quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O amor nos tempos modernos

                                                            

    “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro possuidor de boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.”

    Outra vez, inicio com uma frase marcante, abertura de um clássico mundial - este, ‘Orgulho e Preconceito’ , de Jane Austen. Desta vez, porém, dela não venho discordar, e sim com ela fazer paralelos.

    Recentemente, assisti ao filme ‘Ela’, que confirmou o pensamento, uma verdade tão verdadeira que, de 1814 até aqui, perdura-se, e parece não se aproximar de uma data de validade. A película, uma severa e certeira crítica à loucura que tem havido das pessoas com o universo virtual e sua mascarada vaziez, trata da nossa muito humana necessidade de nos conectarmos, nos conectarmos com gente - de carne e osso, nariz para respirar, sensibilidades para sentir, defeitos e qualidades - em interações reais.

    Não vou nem tentar comentar o filme em si, porque não me sinto apta. Saí tão embasbacada dele que está difícil sacudi-lo de mim, e pôr em ordem ou em palavras as tantas e tão diversas sensações, o turbilhão de intensidade, que ele traz e provoca. Mas, as reflexões às quais ele é ponto de partida... Delas eu não posso me esquivar.

    O cenário mostrado é o seguinte: um mundo onde pessoas se encostam mas não se comunicam, onde dividem o mesmo espaço, no mesmo espaço de tempo, mas não interagem, nem mesmo se enxergam, cada um estando isolado em seu próprio virtual universo, preferindo uma telinha em sua mão às pessoas a sua volta. Alguém identificou alguma semelhança, alguma verossimilhança com o nosso mundo (real)? Sim?

    Pois é. E conforme as cenas avançam e o protagonista, um homem extremamente solitário e cheio de internos conflitos inresolvidos, se apaixona por seu sistema operacional (?!), um outro filme vai também rolando em nossa cabeça, as tantas vezes que vimos gente distanciando-se de gente que está perto, dividindo com elas a mesa enquanto fazendo um lanche, mas sem conversar, sem trocar palavra ou olhar, sem perceber a sua presença, pois compenetrados em seus smartphones. E a solidão, a solidão moderna, baseada em relações ilusórias travadas através do triste engodo das telas.

    Meus amigos, nenhum relacionamento, nenhuma convivência ou vivência virtual substitui a interação real, intermediada por ar, sentidos, toque. Não existe desafio maior que a densidade de uma pessoa, de tentar decifrar seus pensamentos, suas emoções num dado momento, de analisá-las e discutir com elas ideias em tempo presente e espaço real. Não existe magia maior que sentir as mãos de alguém nas suas, conforto maior que um abraço, delícia maior que a de perceber uma pessoa em sua totalidade, a expressão de seus olhos, o ritmo de sua respiração, o tom de sua voz, seus gestos e jeitos, tranquilos ou agitados, o modo como ela se mexe - em desconforto, alegria ou embaraço -, ou organiza e verbaliza seus pensamentos, de uma vez ou pausadamente. Nenhum aplicativo pode nos proporcionar tudo isso, porque nada disso se percebe na muito limitada dimensão de uma tela.

    Eu sempre me perguntei como funcionariam os relacionamentos à distância, mantidos apenas pelas tecnologias de informação. Quero dizer, e quando seu par está triste e você, na intenção de consolá-lo, de demostrar sua proximidade e transmitir seu afeto e sua empatia, estende a mão para tocar seu rosto e encontra apenas o frio monitor de um computador? Isso deve ser agonizantemente frustrante. A pessoa estar ali tão perto, aparentemente ao alcance do toque, e ao mesmo tempo simplesmente não estar... Ao meu ver, não há laço - ou sanidade - que assim se sustente. E o que me diz o leitor daqueles que embarcam nesse tipo de interação voluntariamente, sem mesmo a distância que a torne necessária?

    Além do viés amor, em suas inúmeras variâncias, além do canalizar para um ilusão sentimentos que deveriam ser investidos em pessoas, há outras esferas da vida que experimentam problemas relacionados ao mundo virtual, do qual tão perigosamente nos aproximamos e nos tornamos dependentes. Quantas pessoas, jovens especialmente, não conhecemos que têm linguagem corporal deturpada, confusa, enquanto parecendo presa e amarrada, e simplesmente não conseguem olhar nos olhos dos outros? Expressar um pensamento, em claras e audíveis e articuladas palavras, então? Tomar parte numa discussão, num debate? A timidez, ou anti-sociabilidade por forças de internet, chega a ser doentia.

    E quantas empresas e serviços não têm tido seu rendimento lá embaixo, devido a funcionários que, insistentemente, estão ativos online em tudo quanto é coisa no horário em que, dizem, estão trabalhando? E quem consegue trabalhar, estudar, concentrar-se continuamente numa tarefa com a droga do celular apitando toda hora avisando a chegada de novas mensagens, de outras gentes desocupadas, às quais você sente uma ansiedade muito grande em responder imediatamente, sem deixar transcorrer minuto sequer?

    Eu não vou sugerir a ninguém que exclua - por hoje, pelo menos um - algum de seus tantos artifícios de social 'existência' por meio virtual, ou se desligue, um pouquinho que seja, desse mundo. Sinto que as pessoas são muito mais receptivas aos nossos apelos quando eles não vem de forma direta, com verbos no imperativo. Mas deixem-me dar aqui um testemunho. Eu não tenho nada disso, nenhuma rede 'social' e semelhantes. E não porque já tive e ao perceber o dano que eles constituem, acabei excluindo. Não tenho porque nunca tive mesmo. Não sinto necessidade. A humanidade viveu milhares de anos sem esses negócios aborrecidos e pode muito bem continuar assim. E eu também. Não dói, nunca morri por isso - pelo contrário, vivo muito bem. Não fico tomando conta de vida dos outros, porque tenho a minha, muito excitante e cheia e plena, da qual cuidar. E é uma liberdade imensa esquecer o celular descarregado de vez em quando, não lembrar de ligar o computador por dias seguidos, enquanto cozinhando, escrevendo com lápis num papel, lendo um livro, fazendo música, passando tempo com pessoas reais, quem realmente importa, e no mundo real, de um modo pleno e ininterrompido.

    Aliás, alguém aí já parou pra pensar por que usamos as palavras ‘real’ e ‘virtual’ como opostas? Porque são opostas, antônimas inconciliáveis; o que é virtual não é real, e o que é real não precisa da plataforma virtual para existir, pois é real.

    Jane Austen não viveu nos tempos do chuveiro, da luz elétrica, do sufrágio universal, nem da tecnologia, ou mais especificamente dos derivados de internet. Não viveu nos tempos modernos. E, no entanto, o seu tempo era povoado por pessoas, pessoas como nós - criaturas complexas e fascinantes, feitas não de placas-mãe e sim de tecidos vivos, com celulites e estrias, braços e pernas, miolos que raciocinam e pensam (ou não); pessoas que, sim, devem estar à procura de cônjuges, assim como de bons amigos, colegas próximos, porque precisam relacionar-se com outras, com outras pessoas. Pessoas que tornarão a convivência por vezes muito difícil, que nos farão arrancar cabelos da cabeça, e provavelmente nos cortarão o coração em algum ponto do caminho. Pessoas que serão irritantemente burras para umas coisas, lentas para outras, que terão manias que incomodam, hábitos que magoam, peculiaridades que as fazem únicas, uma densidade própria que as define. Defeitos e imperfeições que as fazem seres humanos, completos.

    Nossa cara Jane disse bem, não podemos negar o quanto precisamos de nos conectarmos, ou privarmo-nos dessas conexões - reais. Nem nos escondermos atrás de telas, por comodismo ou falso conforto, por medo ou despreparo. Não podemos deixar que a dependência em tecnologia nos aliene de pessoas de verdade, daquelas que estão perto. Não podemos deixar de viver as complicadices do orgulho e do preconceito, da razão e do sentimento, da virtude e da maldade, pois é esse conjunto que nos faz humanos, e as experiências e vivências por meio dele que nos faz dizer “Vivi. Vivo. Penso e sinto, tenho boas lembranças de boas reais vivências, logo existo. E como isso vale a pena!”

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A força de um sorriso

                                                              

    Há mais ou menos um mês, estive em Brasília, nosso ilustre distrito federal, e lá se sucederam alguns episódios que me deram muito no que pensar. Duas pessoas eu encontrei que me fizeram parar para refletir na importância de um gesto que muito negligenciamos: o sorriso, tradutor melhor da alegria em um rosto, feixe de dentes e bochechas e energia que pode iluminar todo um dia. Vou contar brevemente as duas histórias em separado.

    A primeira aconteceu numa sala de aula. Eram três os dias de prova desse exame no qual tomei parte, todos durando cinco horas, muito divertidas. Nos dois primeiros dias, os fiscais foram dois ‘generais’. Dois diferentes homens que chegaram, seu dever fizeram, e por cinco horas permaneceram calados, contidos, de cara fechada. Nada fizeram de errado, não nos deram motivo para queixa, cumpriram seu papel e seguiram todo o protocolo - friamente, e isso me incomodou.

    No terceiro dia, Deus teve piedade de nós, e mandou uma luz, um homem-luz. Na mesma hora que ele entrou na sala, eu pensei comigo “ai, que colírio!”. Devia ter por volta de uns trinta anos, era negro, alto, forte mas não tão forte que passasse da medida, de rosto bonito e sorriso lindo. E, não bastasse tudo isso, ele conquistou - a todos - com sua simpatia. Foi o único dos três que nos deu um “boa tarde” ao chegar, e um “boa tarde” sincero. Tão logo começou a organizar as coisas na mesa e se ambientar na sala, parou, e interagiu conosco de um modo muito simples. “Ah, gente, eu sei que sou carioca, mas até pra mim, aqui tá quente pra caramba!”. E perguntou, gentilmente, se podia ligar o ventilador ou se ele atrapalharia quem estava ali na frente pelo barulho.

    No calor intenso do centrão do Brasil em meados de janeiro, é evidente que as duas outras almas que nos aplicaram a prova ligaram o ventilador também. Mas o fizeram em ato mecânico, de um jeito automático, e totalmente indiferente a nós, perdendo assim a pequena enquanto excelente oportunidade de trocar conosco algumas palavras, ou um sorriso. Para o colírio que logo à minha frente estava, eu sentada por arte do acaso na carteira imediata à mesa do professor, perguntei “Carioca de onde?” ao que ele orgulhosamente respondeu. “De Madureira”, e  perguntou “Por que, bela, você é carioca também?”

    O tal galante terceiro instrutor fez tudo o que os outros fizeram, apenas com o muito simples tempero da alegria e da gentileza. Ele distribuiu embalagens para celulares, passou verificando assinaturas e polegares carimbados, entregando os cadernos de prova, mas ele se dirigia a nós enquanto fazendo isso, nos enxergava. Isso faz uma diferença muito grande, significa muito embora possa parecer tão pouco; ninguém gosta de ser invisível, de se sentir objetificado. Ele interagia, sorrindo, falando coisas pequeninas como “Tudo certo aí, princesa, ansiosa para começar ou para terminar?” ou “passa a tinta outra vez, colega, teu carimbo não saiu não”. Por mais que isso possa parecer trivial - e essa linguagem seja realmente o carioquês típico, e portanto vinda de um carioca, não devesse impressionar -, tudo isso nos impressionou, e muito, dado o tratamento duro enquanto frio, indiferente quase robótico, que recebemos dos fiscais anteriores. O mero fato deste estar conversando com a gente, e com essa gentil e cordial amabilidade, nos pareceu um luxo indizível, comparado ao modo com os outros se portaram, extremamente sérios, e mal nos notando.   

    No decorrer da prova, é claro, não havia espaço para dois dedos de prosaica conversa ou para brincadeira. Mas, enquanto no silêncio, riscado pelo ventilador, as canetas freneticamente rabiscavam e discorriam, eu senti algo de melhor na atmosfera da sala, algo de mais leve. Meus músculos de ombro e pescoço estavam menos tensos, ainda que aquele dia de prova estivesse sendo o mais difícil pra mim. E, na hora da saída, a coroação: ao invés do apenas civilizado aceno de cabeça dos outros fiscais em resposta ao nosso “tchau”, ele dizia um amistoso “tchau” em retorno, a cada um de nós, e completava com um cúmplice “boa sorte”.

    A segunda história é sobre outra pessoa que, de um jeito diferente, também me cativou instantaneamente. (Alô, Lilian!) É uma amiga da minha familiar residente em Brasília, com quem passei esses tão bons dias (Alô, tia Elza!), que por ela tinha sabido de mim e de nossas paixões comuns (inglês britânico, História, Jane Austen, Londres, e afins) e assim queria me conhecer.

    Ela chegou e simplesmente preencheu a sala com seu sorriso. Cumprimentou-me com uma familiaridade tão amiga e tão simpática, contou-nos umas histórias de sua recentes aventuras na Europa, resumidamente descreveu os lugares por onde passou, deu para mim uma lembrancinha de Londres  - delicadeza que nem precisava ter feito, que outra pessoa com certeza não faria, afinal ela nem me conhecia! - e foi embora, me deixando absolutamente encantada, pensando “Que pessoa mais alegre, que alto astral contagiante! Como precisamos de pessoas assim no mundo!”

    Eu contei tudo isso só para ilustrar quanta diferença não faz um sorriso. E como é incrível o poder de uma disposição alegre em transmitir boas energias, e não só contagiar, mas conquistar; tornar um dia bom melhor ainda e melhorar um que parecia prometer-se ruim. Como é mais abordável uma pessoa sorridente que uma de cenho franzido e expressão fechada, como é mais gostoso receber um cumprimento com alegria que um com frieza, por educação. Como parece até mais saudável viver com um sorriso!
    Não estou dizendo que todos devemos estar felizes e saltitantes o tempo todo, até porque isso não é possível. Todos temos aqueles dias em que chorar é simplesmente muito mais confortável que sorrir, aqueles dias em que é mesmo difícil tentar transmitir uma alegria e uma serenidade que não sentimos. Mas, na maioria dos dias, eu acredito, nós somos, sim, capazes de escolher entre dar um “bom dia!” com energia ou um “bom dia” no modo automático. Podemos escolher - entre tantos problemas, que aliás muitas vezes exageramos e superestimamos, e tantas intempéries que irremediavelmente povoam a vida de todos nós - manter no rosto um alegre sorriso.

    Parece extremamente simples, o generoso ato de sorrir, e no entanto, não é tão comum que sua presença chegue a ser um agradável normal. É um simples que se torna especial principalmente se considerarmos a frieza, a civilizada indiferença, a distinta má vontade de muitas pessoas umas com as outras, que por vezes não preocupam-se nem em serem minimamente corteses... Eu fico olhando algumas cenas, observando algumas pessoas e pensando... Gente, nós somos todos irmãos, do pó viemos e ao pó igualmente voltaremos, não temos motivo para sermos hostis uns com os outros se podemos ser gentis...

    Por isso, aqui deixo um singelo apelo pelo sorriso, pelo bom humor, pela alegria e pela gentileza. Não só por seus poderes inebriantes, de dardejar corações por aí, como por sua pureza e sua vivacidade, seu poder de propagar-se, irradiar-se. Que não subestimemos a força que tem um sorriso, e não deixemos, sempre que possível, de exercê-la, praticá-la, continuá-la.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aos nossos heróis...

                                                                  

    Outro dia, parei para examinar o verso de nossas moedas. Nada mais indicativo de uma enorme falta do que fazer. Mas, não me xinguem, leitores, pois não é que a falta do que fazer se mostrou imensamente produtiva? É o ócio criativo, como gostava de pontuar Bertrand Russell, meu admirado filósofo, e como gosto de pontuar eu mesma, adepta de sua filosofia, que advogo a todos uma porçãozinha de ócio diária para o bem estar e a criatividade. Meia hora passada todo dia a humanamente vegetar - sem fazer nada, sem voluntariamente pensar em muita coisa - é o suficiente para relaxar o cérebro e depois vê-lo pipocar de boas ideias.

    Mas, enfim, sabem o que verifiquei no outro lado das moedas? Que lá estão encravadas figuras que deveriam ser - ou assim erradamente são consideradas, até pelo privilégio de ganharem essa posição - os nossos heróis.

    Ressoem os tabores, e que faça-se ouvir, nas próximas ilustres linhas, toda a minha reverência.

    Na moedinha de 5, “Tiradentes”, o homem morto careca e sem barba que, com a invenção da República, ganhou feições e cabelos de Jesus, e status de mártir; o alferes que queria tornar Minas Gerais livre de Portugal, para ficar livre de seus incômodos impostos e suas leis engessadoras e arbitrárias, apenas para fazer as suas próprias, e poder governar o Estado como bem entendesse, servindo aos próprios interesses.

    Nos 10 centavos, D. Pedro I, nosso exímio imperador, que nos tornou independentes de Portugal apenas para nos vender à Inglaterra - dependência da qual ainda penaríamos por décadas a fio -, que contratou corsários por verdadeiras, e brasileiras, fortunas para acabar de expulsar portugueses (um português expulsando portugueses!) daqui, nas guerras de independência... Governante realmente inspirador, que, além de tudo, ainda era safado e sem vergonha, tendo vários affairs notórios, entre eles o mais famoso, com a Marquesa de Santos, e tantos outros, talvez nem todos ainda devidamente identificados por historiadores.

    Na moedinha de 25, junto ao brasão da República, Deodoro, o marechal que proclamou-a sem, contudo, realmente acreditar nela. Isso mesmo. O homem que nos fez República era conhecido monarquista, que dizia “O único sustentáculo do Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela". Mas, que, mesmo contrariado, para o bem de todos e a felicidade geral das forças armadas, menos de parte da marinha, concordou em dar o brado retumbante. Declarou a república e governou-a provisoriamente de modo bastante desastrado, muito aproximando-se de nomes monarquistas, conduzindo relações de atrito com grupos de fazendeiros, elites políticas estaduais, que lhe fizeram oposição, derrubaram, e depois apoiaram a dura presidência florianista.

    E, por último, o Barão do Rio Branco, na moeda de 50, e dando nome à uma das principais avenidas de Juiz de Fora, do Rio de Janeiro, de sabe-se-lá-mais-onde, além é claro, à capital do estado que anexou ao país e à nossa escola formadora de diplomatas. Não estou aqui desmerecendo os feitos do homem, que foi um inegável marco na diplomacia brasileira, mas além de conduzir as negociações de compra do Acre, e de trabalhar, com muita destreza, no nosso Ministério das Relações Exteriores por muito tempo, ele nenhum outro grande bem fez ao Brasil e aos brasileiros.

    Não me entendam mal. O que estou querendo com esse deboche não é denegrir a imagem ou diminuir a importância que, apesar dos pesares, todas essas figuras tiveram na história brasileira. O meu objetivo com ele é, sim, dizer que, embora importantes e marcantes, essas pessoas não foram, não são, e jamais serão os nossos heróis.

    Os nossos heróis, nossos verdadeiros heróis, que merecem toda a reverência, toda a homenagem e todo o nosso respeito, são os heróis ocultos. Pessoas cujo nome não constará no registro histórico, cujo trabalho é formiguesco e aparentemente pequeno e insignificante; pessoas que vivem uma vida escondida e viverão uma morte discreta, restando em túmulos comuns, que não serão muito visitados ou badalados, não tendo estátuas ou bustos que os acompanhem.

    Os nossos heróis são os nossos professores, pessoas que trabalham em transmitir o seu conhecimento, semear cultura e informação na cabeça e na alma dos nossos pequenos - trabalho que fazem, muitas vezes, sem as básicas condições necessárias, sem um material em bom estado, sem um salário que seja equivalente à importância do que fazem ou mesmo dignamente suficiente para sua confortável sobrevivência e, sobretudo, sem o reconhecimento que pede tão nobre trabalho.

    Os nossos heróis são os nossos médicos, principalmente aqueles da rede pública, verdadeiros gladiadores da saúde, que têm que trabalhar dia após dia com um excesso de pacientes para uma escassez de recursos, com sobrecarga de horas, com indevidas condições de aparato para exames, diagnóstico, tratamento, de remédios e outros elementos imprescindíveis para o adequado atendimento, e, mesmo assim, se esforçam em dar o melhor cuidado que podem oferecer, de forma mais humana e sensível que muitos médicos de rede particular.

    Os nossos heróis são os homens do campo, que com pouco ou nenhum incentivo - e muito menos reconhecimento -, levantam cedinho, todos os dias, faça chuva ou faça sol, e trabalham duro por horas seguidas para pôr a comida na mesa de todos nós.

    Os nossos heróis são os assistentes sociais, que muitas vezes, na mesma insofrível escassez de suporte e apoio, tentam dar um lar, um melhor destino, às nossas crianças abandonadas, ou órfãs mesmo tendo pais e casa, trabalhando pelo futuro delas. São aqueles que trabalham pela agricultura, a educação e a saúde, pelo esporte, por nossa literatura, pela sustentabilidade, por essas e outras áreas tão negligenciadas por nossas autoridades, tão sucateadas e desvalorizadas por esta “ordem” maluca que vivemos. São pessoas, enfim, como o Guilherme, o Maicon, o Marcelo, o Darlon, ou o Vicente - que trabalha em dias alternados numa loja, e nos dias de folga abre sua garagem, cheia de livros, gibis e alguns violões, para ensinar música e inglês para jovens que queiram, ou apenas para eles ali passarem o tempo de forma construtiva e sadia, e diz que “não estou ganhando nada não, mas enquanto eles estão comigo, não estão perdidos na rua, talvez mexendo com drogas”. Pessoas que trabalham pelo futuro, e pelas pessoas, servindo aos interesses de algo maior que seu bem próprio, numa doação enorme e sincera, para o país progredir e não retroceder. Essas pessoas que, como eu disse, fazem tanto, merecem tanto ou mais, mas recebem de volta tão pouco, em todos os sentidos.

    Eu dedico este texto (como dediquei meus minutos de hoje de reflexão e puro e produtivo ócio) a essas pessoas. É uma homenagem parca e insuficiente para vocês que merecem todo o nosso aplauso e agradecimento, a oficial reconhecença, e as moedas, que em tão triste quantidade lhes passam pela mão, preenchidas por figuras que, ao meu ver, têm seu merecimento heroico que pode ser relativizado, e recebem uma homenagem da qual vocês são muito, mas muito, mais dignos. Pois, mais dignos vocês são de serem chamados “nossos heróis”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Vagões femininos - um problema do século XXI

   Muito recentemente, li que estava sendo debatida, na Inglaterra, a implantação de vagões femininos em trens e metrôs dada a significativa alta em crimes de assédio sexual - principalmente nesses meios de transporte - verificada por lá. Muito me abismou que um país de primeiro mundo como a Inglaterra tenha chegado ao ponto de sequer cogitar essa absurda opção, e a mera circunstância disso estar acontecendo aponta que o problema é muito mais grave e geral do que imaginamos.

    Quando entrevistada sobre o assunto, a feminista Laura Bates, criadora do projeto ‘Everyday sexism’, declarou “Para mim, [implantar os vagões femininos] seria um grande passo para trás. Quero dizer, colocar mulheres num vagão só delas essencialmente manda a mensagem muito clara que assédio e ofensas sexuais de homens para mulheres são inevitáveis, então nós bem podemos fechá-las a parte. Pra mim, é a mensagem errada. A mensagem deveria ser ‘a vasta maioria dos homens jamais sonharia em cometer essas ofensas, nós temos que pegar os ofensores,  aqueles que estão cometendo-as’. E é claro, a situação pode passar muito perto da culpabilização das vítimas. Se nós temos vagões femininos, e uma mulher não viaja neles e é sexualmente assediada, as pessoas então vão pôr a culpa nela por isso ter-lhe acontecido? Estamos indo na direção errada."

    Ah, enfim alguém com a cabeça em cima do pescoço e os olhos na realidade! Como eu fiquei grata de ouvi-la dizer isso, em meio a tanta gente aprovando a medida que, realmente, é um andar para trás. Segregar homens e mulheres para prevenir um assédio que é somente questão de educação? Sinceramente! Em que século estamos mesmo? XXI, ah é!

    No Brasil, os vagões femininos infelizmente já existem. Em São Paulo, a medida foi aprovada em julho de 2014. No distrito federal, vagões rosa rodam desde 2013, e no Rio, desde 2006. Algumas mulheres dizem se sentir mais seguras com a ‘proteção’, principalmente se estão viajando sozinhas tarde da noite, ou nos desagradáveis horários de pico. Algumas argumentam que se sentem mais seguras sabendo que há só mulheres em volta. Dizem que, já que acontece mesmo (a violência, o constrangimento, as fotos sutilmente intrusivas, o “passar a mão”, as tão variadas formas de assédio) nós podemos tentar nos manter em lugares menos propícios a isso.

    Gente, a questão não é de proteger-se contra uma acontecença certa! Isso é vergonhoso. Nós não precisamos nem de vagões segregadores nem de alfinetes contra os encoxadores! O que nós realmente precisamos é de uma reeducação urgente, de toda a população, quanto as questões de sexo, de gênero, de comportamento. Urge um programa de educação sexual nas escolas! Urge que os pais estejam presentes para os filhos, lhes ensinem o certo e o errado, conversem com eles  abertamente e, principalmente, lhes deem o exemplo!

    Nós precisamos que meninas de 14 ou 15 anos não achem normal um cara sentar ao seu lado no ônibus e começar a apalpar suas pernas, ou a mexer com elas de qualquer forma, em sussurradas provocações desagradáveis. Que elas não encarem esse tipo de violência como só mais um abuso com que elas tem que lidar diariamente. Que não achem normal nenhum tipo de constrangimento, coerção, intimidade forçada, de ninguém, nem de estranhos no transporte, nem de seus namorados. Precisamos que os meninos e jovens e adultos inocentes dessas ofensas percebam que elas acontecem e sejam patrulheiros do próprio sexo. Que aqueles que as cometem saibam que isso é intolerável e não deve ser praticado. Que todos passem a jamais imaginar realizar um ato nessa linha de comportamento - pela simples razão de ele ser impraticável, absolutamente inadmissível. Precisamos que mulheres e homens aprendam a se respeitar, e respeitar aqueles ao seu redor, como iguais, como pessoas cuja integridade moral e física deve ser respeitada, vendo-lhes como uma moça que poderia ser sua irmã ou um rapaz que pode vir a ser seu marido.

    Precisamos que as pessoas aprendam a se conter, a visualizar o espaço do outro, e não praticar aquilo que pode vir a incomodá-lo. Que não vejam corpos como aparatos para conseguir seu prazer, sua satisfação, e sim como parte de uma pessoa, um indivíduo, que merece ser amado e respeitado inteiramente. Que meninos e meninas deixem de encarar a virgindade como um estado vergonhoso, que deve ser perdido a qualquer custo, e a ‘inexperiência’ - por timidez ou reserva, por querer preservar-se, por simples acanhamento, por qualquer motivo - como um comportamento careta, digno de riso e deboche e que, se possível, deve ser ‘consertado’ por influência, revertendo-se à irreverência que, neste caso que abordamos, é insolência, descortesia e afronta, um ultraje. Que cada um viva sua sexualidade conforme se sente à vontade, sem pressões, e sem molestar o limite do outro, que seja um desconhecido ou um parceiro. (E que não tenhamos mais que tolerar campanhas como aquela “não mereço mulher rodada” que redutoramente julga o caráter da mulher pelo status de sua atividade sexual, e rotula liberalidades - femininas - como amorais e repulsivas, peso que não recai sobre o mesmo ‘estilo de vida’, se masculino.)

    Não estou dizendo que medidas não devem ser tomadas contra os assédios, tampouco estou sugerindo que todos tomem votos de castidade. Não é isso. O que faz-se essencial é uma reeducação sexual que abranja as condutas básicas. Uma conscientização, um abordar o mal pelo seu começo, que faça com que medidas como essa dos vagões femininos - por sua natureza, ridículos - não sejam necessários. Uma revolução no pensamento e no modo de agir que faça com que a violência não seja o normal esperado, seja a exceção abominada, e devidamente punida. Que faça com que os registros desse tipo de ofensa baixem a um mínimo, e não surpreendam desagradavelmente os hóspedes ou visitantes que recebemos, como na copa. Que faça com que nós, brasileiras, e brasileiros, também, por que não, nos sintamos seguros para ir de um lugar a outro, sem nos sentirmos ameaçados, podendo até nos permitir o flerte que pode rolar nas situações em que se passa horas, todos os dias, mais ou menos nos mesmos horários, confinado num mesmo transporte com as mesmas pessoas. Flerte, conversa ou conhecimento - que chega a desembocar em boas amizades ou em casamentos. E tudo com respeito, cada um e todos os envolvidos se sentindo à vontade, livres para dizer e fazer somente e apenas o que têm vontade, e perfeitamente seguros. Afinal, como diz o velho ditado “o seu direito termina onde começa o do outro”. Percebam as flores como vivem espaçadas umas das outras. Pois é, o dito popular sintetiza e a natureza ilustra, a natureza dá o exemplo. Toda flor precisa de seu espaço para desabrochar. Espaço, não confinamento.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Família, três pontos e uma certeza

                                                                     
    “Todas as famílias felizes são parecidas, as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira."
    Essa frase - talvez uma das mais célebres da literatura universal, a abertura do trágico ‘Anna Karenina’, obra prima do grande Leo Tolstoi - contém um pensamento que já me pareceu acertado, mas do qual, hoje, eu preciso veementemente discordar. Desculpe, Tolstoi. Eu continuo admirando-o fervorosamente, e se estou discordando e questionando nesse momento, só me provo mais ainda uma tolstoiana, tendo desenvolvido faculdades suficientes para, a partir do embate de ideais, parturiar a minha própria. Então, não se zangue comigo.
                                                                 

    Recentemente, caro Tolstoi e queridos leitores, assisti ao filme ‘Boyhood’, e ele me fez pensar que não, nem todas as famílias felizes se assemelham umas às outras. As famílias felizes, também, são felizes cada uma de seu muito diverso jeito próprio.

    No filme, o menino protagonista tem uma família, digamos, moderna. Seus pais nunca foram casados; sua mãe passa por vários relacionamentos problemáticos, numa aparente extrema necessidade de autoafirmação, e é a provedora da casa; enquanto o pai, em contrário, não é o que dá o sustento, mas o que dá a alegria, o principal humano suporte, um verdadeiro ‘cool dad’ que conversa, brinca, ri, está realmente envolvido com os filhos. Ele demora a se assentar, conhecendo seu par - anos mais jovem - apenas anos depois, e tendo com ela mais um menininho, o irmão pelo menos uma década e meia mais novo que os outros dois.

    A minha família - e a maioria daquelas com as quais tenho conhecimento e convivo na minha muito aristocrática Barbacena - se encaixa no modelo tradicional: papai, mamãe, filhinhos, morando numa casa fixa ao longo de sua existência, vivendo um casamento que muito lembra uma pecinha de lego - frágil e sólida, ao mesmo tempo, um cubinho que se desgasta com o tempo, tem as arestas danificadas, a cor e o brilho um pouco desbotados, mas se sustenta, simplesmente não se dissolve ou quebra, e é tão pequenina que parece insignificante, um detalhe normal ao qual nos acostumamos e que não parece ter muita importância, embora, no conjunto da obra, a vida, depois perceba-se que ela é essencial e que sem ela, a pecinha pequenina, o espetáculo não existiria, sua montagem seria fraturada, incompleta, um vazio preenchendo espaço.

    Esse meu tipo de família, eu creio, está em franca extinção. Mas A Família, não. O conceito se expandiu e diversificou, se reinventou, está mudado e mais amplo, sim, mas não morreu, nem caiu em desuso. Porque a Família, em si, permanece, continua, para sempre.

    O que estou querendo dizer com todo esse enrolê é o seguinte: uma vez, ouvi alguém dizer que a vida é como um trem, que tem estações e estações nas quais vai parando, onde gente vai embarcando e gente vai nos deixando, umas pessoas saltando para dentro, outras para fora, num ciclo que só se encerra quando o trem para e a gente morre.

    Pois é, a vida é mesmo um trem (que não necessariamente vai nos atropelar, viu gente? se, é claro, não nos enfiarmos embaixo dele), um trem no qual todos são passageiros, exceto o motorista e o trocador - e a sua família. Porque ela é a teimosia mais chata e mais importante que existe, o exemplo maior de uma força que não se extingue, aquela que os faz ficar grudados ao trem, sempre empurrando-o para frente, atravessando toda e qualquer intempérie com ele, numa constância quase inexplicável, de nome amor. Às vezes, você, no seu trem, vai até querer jogar a sua família para fora, colocá-los num vagão para deixar para trás. Ou, então, torcer o pescocinho deles de uma vez, ou mandá-los para a fila de execução na Indonésia, em regime de urgência. Vai fazer todas as cachorradas do mundo com ela, aprontar todas, e erradamente esperar vê-las voltando-lhe as costas, apenas para vê-la, ainda assim, apesar de tudo, pronta para você - pode até ser que seja com um chinelo -, mas ela estará ali, para você, por você, ao seu lado, para sempre.

    No filme, vemos exatamente isso. Tantos personagens passam à medida que o filme corre, e o menino vive. Todos vêm, e invariavelmente vão. Os únicos que estão ali o tempo todo, em cada cena, acompanhando episódio por episódio, a completa trajetória, são os pais dele, e a irmã. A sua família.

    Eu, que não estou muito longe nada da fase na qual Mason termina o filme, vi quanta verdade estava encravada ali, naquela longa sequência de cenas tão real, ao mesmo tempo extremamente simples e simplesmente extraordinária, como a vida de cada um de nós. Todos vão passando, aquele que chamou de melhor amigo, o companheirão de videogame na infância, o colega de futebol, o professor que inspirou. A pessoa a quem deu a primeira piscadela, com quem teve o primeiro beijo, a primeira vez. Os filhos das pessoas com quem seus pais se relacionaram, de um modo ou de outro, e essas pessoas também. Todos, todos, todos vêm, fazem parte da sua viagem por um tempo, e depois vão embora. Somem, somem mesmo, num processo natural. Menos a sua família, que ainda está ali, que está sempre ali, e estará ali para sempre, mesmo quando em memória. Essa força que eternamente nos empurra para frente e nos traz de volta. A mágica real que, igual ou diferente, moderna ou tradicional, feliz ou não tão feliz assim, permanece, continua, transcende o tempo, junto com o tempo, em todas as suas badaladas. A família, a única certeza que temos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O vício da embalagem

                                                              

   Há algumas semanas (ano passado), um pequeno grande burburinho fez-se ouvir na mídia em torno de uma atriz que apareceu irreconhecível numa cerimônia em Los Angeles. Renée Zellweger pode ou não ter feito procedimento cirúrgico ou cosmético, mas o fato permanece de que mudanças em seu rosto são notáveis e serviram de mote para mais uma vez levantar o assunto estética, e até onde somos capazes de ir por ela.

    Em primeiro lugar, achei curiosíssima a postura de grande parte da mídia, que criticou e debochou as transformações da atriz, e talvez sua atitude de fazê-las, enquanto é, inegavelmente, a principal força motriz dessa generalizada obsessão por beleza, a principal difusora dessa indústria, a invisível instituição que instigou o germe que motiva as pessoas a tantas loucuras por sua imagem e colocou Renée nessa posição em que ela tende a fazer tudo e qualquer coisa para manter a aparência. Em segundo, os comentários favoráveis parecem fazer mais do que simplesmente prestar elogio ou apoio à estrela de “Bridget Jones”, parecem esconder o problema cerne da questão: estamos chegando à um ponto de culto à superfície que é doentio, no qual nem percebemos a tremenda insanidade de tudo isso.

    Muitos dizem que optar por botox, cirurgia plástica, cremes, tratamentos e afins é perfeitamente aceitável se isso vai te fazer mais feliz, se vai te ajudar a elevar sua autoestima, viver melhor consigo mesma e com os outros. Dizem que, caso a coisa toda seja feita com segurança, com um profissional qualificado e numa clínica especializada, por métodos confiáveis, está tudo bem. Desculpem, não está tudo bem.

     Cada vez mais as pessoas estão se submetendo a procedimentos caros e perigosos para se tornarem mais bonitas, tentando se admitir na zona do universalmente considerado belo, mesmo sabendo que o conceito é relativo, e há várias formas de beleza. Se submetem a procedimentos caros e perigosos para se sentirem mais bonitas e terem a ilusão de que estão mais felizes por isso, quando, na verdade, se fossem realmente felizes e bem resolvidas consigo mesmas, não precisariam recorrer à esse tipo de fútil coisa para se sentirem mais felizes.

    Sinceramente, o exterior é só um dos elementos que constituem uma pessoa. É importante, sim, o primeiro que se vê, mas não é o único, e nem de longe o mais importante, o essencial. Nós somos mais do que o estampado à vista. Mais que um sorriso bonito ou um corpo perfeito, mais que rugas, olheiras, nariz torto ou dentes desalinhados. Lindas ou feias, devíamos praticar a arte da aceitação, de ser feliz simplesmente com o que somos, ou temos, e parar de venerar a superfície. Ao invés disso, devíamos tratar do conteúdo. De conhecer pessoas interessantes, ter conversas enriquecedoras, ocupar-nos com atividades que nos dêem prazer, e fazer uma pequena diferença no mundo, um trabalho importante. Devíamos dedicar menos espaço mental, energia e tempo em aparência, e nos preocuparmos mais em viver a vida, em viver uma vida que valha a pena.

    Também devíamos parar com essa neura de ficarmos mais jovens, de tentar não envelhecer. Meu Deus, que besta idiotice! Os sinais da idade deviam ser comemorados! É uma grande vitória ter vivido muitos anos, visto muitas coisas, ter histórias e histórias pra contar. Ter vivido é algo celebrável. A idade é algo de que todos devíamos ter orgulho, e mostrar como um troféu, não tentar disfarçar, atrasar, ou pior, apagar.

    Posso estar soando deveras radical, e entretanto, no fundo sei que estou sendo apenas razoável. Afinal, porque subitamente é tão necessário gastar algumas centenas de reais por ano na própria imagem, quando melhor obra que a natural não há, e respeitá-la, sem violá-la com toda sorte de processos agressivos, é o curso mais seguro para a saúde e o bem-estar? Acompanhar todas as tendências não é uma opção para quem deseja uma existência plena. Tampouco o é ficar lutando contra a inevitável, e talvez muito positiva, ação do tempo. Além do que, estar sempre insatisfeito consigo mesmo é jeito pouco sábio de se viver; e incessantemente olhar-se no espelho e desejar voltar cinco anos no tempo para ter aquele rostinho de antes, ou os quilos a menos, não é maneira boa de viver tão curta vida, e de manter no rosto um sorriso que - além de fazer muito bem ao espírito -, evita rugas, e realça a sua beleza com o brilho da alegria.

     De qualquer forma, para mulheres e homens - que também vêm sofrendo as exigências da estética, mormente no quesito corpo e silhueta -, o cenário é grave e pede reflexão. Precisamos desesperadamente de uma virtude que está em falta: a habilidade de ser simplesmente feliz com o que se é, e não estar eternamente insatisfeito, especialmente com a própria imagem. Precisamos ainda mais urgentemente de um lema que devia governar também as nossas queridas marcas comerciais: deve-se largar um pouco de lado a embalagem, e preocupar-se mais com o conteúdo.
   
   

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Intolerância, uma questão de negação



    Recentemente, estive folheando a obra “Ordem e Progresso”, de Gilberto Freyre, o sociólogo que analisou a história do Brasil com tanta ciência. Em certo ponto, meus olhos caíram sobre o seguinte trecho, um depoimento de um homem abastado, nascido em 1888:

     “Jamais se aninhou em mim qualquer preconceito de raça. Cresci e me fiz homem, amando os meus semelhantes, tratando com especial deferência e carinho os pretos, os mulatos, os mais humildes. Pensava, assim, resgatar a injustiça da escravidão a que foram submetidos. Como já disse antes, minha família foi entusiasta da Abolição. E quanto ao aspecto concreto e pessoal da questão, poderá parecer que minha resposta a este item contradiz a dada ao anterior. Mas não há tal. [...] Não veria com agrado, confesso, o casamento de um filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor. Há em mim forças ancestrais que justificam essa atitude. São elas, percebo, mais instintivas do que racionais, como, em geral, soem ser aquelas forças, sedimentadas, há séculos, no subconsciente de sucessivas gerações.”

    Fiquei deveras impressionada. Há muito eu não lia algo tão verdadeiro, tão significativo enquanto tradução da realidade brasileira. Em seu relato, o homem admitiu uma das faces mais obscuras do inconsciente coletivo do país: sob a capa da diversidade, da convivência intensa e constante com a diferença, escondemos a nossa intolerância, o nosso preconceito.

    O nosso forte preconceito, que existe, sim, apesar de todas as tentativas de negação. E não digo somente quanto ao negro. A segregação racial exposta acima - velada sob o manto do discurso igualitário mas trazida à luz pela nítida aversão do moço branco à associação direta e equânime entre ele ou sua família à “gente de cor” - serve para ilustrar a nossa falta de tolerância e a nossa descarada falsidade ao afirmarmo-nos, em contrário, tolerantes. Negamos e negamos, mas sabemos que a discriminação realmente existe. Não gostamos igualmente daquilo que é diferente, “inferior”, daquilo que discorda do padrão ou que destoa da dominante maioria. E, repito, o problema não é só o racismo. A homofobia e o preconceito religioso são outros claros exemplos de como não sabemos conviver bem com o diferente. Sejamos francos, não adianta disfarçar. Não sabemos.

    Mesmo o bullying é uma expressão latente de intolerância. É a intimidação do oprimido - que, na maioria das vezes, é alguém que carrega algum marcante traço diferente, como um aparelho horrível nos dentes, uma estatura inferior, um corpo desenquadrado nos lindos formatos exigidos, gostos próprios e diferentes da onda - pelo dominante, uma pessoa insegura e carente que usa da intimidação para se impor, tentando convencer-se de que é melhor, de que tem mais valor.

    Não estou propondo que todos nós partilhemos da franqueza de Luiz Toledo, o senhor do depoimento, ou que é uma boa ideia aderir à linha de sua confissão. Uma confissão dessas não pode ser fácil. Se multiplicada, provavelmente semearia a discórdia. A verdade é perigosa. E, nesse caso, também é crime. Mas a hipocrisia é a pior das prisões.

    E se fizéssemos um exame do próprio consciente, ou inconsciente? Cada um de nós, fazendo um exame - que não precisa ser público -, averiguando a própria conduta, a própria forma de pensar? Se buscássemos corrigir nossos erros, profunda e honestamente aceitar a diferença? Se tentássemos identificar nossos preconceitos, e, enfim, tentar dissolvê-los? Seria um bom começo. Afinal, o primeiro passo para resolver um problema é reconhecê-lo, vencendo a negação. Se continuarmos a escondê-lo, não trataremos de lidar com ele, estaremos sempre afastando-o, varrendo-o para debaixo do tapete, para longe dos olhos e da mente. A intolerância é um problema sério; a tolerância é a virtude a ser almejada, praticada, mas com sinceridade. Sem teatro, sem sorrisos treinados, sem discursos demagógicos. Será que conseguimos? É algo no que pensar.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Divagações de uma mente antiquada


 

    Tenho um amigo escritor. Seu nome é Lucas (ou L.S. Bertolino, como ele imprime em seus trabalhos). É barbacenense, formado em Letras, tem vinte e três anos, e seus livros são verdadeiros organismos, espécimes poderosas e surpreendentes de literatura fantástica.

    Mas não é de Lucas ou de sua obra que eu venho falar hoje (embora eu sincera e entusiaticamente a recomende. O segundo volume de sua série “A lenda de Arion” foi publicado recentemente e vale a pena cada página). Venho falar sobre a mídia principal de seu marketing - seu e da maioria dos outros escritores e artistas independentes dos nossos tempos modernos. Venho discorrer um pouquinho sobre a internet, seu novo papel enquanto rede de comunicação, e as diferentes formas de interação que nasceram com ela.

    Lucas tem seu perfil em várias redes sociais, sua estória tem um site. É natural que, como profissional das letras e difusor de sua produção, ele queira atingir o maior número possível de pessoas e possibilitar que elas também tenham acesso a ele. Entretanto, não é mais incomum que essas outras pessoas também tenham seus próprios canais, compartilhem suas opiniões, sugestões, gostos e vivências através da internet, promovendo-se e fazendo contato com muita gente, mesmo sem um produto, uma ideia ou arte específica para divulgar. A rede mundial de computadores revolucionou o nosso conceito de interação, tornou-se plataforma importante de convívio, de comunicação, de ampliação de círculos de amigos, cultura e informação. Chega a ser onipresente, a ponto de os mais jovens se perguntarem como pode haver vida sem ela.

    Mas pode, e já houve. A internet é invenção novíssima, afinal, se comparada à humanidade, que tem seus milhares de anos, e que apenas mais recentemente passou a conviver com as grandes mídias audiovisuais. O cinema é das primeiras auroras do século XX. Os anos 30 do mesmo século viveram a era do rádio, e os anos 70 viram o estouro da televisão  - estouro tão poderoso que inclusive a produção musical do período girava em torno do que era veiculado pela telinha. Programas de rádio eram parte essencial do cotidiano de nossos avós; telenovelas eram o entretenimento imperdível das noites de nossos pais. Dessa época, sabemos ao ouvi-los contar. Ninguém perdia um capítulo. Todos ficavam ansiosamente querendo o prosseguimento da história, esperando a hora da novela, e tinham olhos grudados à TV quando ela finalmente começava. Hoje, nós não nos desligamos é da internet, estamos a toda hora conectados.

    Similarmente, os protestos contra a ditadura militar eram todos combinados por grupos que se reuniam em casas particulares ou redutos estudantis, que se contactavam por telefone fixo e divulgavam, na medida do possível, suas ideias por panfletos e jornais. As contestações eram, também, diluídas e disfarçadas em letras de música. No século XXI, porção significativa da Primavera Árabe iniciou-se e articulou-se através das redes sociais da internet, assim como as manifestações de junho de 2013 no Brasil.

    É curioso perceber como os diferentes tipos de mídia foram sucedendo-se, umas às outras, transformando-se e ao mundo continuamente, transformando o poder das anteriores e paralelas em regime de importância e presença na vida das pessoas. Até mesmo o Enem 2014 chamou a atenção para a mais contemporânea expressão desse fenômeno, trazendo numerosos textos produzidos na internet, gêneros próprios do ciberespaço, charges e imagens que atentavam para o fato de que a mídia virtual vem suplantando todas as outras. Já é impossível fazer televisão sem a participação da “galera da internet”. As grandes lojas virtuais têm a lapela de sua página eletrônica cheia dos produtos “mais compartilhados nas redes sociais”. As grandes marcas não podem mais existir sem lojas virtuais, em primeiro lugar... Não há dúvida. Vivemos na era da internet.

    Eu, declaradamente alguém bastante “pé atrás” com o universo virtual, me pergunto se não estamos passando dos limites. Se as pessoas não estão se expondo demais, e desnecessariamente; se não há um exagero no que é compartilhado (quase tudo) - momentos especiais que poderiam ser saboreados mais intimamente, com mais reserva; minutos cotidianos que poderiam ser mais simples, mais privados. Se muitas ocasiões não estão sendo, equivocadamente, vividas para serem postadas. Eu me pergunto o que será feito dos jornais impressos, das agências tradicionais de publicidade, das antenas de rádio e TV,  já que “tudo está na internet”. Eu me pergunto onde vão parar as relações pessoais essenciais, o olho no olho, o abraço, ou o telefonema em que você ouve a voz de uma pessoa e a faz tão feliz apenas por ter se dado ao trabalho de discar seu número, de procurá-la, de ir até ela quando ela não estava imediatamente disponível, talvez online. Eu me pergunto onde vai parar a simples delícia do elogio, já que hoje basta “dar um joinha” ou “curtir" o que uma pessoa posta.

    Em suma, fico a pensar se não estamos nos deixando engolir, usando de forma exagerada, inadequada, uma ferramenta tão útil. A internet é útil, tanto uma realidade inevitável quanto uma benção, o local em que primeiro ouvimos falar de músicas, filmes e livros, onde conhecemos bons autores e temos contatos com boas ideias. Mas... continuo com meus receios, minha desconfiança, tenho minhas reservas. Bobagens? Não sei. Talvez sejam divagações de uma mente antiquada.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Coisas que os mineiros não sabem


   Sabe aquelas coisas que quando alguém conta, você fala assim “ó”. Isso é coisa de mineiro. E o mineiro mais roceiro um cadinho fala assim “ óia bem!”. E o mais roceiro ainda põe a mão na cintura, dá aquele sorriso faceiro que só o mineiro sabe fazer, e diz “vê se pode um trem desse!”.

    Pois é. Hoje, eu vim contar uns trens desse. Não sei se é porque estou longe de casa que estou assim suspirante, querendo falar de Minas... Engraçado como certos amores palpitam mais fortemente à distância, não é? Ou talvez seja só o fato de eu gostar de colecionar essas bobeiragens interessantes, curiosidades culturais - que aliás não são bobeiragens nada -, e gosto de dividi-los também, quando posso.

    Bom, mas já enrolei bastante, vamos a elas.

   A maioria dos mineiros não sabe que a expressão ‘pé rapado’ é muito nossa. Na Minas Gerais colonial, havia igrejas separadas para brancos ricos - que nada faziam, e trabalhavam com afinco numa ocupação chamada ócio -, outras para negros - que não eram considerados gente -, e outras para brancos pobres, que, em sua maioria, trabalhavam em pastos, fazendas e roças, e viviam com as botas sujas de barro ou das excretas de certos mamíferos nossos companheiros. Então, antes de entrar na igreja, estes últimos rapavam o pé (a bota, tamanca ou chinela) em uns ferrinhos dispostos no chão ao lado das entradas dos tais redutos de reza. Pobre coitado, que trabalha e trabalha, e mal tem onde cair morto. Pé rapado.

    Da mesma forma, a expressão ‘tem ouro aí’ que é dita quando você tropica em algum lugar. Essa eu acho um charme! Na Minas Gerais do mesmo período, tanto ouro havia que todos diziam que não era difícil tropeçar nele. Era só cavacar um tiquinho em qualquer canto, que se achava ouro.

    Muitos mineiros não sabem, mas Minas hospedou Machado de Assis, e em um momento particularmente difícil de sua vida, em que sofria muito dos castigos da epilepsia - e da vergonha de suas crises, tornadas espetáculos públicos. Ele veio com a sua Carolina, a convite de alguns conhecidos, e escondeu-se um pouco, estando em um sítio em Antônio Carlos, além de visitar Três Corações, Juiz de Fora, e Barbacena, que uma outra pessoa documentante da viagem descreveu como “cidade velha e feiíssima, enladeirada, e com péssimo calçamento de pedras irregulares”. Isso em 1890... Em 2015, não está muito melhor, tadinha.

    E pobres cariocas de passagem! Se acharam Barbacena enladeirada, imagine se fossem à Ouro Preto. Eu suspeito que Deus não só dá o frio conforme o cobertor, também dá o morro à medida que as pernas aguentam.

    Muitos mineiros sabem, mas se esquecem, do nosso aviador pai, Santos Dumont, nascido na Serra da Mantiqueira, para brilhar nos céus de Paris. Embora mineiro de nascença, do sítio Cabangu, ele deve ter se lembrado muito pouco daqui, tão pequeninho foi embora, primeiro para Valença, no RJ, em seus quatro anos, depois para Ribeirão Preto, Paris - que foi o seu lar -, e suas várias andanças nos finais anos melancólicos que passou aqui no Brasil. Ele foi outro gênio lastimado por doença triste - no caso dele, a esclerose múltipla -, que tanto frustrou-o em suas provocadas debilidades e não lhe permitiu levar adiante sua vida de aviador.

    Muitos mineiros não sabem, mas especula-se que o triângulo original de nossa bandeira era verde. Mudou-se depois pra vermelho, que é a cor republicana, e um grande símbolo, o tom maior, das revoluções. Eu não sei porquê, esse detalhe me agrada. Gosto da ideia de pertencer à um estado, digamos, calmamente rebelde.

    Se tem algo que é uma marca muito minha é isso: meu orgulho de minhas origens, e meu apego a elas. Eu posso ir para onde for, mas de alguma forma, sinto que sempre estarei de volta. Meu lugar é aqui. Aliás, lá. Minas Gerais é a ponta seca do meu compasso, onde minha referência está, meu lar, e não importa o quão longe o raio grafitado da vida me faça orbitar por um tempo, eu sinto que tenho em mim o ponto de onde tudo partiu, e para o qual tudo voltará. Sou mineiríssima, de nascença, de coração, por opção. (Embora eu goste bastante do mar, e ame o Rio de Janeiro, cidade com a qual tenho um caso de amor seríssimo. Mas esse é causo para outra história.)

    Eu sou tão mineira, mas tão mineira, que antes mesmo de saber de sua história, eu já cultuava seus maiores símbolos. Meus pais contam que quando eu era menor, gostava de ‘juntar dinheiro’, mas só em moedas de ouro, as ‘douradas’. Não gostava das ‘de prata’, e desconfiava das ‘de bronze’. Curioso esse instinto mineiro, né? E, a propósito, eu juntava dinheiro para comprar uma fazenda grande e enchê-la de cavalos. Eu era fanática por cavalos... Ainda sou, aliás... E não sei se posso dizer que desisti, lá no fundo, da minha fantasia de ser sinhá da roça, num sobrado imponente, com fogão à lenha crepitando e a lavoura preenchendo toda a vista. Num lugar bonito, onde minha comadre venha me visitar pra uma broa, ou pra um café com pão de queijo; onde eu tenha vários bichos e vá dar bom dia pra eles. Um cantinho quieto, onde nada pode macular o sossego dos dias, onde a loucura da civilização não chega, onde poesia maior não há que o som do berrante, junto com passos de uma botina de couro... Como são engraçados esses sonhos de infância dos quais a gente não se desgarra!

    Ai, meu coração apertado... Eu quero minhas galinhas, meus bichinhos, minha rua de pedra... Ai, que saudade de casa!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Segregação social



    Adoro acompanhar temas de redação de prova, independentemente das que estou fazendo, daquelas nas quais estou me envolvendo. Vira e mexe a gente topa com algo tão provocativo, os temas nos instigam a pensar em coisas que normalmente não passariam por nossa cabeça.
   No último domingo, a redação do exame para a USP foi um pequeno baque: camarotização da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia. Quando o esperado era água, lixo, o regime militar e sua memória, você abre o caderno de prova e vê um negócio desses... É sério isso? É esse o tema? De onde que eles tiraram isso? Depois daquele gelinho, bate a indignação. O regime de chuvas no Brasil está doido, a inflação está subindo, e tem gente esquecendo filho no carro! O mundo está virando de ponta-cabeça, e tudo o que nós temos pra discutir são os espaços vip, de shows e estádios... Sinceramente...
    Mas, quando parei pra pensar (e pra ler os textos-base com atenção, entender realmente a proposta) vi que o ridículo teminha era na verdade um temaço. Fiquei admirada da sacada de quem fez a prova e morrendo de vergonha do meu julgamento precipitado.
   O ponto-chave é o seguinte: se você olhar para o problema como camarotização, a separação de gente em espaços vip e espaços “comuns”, seja em qualquer ambiente, realmente parece certa bobeira. Mas se você enxergar o quadro como um todo, ler o contexto de maneira ampla, verá que isso é apenas uma amostra de um mal maior: a desigualdade social está chegando em estado de calamidade pública, e as coisas que somos obrigados a testemunhar todos os dias, como sutis manifestações dessa separação abismal, passaram do nível de absurdo, estão tocando o status de tragédia.

     Eu sei de uma tragédia dessas. Na minha cidade, o principal hospital público - público - tem duas entradas. Uma é a porta da frente, obviamente, e a outra é a dos fundos, que se dá através do serviço funerário vinculado à instituição.

      A porta da frente é reservada àqueles que têm plano de saúde, ou que estão visitando alguém que tem plano de saúde. Atendimento pelo SUS? “Dê meia-volta, querida, a entrada é pelos fundos, junto à funerária.” Gente de Deus! Que coisa mais doida, e mais doída! Além de claramente estar falando para o pobre assim “vai se acostumando, meu filho, seu caminho é por aí mesmo”; além da humilhação de fazer a pessoa entrar pelos fundos, como um ser inferior, indigno, essa situação está segregando as pessoas pela condição financeira, acentuando a diferença que existe entre ricos e pobres e transferindo-a até para o isolamento de convívios, não deixando-as ‘se misturarem’.

    E a tragédia se espalha, se dilata como água nos poros de um guardanapo. Vejam os condomínios fechados, os complexos de favelas. Como filhos de ricos e filhos de pobres simplesmente não vão à mesma escola, não se divertem nos mesmos espaços, não dividem a atenção de uma loja. Foi isso que os rolezinhos tentaram quebrar e não conseguiram, e é por isso que causaram tanto auê. As pessoas não querem enxergar a triste realidade que está em nossa cara: estamos vivendo um quadro de separação de sociabilidades, s-e-g-r-e-g-a-ç-ã-o, não muito diferente daquela do apartheid sul-africano, ou da segregação racial norteamericana que vigorou até os 60. A diferença é que, agora, o determinante da segregação não é a cor da pele, e sim o dinheiro que se tem, os privilégios que ele dá, a posição que ele confere. E, também, que a nossa segregação não é oficialmente amparada pela lei, mas suportada pela condescendência burra da extensa maioria da sociedade, que se sente confortável com a situação e a perpetua, toda vida, achando certo, achando-se segura com a separação...

    Para onde estamos indo? Onde vamos parar? Segregar as pessoas por uma coisa tão vazia quanto o dinheiro, as roupas que elas usam e explicitamente denotam o quanto elas têm... Dinheiro, aparências, poder...

    Apartar as pessoas, de qualquer modo, é algo ruim, lamentável. Ao invés de querer erguer barreiras, distinguirmo-nos, separar os convívios, devíamos querer abrir pontes, aproximarmo-nos, igualarmo-nos uns dos outros... Como os grandes sábios fizeram. Tolstoi, por exemplo, desfazendo-se do que lhe distinguia, tentando viver em comunidade, sociedade comum, e de fato igualar-se aos seus semelhantes... Como Christopher McCandless, o inspirador do filme ‘Into the wild’, que abdicou de todos os seus privilégios, de toda a hostilidade e a divisão que eles geravam, para viver uma vida mais próxima, próxima de si mesmo, das pessoas em sua essência, da natureza, do que ele considerava a sua verdade.

   Somos todos iguais, e olhando o lado humano desse fenômeno urbano, a tristeza é ainda maior. Só temos a perder com esse negócio de apartar... A transmissão de culturas, a convivência enriquecedora, a surpresa que as pessoas nos pregam, o amor entre as pessoas...
    O sol brilha igualmente para todos, então por que devemos abrir corredores exclusivos onde pode haver um grande campo aberto?

   Acabou que o tema da redação da Fuvest 2015 foi, sob o meu olhar, brilhante. Relevante, instigante, inesperado. E falou sim, dos erros do passado, tocou em patrimônio e memória, e em sustentabilidade, no seu vetor mais importante - a sustentabilidade da espécie humana, como um todo, que não pode mais só existir, em tanto desequilíbrio, tem que aprender a viver. A CONviver.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A conquista do inesperado

    Não gosto muito de textos temáticos. É natal, vamos falar do natal. É ano novo, vamos falar do ano novo. Como já estamos mais ou menos engalfinhados na atmosfera do tema, neste caso da data, acho que eles dão certa canseira. E me parecem um oportunismo preenchedor de uma mídia (qualquer que seja) que não tem muito o que falar e aproveita o momento para inflar seu conteúdo e fazer as pessoas centrarem a atenção nele. Isso me lembra um outro tipo de oportunismo, que acho mais desagradável: Michael Jackson morreu, falemos do rei do pop. Ayrton Senna morreu, venham as biografias e as matérias sobre ele. Mas, enfim, talvez até justificando o título, é isso que estou fazendo hoje.
    Todo ano nessa época, eu vejo as pessoas em meu redor fazendo planos, listinhas do que elas querem que aconteça no ano que está por vir. Eu mesma costumava fazer isso, até pouco tempo. Hoje, acho um pouco de graça nesse costume porque, se cada um revisasse o ano e o comparasse com o que mentalizara para ele dia 31/12 do ano anterior, veria que a vida foi preenchida de ‘imprevistos’, mais do que de previstos. Que muito do que se esperava não aconteceu, e muitas coisas que não se esperava - as quais nem se imaginava - aconteceram. Que houve mais inesperados do que planejados.
    A vida é assim mesmo, é linda exatamente porque nos surpreende. Vinícius e Toquinho disseram assim “o futuro é uma astronave que tentamos pilotar”. Tentamos e, na maioria das vezes, falhamos. Porque é uma ‘máquina’ que muitas vezes foge do nosso controle.
    Quantas vezes não nos fiamos em projetos que outrora achamos esplêndidos e que vão revelando suas falhas e perdendo importância no trilho dos dias conforme outros empreendimentos - vira e mexe melhores, mais brilhantes que os primeiros - se fazem reais para nós, e nós canalizamos para ele, o novo, todas as nossas energias... Quantas vezes visualizamos oportunidades, nos programamos para elas, e elas se esvaem, inesperadamente, enquanto outras se abrem, também de modo repentino, surpreendente, e não raro se revelando melhores que as anteriores... Quantas vezes acreditamos em certas pessoas, ‘investimos’ nelas, e elas tão amargamente nos decepcionam, vão se afastando de nós e caindo em nossos conceitos, e se tornam muito menos importantes do que outras que arrebatadoramente chegam em nosso caminho - aparentemente vindas do nada, talvez jogadas dos céus - e passam a ser aquelas a quem mais queremos, quem mais queremos perto... Às vezes, as melhores coisas que acontecem na nossa vida são aquelas com as quais menos sonhávamos.
    É incrível como umas coisas vem, outras vão... Como abrimos mão de umas, talvez sem perceber, e passamos a muito querer outras - que há pouco nos eram tão indiferentes...
    Como é preciso jogo de cintura para lidar com as viravoltas da vida! Saber rir do que deu errado, das frustrações e das ‘perdas’, e estar aberto para conquistar o inesperado!
    Só pra dar um exemplo irônico, se há um ano alguém tivesse me dito que hoje eu teria esta página, eu teria sugerido à pessoa que procurasse um centro psiquiátrico. Teria rido do ridículo da previsão. Eu que sempre fui tão resistente a essas coisas de internet, sempre preferi o olho no olho, e o lápis no papel ao invés dos dedos no teclado... E, no entanto, estou aqui, aproveitando a plataforma para escrever. Este texto mesmo era inesperado, imprevisto, e nasceu - literalmente - da noite para o dia...
    Não sei se é porque eu sempre fui sistemática e perfeccionista demais que ando pensando assim... Mas o fato é que estou aprendendo que nem tudo acontece conforme planejamos, e isso nem sempre é lamentável. Que alguns episódios lindos acontecem que simplesmente não estavam nos planos, nem nas mais loucas imaginações. Que planos e projetos e previsões tanto podem dar certo quanto podem dar errado, e nós temos que lidar com isso, com alegria e bom humor, rindo e sorrindo, sabendo persistir no que vale a pena e sem dores deixar ir embora o que não vale a pena.          
     Que o próximo ano de todos nós tenha tantas realizações quanto desafios, e tantos bons imprevistos quanto bons previstos! Que conquistemos o planejado, e também o inesperado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sobre os guias de redação, as leituras empobrecidas e a liberdade na sala de aula

Meu primeiro escrito é também sobre a minha primeira paixão: a educação. Aí vai:


    Há alguns meses, Lya Luft escreveu um artigo absolutamente inspirador, “Aulas de mediocridade”, atacando uma iniciativa - que já está acontecendo, parcialmente financiada pelo Ministério da Cultura - que é um verdadeiro atentado à literatura brasileira e à educação: a simplificação de clássicos brasileiros, como Machado de Assis, para a leitura de pupilos da nossa esplendorosa educação básica. Eu peço licença para aplaudir o escrito de Lya e comentar mais um pouquinho de outros absurdos que esse absurdo aponta.
    Além de ser um incentivo à mediocridade do aluno, uma aval contundente para que ele contenha-se na pequenez, contente-se e acomode-se com o adaptado que lhe é mastigado, ridiculamente descomplicado, a facilitação de obras-primas da nossa literatura fere também outro algo que é essencial ao crescimento do aluno, que é um direito fundamental, um dote natural que deveria ser exercitado com entusiasmo, encorajado por aqueles responsáveis por sua educação: a liberdade de pensamento, o exercício do intelecto sem amarras, instigado em sua criatividade, sua unicidade.
    A adaptação facilitada, talvez até sem querer, traz a sua diretriz, a interpretação do adaptador, presente no modo de refrasear uma sentença, de direcionar a obra para um lado ou outro, focando em certa parte ou certo aspecto dela, em detrimento de outros. Aquilo que é lido deixa de ser puro e assim fere a liberdade do leitor de interpretar o escrito original, de formar sua própria opinião acerca dele, absorver dele a essência de acordo com o que ele entender, de seu jeito, seu jeito único e imaculado de pré-julgamentos, de palpites implícitos ou sugestões escancaradas, de interpretações ditadas.
    Essa falta de liberdade, o encarceramento e acondicionamento, adestramento das nossas capacidades pensamenteiras, e do que concluímos e pensamos através delas, é um mal muitíssimo presente na nossa educação, e não só nas aulas de literatura. Por que é que professores de redação ensinam não só a técnica mas o método, o ‘esqueleto fundamental’ do texto, que o aluno deve repetir toda vez que escrever, ou antes de começar a escrever? Por que é que são distribuídas ‘colinhas’ para fazer o esquema do texto? Introdução: problematize, desenvolvimento: desenvolva e sustente, conclusão: solucione, reafirme seu ponto de vista, amarre o texto com seu final... Ou então uns guias em tópicos, como receitinhas de bolo, mais ou menos assim:
    *Qual é o tema?
    *Qual é sua tese?
    *Quais são seus argumentos para defender a tese? (Pergunte-se qual é o problema, como resolvê-lo, selecione seus argumentos e explique-os objetivamente)
    *Qual é sua proposta de intervenção?
    Virgem Nossa Senhora! O que é que estamos fazendo com os nossos pequenos? Ao invés de deixá-los criar, escrever intuitivamente, com liberdade, atrevimento, autonomia, ou de colaborativamente elaborar com eles um bom projeto para guiá-los em frente à página em branco, nós lhes damos a coisa pronta, determinando-lhes não só o que deve ser feito mas como. Nós podamos a liberdade deles de escrever como acham melhor, como se sentem mais à vontade, e os orientamos a sempre repetir a receita básica, batida, - que para alguns, chega a ser chata e mixuruca. Nós esquecemos que existem várias formas diferentes de se chegar na mesma coisa, no mesmo lugar, que não existe fórmula mágica para escrever e muitas vezes as melhores produções são aquelas que partem do inesperado, que se arranjam inusitadamente, que contrariam a formalidade das regras e nos surpreendem na sua forma escolhida de apresentar o conteúdo. A linearidade, a objetividade que tanto se prega é um cárcere, que mina a liberdade do aluno enquanto autor, produtor ativo de seu conhecimento e seu escrito. É uma caixinha fechada que se entrega a ele, enquanto podia-se pedi-lo que pensasse ‘sem teto’, que se abrisse para fora da caixinha.
    Com as avaliações de modo geral, da mesma forma. A ladainha é a mesma, assim como a tragédia, o atrelamento por limite, por uma viseira que colocamos, como nos cavalos. As provas não fazem mais do que pedir ao aluno para repetir o que foi dito em sala de aula, que ele deve memorizar e reproduzir. Devemos parar de tentar fazer os jovens máquinas acumuladoras de informação e começar a ensiná-los a serem críticos, mentes independentes e maduras, capazes de receber um dado, interpretá-lo, sintetizar a partir dele uma crença ou opinião ou conhecimento, coisa que ele é perfeitamente apto a ‘gerar’ por si próprio. Devemos deixá-lo parturiar suas próprias conclusões, não dar as respostas antes das perguntas. Devemos deixá-lo observar plantas, por exemplo, e fazer suas próprias deduções, antes de explicar mastigadamente, cruamente, o que ele irá achar caso se interesse e queira ver com seus olhos. Devemos dar o livro - puro, original - e pedir suas impressões acerca dele, as características que ele apresenta, antes de explicitar miudinho as propriedades daquele certo movimento literário, e o que as produções que o representam vão apresentar. Devemos deixar o jovem livre para construir seu conhecimento, guiando-lhes apenas, supervisionando-lhes, e não vomitando-lhes o que eles devem saber, como devem pensar acerca daquilo, o modo com que devem executar certa tarefa.
    Na produção de texto, na leitura e literatura, na biologia ou na matemática, nossos pupilos carecem de liberdade, de oportunidades de observar e deduzir, criar independentemente. Inventar novas formas de fazer, escrever comentários críticos, sugerir atividades diferentes, que saiam da rotina do livro-texto, da avaliação escrita, da paráfrase de um conhecimento ditado e decorado, e muitas vezes de maneira nenhuma absorvido efetivamente. É um grave crime que cometemos, todos os dias, deliberadamente interná-los na morosidade da repetição, na mecanicidade da assimilação forçada, da aceitação de informações que eles não entendem, que não interpretam por si mesmos, que não se tornam interessantes ou instigantes uma vez que tão automáticas e obrigatórias. Eu urjo aqui senão uma mudança, porque talvez não sei como exatamente propor que aconteça a revolução necessária, um pensamento, uma reflexão, sobre o que queremos de nossos filhos, de nossas crianças, do futuro do país, e do modo como estamos extraindo deles toda a vivacidade de seu conhecimento, a potencialidade de seu gênio, sua criatividade, sua autonomia e liberdade.

Uma introdução

     Alô a todos!

    Estou abrindo página nesta plataforma porque, principalmente, cansei de escrever e largar meus escritos na gaveta. Cansei de falar e deixar o dito escorrer apenas para os ouvidos de minhas paredes. Cansei de pensar sozinha e de me torturar em tempestades de pensamento endógeno. Como uma mente pensante, sinto que tenho muito a dizer, e estou disposta a fazê-lo a quem quiser ouvir. Quero sentir a recepção das pessoas para todas as sensatas abobrinhas que tenho a dizer, e, acima de tudo, chamar a atenção para temas que me intrigam ou me tocam. Quero que outros saibam que tenho algo a acrescentar; tenho opiniões e um cérebro munido de suficiente madureza e independência para formá-las, mudá-las, conceber outras por si próprio, desatado da correnteza que parece varrer identidades e miolos consigo para longe, generalizando o pensamento, tornando-o algo bem simplório. Pensar de verdade é tarefa árdua, exercício que se torna raro. É difícil, nos angustia e desorienta, chega a doer. Pensar, que perigo!

    Recentemente, estive escrevendo um discurso de formatura. Como em toda boa ditadura - vivemos várias -, tive de passar pela censura, e entreguei o texto, relutante, à minha pedagoga para revisão. Ela tinha as seguintes - acertadas - considerações a fazer: “parece que você está desabafando. Está despejando no texto um monte de pensamentos, de impressões suas. Está refletindo, filosofando demais.” Tive que ouvir isso para perceber que realmente estava fazendo a coisa do jeito errado. Aquilo não era um discurso de formatura. Fiz outro, um muito simples, que atendia ao protocolo, e era bastante adequado à ocasião. Ficou bom, mas percebi que não tenho talento para escrever textos impessoais, e desprovidos de pensamentos. E que, tendo tanto na cabeça, quero falar, e ser ouvida. Quero falar pra mais gente, atingir quem quiser me ouvir, porque acho que tenho muita coisa válida para falar. Eu penso bastante. E, felizmente, consigo moer meus pensamentos em palavras.

    Enfim, esta página será bem assim. Minha coluna, meus textos, contendo minhas visões de mundo. (Por isso o meu nome no site, apesar do título diferente - e sugestivo.) Estarei falando as minhas verdades. Minhas, porque a verdade é algo muito subjetivo. Estarei desabafando e refletindo, ora filosofando e ora transmitindo impressões minhas acerca de temas como educação, feminismo, indústria da beleza e da celebridade, alienação e ideologia, nossos ocultos imaginários, preconceito e segregação e outras barbáries modernas, os bens e os males da contemporaneidade, os tempos de ontem, convenções, escolhas, autoconsciência, relações com o outro, cotidianos, literatura, comportamentos.

    É bem provável que vira e mexe eu comece mais ou menos como o segundo parágrafo acima “outro dia, me aconteceu isso assim assado, que me fez pensar nisto e naquiloutro”. Isso se explica porque, à medida que vamos vivendo, vamos observando e absorvendo contextos, e as pessoas que o fazem, e vamos recebendo coisas nas quais pensar, sensações as quais sentir e tentar explicar.

    Uma última coisa. Não tenho página em nenhuma rede social, e uso a dupla negação para enfatizá-lo. Vocês não me verão em outro eletrônico lugar nenhum além deste. Estou apenas aqui e aqui somente. Só o que quero tornar público são alguns dos meus pensamentos, vez que, com eles, de alguma forma, posso ajudar, contribuir, acrescentar. São tantas conversas vazias rolando por aí, se a minha for um pouquinho cheia, como acho que é, estou feliz, e estarei feliz em dividi-la com vocês, multiplicá-las com a sua ajuda.

    Tentarei escrever semanalmente. É uma frequência que deve funcionar pra mim e pra vocês. Sou naturalmente densa, e acho que meus escritos acompanham essa tendência, então é bem possível que ninguém vá querer lê-los em periodicidade maior que esta.

    Saudações estreantes,

    Vitória