma, para mulheres e homens - que também vêm sofrendo as exigências da estética, mormente no quesito corpo e silhueta -, o cenário é grave e pede reflexão. Precisamos desesperadamente de uma virtude que está em falta: a habilidade de ser simplesmente feliz com o que se é, e não estar eternamente insatisfeito, especialmente com a própria imagem. Precisamos ainda mais urgentemente de um lema que devia governar também as nossas queridas marcas comerciais: deve-se largar um pouco de lado a embalagem, e preocupar-se mais com o conteúdo.
   
   

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Intolerância, uma questão de negação



    Recentemente, estive folheando a obra “Ordem e Progresso”, de Gilberto Freyre, o sociólogo que analisou a história do Brasil com tanta ciência. Em certo ponto, meus olhos caíram sobre o seguinte trecho, um depoimento de um homem abastado, nascido em 1888:

     “Jamais se aninhou em mim qualquer preconceito de raça. Cresci e me fiz homem, amando os meus semelhantes, tratando com especial deferência e carinho os pretos, os mulatos, os mais humildes. Pensava, assim, resgatar a injustiça da escravidão a que foram submetidos. Como já disse antes, minha família foi entusiasta da Abolição. E quanto ao aspecto concreto e pessoal da questão, poderá parecer que minha resposta a este item contradiz a dada ao anterior. Mas não há tal. [...] Não veria com agrado, confesso, o casamento de um filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor. Há em mim forças ancestrais que justificam essa atitude. São elas, percebo, mais instintivas do que racionais, como, em geral, soem ser aquelas forças, sedimentadas, há séculos, no subconsciente de sucessivas gerações.”

    Fiquei deveras impressionada. Há muito eu não lia algo tão verdadeiro, tão significativo enquanto tradução da realidade brasileira. Em seu relato, o homem admitiu uma das faces mais obscuras do inconsciente coletivo do país: sob a capa da diversidade, da convivência intensa e constante com a diferença, escondemos a nossa intolerância, o nosso preconceito.

    O nosso forte preconceito, que existe, sim, apesar de todas as tentativas de negação. E não digo somente quanto ao negro. A segregação racial exposta acima - velada sob o manto do discurso igualitário mas trazida à luz pela nítida aversão do moço branco à associação direta e equânime entre ele ou sua família à “gente de cor” - serve para ilustrar a nossa falta de tolerância e a nossa descarada falsidade ao afirmarmo-nos, em contrário, tolerantes. Negamos e negamos, mas sabemos que a discriminação realmente existe. Não gostamos igualmente daquilo que é diferente, “inferior”, daquilo que discorda do padrão ou que destoa da dominante maioria. E, repito, o problema não é só o racismo. A homofobia e o preconceito religioso são outros claros exemplos de como não sabemos conviver bem com o diferente. Sejamos francos, não adianta disfarçar. Não sabemos.

    Mesmo o bullying é uma expressão latente de intolerância. É a intimidação do oprimido - que, na maioria das vezes, é alguém que carrega algum marcante traço diferente, como um aparelho horrível nos dentes, uma estatura inferior, um corpo desenquadrado nos lindos formatos exigidos, gostos próprios e diferentes da onda - pelo dominante, uma pessoa insegura e carente que usa da intimidação para se impor, tentando convencer-se de que é melhor, de que tem mais valor.

    Não estou propondo que todos nós partilhemos da franqueza de Luiz Toledo, o senhor do depoimento, ou que é uma boa ideia aderir à linha de sua confissão. Uma confissão dessas não pode ser fácil. Se multiplicada, provavelmente semearia a discórdia. A verdade é perigosa. E, nesse caso, também é crime. Mas a hipocrisia é a pior das prisões.

    E se fizéssemos um exame do próprio consciente, ou inconsciente? Cada um de nós, fazendo um exame - que não precisa ser público -, averiguando a própria conduta, a própria forma de pensar? Se buscássemos corrigir nossos erros, profunda e honestamente aceitar a diferença? Se tentássemos identificar nossos preconceitos, e, enfim, tentar dissolvê-los? Seria um bom começo. Afinal, o primeiro passo para resolver um problema é reconhecê-lo, vencendo a negação. Se continuarmos a escondê-lo, não trataremos de lidar com ele, estaremos sempre afastando-o, varrendo-o para debaixo do tapete, para longe dos olhos e da mente. A intolerância é um problema sério; a tolerância é a virtude a ser almejada, praticada, mas com sinceridade. Sem teatro, sem sorrisos treinados, sem discursos demagógicos. Será que conseguimos? É algo no que pensar.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Divagações de uma mente antiquada


 

    Tenho um amigo escritor. Seu nome é Lucas (ou L.S. Bertolino, como ele imprime em seus trabalhos). É barbacenense, formado em Letras, tem vinte e três anos, e seus livros são verdadeiros organismos, espécimes poderosas e surpreendentes de literatura fantástica.

    Mas não é de Lucas ou de sua obra que eu venho falar hoje (embora eu sincera e entusiaticamente a recomende. O segundo volume de sua série “A lenda de Arion” foi publicado recentemente e vale a pena cada página). Venho falar sobre a mídia principal de seu marketing - seu e da maioria dos outros escritores e artistas independentes dos nossos tempos modernos. Venho discorrer um pouquinho sobre a internet, seu novo papel enquanto rede de comunicação, e as diferentes formas de interação que nasceram com ela.

    Lucas tem seu perfil em várias redes sociais, sua estória tem um site. É natural que, como profissional das letras e difusor de sua produção, ele queira atingir o maior número possível de pessoas e possibilitar que elas também tenham acesso a ele. Entretanto, não é mais incomum que essas outras pessoas também tenham seus próprios canais, compartilhem suas opiniões, sugestões, gostos e vivências através da internet, promovendo-se e fazendo contato com muita gente, mesmo sem um produto, uma ideia ou arte específica para divulgar. A rede mundial de computadores revolucionou o nosso conceito de interação, tornou-se plataforma importante de convívio, de comunicação, de ampliação de círculos de amigos, cultura e informação. Chega a ser onipresente, a ponto de os mais jovens se perguntarem como pode haver vida sem ela.

    Mas pode, e já houve. A internet é invenção novíssima, afinal, se comparada à humanidade, que tem seus milhares de anos, e que apenas mais recentemente passou a conviver com as grandes mídias audiovisuais. O cinema é das primeiras auroras do século XX. Os anos 30 do mesmo século viveram a era do rádio, e os anos 70 viram o estouro da televisão  - estouro tão poderoso que inclusive a produção musical do período girava em torno do que era veiculado pela telinha. Programas de rádio eram parte essencial do cotidiano de nossos avós; telenovelas eram o entretenimento imperdível das noites de nossos pais. Dessa época, sabemos ao ouvi-los contar. Ninguém perdia um capítulo. Todos ficavam ansiosamente querendo o prosseguimento da história, esperando a hora da novela, e tinham olhos grudados à TV quando ela finalmente começava. Hoje, nós não nos desligamos é da internet, estamos a toda hora conectados.

    Similarmente, os protestos contra a ditadura militar eram todos combinados por grupos que se reuniam em casas particulares ou redutos estudantis, que se contactavam por telefone fixo e divulgavam, na medida do possível, suas ideias por panfletos e jornais. As contestações eram, também, diluídas e disfarçadas em letras de música. No século XXI, porção significativa da Primavera Árabe iniciou-se e articulou-se através das redes sociais da internet, assim como as manifestações de junho de 2013 no Brasil.

    É curioso perceber como os diferentes tipos de mídia foram sucedendo-se, umas às outras, transformando-se e ao mundo continuamente, transformando o poder das anteriores e paralelas em regime de importância e presença na vida das pessoas. Até mesmo o Enem 2014 chamou a atenção para a mais contemporânea expressão desse fenômeno, trazendo numerosos textos produzidos na internet, gêneros próprios do ciberespaço, charges e imagens que atentavam para o fato de que a mídia virtual vem suplantando todas as outras. Já é impossível fazer televisão sem a participação da “galera da internet”. As grandes lojas virtuais têm a lapela de sua página eletrônica cheia dos produtos “mais compartilhados nas redes sociais”. As grandes marcas não podem mais existir sem lojas virtuais, em primeiro lugar... Não há dúvida. Vivemos na era da internet.

    Eu, declaradamente alguém bastante “pé atrás” com o universo virtual, me pergunto se não estamos passando dos limites. Se as pessoas não estão se expondo demais, e desnecessariamente; se não há um exagero no que é compartilhado (quase tudo) - momentos especiais que poderiam ser saboreados mais intimamente, com mais reserva; minutos cotidianos que poderiam ser mais simples, mais privados. Se muitas ocasiões não estão sendo, equivocadamente, vividas para serem postadas. Eu me pergunto o que será feito dos jornais impressos, das agências tradicionais de publicidade, das antenas de rádio e TV,  já que “tudo está na internet”. Eu me pergunto onde vão parar as relações pessoais essenciais, o olho no olho, o abraço, ou o telefonema em que você ouve a voz de uma pessoa e a faz tão feliz apenas por ter se dado ao trabalho de discar seu número, de procurá-la, de ir até ela quando ela não estava imediatamente disponível, talvez online. Eu me pergunto onde vai parar a simples delícia do elogio, já que hoje basta “dar um joinha” ou “curtir" o que uma pessoa posta.

    Em suma, fico a pensar se não estamos nos deixando engolir, usando de forma exagerada, inadequada, uma ferramenta tão útil. A internet é útil, tanto uma realidade inevitável quanto uma benção, o local em que primeiro ouvimos falar de músicas, filmes e livros, onde conhecemos bons autores e temos contatos com boas ideias. Mas... continuo com meus receios, minha desconfiança, tenho minhas reservas. Bobagens? Não sei. Talvez sejam divagações de uma mente antiquada.